terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Profissão de Risco

O suor frio que se sente na tempora, o coração a palpitar velozmente como se sobre a língua estivesse e a pressão constante de quem arrisca a sua vida em prol de um bem maior: sobreviver. Os pescadores de caranguejos do Alasca dizem ter a profissão mais arriscada do mundo, mas a realidade é que eles nunca se sentaram de frente a um computador, com o rato com luz vermelha pimpona a brilhar e os auscultadores com mais força áudio que o Pavilhão Atlântico. Profissão de risco, é ser Gamer.

Um Gamer é um ser que se senta ao computador com uma camara apontada à penca e [pausa dramática]… joga. “Ah mas não podias gastar o teu tempo a jogar em vez de ver um individuo durante horas a jogar?” Podias…mas não era a mesma coisa. Nem todos os seres vivos foram talhados para lidar com o stress e risco desta profissão, por isso contentam-se com a emoção de os ver, como ver um gatinho a ser salvo de uma arvore por um bombeiro.

Se eu em cachopa tivesse dito à minha mãe, “…cara entidade maternal, o meu propósito nesta vida que tu concebeste é ficar de rabo alapado à cadeira o dia inteiro e esperar que milhares me sigam por eu jogar Candy Crush”, a minha mãe tinha-me atirado de uma ravina como um espartano faria a um filho que saísse defeituoso. Se alguém me disser que me paga para eu gritar que nem uma menina por cada fantasminha que apareça no ecrã, eu juro que seria a Marey Carey dos Gamers.

Venham dai os pudicos protetores desta profissão atirar-me agora com discos externos à cabeça, “Ah ser Gamer é um trabalho a sério”. Está bem. Não obstante, ser varredor de rua também é, porque senão estaríamos enterrados em excremento, e não é por isso que têm 40 mil seguidores, que lhes pedem autógrafos e ficam a olhar fixamente para eles a ver qual será o próximo movimento da vassoura, como salta a poça de agua com o carrinho do lixo ou como derrota a implacável pastilha rosa no asfalto.

Antes só tinham seguidores os vídeos das senhoras que se desnudavam para receber o carteiro, canalizador ou funcionário da EMEL, hoje em dia a ação está toda no vibrar do rato. O futuro assusta-me.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Cor Especial

Acredito na força das palavras e os seus significados. Nada deveria ser dito em vão e pelo bel prazer de proferir sons se estes não têm sentido algum. Por este motivo sou apologista que Los Del Rio, devem um favor à humanidade em prol de fazer jus ao seu nome e se deveriam atirar ao rio com um Opel Corsa amarrado aos pés.

Resido, actualmente, em Sevilha, cidade que tem “…un color especial” de acordo com estes Shakespeares dos anos 80. Pois, tudo me leva a crer que estes senhores sofrem de daltonismo, ou que a virgem lhes caiu na cabeça a meio da procissão em petizes e lá se foi o raciocínio lógico. O mais perto de uma cor especial que vivenciei nos últimos 8 meses foram os faróis tom néon quase fundido do eléctrico que se move à velocidade estonteante de 10km/h pelo centro da cidade, incapaz de abalroar um pombo nem com boas intenções.

Sevilha é uma cidade cheia de carisma, que facilmente se absorve e nos extenua num par de horas. É uma daquelas cidades com magia, onde se um autocarro turístico cessa movimento para abastecer e segue o seu caminho, ninguém chora nem barafusta. Cuba do Alentejo é uma cidade cosmopolita ao lado disto, só ninguém canta sobre ela porque vai bem ao português desprovido da possibilidade de viajar a Havana, ter onde fazer a foto para o Facebook ao lado do sinal de autoestrada que menciona Cuba. Um segredo dos deuses ponhamos assim.

Esta língua abençoada pelos deuses não se assemelha a castelhano nem por casualidade. Soa a um espanhol asmático, filho de uma madeirense gaga, a tentar gritar Klingon enquanto corre para apanhar o comboio [referencia a Star Trek para quem perdeu o fio à meada]. Agora imaginem este som em repetição e tom de procissão pelas ruas da cidade a cada dois dias. Melodia magnifica para acompanhar com incenso de odor tão forte que é capaz de encobrir o cheiro a excrementos de cavalo que benze a cidade e dos corpos moribundos que jazem nos recantos por inalação de tanto incenso.

Uma cidade magnifica onde se pode usufruir da temperatura amena de 50 graus à sombra durante todo o verão. Onde um chafariz é um oásis pois ninguém pensou que seria boa ideia ter piscinas neste desterro. Em Sevilha tenho explorado a vontade pululante de deixar de viver a cada passo e ver a arte de dormir como um desporto de risco, pois podes morrer afogado em suor. É como ser bombeiro, mas sem a parte altruísta, é apenas o gostinho mórbido de andar pelas chamas ardentes como ato de sobrevivência e os outros que se lixem.

Sevilha, terra cor de labaredas, onde os santos nunca são suficientes e o imigrante português desespera entre tapas e inexistência de vocabulário lógico. O local de férias de sonho para núcleos familiares que tenham herdeiros boçais que queiram ver sucumbir em bons modos em pedidos de regresso a casa.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Já chega...

[Texto de auto compaixão, meio lamecho-meloso e incapaz de representar a absurdidade usual neste blog]
Acho que me perdi. Perdi-me no quotidiano, na rotina e fundi-me com a minha profissão como se apenas disso se tratasse. Mudar de país, deixar tudo para trás, começar do zero, novas caras, novas responsabilidades, aquela língua, aqueles costumes. Perdi-me.

Comecei a pensar, sentir, sonhar, respirar em Espanhol. Não por o preferir ao português que me viu crescer, mas porque me perdi. O meu cérebro fazia o constante esforço de tentar traduzir tudo para seguir o raciocínio e as conversas. Acabou por arrebatar o que mais me libertava, a minha língua. Como passou isto? Como voou o tempo tão rápido? Como passaram dois anos da minha vida sem que escrevesse uma frase que fosse minha? Perdi-me dos livros, dos filmes, das séries, perdi-me de mim mesma.

Encontrava-me nas minhas viagens, nos meus fragmentos de realidade alternativa, onde sonhava, criava novos planos e ideais, onde me prometia que as coisas iam mudar. Mas como uma relação de abuso ao voltar convencia-me da ideia que aquilo é tudo e que não me sobra tempo para mais. Turnos de 14 horas e seguia, seria aquilo uma droga?

“Não podes viver cada dia a esperar as próximas férias, tens que ser tu mesma todos os dias, precisas de uma motivação diária” disse-me a mais sábia das mães. Por isso volto. Por isso peço desculpa pela ausência. Não houve despedida, não houve visitas cordiais. Havia bisbilhotice de saudade, mas a vergonha de uma saída que nem eu podia justificar impedia-me de congratular a quem continuava a partilhar a arte do bom escrever.


Perdi-me. Mas já chega. Voltei.


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Felicidade aos molhos

As pessoas demasiado felizes fazem-me espécie. Terão que sorrir a tempo inteiro para expressar felicidade ou terão usado daqueles aparelhos que o arame dá a volta à cabeça por demasiados anos e agora estão a mostrar até os podres por sofrerem de compensação? Pode ser que tenham morto alguém e sejam extremamente sádicos, fazer cortes à Joker parece doloroso, mais vale forçar o sorriso a tempo inteiro. Pode ser que só tenham o maxilar deslocado?

Cada indivíduo devia ter, por lei, direito a um máximo de quatro dias de pura felicidade consecutivos. Mais que este período de tempo sem uma intoxicação alimentar ou a sua série favorita ser cancelada não é exequível. Estas pessoas deviam levar com um barrote de madeira no focinho, só porque me irritam. Assumo de imediato que são tão estúpidos que não se aperceberam que têm familiares a morrerem, existe aquecimento global e fizeram demasiados filmes do SAW.

As pessoas demasiado felizes deviam ser banidas da via pública, expatriadas todas para a Antárctida para animar aquilo. Aqui só empatam, de mãos dadas com os seus três filhos à saída do metro, bloqueando a passagem às dezenas de pessoas que estão mal dispostas e a ir trabalhar contra vontade. A fazer posts consecutivos nas redes sociais com montagens do amor da sua vida, que todos nós sabemos que lhe há-de dar com uma cadeira encima por também este se fartar de aturar tamanha felicidade. Já para não dizer que não são de confiança. O Hanibal Lecter sorria que era uma coisa parva e era vê-lo comer o apêndice do carteiro ao pequeno-almoço.

Caríssimos, está cientificamente provado que não existe felicidade absoluta na totalidade da nossa existência na terra. Parem de sorrir em lugares públicos onde todos estão miseráveis. Chega de sorrir em fotos de casamento, isso são dois anos e estão divorciados. Chega de sorrir no carro a caminho do trabalho, a taxa de desemprego é crescente, não sabes se estarás a conduzir para o teu último dia de trabalho. Ser miserável é mais in e recebe mais comentários de facebook.
 

[Vá, agora tratem de ser felizes…um bom fim de semana]