quinta-feira, 2 de julho de 2020

Saudade

“Ó gente da minha terra

Agora é que eu percebi

Esta tristeza que trago

Foi de vós que recebi”

Eu sei que está estabelecido na constituição da república portuguesa que um indivíduo depois de registado em território nacional tem de se tornar alguém emocionalmente perturbado e que defina na perfeição a palavra “saudade”. Eu fui registada na margem sul do Tejo e isso pode ter acarretado alguma interferência no processo. Fiz as malas e entre abraços, lágrimas e chamadas de atenção aleatórias, como os cuidados a ter ao congelar frango, ninguém me explicou qual seria a altura certa para começar a ter saudades.

Haverá um momento, em que ouvir fado abraçada a uma estátua de plástico luminosa de Fátima, enquanto faço um altar a um pastel de nata será, certamente, apropriado. Já lá vão 6 anos desde que sai de Portugal e tenho saudades constantes, uma moinha chata que está sempre lá, aquela vontade de receber o colo de mãe depois de um dia mau e de ir comer àquele restaurante que é o teu favorito desde os 5 anos de idade. Não obstante, ainda não tive uma recaída dramática.

Eu não gosto de surpresas. Da mesma maneira que não gostaria de ter um ataque de cólicas a meio de uma entrevista de trabalho, também não gosto da ideia de ser atingida pelo conceito de saudade em todo o seu esplendor, quando estiver num momento de loucura íntima. Transitando, fugazmente, de um encontro romântico a um momento de terapia em que estarei enrolada em mantas com rímel e baba a escorrer queixo abaixo, enquanto o Juan Carlos tenta sair pela janela sem partir o pescoço.

Sou uma mulher adulta e independente! Que pode desmoronar entre lágrimas e soluços, em posição fetal, encostada a um canto da sala, abraçada à fatia de pão alentejano restante, enfiada na mala durante a última visita. A essência está, em que ninguém presencie tal momento decrépito. Tirando o meu vizinho, que já se queixa que eu ando com demasiada força, se um dia eu choro ele chama os bombeiros.

Revelar a existência de saudade é, garantidamente, ter num par de horas a nossa mãe à porta de pantufas (e máscara), para nos levar de volta para o nosso país (ao colo). Se raramente nos expressamos, a probabilidades é de nos rotularem de insensíveis e adoptarem um labrador para colmatar a nossa ausência (eu fui substituída por dois gatos).

O meu nível de comunicação actual parece estar a manter o padrão necessário para que não mudem a fechadura de casa sem me avisar. Para os interessados no ritual, passa por proclamar palavras aleatórias num tom arrastado e melancólico, mescladas com sons imperceptíveis (se alguma vez foram à matança do porco da aldeia, sigam a nota do porco), que passam rapidamente da temática emocional à física quântica. Podem declarar-vos doentes mentais, mas não duvidarão do vosso amor.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Chernobyl Hormonal

A mulher é um ser abençoado, que mensalmente é relembrado da sorte da reprodução da qual é portadora, através de um espectáculo visceral gráfico, com efeitos sonoros. Não sei quanto a vocês, mas eu seria capaz de me lembrar de tal dádiva com uma notificação no telemóvel. O efeito hormonal que é produzido no corpo feminino é como uma pequena réplica do Chernobyl. O impacto real pode ser na sua fábrica interna, mas toda a população que a rodeia vai sofrer de efeitos colaterais. Um mês aprazível é aquele em que a explosão é contida, apenas derretendo o nosso discernimento e amor próprio, e em que o vosso parceiro foi rápido o suficiente para sair de cena, conduzir para o país vizinho e mudar de nome.

São pantanosos os caminhos que os nossos parceiros têm de percorrer uma vez ao mês. Digam ou não digam, estão incorrectos. Façam ou não façam, fazem mal. Perguntar, nem é uma opção. A única maneira de sobreviver é ser portador de um kit de primeiros auxílios com chocolates, um filme de terror e um romance (a coisa pode pender para qualquer um dos lados) e calmantes (para ambos). Para vos ajudar a visualizar a problemática, aconselho-vos a ver o filme Inside Out da Pixar, em ácidos, nus, no parapeito do edifício onde trabalham.

O descanso de guerreiro vem com a idade, seria de esperar. Mas alguém decidiu inventar a menopausa, onde as quatro estações do ano são vividamente sentidas por minuto e as emoções que estavam contidas a uma vez por mês, são constantes e vêm de machete em punho. Eu não quero brincar mais a isto, será que ainda vou a tempo de trocar a minha genitália por uma daquelas coisas penduradas que para ai andam?

terça-feira, 16 de junho de 2020

Voo Low Cost

Bem-vindos a bordo deste voo da Satã Airlines, com destino à Buraca. Coloquem cuidadosamente os vossos pertences no compartimento superior, para garantir que vos cai alguma coisa em cima se não ouvirem os meus conselhos e decidirem levantar-se a meio da turbulência para tirar o agasalho da mala, apesar de estarem a suar do bigode. Sim, haverá turbulência constante, estão a voar na carcaça de uma carrinha de caixa aberta que servia para o transporte de cabras, vai contra todos os elementos da física estarem a voar e vão sentir cada gaivota com que chocarmos como se fosse uma bomba nuclear.

Não há cintos de segurança, nem a luz de proibido fumar. Acreditamos que são capazes de se lembrar que é proibido fumar durante a duração do voo sem ter um boneco iluminado que vos recorda o tempo inteiro. Em caso de queda de pressão na cabine, pois... vocês caem também. Dispomos de almofadas de serapilheira e mantas daquela lã que as vossas avós usavam para as vossas camisolas de inverno, que vos criava urticaria severa, mas era isso ou passar frio e levar um enxerto de porrada da senhora. Durante o voo serviremos para vosso deleite, xarope de cenoura, repolho cru e palavras de conforto por alguém certificado em mau trato psicológico. No nosso serviço de entretenimento poderão desfrutar de uma playlist de gritos, jogos em que nunca ganham e uma oferta variada de vídeos dos vossos ex a enumerarem os motivos pelos quais vos deixaram (produção de luxo da Disney). A minha colega Cátia Denise irá recolher doações para a sua prima, se não doarem ela ver-se-á obrigada a cortar as unhas apoiando os pés no vosso colo.

Esperamos que desfrutem tanto deste voo, como o proprietário da casa onde este avião vai aterrar. Não se esqueçam que não estamos disponíveis para ajudar, responder às vossas perguntas e se estiverem a morrer engasgados com o repolho, por favor, respeitem os outros passageiros e façam-no em silêncio (se for viável fechar-se no saco negro para defuntos que encontra debaixo do seu assento enquanto se engasga, agradecemos). E, por último, se aplaudirem ao aterrar, vão ser vítimas de combustão espontânea.

Desfrutem e esperamos voltar a voar convosco em breve.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Jóia da Coroa

Almas puras, sem conhecimento de maldade, corrompidas por uma criança de índole maquiavélica. Dar nomes às coisas faz delas reais. Hoje em dia intitula-se de bullying a tudo e este uso em demasia faz com que as verdadeiras vítimas não sejam ouvidas. Uma criança usa o escorrega ao contrário e enterra a cabeça na lama, um petiz grita do baloiço: “otário”. Pumbas bullying! Não! O petiz à distância é um observador sagaz, tem um vocabulário de louvar para alguém de 6 anos e apenas constata um facto.

Há pessoas que realmente sofrem de bullying na sua infância ou adolescência, mas sejamos realistas, muitas vezes nem sabemos destes casos até ser demasiado tarde. A sua gravidade faz com que os jovens tendam a calar-se. Esta crónica (para parecer que tem classe), é dedicada a todos os pais excessivamente protectores, que se esquecem, que uma criança aprender a defender-se faz parte do seu desenvolvimento enquanto pessoa. Se protegemos sempre uma criança como se fosse uma jóia da coroa, vai achar-se a última coca-cola do deserto e, quando for grande, mais lhe vale que tenha uma boa herança e possa ficar em casa a fazer comentários de ódio no Youtube, porque não estará pronta para o mundo cão que há lá fora.

As vossas crianças podem ser lindas, ter os olhos do pai e o bigode da tia, mas não são especiais. Temos de proteger a nossa descendência de maneira inteligente, ensinar-lhes como viver em sociedade, defender-se e proteger-se. Criar um ser humano forte e não o tratar como o Dumbo (a menos que voe com as orelhas, nesse caso, acho bem que façam algum dinheiro da criança).

Vinde comigo fazer uma visita a um passado não muito distante (gosto de me convencer disso). De pequena, como a muitas crianças, chamaram-me nomes e havia um energúmeno mal-educado que me batia (hoje o pobre Luís Miguel ainda deve viver na cave da sua rica mãezinha e ser o orgulhoso proprietário de um dente na boca). Muitas foram as vezes que cheguei a casa a chorar. Com a orientação dos meus pais, aprendi a não ligar aos nomes e ignorar, pois sabia o meu valor e responder era alimentar esta prática. Até que se cansaram e as ofensas gratuitas acabaram. Funcionou! Mas o Luís Miguel, raio do puto levado da breca não desistia de me marcar com nódoas negras. A minha mãe falou com a professora, falou com a mãe da criatura, um dia parou o carro à frente do dito e mandou-lhe três berros (momento mais emocionante da minha vida!), mas o neurónio não lhe dava para tanto e o Luís Miguel não percebeu. Então um dia a minha mãe deu-me o aval de me defender e de se ele me batesse, eu tinha a sua bênção para lhe responder na mesma moeda. Que dia tão bonito esse. Ponhamos as coisas assim: foi o fim de uma era. Descobri que era bruta que nem uma porta.

A minha geração foi alimentada pela violência e estamos todos frescos que nem alfaces! As músicas de pátio tratavam de maltratar gatos com paus e a mítica música “Dominó”, falava de uma rua que cheirava a sangue porque alguém se tinha matado. [Já que falamos do assunto, se alguém souber por que raio ficávamos no “coito” para estar a salvo a jogar à apanhada, agradecia o esclarecimento]. Quando estava no ensino básico apareceram os Happy Tree Friends, que, para quem não sabe, eram animais amorosos que explodiam, lhes saltavam olhos e morriam de diversas formas sombrias e detalhadamente gráficas. Isto (não) ajudou (em nada) a vermos a morte como algo natural e divertido.

A realidade é que, actualmente, lidamos com as crianças como pequenas bolas de algodão, que se podem sujar se as pousamos em algum lado. Temos de criar futuras gerações fortes, porque os millennials são todos carne para canhão se há um apocalipse zombie. A geração dos nossos avós viu de tudo! Há alguns um bocado afanados das ideias, mas no geral são pessoas normais. Não tenham medo de expor as vossas crianças a este mundo fascinante.