sábado, 11 de março de 2017

Glamour a Bordo

O conforto irrefutável de um atendimento serviçal, enquanto sentados num banco de estofos suaves, em boa companhia e vista divina. Viajar de avião em classe económica é tudo isto, mas sem o glamour. Sentados numa cadeira voadora com cinto de segurança, com hospedeiras que não dormem à três dias e cujos benefícios laborais são algo dúbios, sentados lado a lado com um senhor que notoriamente não teve o prazer de ser apresentado a nenhuma marca de desodorizante e, com sorte, ter a vista sobre a asa direita que oculta toda a beleza do céu. Para quê o champanhe e frutos tropicais servidos na primeira classe? É correto que no Titanic os pobres morreram todos, mas neste caso se cai, caem todos juntos (que isto não é o Lost).

Viagens longas de avião são sempre algo interessantes para a corrente sanguínea. Podemos contar com a senhora de calças de fato de treino que não passa quinze minutos sem se levantar para esticar as pernas. Queiramos nós, ou não, colaborar com este exercício, ela seguirá a sua rotina, mesmo que tenha que nos passar por cima. Conhecendo o caso, pensamos então pedir o lugar à janela, pois assim ninguém nos chateia. Até que passamos pelas brasas e acordamos com o pé do passageiro de trás, a espreitar ao lado da nossa cara, mesmo entre a janela e a parte superior do nosso banco. Como um senhor idoso sem nada por baixo da gabardina, aí está ele, pacifico à espera de contacto visual para o seu momento de glória. Surge então o incontrolável desejo de agradecer ao destino por não termos adormecido e, consequentemente, acordar com aquele dedo com fungos e unha cortada com tesoura de podar enfiado num olho.

Olhamos para o lado e o senhor que cheira a defunto encontrado na Stradivarius (sou só eu que tenho um ataque de asma quando entro numa loja com tanto perfume no ar?), corresponde a mirada por compaixão a toda a situação traumática vivida. Pensamos que esse foi o começo, apogeu e fim da relação entre os dois. Mas não. Começa assim todo um ritual de querer saber de nós e de nos oferecer amendoins que comprou por 7euros a bordo. Negamos, sorrimos simpaticamente, e tomamos a decisão importante entre fingir que dormimos e arriscar cegueira por unhaca alheia, ou ser presa ao aterrar por assassinar um velho mal cheiroso com um amendoim projectado contra a traqueia.

Decidimos ver um filme. Afinal, a senhora do banco da frente decidiu acordar e ter um pouco de compaixão, pondo o seu banco direito e deixando-me respirar no meu acento. Tantos filmes bons disponíveis, alguns ainda nem estrearam no cinema! Finalmente algo positivo deste trajecto. Carrego no play e a mesma senhora que havia tido compaixão faz 10 minutos agora decidiu que o seu escalpe se sentia mais desconfortável que eu, então vá de atirar com o seu longo cabelo para trás, tapando na totalidade o meu ecrã e sufocando a minha vontade de viver.

Respiras. Pensas. Já só faltam 10 horas. Tudo valerá a pena. Por isso pedes whisky até ficares inconsciente.

[Gente gira, vou estar 2 semanas fora do estaminé. A menina vai viajar =D. Até já]

quinta-feira, 9 de março de 2017

O País das Mil Caras

Vinte horas de voo, pernas trôpegas, mas um entusiasmo que eleva a adrenalina e não deixa que o cansaço se abata sobre nós. De mochila às costas com pouco mais que uns calções e algumas t-shirts, chegamos ao diminuto aeroporto de Siem Reap, Cambodja. Quinze cêntimos depois e estávamos montadas numa moto com um desconhecido que nos levava ao centro da cidade. Começava a aventura.

Olhávamos à volta e a pobreza estava patente, não era segredo e muito menos motivo para perder os sorrisos ou reduzir as saudações entusiasmadas por ver turistas. Passámos por inúmeros resorts de tamanho e riqueza transcendente, principalmente, tendo em consideração o seu entorno, mas nós dirigíamo-nos para o centro da acção. Não se pode vivenciar uma cultura sem ver a sua real face. “Atenção à comida de rua”, relembro e ignoro eu em cada viagem à Ásia. Agarramos um sumo feito por uma senhora descalça no alcatrão e vamos receber uma massagem, que aí é como ir comprar pão. Deitamo-nos no solo de madeira onde se ouviam pequenos gemidos de dor satisfatória. Agora sim podíamos dormir depois da viagem.

Pela noite a música pelas ruas é alta, muita alegria! Mas entre caras de adultos sorridentes há as de crianças com os seus dez anos a vender postais e pequenas lembranças, mas até eles dançam, são os reis da festa. A manhã seguinte começa cedo com longas jornadas de tuk tuk para visitar todos os templos fabulosos que se encontram na região. Dignos de filmes todos eles, fazem-nos sentir pequenos e agradecidos. O templo de Bayon foi dos que mais me impactou, os rostos sorridentes cravados na pedra diziam tanto deste povo. 

Uma das absolutas maravilhas do mundo é ir ver o nascer do sol a Angkor Wat. Entre monges budistas são dezenas as pessoas sentadas no chão à espera do momento em que o sol rasga o céu atrás do templo. É magnifico! Alguns arriscam fazer fotos com os monges, mas as mulheres não lhes devem dirigir uma mirada e palavras apenas de agradecimento. Acabamos a manhã a comer uma panqueca que mais parecia um bolo para dois, numa pequena barraquinha chamada Rambo 2, mesmo entre o Stallone e da Madonna 1. Um pote de mel e outro de leite condensado com uma colher longa dentro e uma banana cortada em rodelas é apresentada para que adornemos a nossa comida a gosto. Sentimo-nos ridiculamente em casa.

Visitamos aldeias flutuantes, orfanatos e mercados onde os frangos corriam alvoraçados por cima de peixe ainda semi-vivo. Senhoras acenavam com verduras, sentadas de pernas cruzadas encima das batatas que estão por vender. Tudo tinha o poder de nos deixar agradecidas por o que temos e felizes por vivenciar tal experiência.

Uma viagem que dava um livro.
[Há viagens das quais não se pode falar mal, nem com esforço, então mais vale partilhar e ponto final]

domingo, 5 de março de 2017

Cultura de Merda

“De Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, entoou a minha avó sussurrando, como apelo ao meu bom senso ao despedir-se de mim faz quase três anos, quando embarquei a bordo do voo que me trouxe para a terra dos caramelos baratos. Ri-me, trocista, como se isso alguma vez fosse suceder. Eu, moi-même, a sucumbir aos encantos de um ser aciganado, vendedor de caramelos, carregado de brilhantina no cabelo, sentado num carro a diesel barato e com uma mãe dançarina de flamenco, carregada de maquilhagem e uma flor do tamanho de um repolho na cabeça (se me faltou algum estereótipo peço desculpa, esforçar-me-ei mais para a próxima).

Arranjei então um namorado catalão. O que faz dele o pão de passas do território espanhol, não é bom para besuntar na molhanga de um bife, mas também não serve de sobremesa, é o “chove não molha” da metáfora padeira.

Há todo um processo de aprendizagem de ambas as partes para uma relação multicultural saudável. Eu ensino-o a comer pão com manteiga. Porque esborrachar um tomate no pão besuntado com azeite não conta como torradas, e caso eu esteja doente e alguém me apareça com pão com tomate na cama, vai passar a haver uma doente e um morto. Ensino-o que perante uma descomunal bebedeira se come caldo verde e pão com chouriço, não churros com chocolate, a menos que o objectivo seja regurgitar e, consequentemente, perder todo o investimento monetário implícito na compra de álcool. Faço palestras a ele e aos seus familiares em como não há um monopólio do negócio de toalhas em Portugal e constato que as mulheres portuguesas não têm todas bigodes (ter temos, mas vá…). Entre outros debates, como o domínio do bacalhau em território nacional.

Ele, por outro lado, ensina-me toda a sua cultura de merda. Não. Não estou a ofender a sua cultura, estou a constatar factos. Tudo começa com o seu Zé Povinho, que é uma personagem a arrear uma poia perfeita, intitula-se Caganer. Por toda Barcelona podem comprar desde uma Hello Kitty, ao Obama a defecar. Continuamos, pois, com uma das suas figuras natalícias presente, sem excepção, baixo a árvore de natal, é um Caga Tio. Resumidamente, é um pau com olhos e chapéu, ao qual se dá com outro pau (sem olhos) e se espera que o tronco cague chocolates para os petizes, ora coisa mais apetitosa nunca se viu. Aparte de tradições onde literalmente está presente a figura de uma poia, têm o equivalente ao nosso São Martinho, onde as crianças saltam a fogueira com as castanhas enquanto entoam musicas alegres. Eles têm um dia ao ano em que se vestem de doentes mentais, criam uma figura gigante de um louco e lhe ateiam fogo com gasolina. Só pensamentos positivos esta gente!

Gosto de imaginar que ensinamos às nossas crianças bons costumes, mas tenho que dar o braço a torcer que se me tivessem ensinado que se andasse à paulada recebia doces, que defecar é considerado arte e que caso me depare com alguém louco lhe posso atear fogo e resolver o problema, o meu trajecto de vida tinha sido consideravelmente mais fácil.