segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Noite Anual da Meryl

[Deixa cá ver se escarrapachar aqui uns vestidos e fizer uns comentários super entendidos as mais distraídas me seguem a pensar que sou super cool e dou dicas sobre pestanas e fungos nasais]

 A minha avó tens uns guardanapos tal qual. Bem bánitos e assim para o amarelos da idade e do uso. Normalmente damos-lhe um nó no meio como a cachopa fez para tapar a mancha de chocolate que nem o Tide tirou.

Ai gosto tanto quando se inspiram em comida para vestir-se para eventos. Adoro a moda da bela do repolho. Há tanto folho que me esqueço sempre de olhar-lhe para a cara, é como a Salma Hayek a esborrachar os seus voluptuosos seios na cara das pessoas, se a decapitam ninguém se vai aperceber até que o sangue chegue ao peito.



A noite com mais glamour do ano termina mais uma vez, abençoando aos, ditos, mais talentosos actores, directores e restantes profissões (durante cuja apresentação os espectadores vão comer um pãozinho com manteiga por não saberem lidar com tamanho interesse), que proporcionaram a execução dos melhores filmes do ano. Os Óscares, também conhecidos por “ode a La La Land”, “barracada do Moonlight” ou “Unhaca de Nicole Kidman” encerram mais um ano de estatuetas ofertadas, equitativamente consideradas entre raças, opções sexuais, politica e, claro, o mimo anual à Meryl Streep, que pode fazer de papagaio manco com ranço e é o melhor papagaio manco com ranço alguma vez visto. A ofensa fácil que a nossa sociedade hoje em dia patenteia, rege qualidades. A ausência de um Óscar na tua mão não se deve à tua ausência óbvia de talento, mas a algum tipo de racismo, discriminação, porque és feio ou não és parente do Ben Affleck.

Detalhes aparte, há coisas que realmente importam nesta noite de momentos memoráveis. Falo, obviamente, das ofertas de luxo que são oferecidas aos nomeados, que redundantemente já palitam os dentes dos seus poodles com notas de 100$. Lembro-me dos tempos áureos em que de tiaras de safiras a meias de ouro tudo era válido para os famosos. Este ano, ao deparar-me com a lista de ofertas, fico com clara inveja ao incluírem estâncias em ilhas privadas e nos resorts mais exclusivos do mundo. Mas, subitamente, passamos para sacas de maçãs, bolos de figo, kit de primeiros socorros e um bálsamo labial. Nem vou entrar no discurso óbvio na cabeça de qualquer ser vivo com pensamento lógico que é, “porque raio é que não dão essas maças a alguém que efectivamente precise delas?”, mas a sério, maçãs? Não há Mini Preço ao pé das casas dos famosos? Os bolos ainda compreendo porque se perdes vais querer afogar as mágoas. O kit de primeiros socorros irá de luxo para a Meryl Streep caso algum ano não ganhe algo, vai-lhe dar um fanico de certeza, que ela já se põe de pé ao lado do palco à espera que a chamem todos os anos. A imagem da sua cara de surpresa é um loop com anos (está em VHS). E o bálsamo, olha, depois de uma saca de maçãs um bálsamo nem parece disparatado. É todo um je ne sais quoi imaginar Emma Stone vestida de Oscar de la Renta e carrinho de compras porque não tem braços para levar tamanha quantidade de maçãs sem se desconjuntar.

Este é um pequeno texto motivador, pois quero que olhem para a vossa fruteira e ao vislumbrar aquela maçã bolorenta que está aí parada desde aquele dia que foram ao supermercado e se fizeram crer que iam ser saudáveis, pensem, sou digno de um Óscar.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O Bibelô da Humanidade

Avó que se prese tem o conjunto completo de louça de folha de couve, a fazer pandã com bibelôs duvidosos a ganhar pó nas estantes mais altas da sala de jantar. Se isto é um facto por si só, não deveria ser de espantar que as pirâmides de Gizé, sendo um marco histórico inigualável, tão válido como a travessa feia da avó, estejam cheias de pó.

Fui ao Egipto no ano passado, numa data muito bem escalonada entre atentados, desvios de aviões da Egiptair e rebeliões que explodiam monumentos históricos como bombinhas de mau cheiro.  Foi a minha primeira viagem com guia, pois não havia outra maneira de circular no país nesse período. Estou acostumada a fazer o que me apetece e guiar-me pelo meu instinto, porém, o meu instinto dizia para arrojar uma cadeira à cara do guia. Era a criatura mais racista, machista e outros -istas que podem imaginar, mas felizmente não é representação de todos os egípcios pois conhecemos alguns incríveis, nomeadamente o jovem que trabalhava na Pizza Hut do Cairo.

A primeira percepção do Cairo é: “Vou morrer aqui”. Um pó que cerra o céu num tom amarelado, ruído ensurdecedor (a buzina dos carros é utilizada como chamada de atenção, pisca, saudação e actividade didáctica), discussões violentas em plena “estrada” (caminho e sentido direccional determinado pela primeira pessoa a conduzir nesse dia), lixo acumulado por entre os quais crianças jogam e, tudo isto, entre tanques de guerra carregados de metralhadoras e homens com bazucas nos telhados de prédios familiares. Não aconselho o Cairo como destino a ninguém por mais de um dia. Meramente o suficiente para desfrutar das pirâmides que sem duvida que valem a pena ver e um par de outros sítios curiosos.

O Egipto começa a interessar com o descer do Nilo em cruzeiro, cidades magnificas cheias de história e monumentos de dimensões inumanas. Os primeiros dias são de incontrolável espanto e encanto, mas após 5 dias de calor capaz de cozinhar uma lasanha ao sol e trinta e três templos o teu cérebro dá mensagem de erro e só vês estática. São calhaus a monte a um certo ponto e tentas ser agradecida pela oportunidade de estar ali e vivenciar historia, mas na realidade estás a fazer fotos aos hieróglifos que parecem aliens para provar aos teus amigos que aquilo foi obra extraterrestre. Aparte, sendo mulher, a única opção é entrar nos templos tapadita, mas com os 50 graus celsius à sombra, entre morrer de combustão espontânea por ter ofendido um Deus com o vislumbre da minha jugular ou morrer cozida lentamente debaixo de roupa, volta e meia salta o herege em nós e que venha o Deus!

Abu Simbel era o sitio que eu mais queria visitar, a sua história fascinava-me. Porém, o fascínio morre um pouco com a viagem de 6h de carro entre o absoluto deserto às 4 da manhã, como se de um intento de fugir do país se tratasse, com mais 50 carros, pois por dia a entrada é limitada. Quando chegas tudo vale a pena! Até que cais em ti e te recordas que terás que voltar para trás outras 6 horas, depois de uma mera hora aí.

Voltamos para o Cairo para encerrar esta viagem, agora que odiamos pó, os cristãos por terem arruinado tantos templos e o ser vivo em geral por profanar tantas peças únicas com os seus nomes forçados em pedra com uma bic, e na nossa ultima noite vemos o espectáculo de luz e som das pirâmides. O designado, “melhor espectáculo do Cairo” foi o equivalente a ter três fulanos a correr aos gritos, com lanternas apontadas às pirâmides e outros dois a fazerem com as mãos sombras de coelhinhos. A cereja no topo do bolo.

A viagem ao Egipto valeu a pena e foi uma experiência muito interessante, mas não a faria uma segunda vez sem um motivo plausível. Basicamente, se a entrega do Nobel da Paz fosse no Egipto e eu o ganhasse, pedia que mo mandassem por Fedex.
[Para quem queira ir ao Egipto e saber detalhes mais práticos podem enviar um email que tenho todo o gosto em ajudar e ser menos idiota]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Profissão de Risco

O suor frio que se sente na tempora, o coração a palpitar velozmente como se sobre a língua estivesse e a pressão constante de quem arrisca a sua vida em prol de um bem maior: sobreviver. Os pescadores de caranguejos do Alasca dizem ter a profissão mais arriscada do mundo, mas a realidade é que eles nunca se sentaram de frente a um computador, com o rato com luz vermelha pimpona a brilhar e os auscultadores com mais força áudio que o Pavilhão Atlântico. Profissão de risco, é ser Gamer.

Um Gamer é um ser que se senta ao computador com uma camara apontada à penca e [pausa dramática]… joga. “Ah mas não podias gastar o teu tempo a jogar em vez de ver um individuo durante horas a jogar?” Podias…mas não era a mesma coisa. Nem todos os seres vivos foram talhados para lidar com o stress e risco desta profissão, por isso contentam-se com a emoção de os ver, como ver um gatinho a ser salvo de uma arvore por um bombeiro.

Se eu em cachopa tivesse dito à minha mãe, “…cara entidade maternal, o meu propósito nesta vida que tu concebeste é ficar de rabo alapado à cadeira o dia inteiro e esperar que milhares me sigam por eu jogar Candy Crush”, a minha mãe tinha-me atirado de uma ravina como um espartano faria a um filho que saísse defeituoso. Se alguém me disser que me paga para eu gritar que nem uma menina por cada fantasminha que apareça no ecrã, eu juro que seria a Marey Carey dos Gamers.

Venham dai os pudicos protetores desta profissão atirar-me agora com discos externos à cabeça, “Ah ser Gamer é um trabalho a sério”. Está bem. Não obstante, ser varredor de rua também é, porque senão estaríamos enterrados em excremento, e não é por isso que têm 40 mil seguidores, que lhes pedem autógrafos e ficam a olhar fixamente para eles a ver qual será o próximo movimento da vassoura, como salta a poça de agua com o carrinho do lixo ou como derrota a implacável pastilha rosa no asfalto.

Antes só tinham seguidores os vídeos das senhoras que se desnudavam para receber o carteiro, canalizador ou funcionário da EMEL, hoje em dia a ação está toda no vibrar do rato. O futuro assusta-me.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Cor Especial

Acredito na força das palavras e os seus significados. Nada deveria ser dito em vão e pelo bel prazer de proferir sons se estes não têm sentido algum. Por este motivo sou apologista que Los Del Rio, devem um favor à humanidade em prol de fazer jus ao seu nome e se deveriam atirar ao rio com um Opel Corsa amarrado aos pés.

Resido, actualmente, em Sevilha, cidade que tem “…un color especial” de acordo com estes Shakespeares dos anos 80. Pois, tudo me leva a crer que estes senhores sofrem de daltonismo, ou que a virgem lhes caiu na cabeça a meio da procissão em petizes e lá se foi o raciocínio lógico. O mais perto de uma cor especial que vivenciei nos últimos 8 meses foram os faróis tom néon quase fundido do eléctrico que se move à velocidade estonteante de 10km/h pelo centro da cidade, incapaz de abalroar um pombo nem com boas intenções.

Sevilha é uma cidade cheia de carisma, que facilmente se absorve e nos extenua num par de horas. É uma daquelas cidades com magia, onde se um autocarro turístico cessa movimento para abastecer e segue o seu caminho, ninguém chora nem barafusta. Cuba do Alentejo é uma cidade cosmopolita ao lado disto, só ninguém canta sobre ela porque vai bem ao português desprovido da possibilidade de viajar a Havana, ter onde fazer a foto para o Facebook ao lado do sinal de autoestrada que menciona Cuba. Um segredo dos deuses ponhamos assim.

Esta língua abençoada pelos deuses não se assemelha a castelhano nem por casualidade. Soa a um espanhol asmático, filho de uma madeirense gaga, a tentar gritar Klingon enquanto corre para apanhar o comboio [referencia a Star Trek para quem perdeu o fio à meada]. Agora imaginem este som em repetição e tom de procissão pelas ruas da cidade a cada dois dias. Melodia magnifica para acompanhar com incenso de odor tão forte que é capaz de encobrir o cheiro a excrementos de cavalo que benze a cidade e dos corpos moribundos que jazem nos recantos por inalação de tanto incenso.

Uma cidade magnifica onde se pode usufruir da temperatura amena de 50 graus à sombra durante todo o verão. Onde um chafariz é um oásis pois ninguém pensou que seria boa ideia ter piscinas neste desterro. Em Sevilha tenho explorado a vontade pululante de deixar de viver a cada passo e ver a arte de dormir como um desporto de risco, pois podes morrer afogado em suor. É como ser bombeiro, mas sem a parte altruísta, é apenas o gostinho mórbido de andar pelas chamas ardentes como ato de sobrevivência e os outros que se lixem.

Sevilha, terra cor de labaredas, onde os santos nunca são suficientes e o imigrante português desespera entre tapas e inexistência de vocabulário lógico. O local de férias de sonho para núcleos familiares que tenham herdeiros boçais que queiram ver sucumbir em bons modos em pedidos de regresso a casa.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Já chega...

[Texto de auto compaixão, meio lamecho-meloso e incapaz de representar a absurdidade usual neste blog]
Acho que me perdi. Perdi-me no quotidiano, na rotina e fundi-me com a minha profissão como se apenas disso se tratasse. Mudar de país, deixar tudo para trás, começar do zero, novas caras, novas responsabilidades, aquela língua, aqueles costumes. Perdi-me.

Comecei a pensar, sentir, sonhar, respirar em Espanhol. Não por o preferir ao português que me viu crescer, mas porque me perdi. O meu cérebro fazia o constante esforço de tentar traduzir tudo para seguir o raciocínio e as conversas. Acabou por arrebatar o que mais me libertava, a minha língua. Como passou isto? Como voou o tempo tão rápido? Como passaram dois anos da minha vida sem que escrevesse uma frase que fosse minha? Perdi-me dos livros, dos filmes, das séries, perdi-me de mim mesma.

Encontrava-me nas minhas viagens, nos meus fragmentos de realidade alternativa, onde sonhava, criava novos planos e ideais, onde me prometia que as coisas iam mudar. Mas como uma relação de abuso ao voltar convencia-me da ideia que aquilo é tudo e que não me sobra tempo para mais. Turnos de 14 horas e seguia, seria aquilo uma droga?

“Não podes viver cada dia a esperar as próximas férias, tens que ser tu mesma todos os dias, precisas de uma motivação diária” disse-me a mais sábia das mães. Por isso volto. Por isso peço desculpa pela ausência. Não houve despedida, não houve visitas cordiais. Havia bisbilhotice de saudade, mas a vergonha de uma saída que nem eu podia justificar impedia-me de congratular a quem continuava a partilhar a arte do bom escrever.


Perdi-me. Mas já chega. Voltei.