segunda-feira, 10 de abril de 2017

Filipinas 101

Contrariada voltei. Voltei de umas férias memoráveis que açambarcaram um mundo em duas semanas e meia. As Filipinas são uma viagem mágica para os amantes da natureza e apaixonados pela aventura. Devido à impossibilidade de falar mal desta experiência ou refilar de qualquer dos seus aspectos, farei um “pequeno” relato da viagem para os aventureiros que queiram fazer esta viagem em breve.

As Filipinas são um arquipélago com 7641 ilhas. Como podem imaginar decidir quais visitar não é um trabalho fácil. O nosso objectivo era em 17 dias conseguir ver o que considerávamos fundamental neste país. Esta decisão levou-nos à loucura de conhecer um total de 5 ilhas e 9 cidades, de mochila às costas e com um sorriso estampado na cara. A realidade é que não se sentiu o cansaço pois cada localização proporcionava algo de incrível e foi sensato termos começado numa ilha cujo objectivo era desfrutar de praia e terminado em noutra.

O importante a reter é que são ilhas agora a ser exploradas por turistas, então será de esperar que as maravilhas vistas agora estarão destruídas em menos de 5 anos. Mas a quem possa ir, aproveitem! Comam todas as mangas do mundo (bebi uma média de 2 batidos de manga por dia), comam todo o peixe que possam e desfrutem da simpatia sem fim dos locais.


O nosso percurso foi:

- Voo Sevilla – Madrid – Dubai – Manila (a ausência de ligações com o aeroporto de Sevilha são um  motivo de rejubilação)
- Voo Manila – Boracay
- Voo Boracay – Cebu City (onde apanhámos barco para Bohol)
- Barco Bohol – Siquijor
- Barco Siquijor – Apo Island – Siquijor (Passeio de dia completo)
- Barco Siquijor – Dumaguete – Santander (triciclo para Oslob)
- Autocarro Oslob – Moalboal
- Autocarro Moalboal – Cebu City
- Voo Cebu City – Puerto Princesa (autocarro para El Nido)
- Autocarro El Nido – Puerto Princesa (avião para Manila e regresso a casa)

Muito resumidamente andámos de barco, triciclo, autocarro, mota, carro, avião…e tudo o que tínhamos direito. São muitas horas de viagem, mas quando bem programado encaixam bem na aventura.



Os destinos:

Manila (1 noite) – Ficar o estritamente necessário para conexões de voos, não encarar como um sitio a visitar, fazer fotos e comprar postais, pois não o é. Nós ficámos perto do aeroporto pois o tráfego é fora do normal. Na eventualidade de ter que apanhar um táxi, não apanhar os que estão à porta do aeroporto, são para turistas (a mim não me aldrabam, passo por local). Caminhar para o lado direito à saída do aeroporto onde há os táxis dos locais, que colocam o parquímetro e até ao centro da cidade serão como 5 euros. (Nota: Nunca entrar num táxi sem negociar o preço e obrigar sempre que ponham o taxímetro)

Boracay (2 dias) – Ganhou inúmeros prémios de melhor praia do mundo, por a sua white beach. Fomos por descargo de consciência para fazer a nossa avaliação e a realidade é que não nos pareceu a melhor praia sequer da viagem. Ilha agradável, melhores batidos de fruta do mundo no Jony’s, mas ilha devorada por turistas e praia cheia de vendedores de actividades e selfie sticks (não são insistentes, mas são tantos que levam qualquer um à loucura). Boa para sair à noite e ter um feeling mais ocidental, mas não representa correctamente as Filipinas.


Bohol (2dias) – Bohol foi uma experiência fantástica. Fomos para ver as Chocolate Hills e os Tarsiers (primatas mais pequenos do mundo). O truque nesta ilha é alugar uma scotter (nunca tínhamos conduzido uma e estamos vivos, as estradas não têm ninguém para além de outros turistas) e explorar a ilha. Descarregámos a versão offline do google maps e fomos à aventura. A natureza é imperdível, mas o que nos conquistou foram as pessoas do interior da ilha que nos receberam com um entusiasmo fora do normal. Não me importava ter ficado mais um par de dias.



Siquijor (2 dias) – Uma ilha que só tem casas na orla e há uma dúzia, quanto muito, de sítios onde ficar. Foi o nosso melhor hotel (pelo preço de uma saca de batatas na Europa) e a praia tem a água mais quente onde metemos o pé durante a viagem. Fomos a esta ilha pela proximidade com Apo Island e acabámos por ficar bastante felizes com a decisão. Diz-se que a magia negra nasceu nesta ilha e as almas de todos os que aí morrem habitam dentro de uma árvore incrível que têm no centro da ilha.


Apo Island (Meio dia) – Apo Island é conhecida pelas tartarugas gigantes. Fomos de barco e regressámos no mesmo dia a Siquijor, pois é uma ilha muito pequena, com poucos serviços e acessos. Tivemos a oportunidade de nadar com estas tartarugas acompanhados de um guia extraordinário com uma paciência sacra à minha aselhice com barbatanas, que se certificava que os corais e as tartarugas não sofriam nenhum tipo de trauma por ver-me nadar.


Oslob (1 dia e meio) – Oslob é conhecido pelo centro de tubarões-baleia, peixinhos amorosos de 6 metros, a um metro de distância. Por muito que nos mentalizemos para esta experiência, nada nos prepara para estar ao lado de um animal daquelas dimensões. O melhor é ir quando abre o centro, às 6 da manhã e se não são nadadores excelentes o mais sensato é usar o colete salva vidas pois têm muito má visão e são atraídos pelas borbulhas que fazemos ao bater os pés debaixo de agua. Igualmente nesta zona podem ir às cataratas de Tumalog, incríveis e sem grupos de turistas ou multidões. Em Oslob há poucos restaurantes ocidentais, o melhor jantar podem ter no mercado municipal à noite, pois o peixe e frutas não vendidos durante o dia são grelhados e transformados em batidos durante a noite. São só locais aí a jantar e os preços muito muito baratos (foi das melhores refeições que tivemos durante toda a viagem).



Moalboal (1 dia e meio) – Moalboal é conhecido como o sitio da Sardine Run (pode-se nadar entre números incríveis de sardinhas, é como estar em casa). Vila pequena mas cuidada, com imensos sítios agradáveis e bons restaurantes. Ficámos nesta zona, mas na realidade o nosso interesse era em Badian, onde estão as famosas Kawasan Falls. Decidimos fazer algo chamado Canyonering, que é basicamente saltar de canyons e cascatas incríveis, descendo toda uma montanha, até chegar a Kawasan Falls. Foi uma experiência incrível! Adrenalina, vistas maravilhosas sem turistas à volta, macacos e natureza no seu estado mais puro. As Kawasan Falls por si só, são lindas, mas têm demasiados turistas, o que tira um pouco o encanto do cenário paradisíaco.


Cebu City (1 noite) – Tal como Manila, não fiquem em Cebu City a nível turístico. Tráfego e confusão são as palavras de ordem.

Palawan (4 dias) – Palawan é uma ilha incrível. Ir às Filipinas e ignorar esta ilha é o erro mais crasso que se pode cometer. Nós aterrámos em Puerto Princesa pois os voos são bastante mais baratos que para el Nido e fomos de carrinha até ao nosso destino (5 horas a rezar pela sobrevivência). Puerto Princesa é um sitio de passagem, visitámos no intervalo um par de sítios pela piada (Bakers Hill é um parque de entrada gratuita que é o regurgitar de tudo o que o seu dono gosta colocado num só sitio de maneira muito saloia…mas dá para umas gargalhadas enquanto se faz tempo para o próximo voo). O nosso destino era El Nido. Zona com as melhores praias da viagem, sem comparação alguma. Perfeito para relaxar, comer e beber bem. A nossa paixão foi a praia Marimegmeg, que tem um bar com o mesmo nome onde nos mimaram um dia inteiro. Há também a praia de Nacpan (é preciso ir de mota, mas o caminho é bastante irregular) e para quem fique mais tempo a visita a Coron é fundamental.




Sevilha (o resto do ano que me lixo) – Bom para passear santas de um lado para o outro e comer tapas.

Preços:

- O voo longo da Europa para as Filipinas será o mais caro, mas com 3 ou 4 meses de antecedência conseguem por 400 euros ou menos ida e volta.

- Triciclos é um meio de transporte comum nas ilhas, pois não há estradas para táxis, nem autocarros. O preço é negociável, em média conseguem uma viagem de 45 minutos por 200 pesos, que são 4 euros.

- Táxis, comuns nas cidades grandes, são ainda mais baratos que triciclos, mas têm que garantir que o taxista põe o taxímetro, senão cobra o que quer no final da viagem.

- Autocarros locais em ilhas como Cebu (ilha bastante grande), são muito baratos, pagámos por uma viagem nocturna de 5 horas, num autocarro com ar condicionado e com filmes toda a viagem, pouco mais de 4 euros.

- Ligação entre as ilhas principais é melhor fazer de avião, muito mais rápido e poupam dores de cabeça, pois os barcos não são meios muito seguros em geral. Para pequenas travessias (media de 4 horas), há barcos entre os 200 e os 1000 pesos, 4 e os 20 euros, dependendo das ilhas. Eu cá dormi em todos os trajectos como se não houvesse um amanhã.

- Comida – Em sítios locais é extremamente barata. Têm pastelarias incríveis por todo o lado e a sua comida é algo doce mas bastante boa. Comer em hotéis é ser roubado à mão armada, não se justifica quando podem ir a restaurantes de pescadores com o peixe mais fresco e compram um peixe gigante por 3 euros com arroz, salada e bebida.

- Alojamento – Marcar com antecedência online pode poupar algumas dores de cabeça. Não contem com internet em todas as ilhas, para marcar à ultima hora, pois muitas ilhas funcionam com geradores, por isso podem imaginar.


Obrigatório para esta viagem:

Toalha de microfibra, sapatos aquáticos e máscara de mergulho própria (este ultimo não é obrigatório mas poupa-vos dinheiro pois são sempre um custo extra onde quer que seja, não estão estragados e não foram utilizados por centenas de pessoas antes de vocês).

Espero ter ajudado alguém que planeie fazer esta viagem. Para qualquer duvida igualmente podem escrever comentários que eu ajudo no que puder, que se me esticasse mais quem segue aqui o estaminé desistia de mim de vez.


Um bem haja!

[O próximo post já volta a má língua e falta de chá habitual que a paz e amor das férias já foram pelo cano abaixo]

sábado, 11 de março de 2017

Glamour a Bordo

O conforto irrefutável de um atendimento serviçal, enquanto sentados num banco de estofos suaves, em boa companhia e vista divina. Viajar de avião em classe económica é tudo isto, mas sem o glamour. Sentados numa cadeira voadora com cinto de segurança, com hospedeiras que não dormem à três dias e cujos benefícios laborais são algo dúbios, sentados lado a lado com um senhor que notoriamente não teve o prazer de ser apresentado a nenhuma marca de desodorizante e, com sorte, ter a vista sobre a asa direita que oculta toda a beleza do céu. Para quê o champanhe e frutos tropicais servidos na primeira classe? É correto que no Titanic os pobres morreram todos, mas neste caso se cai, caem todos juntos (que isto não é o Lost).

Viagens longas de avião são sempre algo interessantes para a corrente sanguínea. Podemos contar com a senhora de calças de fato de treino que não passa quinze minutos sem se levantar para esticar as pernas. Queiramos nós, ou não, colaborar com este exercício, ela seguirá a sua rotina, mesmo que tenha que nos passar por cima. Conhecendo o caso, pensamos então pedir o lugar à janela, pois assim ninguém nos chateia. Até que passamos pelas brasas e acordamos com o pé do passageiro de trás, a espreitar ao lado da nossa cara, mesmo entre a janela e a parte superior do nosso banco. Como um senhor idoso sem nada por baixo da gabardina, aí está ele, pacifico à espera de contacto visual para o seu momento de glória. Surge então o incontrolável desejo de agradecer ao destino por não termos adormecido e, consequentemente, acordar com aquele dedo com fungos e unha cortada com tesoura de podar enfiado num olho.

Olhamos para o lado e o senhor que cheira a defunto encontrado na Stradivarius (sou só eu que tenho um ataque de asma quando entro numa loja com tanto perfume no ar?), corresponde a mirada por compaixão a toda a situação traumática vivida. Pensamos que esse foi o começo, apogeu e fim da relação entre os dois. Mas não. Começa assim todo um ritual de querer saber de nós e de nos oferecer amendoins que comprou por 7euros a bordo. Negamos, sorrimos simpaticamente, e tomamos a decisão importante entre fingir que dormimos e arriscar cegueira por unhaca alheia, ou ser presa ao aterrar por assassinar um velho mal cheiroso com um amendoim projectado contra a traqueia.

Decidimos ver um filme. Afinal, a senhora do banco da frente decidiu acordar e ter um pouco de compaixão, pondo o seu banco direito e deixando-me respirar no meu acento. Tantos filmes bons disponíveis, alguns ainda nem estrearam no cinema! Finalmente algo positivo deste trajecto. Carrego no play e a mesma senhora que havia tido compaixão faz 10 minutos agora decidiu que o seu escalpe se sentia mais desconfortável que eu, então vá de atirar com o seu longo cabelo para trás, tapando na totalidade o meu ecrã e sufocando a minha vontade de viver.

Respiras. Pensas. Já só faltam 10 horas. Tudo valerá a pena. Por isso pedes whisky até ficares inconsciente.

[Gente gira, vou estar 2 semanas fora do estaminé. A menina vai viajar =D. Até já]

quinta-feira, 9 de março de 2017

O País das Mil Caras

Vinte horas de voo, pernas trôpegas, mas um entusiasmo que eleva a adrenalina e não deixa que o cansaço se abata sobre nós. De mochila às costas com pouco mais que uns calções e algumas t-shirts, chegamos ao diminuto aeroporto de Siem Reap, Cambodja. Quinze cêntimos depois e estávamos montadas numa moto com um desconhecido que nos levava ao centro da cidade. Começava a aventura.

Olhávamos à volta e a pobreza estava patente, não era segredo e muito menos motivo para perder os sorrisos ou reduzir as saudações entusiasmadas por ver turistas. Passámos por inúmeros resorts de tamanho e riqueza transcendente, principalmente, tendo em consideração o seu entorno, mas nós dirigíamo-nos para o centro da acção. Não se pode vivenciar uma cultura sem ver a sua real face. “Atenção à comida de rua”, relembro e ignoro eu em cada viagem à Ásia. Agarramos um sumo feito por uma senhora descalça no alcatrão e vamos receber uma massagem, que aí é como ir comprar pão. Deitamo-nos no solo de madeira onde se ouviam pequenos gemidos de dor satisfatória. Agora sim podíamos dormir depois da viagem.

Pela noite a música pelas ruas é alta, muita alegria! Mas entre caras de adultos sorridentes há as de crianças com os seus dez anos a vender postais e pequenas lembranças, mas até eles dançam, são os reis da festa. A manhã seguinte começa cedo com longas jornadas de tuk tuk para visitar todos os templos fabulosos que se encontram na região. Dignos de filmes todos eles, fazem-nos sentir pequenos e agradecidos. O templo de Bayon foi dos que mais me impactou, os rostos sorridentes cravados na pedra diziam tanto deste povo. 

Uma das absolutas maravilhas do mundo é ir ver o nascer do sol a Angkor Wat. Entre monges budistas são dezenas as pessoas sentadas no chão à espera do momento em que o sol rasga o céu atrás do templo. É magnifico! Alguns arriscam fazer fotos com os monges, mas as mulheres não lhes devem dirigir uma mirada e palavras apenas de agradecimento. Acabamos a manhã a comer uma panqueca que mais parecia um bolo para dois, numa pequena barraquinha chamada Rambo 2, mesmo entre o Stallone e da Madonna 1. Um pote de mel e outro de leite condensado com uma colher longa dentro e uma banana cortada em rodelas é apresentada para que adornemos a nossa comida a gosto. Sentimo-nos ridiculamente em casa.

Visitamos aldeias flutuantes, orfanatos e mercados onde os frangos corriam alvoraçados por cima de peixe ainda semi-vivo. Senhoras acenavam com verduras, sentadas de pernas cruzadas encima das batatas que estão por vender. Tudo tinha o poder de nos deixar agradecidas por o que temos e felizes por vivenciar tal experiência.

Uma viagem que dava um livro.
[Há viagens das quais não se pode falar mal, nem com esforço, então mais vale partilhar e ponto final]

domingo, 5 de março de 2017

Cultura de Merda

“De Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, entoou a minha avó sussurrando, como apelo ao meu bom senso ao despedir-se de mim faz quase três anos, quando embarquei a bordo do voo que me trouxe para a terra dos caramelos baratos. Ri-me, trocista, como se isso alguma vez fosse suceder. Eu, moi-même, a sucumbir aos encantos de um ser aciganado, vendedor de caramelos, carregado de brilhantina no cabelo, sentado num carro a diesel barato e com uma mãe dançarina de flamenco, carregada de maquilhagem e uma flor do tamanho de um repolho na cabeça (se me faltou algum estereótipo peço desculpa, esforçar-me-ei mais para a próxima).

Arranjei então um namorado catalão. O que faz dele o pão de passas do território espanhol, não é bom para besuntar na molhanga de um bife, mas também não serve de sobremesa, é o “chove não molha” da metáfora padeira.

Há todo um processo de aprendizagem de ambas as partes para uma relação multicultural saudável. Eu ensino-o a comer pão com manteiga. Porque esborrachar um tomate no pão besuntado com azeite não conta como torradas, e caso eu esteja doente e alguém me apareça com pão com tomate na cama, vai passar a haver uma doente e um morto. Ensino-o que perante uma descomunal bebedeira se come caldo verde e pão com chouriço, não churros com chocolate, a menos que o objectivo seja regurgitar e, consequentemente, perder todo o investimento monetário implícito na compra de álcool. Faço palestras a ele e aos seus familiares em como não há um monopólio do negócio de toalhas em Portugal e constato que as mulheres portuguesas não têm todas bigodes (ter temos, mas vá…). Entre outros debates, como o domínio do bacalhau em território nacional.

Ele, por outro lado, ensina-me toda a sua cultura de merda. Não. Não estou a ofender a sua cultura, estou a constatar factos. Tudo começa com o seu Zé Povinho, que é uma personagem a arrear uma poia perfeita, intitula-se Caganer. Por toda Barcelona podem comprar desde uma Hello Kitty, ao Obama a defecar. Continuamos, pois, com uma das suas figuras natalícias presente, sem excepção, baixo a árvore de natal, é um Caga Tio. Resumidamente, é um pau com olhos e chapéu, ao qual se dá com outro pau (sem olhos) e se espera que o tronco cague chocolates para os petizes, ora coisa mais apetitosa nunca se viu. Aparte de tradições onde literalmente está presente a figura de uma poia, têm o equivalente ao nosso São Martinho, onde as crianças saltam a fogueira com as castanhas enquanto entoam musicas alegres. Eles têm um dia ao ano em que se vestem de doentes mentais, criam uma figura gigante de um louco e lhe ateiam fogo com gasolina. Só pensamentos positivos esta gente!

Gosto de imaginar que ensinamos às nossas crianças bons costumes, mas tenho que dar o braço a torcer que se me tivessem ensinado que se andasse à paulada recebia doces, que defecar é considerado arte e que caso me depare com alguém louco lhe posso atear fogo e resolver o problema, o meu trajecto de vida tinha sido consideravelmente mais fácil.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Noite Anual da Meryl

[Deixa cá ver se escarrapachar aqui uns vestidos e fizer uns comentários super entendidos as mais distraídas me seguem a pensar que sou super cool e dou dicas sobre pestanas e fungos nasais]

 A minha avó tens uns guardanapos tal qual. Bem bánitos e assim para o amarelos da idade e do uso. Normalmente damos-lhe um nó no meio como a cachopa fez para tapar a mancha de chocolate que nem o Tide tirou.

Ai gosto tanto quando se inspiram em comida para vestir-se para eventos. Adoro a moda da bela do repolho. Há tanto folho que me esqueço sempre de olhar-lhe para a cara, é como a Salma Hayek a esborrachar os seus voluptuosos seios na cara das pessoas, se a decapitam ninguém se vai aperceber até que o sangue chegue ao peito.



A noite com mais glamour do ano termina mais uma vez, abençoando aos, ditos, mais talentosos actores, directores e restantes profissões (durante cuja apresentação os espectadores vão comer um pãozinho com manteiga por não saberem lidar com tamanho interesse), que proporcionaram a execução dos melhores filmes do ano. Os Óscares, também conhecidos por “ode a La La Land”, “barracada do Moonlight” ou “Unhaca de Nicole Kidman” encerram mais um ano de estatuetas ofertadas, equitativamente consideradas entre raças, opções sexuais, politica e, claro, o mimo anual à Meryl Streep, que pode fazer de papagaio manco com ranço e é o melhor papagaio manco com ranço alguma vez visto. A ofensa fácil que a nossa sociedade hoje em dia patenteia, rege qualidades. A ausência de um Óscar na tua mão não se deve à tua ausência óbvia de talento, mas a algum tipo de racismo, discriminação, porque és feio ou não és parente do Ben Affleck.

Detalhes aparte, há coisas que realmente importam nesta noite de momentos memoráveis. Falo, obviamente, das ofertas de luxo que são oferecidas aos nomeados, que redundantemente já palitam os dentes dos seus poodles com notas de 100$. Lembro-me dos tempos áureos em que de tiaras de safiras a meias de ouro tudo era válido para os famosos. Este ano, ao deparar-me com a lista de ofertas, fico com clara inveja ao incluírem estâncias em ilhas privadas e nos resorts mais exclusivos do mundo. Mas, subitamente, passamos para sacas de maçãs, bolos de figo, kit de primeiros socorros e um bálsamo labial. Nem vou entrar no discurso óbvio na cabeça de qualquer ser vivo com pensamento lógico que é, “porque raio é que não dão essas maças a alguém que efectivamente precise delas?”, mas a sério, maçãs? Não há Mini Preço ao pé das casas dos famosos? Os bolos ainda compreendo porque se perdes vais querer afogar as mágoas. O kit de primeiros socorros irá de luxo para a Meryl Streep caso algum ano não ganhe algo, vai-lhe dar um fanico de certeza, que ela já se põe de pé ao lado do palco à espera que a chamem todos os anos. A imagem da sua cara de surpresa é um loop com anos (está em VHS). E o bálsamo, olha, depois de uma saca de maçãs um bálsamo nem parece disparatado. É todo um je ne sais quoi imaginar Emma Stone vestida de Oscar de la Renta e carrinho de compras porque não tem braços para levar tamanha quantidade de maçãs sem se desconjuntar.

Este é um pequeno texto motivador, pois quero que olhem para a vossa fruteira e ao vislumbrar aquela maçã bolorenta que está aí parada desde aquele dia que foram ao supermercado e se fizeram crer que iam ser saudáveis, pensem, sou digno de um Óscar.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O Bibelô da Humanidade

Avó que se prese tem o conjunto completo de louça de folha de couve, a fazer pandã com bibelôs duvidosos a ganhar pó nas estantes mais altas da sala de jantar. Se isto é um facto por si só, não deveria ser de espantar que as pirâmides de Gizé, sendo um marco histórico inigualável, tão válido como a travessa feia da avó, estejam cheias de pó.

Fui ao Egipto no ano passado, numa data muito bem escalonada entre atentados, desvios de aviões da Egiptair e rebeliões que explodiam monumentos históricos como bombinhas de mau cheiro.  Foi a minha primeira viagem com guia, pois não havia outra maneira de circular no país nesse período. Estou acostumada a fazer o que me apetece e guiar-me pelo meu instinto, porém, o meu instinto dizia para arrojar uma cadeira à cara do guia. Era a criatura mais racista, machista e outros -istas que podem imaginar, mas felizmente não é representação de todos os egípcios pois conhecemos alguns incríveis, nomeadamente o jovem que trabalhava na Pizza Hut do Cairo.

A primeira percepção do Cairo é: “Vou morrer aqui”. Um pó que cerra o céu num tom amarelado, ruído ensurdecedor (a buzina dos carros é utilizada como chamada de atenção, pisca, saudação e actividade didáctica), discussões violentas em plena “estrada” (caminho e sentido direccional determinado pela primeira pessoa a conduzir nesse dia), lixo acumulado por entre os quais crianças jogam e, tudo isto, entre tanques de guerra carregados de metralhadoras e homens com bazucas nos telhados de prédios familiares. Não aconselho o Cairo como destino a ninguém por mais de um dia. Meramente o suficiente para desfrutar das pirâmides que sem duvida que valem a pena ver e um par de outros sítios curiosos.

O Egipto começa a interessar com o descer do Nilo em cruzeiro, cidades magnificas cheias de história e monumentos de dimensões inumanas. Os primeiros dias são de incontrolável espanto e encanto, mas após 5 dias de calor capaz de cozinhar uma lasanha ao sol e trinta e três templos o teu cérebro dá mensagem de erro e só vês estática. São calhaus a monte a um certo ponto e tentas ser agradecida pela oportunidade de estar ali e vivenciar historia, mas na realidade estás a fazer fotos aos hieróglifos que parecem aliens para provar aos teus amigos que aquilo foi obra extraterrestre. Aparte, sendo mulher, a única opção é entrar nos templos tapadita, mas com os 50 graus celsius à sombra, entre morrer de combustão espontânea por ter ofendido um Deus com o vislumbre da minha jugular ou morrer cozida lentamente debaixo de roupa, volta e meia salta o herege em nós e que venha o Deus!

Abu Simbel era o sitio que eu mais queria visitar, a sua história fascinava-me. Porém, o fascínio morre um pouco com a viagem de 6h de carro entre o absoluto deserto às 4 da manhã, como se de um intento de fugir do país se tratasse, com mais 50 carros, pois por dia a entrada é limitada. Quando chegas tudo vale a pena! Até que cais em ti e te recordas que terás que voltar para trás outras 6 horas, depois de uma mera hora aí.

Voltamos para o Cairo para encerrar esta viagem, agora que odiamos pó, os cristãos por terem arruinado tantos templos e o ser vivo em geral por profanar tantas peças únicas com os seus nomes forçados em pedra com uma bic, e na nossa ultima noite vemos o espectáculo de luz e som das pirâmides. O designado, “melhor espectáculo do Cairo” foi o equivalente a ter três fulanos a correr aos gritos, com lanternas apontadas às pirâmides e outros dois a fazerem com as mãos sombras de coelhinhos. A cereja no topo do bolo.

A viagem ao Egipto valeu a pena e foi uma experiência muito interessante, mas não a faria uma segunda vez sem um motivo plausível. Basicamente, se a entrega do Nobel da Paz fosse no Egipto e eu o ganhasse, pedia que mo mandassem por Fedex.
[Para quem queira ir ao Egipto e saber detalhes mais práticos podem enviar um email que tenho todo o gosto em ajudar e ser menos idiota]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Profissão de Risco

O suor frio que se sente na tempora, o coração a palpitar velozmente como se sobre a língua estivesse e a pressão constante de quem arrisca a sua vida em prol de um bem maior: sobreviver. Os pescadores de caranguejos do Alasca dizem ter a profissão mais arriscada do mundo, mas a realidade é que eles nunca se sentaram de frente a um computador, com o rato com luz vermelha pimpona a brilhar e os auscultadores com mais força áudio que o Pavilhão Atlântico. Profissão de risco, é ser Gamer.

Um Gamer é um ser que se senta ao computador com uma camara apontada à penca e [pausa dramática]… joga. “Ah mas não podias gastar o teu tempo a jogar em vez de ver um individuo durante horas a jogar?” Podias…mas não era a mesma coisa. Nem todos os seres vivos foram talhados para lidar com o stress e risco desta profissão, por isso contentam-se com a emoção de os ver, como ver um gatinho a ser salvo de uma arvore por um bombeiro.

Se eu em cachopa tivesse dito à minha mãe, “…cara entidade maternal, o meu propósito nesta vida que tu concebeste é ficar de rabo alapado à cadeira o dia inteiro e esperar que milhares me sigam por eu jogar Candy Crush”, a minha mãe tinha-me atirado de uma ravina como um espartano faria a um filho que saísse defeituoso. Se alguém me disser que me paga para eu gritar que nem uma menina por cada fantasminha que apareça no ecrã, eu juro que seria a Marey Carey dos Gamers.

Venham dai os pudicos protetores desta profissão atirar-me agora com discos externos à cabeça, “Ah ser Gamer é um trabalho a sério”. Está bem. Não obstante, ser varredor de rua também é, porque senão estaríamos enterrados em excremento, e não é por isso que têm 40 mil seguidores, que lhes pedem autógrafos e ficam a olhar fixamente para eles a ver qual será o próximo movimento da vassoura, como salta a poça de agua com o carrinho do lixo ou como derrota a implacável pastilha rosa no asfalto.

Antes só tinham seguidores os vídeos das senhoras que se desnudavam para receber o carteiro, canalizador ou funcionário da EMEL, hoje em dia a ação está toda no vibrar do rato. O futuro assusta-me.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Cor Especial

Acredito na força das palavras e os seus significados. Nada deveria ser dito em vão e pelo bel prazer de proferir sons se estes não têm sentido algum. Por este motivo sou apologista que Los Del Rio, devem um favor à humanidade em prol de fazer jus ao seu nome e se deveriam atirar ao rio com um Opel Corsa amarrado aos pés.

Resido, actualmente, em Sevilha, cidade que tem “…un color especial” de acordo com estes Shakespeares dos anos 80. Pois, tudo me leva a crer que estes senhores sofrem de daltonismo, ou que a virgem lhes caiu na cabeça a meio da procissão em petizes e lá se foi o raciocínio lógico. O mais perto de uma cor especial que vivenciei nos últimos 8 meses foram os faróis tom néon quase fundido do eléctrico que se move à velocidade estonteante de 10km/h pelo centro da cidade, incapaz de abalroar um pombo nem com boas intenções.

Sevilha é uma cidade cheia de carisma, que facilmente se absorve e nos extenua num par de horas. É uma daquelas cidades com magia, onde se um autocarro turístico cessa movimento para abastecer e segue o seu caminho, ninguém chora nem barafusta. Cuba do Alentejo é uma cidade cosmopolita ao lado disto, só ninguém canta sobre ela porque vai bem ao português desprovido da possibilidade de viajar a Havana, ter onde fazer a foto para o Facebook ao lado do sinal de autoestrada que menciona Cuba. Um segredo dos deuses ponhamos assim.

Esta língua abençoada pelos deuses não se assemelha a castelhano nem por casualidade. Soa a um espanhol asmático, filho de uma madeirense gaga, a tentar gritar Klingon enquanto corre para apanhar o comboio [referencia a Star Trek para quem perdeu o fio à meada]. Agora imaginem este som em repetição e tom de procissão pelas ruas da cidade a cada dois dias. Melodia magnifica para acompanhar com incenso de odor tão forte que é capaz de encobrir o cheiro a excrementos de cavalo que benze a cidade e dos corpos moribundos que jazem nos recantos por inalação de tanto incenso.

Uma cidade magnifica onde se pode usufruir da temperatura amena de 50 graus à sombra durante todo o verão. Onde um chafariz é um oásis pois ninguém pensou que seria boa ideia ter piscinas neste desterro. Em Sevilha tenho explorado a vontade pululante de deixar de viver a cada passo e ver a arte de dormir como um desporto de risco, pois podes morrer afogado em suor. É como ser bombeiro, mas sem a parte altruísta, é apenas o gostinho mórbido de andar pelas chamas ardentes como ato de sobrevivência e os outros que se lixem.

Sevilha, terra cor de labaredas, onde os santos nunca são suficientes e o imigrante português desespera entre tapas e inexistência de vocabulário lógico. O local de férias de sonho para núcleos familiares que tenham herdeiros boçais que queiram ver sucumbir em bons modos em pedidos de regresso a casa.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Já chega...

[Texto de auto compaixão, meio lamecho-meloso e incapaz de representar a absurdidade usual neste blog]
Acho que me perdi. Perdi-me no quotidiano, na rotina e fundi-me com a minha profissão como se apenas disso se tratasse. Mudar de país, deixar tudo para trás, começar do zero, novas caras, novas responsabilidades, aquela língua, aqueles costumes. Perdi-me.

Comecei a pensar, sentir, sonhar, respirar em Espanhol. Não por o preferir ao português que me viu crescer, mas porque me perdi. O meu cérebro fazia o constante esforço de tentar traduzir tudo para seguir o raciocínio e as conversas. Acabou por arrebatar o que mais me libertava, a minha língua. Como passou isto? Como voou o tempo tão rápido? Como passaram dois anos da minha vida sem que escrevesse uma frase que fosse minha? Perdi-me dos livros, dos filmes, das séries, perdi-me de mim mesma.

Encontrava-me nas minhas viagens, nos meus fragmentos de realidade alternativa, onde sonhava, criava novos planos e ideais, onde me prometia que as coisas iam mudar. Mas como uma relação de abuso ao voltar convencia-me da ideia que aquilo é tudo e que não me sobra tempo para mais. Turnos de 14 horas e seguia, seria aquilo uma droga?

“Não podes viver cada dia a esperar as próximas férias, tens que ser tu mesma todos os dias, precisas de uma motivação diária” disse-me a mais sábia das mães. Por isso volto. Por isso peço desculpa pela ausência. Não houve despedida, não houve visitas cordiais. Havia bisbilhotice de saudade, mas a vergonha de uma saída que nem eu podia justificar impedia-me de congratular a quem continuava a partilhar a arte do bom escrever.


Perdi-me. Mas já chega. Voltei.