terça-feira, 24 de março de 2015

Pousada Desamparem-me a Loja

Era eu pequena e brincava na praia, quando ouvi ao longe pela primeira vez uma mescla de português e francês, que me levou a perguntar à minha progenitora que défice linguístico teriam aquelas pessoas e se seriam elas da Amadora (outro dialecto que me confundia tremendamente enquanto petiz). Foi nessa altura que muitas histórias de imigrantes me foram contadas, como enviavam dinheiro para Portugal no final do mês, como queriam parecer bem na vida e por vezes passavam tão mal no estrangeiro. Depois de sete meses fora do meu país sinto-me a falar como se tivesse nascido em Badajoz, mas com um atraso mental que me impede de ser fluente em qualquer das línguas. Porém os meus amigos e conhecidos nem esperam que chegue a casa montada num BMW, vêm directamente de férias cá para casa para testar o meu rendimento e limites de paciência. A minha casa tornou-se uma pousada.

Se eu tivesse ido viver para a Tanzânia era ver quantas almas tinham saudades minhas! Como estou numa cidade interessante tenho mais seguidores que Jesus. Todas as semanas me aparece uma alma de trouxa debaixo do braço para pernoitar um par de noites cá em casa, como se eu ganhasse para dar banho a esta gente toda. Não tenho eu filhos para ter campistas? Então mas eu tenho cara de comunista e a minha casa cara de Avante? Nesta casa o sol não brilha para todos!

Eu gosto de receber pessoas em casa. Por curtos períodos de tempo, com hábitos higiénicos perfeitos e calados que nem cepos. Estou aqui para trabalhar e não é de guia turística de gente sem fundos para financiar férias no estrangeiro. Não obstante, cada individuo que me invade a casa consegue ser pior que o anterior. As pessoas são todas tão agradáveis quando não temos que as ver de pijama. Defecar com a porta fechada, não parecer uma traineira que sorve enquanto dorme e não tomar banhos de três horas enquanto há alguém que tem que ir trabalhar para pagar o absurdo de conta de agua que terá no fim do mês, são detalhes importantes quando pedimos o favor de pernoitar na casa de outrem.

Acordem-se de não imigrar, que os tempos mudaram e agora em comparação com a situação económica portuguesa todos pensam que podem comer caviar na casa do imigrante e ele banca com prazer. Se tiverem que imigrar, não digam a ninguém, que as três pessoas que repararem vão ser as merecedoras de passar tempo no vosso sofá. As restantes, que não vos deixaram copiar no teste da terceira classe, que nunca foram aquele café combinado no Chiado e que não vos convidaram para o seu casamento, só se vão lembrar quando apanharem uma viagem low cost.

domingo, 22 de março de 2015

Mudar

“As pessoas mudam”. É das maiores mentiras criadas pela humanidade, de mãos dadas com os refrigerantes light e a parte azul das borrachas que apaga a tinta da esferográfica. As pessoas podem mudar os seus hábitos alimentícios, a sua cor de cabelo, até treinar uma gargalhada menos estridente que não os leve a ser socados em praça pública, porém, alguém com mau carácter permanecerá alguém de mau carácter.

Como camaleões, também nós, humanos, nos conseguimos adaptar ao nosso meio ambiente. Muitos são os indivíduos que se camuflam de alguém mudado, quando na realidade continua a gostar de saltar de ramo em ramo. No que toca a botânica não existe uma “última coca-cola do deserto”. Resta-vos ganhar amor-próprio e arranjar uma companhia mais agradável e que vos adicione elementos à vida, ao invés de vos levar à loucura de maneira lenta e metódica. Sim, porque vocês vão pensar que estão a ser intriguistas ou simplesmente loucas (algumas de vocês são, nem vale a pena ilibarem-se com isto), quando na realidade estão a ser manipuladas como aquela batata frita gigante que vem no pacote e vamos mantendo no fundo à espera para ser comida no fim.

Caríssimos, excepto os genuinamente loucos, caso estejam numa relação que não vos faz sorrir diariamente e ter segurança em vocês enquanto indivíduos e parte de algo maior, vão cantar fado para outra freguesia, que há muitas guitarras que vos vão acompanhar. Aquando do processo de desmame limitem-se a esperar que o karma apanhe o sacana e o deixe ganhar fungos em partes impróprias, que haja um apocalipse zombie para que seja plausível dar-lhe um tiro na testa, ou simplesmente que passe a eternidade na amargura da solidão (ou podem simplesmente não ser dramáticos, seguir a vossa vida, ter três filhos, uma carreira de sucesso e um pedaço de mau caminho como marido), consoante o vosso nível de loucura mencionado anteriormente.

segunda-feira, 9 de março de 2015

ABC de Voar

Entrar espaçadamente, de olhos postos na senhora de laço torto e saia amarrotada que tenta esboçar um sorriso que não demonstre o quão errónea foi a sua escolha profissional. Sorrimos de volta, com as sobrancelhas arqueadas de compaixão e devido ao aroma duvidoso que paira no ar. Assim começam todas as viagens de avião. Este ritual cortês que nos leva a percorrer o corredor numérico do avião como que parte de uma procissão lenta, entediante e com demasiados sovacos a roçar-nos a face ao tentar colocar os pertences nos compartimentos superiores.

Gosto de viagens pacificas, preferencialmente junto à janela onde posso deixar-me levar pelo sono que me avassala em voo, sem ter que adormecer no ombro de uma senhora nos seus quarentas que não tem contacto físico desde os quinze ou um senhor que cheira a pataniscas de bacalhau. Devia haver regras de voo que caso não aplicadas as pessoas envolvidas nunca mais poderiam pôr o pé num avião. Eu não me importo de ir à janela graças a uma bexiga com anos de treino e zen como nunca se viu uma bexiga antes. Caso eu sofresse de incontinência a minha opção seria um lugar no corredor. Claro que as pessoas nunca pensam nisso, calculando que é perfeitamente plausível pedir a cada meia hora a todos da sua fila que se levantem para que este possa ir abençoar a sanita com duas gotinhas de falso alarme, ou os mais aventureiros que gostam de trepar por cima dos apoios de braços pedindo com licença e baloiçando os genitais na nossa cara.

Deveria haver uma aplicação que descortinasse a questão de se o seu companheiro de fila quer falar consigo ou não. Caso eu esteja a chorar que nem uma madalena a probabilidade de querer ouvir a história do seu gato chamado Cherri é mínima. Já para não referir os investimentos que fazem em detectores de metais e raio x, mas ninguém investe num desodorizante obrigatório pré embarque.

Quando sentados e confortáveis nos nossos acentos, chega a altura em que todos negligenciam as boas maneiras que as nossas ricas mães nos ensinaram e ignoramos a jovem do laço torto enquanto ela repete a instrução de como abrir e fechar um cinto, equivalente ao Cirque du Soleil dos símios. Oiçam o que vos digo: prestem-lhes atenção! Não vão aprender nada de novo provavelmente, mas garanto-vos que um dia uma destas hospedeiras vai sacar de uma metralhadora e limpar o sebo a todos os que a ignoraram enquanto desempenhava o seu ganha pão e eu, moça de boas famílias, que mantém um desconfortável contacto visual para não adormecer, sorri e até fiz sinais afirmativos com os meus polegares vou ser a única a sobreviver (espero que o piloto também).

A brincar com o nosso palato vem a sandes capaz de intrigar o mais astuto com o seu conteúdo, que nos faz rever o nosso estatuto de pobre enquanto partimos a colher a tentar comer a gelatina ressequida. A menos que seja uma viagem low cost e aí é bom que saquem da marmita ou gostem de pagar por M&Ms inflacionados. Para finalizar a nossa viagem de sonho, onde ouvimos um futuro tenor de 13 meses a afinar, sentimos a cadeira da frente a impedir-nos de respirar em prol do idiota que nela se senta e nos apercebemos que a freira que está ao nosso lado nos arrancou um pedaço do braço entre um Pai Nosso e uma Ave Maria com os nervos, finalmente, aterramos. Mais uma vez todos ignoram os sinais e pedidos para permanecer quietos e com telemóveis desligados, como seres de idiotice sem par e actividade cerebral de uma limitação fora do comum, ao som das rodas a tocar o chão já estão todos em pé, de telemóvel em punho e a tentar retirar a mala na ausência de espaço que é o corredor cheio de indivíduos que esperam que o avião pare efectivamente. Vamos ser realistas…estão com pressa para quê? Para se aperceberem que não há ninguém à vossa espera no aeroporto? Voaram 4 horas, podem ficar sentados mais dois minutos ou a Lassie dá uma volta no caixão?

Lembrem-se de respeitar o trabalho de quem voa para ganhar a vida, não precisam de aplausos como constatação que fizeram o seu trabalho sem chacinar 200 pessoas, mas precisam que como seres humanos minimamente dotados de inteligência aprendam a sentar e ficar. Boas viagens, bons meninos!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Não tem nem cara para um estalo

Acordar e contemplar a imagem da minha cara caso eu fosse projectada de um autocarro a alta velocidade contra um poste. Ora este deve ter sido o pensamento que usurpou o raciocínio lógico da Renée Zellweger e, logo em seguida, de Uma Thurman com uma maquilhagem arrancada a ferros. Dá Deus boas feições a quem não tem cérebro. A jovem dinâmica Uma Thurman até teve um sinal divino chamado Renée a dar a cara ao público (mais valia ter ficado na cave partilhada com o serial killer do Texas Chainsaw Massacre), que foi como um pelotão de pequenas dançarinas chinesas a acenar bandeiras onde se via escrito “estupidez sacra”.

Podem alegar que estava no seu direito e que mais vale estar agora no corpo em que se sente bem e que sempre quis. Mas será que ela queria realmente parecer uma bela aguarela pintada na mais fina tela, sobre a qual foi derramado um litro de diluente pelas mãos trapalhonas de uma senhora vesga? Se esse é o caso o cirurgião plástico foi brilhante a desempenhar o seu trabalho, caso contrário queimem o homem em praça pública!

Será Hollywood tão pequeno que elas não tiveram o prazer de conhecer o Mickey Rourke? Aquela cara não teve origem no Wrestler, mais valia que ele tivesse a desculpa de ter levado no focinho até ficar naquele estado. Este homem, mais metade da equipa dos Mercenários, é o exemplo perfeito de como cirurgia estética em excesso dá mau resultado.

Se esta moda pega, nem o facebook nos vai ajudar, porque vamos deixar de reconhecer as pessoas que nos rodeiam. A menos que, tal como eu, só tenham amigos pobres e aí não têm com o que se preocupar.