segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Serviço Público da Escola da Vida

“O amor”, patrocinado pela Escola da Vida. Esqueçam tudo o que vos foi ensinado e deixem de iludir as novas gerações com amores à primeira vista, que são esses que levam a depressões profundas e corpos a boiar no Guadiana. A verdade é que todos devíamos ter um “professor”, à temática do amor, manco do lado direito, traficante de droga nos tempos livres e alcoólico a tempo inteiro, com um cérebro que faria concorrência a um pêro num programa de cultura geral e os hábitos de higiene de um recluso que tem medo de se agachar para apanhar o sabão.

O nosso primeiro amor devia reunir o maior número de traços de qualidade precária quanto possível e deviam ser os nossos pais a fazer o arranjinho. Em primeiro lugar se sobrevivemos a uma relação com um cepo disfuncional, aguentamos tudo. Quando a relação tem um fim, o nosso ego ganha toda uma iluminação própria, pois vemos que qualquer opção seria melhor que aquilo, até o Zé do talho que não tem o olho direito por ter testado se o lápis estava afiado no globo ocular. Não haveria traições, pois já todas as mentiras foram usadas e vocês adquirem a perspicácia de um investigador criminal e avistam à distância os efeitos de todas as drogas no mercado com mais rapidez que uma rua em saldos.

Há, não obstante, a excepção do primeiro amor que se revela “perfeito”. Este, em vias de extinção que já nem todos vivemos numa terriola com vinte habitantes e uma vaca com sete patas para o resto da vida. É louvável aguentar o mesmo ser vivo uma vida. É como só comer atum em lata. Passar por corredores imensos de peixe fresco e belos nacos de carne e pensar, “Nã! Bom, bom vai ser chegar a casa e comer atum”. Atenção, eu adoro atum, mas só assumo isso com determinação porque já enfiei o dente num belo naco e vi o que me faz aos intestinos. Estas relações tiradas dos contos de fada enlatados, só me assustam na medida em que se um do casal assa a pipoca, ou enche o parceiro de cera e o senta a um canto da casa para o idolatrar para a vida, ou o mata com uma concha de sopa por todos os anos de frustração acumulada.

Venho por este meio, como acto de serviço público, sugerir que procurem nas redes sociais ou próprio berçário, o pretendente para os vossos filhos mais asqueroso e bardajão possível, escolha não falta (há sempre o puto ranhoso do berçário). Vão construir nos vossos herdeiros um carácter forte e personalidade sem par. Isto é, se eles não cederem aos vícios das metanfetamínas ou abandonem a prática de vocabulário básico. Caso este seja o caso, mais vale parirem outra criança, não perderam grande coisa. Se esse é o resultado de um arranjinho paternal, sozinho no mundo ou não iria sair do sofá até aos 40 anos ou estaria a roubar o cobre das portas dos vizinhos.


Têm nas vossas mãos a possibilidade de não terem genros a serem atacados na padaria com pão de forma, enteadas cujo ponto alto do dia é o silêncio que se encontra dentro da bagageira do Mini onde se esconde dos seus filhos odiosos e, em traços gerais, filhos energumenos. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Pousa isso

O momento de magia incomparável que é o nascimento do teu filho está a decorrer e em vez de aproveitares cada segundo estás a ver tudo pelo ecrã do telemóvel. Tens que alinhar a câmara de maneira a que possas depois meter o vídeo nas redes sociais sem ferir susceptibilidades. Os primeiros minutos do encontro tiveram silêncios constrangedores, mais vale começar já a procurar alternativas no Tinder. A comida chegou à mesa, quer seja uma pizza saída do congelador ou o prato mais gourmet que te vai passar pelo estreito, frio é que ele se come bem, pois a prioridade é tirar uma fotografia, meter uns efeitos, divulga-la e só dar uma garfada após responder ao primeiro par de comentários. A tua namorada está linda hoje, podias olhar para ela que está ao teu lado no sofá e dizer-lho, mas nada é mais verdadeiro que um like no facebook. Pousa isso.

Estamos numa era de tecnologia. Já não precisamos de ter músculo no dedo para rodar os números no telefone, uma cadeira para conversas longas pois o fio é curto e saber o último nome dos nossos amigos para os procurar nas páginas amarelas. Acabaram os gritos de, “desliga a internet que eu vou ligar à tia!”. Já lá vai o tempo em que esperávamos uma semana para ver relevados rolos queimados e sorrisos desfocados. Ou receber cartas de anúncio de gravidez, após a criança já estar a terminar o ensino básico.

Vivemos numa era com todos os trunfos para sermos pessoas sociáveis, comunicarmos com os que amamos e descobrir amores por detrás de caras desconhecidas. Porém, ninguém "o" pousa. Estamos todos demasiado ocupados a olhar para ecrãs para ver o que se passa à volta. Antigamente os pescoços rodavam. Estão demasiado ocupados a fazer likes e mudar as fotografias de perfil para o melhor ângulo ou para frases em prol de revoltas que não conhecem o significado.

A menos que a água se transforme em vinho no teu copo, estás a gastar tempo em tirar a fotografia. A menos que o teu cabelo vá sofrer de combustão espontânea em segundos e as tuas amigas o queiram soprar até à exaustão, estás a gastar tempo em tirar a fotografia. Sou pró fotografia, mas mais pró vida. Os amigos não se medem por likes e estamos a cegar pelo que as redes sociais nos dizem. Nem todos estão felizes e bem, mas ninguém mete fotografias do patrão a mandar-nos abaixo ou da discussão que tiveram com o namorado pela manhã, a menos que queiram frases de piedade porque a falta de amor-próprio não tem mão no ego.

A tecnologia deixa-nos alcançar o mundo, mas não se esqueçam de pousa-la. Porque um dia, tal como um VHS vocês não vão funcionar com nenhum aparelho actual e mesmo com histórias por contar, se não tiverem ninguém para as ouvir, é como se não existissem.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Parar é morrer

Aquele que passa uma vida sem viajar, nunca aprende a viver. Sempre tive um fascínio inexplicável pelo mundo e o que ele teria para me oferecer. Até hoje não sei qual é o meu sonho profissional, não sei “o que quero ser”, só sei que quero viajar e o trabalho que me proporcionar isso será o certo. Tendo em consideração que não uso notas de 100 como forro das calças, costumo usar as minhas poupanças para aproveitar o que as novas cidades têm para me oferecer, deixando para segundo plano a viagem e a acomodação.

Se a companhia aérea a fazer os melhores preços tiver uma frota composta de carrinhas de caixa aberta com asas, onde as hospedeiras são cabras do monte e há uma grande probabilidade do piloto estar em automático pois o humano responsável está inconsciente há três meses e ninguém deu por isso porque não lhe pagavam de qualquer maneira…perfeito! Não que tenha um desejo de morte prematura, são prioridades. Há companhias aéreas em que se paga muito mais para ter direito a uma sandes de salpicão com bolor, hospedeiras com interacção digna de uma cabra do monte e uma criança que tenta afinar o timbre durante 5 horas consecutivas.

O mesmo acontece com os Hostels. Lisboa tem ganho imensos prémios com o passar dos anos, graças a ser a cidade com os melhores Hostels do mundo. São verdadeiramente melhores que muitos hotéis. A realidade é que Lisboa é uma excepção e nem tudo são rosas. Não precisamos de ir ao extremo dos filmes de terror em que metade dos viajantes é morto à paulada por grupos de rufias com tramp stamps a condizer. O real filme de terror é adormecer num quarto compartido com 40 outros indivíduos. Há quem chame espaços semelhantes de prisão ou bunker. Nestes, a grande maioria sofre de flatulência, dois são sonâmbulos e um zulo mentecapto que não conhece o significado de desodorizante nos acorda com festinhas na face e a presença de um pombo morto na cama como prova de apreço e possível começo de relação matrimonial.

Se não gostam de ir ao ginásio pelos balneários, então esqueçam toda a experiência de um Hostel pois há uma grande probabilidade de encontrarem a miúda do The Ring presa no ralo da banheira. Tendo em consideração o preço que se paga por uma cama, se terminarmos a experiência sem herpes ou hepatite, é extremamente positivo.

O mundo das viagens foi feito para os económicos (vá, pobres) e para os ricos, os do meio-termo acabam por nunca aproveitar inteiramente, porque estão ocupados a seguir os roteiros turísticos estabelecidos pela agência. Os pobres até na casa dos locais comem se for o caso e os ricos conseguem voar a dormir, dormir nos melhores hotéis, dormir no Taj Mahal se lhes der na gana (ninguém diria que eu gosto de dormir, certo?). Viajar é algo que tem que ser vivido intensamente, quer seja numa carruagem sobrepovoada, com o sovaco de um polaco a servir de almofada, com um guia turístico chamado Fánã ou a babar champanhe num cadeirão de veludo a bordo de um jacto particular, o que conta é não parar. Parar é morrer!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Tripas a la pot pourri

Há três tipos de pessoas no mundo: as que compram livros que vêm em saquinhos que cheiram a pot pourri e oferecem saquetas de chá; as que apenas compram o livro se na primeira página houver indícios que alguém morreu ou está para morrer de maneira macabra; e as pessoas normais. Não que não seja apreciadora de chá, mas capas de gente quase a beijar-se à chuva fazem-me levantar questões sobre o mercado dos guarda chuvas e de pastas dentífricas. Como ser normal não é uma opção, enquadro-me orgulhosamente na segunda categoria. Caso, tal como eu, sejam “deste tipo de gente” e isso levante dúvidas e exaltações perante a sociedade que vos rodeia, criem uma história da vossa infância, alternativa e traumática, onde os vossos pais usavam donuts como pega-monstros e a vossa testa como parede. Automaticamente, torna-se perfeitamente aceitável gostar de sangue a jorrar pelas paredes.

Livros românticos são a vertente silenciosa e mais higiénica de ter 40 gatos, livros de fantasia são a antevisão de um futuro com problemas de coluna (nem Jesus Cristo precisou de tantos livros do tamanho das páginas amarelas para contar a história da sua vida), livros de auto ajuda ajudam o bolso de quem os escreveu e ensinam elementos fundamentais da vida como “não se esqueçam de respirar”, livros cómicos são a constatação que somos intelectualmente limitados e não percebemos a piada ou o autor não tem efectivamente piada e os livros do tipo policial são uma maneira subtil de planear a eventualidade da nossa entidade patronal nos irritar e ser necessário tomar medidas que envolvam um saco do lixo e um rio. Todo o tipo de livros se adequa a um tipo de pessoa e altura da nossa vida, mas é impossível não fazer uma leitura mental de alguém através do que está na sua mesinha de cabeceira. Se o seu amigo tem o Hannibal ao lado de livros de culinária, se calhar é melhor não pernoitar nessa casa, por outro lado se a sua namorada tiver acabado de ler toda a colecção do “Íamo-nos beijando mas eu gosto é de te sentir a arfar” e agora está a ler o ultimo livro sobre serial killers de um autor Sueco, ela não só vai terminar a relação, como viu as mensagens da Maria Tatiana e o teu corpo vai desaparecer misteriosamente.

Hoje em dia, com tantas séries e filmes, por vezes as pessoas esquecem-se de se perder num bom livro. O cheiro de páginas nunca antes esfolheadas e a sensação de sermos o actor e realizador daquele filme. Os livros são bons professores, companheiros e bases para copo. Eu sou das que aprecia mentes perturbadas e longos passeios à beira mar. Falta saber o que está na tua cabeceira ao adormecer.

[Escrito para o número 2 da Revista Digital do blog Flames]