sexta-feira, 1 de maio de 2015

Felicidade aos molhos

As pessoas demasiado felizes fazem-me espécie. Terão que sorrir a tempo inteiro para expressar felicidade ou terão usado daqueles aparelhos que o arame dá a volta à cabeça por demasiados anos e agora estão a mostrar até os podres por sofrerem de compensação? Pode ser que tenham morto alguém e sejam extremamente sádicos, fazer cortes à Joker parece doloroso, mais vale forçar o sorriso a tempo inteiro. Pode ser que só tenham o maxilar deslocado?

Cada indivíduo devia ter, por lei, direito a um máximo de quatro dias de pura felicidade consecutivos. Mais que este período de tempo sem uma intoxicação alimentar ou a sua série favorita ser cancelada não é exequível. Estas pessoas deviam levar com um barrote de madeira no focinho, só porque me irritam. Assumo de imediato que são tão estúpidos que não se aperceberam que têm familiares a morrerem, existe aquecimento global e fizeram demasiados filmes do SAW.

As pessoas demasiado felizes deviam ser banidas da via pública, expatriadas todas para a Antárctida para animar aquilo. Aqui só empatam, de mãos dadas com os seus três filhos à saída do metro, bloqueando a passagem às dezenas de pessoas que estão mal dispostas e a ir trabalhar contra vontade. A fazer posts consecutivos nas redes sociais com montagens do amor da sua vida, que todos nós sabemos que lhe há-de dar com uma cadeira encima por também este se fartar de aturar tamanha felicidade. Já para não dizer que não são de confiança. O Hanibal Lecter sorria que era uma coisa parva e era vê-lo comer o apêndice do carteiro ao pequeno-almoço.

Caríssimos, está cientificamente provado que não existe felicidade absoluta na totalidade da nossa existência na terra. Parem de sorrir em lugares públicos onde todos estão miseráveis. Chega de sorrir em fotos de casamento, isso são dois anos e estão divorciados. Chega de sorrir no carro a caminho do trabalho, a taxa de desemprego é crescente, não sabes se estarás a conduzir para o teu último dia de trabalho. Ser miserável é mais in e recebe mais comentários de facebook.
 

[Vá, agora tratem de ser felizes…um bom fim de semana]

terça-feira, 24 de março de 2015

Pousada Desamparem-me a Loja

Era eu pequena e brincava na praia, quando ouvi ao longe pela primeira vez uma mescla de português e francês, que me levou a perguntar à minha progenitora que défice linguístico teriam aquelas pessoas e se seriam elas da Amadora (outro dialecto que me confundia tremendamente enquanto petiz). Foi nessa altura que muitas histórias de imigrantes me foram contadas, como enviavam dinheiro para Portugal no final do mês, como queriam parecer bem na vida e por vezes passavam tão mal no estrangeiro. Depois de sete meses fora do meu país sinto-me a falar como se tivesse nascido em Badajoz, mas com um atraso mental que me impede de ser fluente em qualquer das línguas. Porém os meus amigos e conhecidos nem esperam que chegue a casa montada num BMW, vêm directamente de férias cá para casa para testar o meu rendimento e limites de paciência. A minha casa tornou-se uma pousada.

Se eu tivesse ido viver para a Tanzânia era ver quantas almas tinham saudades minhas! Como estou numa cidade interessante tenho mais seguidores que Jesus. Todas as semanas me aparece uma alma de trouxa debaixo do braço para pernoitar um par de noites cá em casa, como se eu ganhasse para dar banho a esta gente toda. Não tenho eu filhos para ter campistas? Então mas eu tenho cara de comunista e a minha casa cara de Avante? Nesta casa o sol não brilha para todos!

Eu gosto de receber pessoas em casa. Por curtos períodos de tempo, com hábitos higiénicos perfeitos e calados que nem cepos. Estou aqui para trabalhar e não é de guia turística de gente sem fundos para financiar férias no estrangeiro. Não obstante, cada individuo que me invade a casa consegue ser pior que o anterior. As pessoas são todas tão agradáveis quando não temos que as ver de pijama. Defecar com a porta fechada, não parecer uma traineira que sorve enquanto dorme e não tomar banhos de três horas enquanto há alguém que tem que ir trabalhar para pagar o absurdo de conta de agua que terá no fim do mês, são detalhes importantes quando pedimos o favor de pernoitar na casa de outrem.

Acordem-se de não imigrar, que os tempos mudaram e agora em comparação com a situação económica portuguesa todos pensam que podem comer caviar na casa do imigrante e ele banca com prazer. Se tiverem que imigrar, não digam a ninguém, que as três pessoas que repararem vão ser as merecedoras de passar tempo no vosso sofá. As restantes, que não vos deixaram copiar no teste da terceira classe, que nunca foram aquele café combinado no Chiado e que não vos convidaram para o seu casamento, só se vão lembrar quando apanharem uma viagem low cost.

domingo, 22 de março de 2015

Mudar

“As pessoas mudam”. É das maiores mentiras criadas pela humanidade, de mãos dadas com os refrigerantes light e a parte azul das borrachas que apaga a tinta da esferográfica. As pessoas podem mudar os seus hábitos alimentícios, a sua cor de cabelo, até treinar uma gargalhada menos estridente que não os leve a ser socados em praça pública, porém, alguém com mau carácter permanecerá alguém de mau carácter.

Como camaleões, também nós, humanos, nos conseguimos adaptar ao nosso meio ambiente. Muitos são os indivíduos que se camuflam de alguém mudado, quando na realidade continua a gostar de saltar de ramo em ramo. No que toca a botânica não existe uma “última coca-cola do deserto”. Resta-vos ganhar amor-próprio e arranjar uma companhia mais agradável e que vos adicione elementos à vida, ao invés de vos levar à loucura de maneira lenta e metódica. Sim, porque vocês vão pensar que estão a ser intriguistas ou simplesmente loucas (algumas de vocês são, nem vale a pena ilibarem-se com isto), quando na realidade estão a ser manipuladas como aquela batata frita gigante que vem no pacote e vamos mantendo no fundo à espera para ser comida no fim.

Caríssimos, excepto os genuinamente loucos, caso estejam numa relação que não vos faz sorrir diariamente e ter segurança em vocês enquanto indivíduos e parte de algo maior, vão cantar fado para outra freguesia, que há muitas guitarras que vos vão acompanhar. Aquando do processo de desmame limitem-se a esperar que o karma apanhe o sacana e o deixe ganhar fungos em partes impróprias, que haja um apocalipse zombie para que seja plausível dar-lhe um tiro na testa, ou simplesmente que passe a eternidade na amargura da solidão (ou podem simplesmente não ser dramáticos, seguir a vossa vida, ter três filhos, uma carreira de sucesso e um pedaço de mau caminho como marido), consoante o vosso nível de loucura mencionado anteriormente.

segunda-feira, 9 de março de 2015

ABC de Voar

Entrar espaçadamente, de olhos postos na senhora de laço torto e saia amarrotada que tenta esboçar um sorriso que não demonstre o quão errónea foi a sua escolha profissional. Sorrimos de volta, com as sobrancelhas arqueadas de compaixão e devido ao aroma duvidoso que paira no ar. Assim começam todas as viagens de avião. Este ritual cortês que nos leva a percorrer o corredor numérico do avião como que parte de uma procissão lenta, entediante e com demasiados sovacos a roçar-nos a face ao tentar colocar os pertences nos compartimentos superiores.

Gosto de viagens pacificas, preferencialmente junto à janela onde posso deixar-me levar pelo sono que me avassala em voo, sem ter que adormecer no ombro de uma senhora nos seus quarentas que não tem contacto físico desde os quinze ou um senhor que cheira a pataniscas de bacalhau. Devia haver regras de voo que caso não aplicadas as pessoas envolvidas nunca mais poderiam pôr o pé num avião. Eu não me importo de ir à janela graças a uma bexiga com anos de treino e zen como nunca se viu uma bexiga antes. Caso eu sofresse de incontinência a minha opção seria um lugar no corredor. Claro que as pessoas nunca pensam nisso, calculando que é perfeitamente plausível pedir a cada meia hora a todos da sua fila que se levantem para que este possa ir abençoar a sanita com duas gotinhas de falso alarme, ou os mais aventureiros que gostam de trepar por cima dos apoios de braços pedindo com licença e baloiçando os genitais na nossa cara.

Deveria haver uma aplicação que descortinasse a questão de se o seu companheiro de fila quer falar consigo ou não. Caso eu esteja a chorar que nem uma madalena a probabilidade de querer ouvir a história do seu gato chamado Cherri é mínima. Já para não referir os investimentos que fazem em detectores de metais e raio x, mas ninguém investe num desodorizante obrigatório pré embarque.

Quando sentados e confortáveis nos nossos acentos, chega a altura em que todos negligenciam as boas maneiras que as nossas ricas mães nos ensinaram e ignoramos a jovem do laço torto enquanto ela repete a instrução de como abrir e fechar um cinto, equivalente ao Cirque du Soleil dos símios. Oiçam o que vos digo: prestem-lhes atenção! Não vão aprender nada de novo provavelmente, mas garanto-vos que um dia uma destas hospedeiras vai sacar de uma metralhadora e limpar o sebo a todos os que a ignoraram enquanto desempenhava o seu ganha pão e eu, moça de boas famílias, que mantém um desconfortável contacto visual para não adormecer, sorri e até fiz sinais afirmativos com os meus polegares vou ser a única a sobreviver (espero que o piloto também).

A brincar com o nosso palato vem a sandes capaz de intrigar o mais astuto com o seu conteúdo, que nos faz rever o nosso estatuto de pobre enquanto partimos a colher a tentar comer a gelatina ressequida. A menos que seja uma viagem low cost e aí é bom que saquem da marmita ou gostem de pagar por M&Ms inflacionados. Para finalizar a nossa viagem de sonho, onde ouvimos um futuro tenor de 13 meses a afinar, sentimos a cadeira da frente a impedir-nos de respirar em prol do idiota que nela se senta e nos apercebemos que a freira que está ao nosso lado nos arrancou um pedaço do braço entre um Pai Nosso e uma Ave Maria com os nervos, finalmente, aterramos. Mais uma vez todos ignoram os sinais e pedidos para permanecer quietos e com telemóveis desligados, como seres de idiotice sem par e actividade cerebral de uma limitação fora do comum, ao som das rodas a tocar o chão já estão todos em pé, de telemóvel em punho e a tentar retirar a mala na ausência de espaço que é o corredor cheio de indivíduos que esperam que o avião pare efectivamente. Vamos ser realistas…estão com pressa para quê? Para se aperceberem que não há ninguém à vossa espera no aeroporto? Voaram 4 horas, podem ficar sentados mais dois minutos ou a Lassie dá uma volta no caixão?

Lembrem-se de respeitar o trabalho de quem voa para ganhar a vida, não precisam de aplausos como constatação que fizeram o seu trabalho sem chacinar 200 pessoas, mas precisam que como seres humanos minimamente dotados de inteligência aprendam a sentar e ficar. Boas viagens, bons meninos!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Não tem nem cara para um estalo

Acordar e contemplar a imagem da minha cara caso eu fosse projectada de um autocarro a alta velocidade contra um poste. Ora este deve ter sido o pensamento que usurpou o raciocínio lógico da Renée Zellweger e, logo em seguida, de Uma Thurman com uma maquilhagem arrancada a ferros. Dá Deus boas feições a quem não tem cérebro. A jovem dinâmica Uma Thurman até teve um sinal divino chamado Renée a dar a cara ao público (mais valia ter ficado na cave partilhada com o serial killer do Texas Chainsaw Massacre), que foi como um pelotão de pequenas dançarinas chinesas a acenar bandeiras onde se via escrito “estupidez sacra”.

Podem alegar que estava no seu direito e que mais vale estar agora no corpo em que se sente bem e que sempre quis. Mas será que ela queria realmente parecer uma bela aguarela pintada na mais fina tela, sobre a qual foi derramado um litro de diluente pelas mãos trapalhonas de uma senhora vesga? Se esse é o caso o cirurgião plástico foi brilhante a desempenhar o seu trabalho, caso contrário queimem o homem em praça pública!

Será Hollywood tão pequeno que elas não tiveram o prazer de conhecer o Mickey Rourke? Aquela cara não teve origem no Wrestler, mais valia que ele tivesse a desculpa de ter levado no focinho até ficar naquele estado. Este homem, mais metade da equipa dos Mercenários, é o exemplo perfeito de como cirurgia estética em excesso dá mau resultado.

Se esta moda pega, nem o facebook nos vai ajudar, porque vamos deixar de reconhecer as pessoas que nos rodeiam. A menos que, tal como eu, só tenham amigos pobres e aí não têm com o que se preocupar. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

That escalated quickly...

Leggins com padrão do mapa mundo que coloca a Tanzânia na nossa virilha, casacos verde seco que a cada 10 anos regressam ao centro da moda europeia e parecem ser impingidos como isqueiros de uma utilização por um ciganito no metro, pois todos têm um mesmo que não precisem. Moda. Dizem eles. Os pobretadas como moi não têm dessas modas dignas de rebanho. Para mim, moda é conseguir passar personalidade até através da roupa, ou se não tiver personalidade alguma, andar de pijama o dia todo com a cabeça erguida. Mas agora ser pega está na moda e há a hábito de confundir o mulherio todo como seguidor desta tendência.

Hoje em dia, com intermináveis aplicações para unir indivíduos para praticarem o coito sem haver o debate da manhã seguinte. Esta é uma moda para a qual, tal como os leggins, não tenho talento. Primeiro porque gosto de pequeno-almoço na cama e eu tinha que ser uma acrobata na cama para um caso de uma noite me fazer ovos mexidos, não que seja terrível a fazer amor mas sou mais digna de uma barrita de cereais atirada de outra divisão. Segundo porque vi demasiados filmes de terror e acho sempre que o fulano ou me iria assaltar a casa, ou me cortar às postas e deixar-me em caixas de sapatos. Terceiro, ouvi dizer que há umas doenças que nos fazem arder de zonas que nunca deveriam arder, criar erupções cutâneas onde nem elas queriam estar, ah e morrer. Ai que pudica que eu sou, há protecção e não há possibilidade absolutamente nenhuma que algo mal aconteça. Claro! Pois o Tinder é o melhor a avaliar o estado psicológico humano e Deus nos livre de ter que explicar 9 meses depois que o Joãozinho é filho do nosso indicador direito que foi quem deslizou para a direita.

Sou uma seca, é verdade. Dizem-me várias vezes quando a minha cara se contrai num esgar cada vez que um, “boa noite”, num bar evolui em segundos para um, “para tua casa ou na minha? Que divido com vinte marroquinos, um pastor alemão e possivelmente um sem abrigo?”. Antigamente ir com o primeiro que aparecia era uma profissão bem remunerada. Agora o amor-próprio é tão baixo que um gin e está o negocio fechado e as pernas proporcionalmente abertas.

Não sou de modas, ainda acredito que haverá uma instituição mental onde gente como eu permanece à espera de alguém com quem ver filmes, passear de mãos dadas e que queira ter a seu lado alguém a quem culpar por uma DST. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Palmada na Nalga

As Cinquenta Sombras de Grey, o livro que provocou clamídia a mulheres em todo o mundo devido ao tamanho realismo dos detalhes sórdidos em cada linha e por ser o mais próximo que muitas tiveram de levar umas pancadinhas amorosas não relacionadas com o Benfica perder na Luz, vai agora chegar ao grande ecrã. Com excepção das senhoras que têm toda a colecção Outono – Inverno de chicotes no armário, tratem de não visualizar este filme no cinema. Para quê bater no ceguinho se já leram o livro? É só enxovalhar o vosso psicológico com imagens sexuais que no máximo vão ser reproduzidas com o pacote de pipocas, o vosso homem já deve odiar o livro, ver a performance sexual do actor jeitosinho numa tela gigante só vos vai levar a não ter sorte no quarto por um mês.

Nada mais promissor que uma história de amor e palmadinhas na nalga. Se vos alegra de alguma maneira, todas nós somos altamente sadomasoquistas, simplesmente exploramos os nossos dotes a nível particular e não com um senhor rico e bem parecido, que trabalha em part time no Mestre Macro para manter o stock de fita adesiva e amarras lá em casa.

Pobres não são aqueles que após um acidente sofrem de amnésia (vá é chato…), somos nós que por tamanha estupidez que nos assiste nos auto induzimos longos períodos de amnésia, muitos deles associados a garrafas de Casal Garcia ou tensão pré menstrual, mas outros forçados desde manhã até que o sono ganhe. Após o fim de uma relação, insistimos em esquecer como a relação era apenas comparável com comer um bolo-rei em Março e convencemo-nos que podíamos ser felizes, ter trigémeos e não cometer homicídio antes dos 60 anos de idade. Nós gostamos, genuinamente, de sofrer. Vá que levar com uma palmada bem assente saiba melhor que ocupar o tempo a pensar nos filhos que não tivemos, na casa que não comprámos e na viagem que vamos fazer com o nosso gato que é o único que vai aturar a nossa paranóia e é só porque o alimentamos.


A realidade é que não há homens ricos a pingar fetiches suficientes para todas nós, uma pessoa tem que se safar com o que pode. Eu, pessoalmente, gosto de ofender as batatas fritas antes de as ingerir, dá luta, é tentador e elas ganham sempre. Como qualquer bom romance.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Serviço Público da Escola da Vida

“O amor”, patrocinado pela Escola da Vida. Esqueçam tudo o que vos foi ensinado e deixem de iludir as novas gerações com amores à primeira vista, que são esses que levam a depressões profundas e corpos a boiar no Guadiana. A verdade é que todos devíamos ter um “professor”, à temática do amor, manco do lado direito, traficante de droga nos tempos livres e alcoólico a tempo inteiro, com um cérebro que faria concorrência a um pêro num programa de cultura geral e os hábitos de higiene de um recluso que tem medo de se agachar para apanhar o sabão.

O nosso primeiro amor devia reunir o maior número de traços de qualidade precária quanto possível e deviam ser os nossos pais a fazer o arranjinho. Em primeiro lugar se sobrevivemos a uma relação com um cepo disfuncional, aguentamos tudo. Quando a relação tem um fim, o nosso ego ganha toda uma iluminação própria, pois vemos que qualquer opção seria melhor que aquilo, até o Zé do talho que não tem o olho direito por ter testado se o lápis estava afiado no globo ocular. Não haveria traições, pois já todas as mentiras foram usadas e vocês adquirem a perspicácia de um investigador criminal e avistam à distância os efeitos de todas as drogas no mercado com mais rapidez que uma rua em saldos.

Há, não obstante, a excepção do primeiro amor que se revela “perfeito”. Este, em vias de extinção que já nem todos vivemos numa terriola com vinte habitantes e uma vaca com sete patas para o resto da vida. É louvável aguentar o mesmo ser vivo uma vida. É como só comer atum em lata. Passar por corredores imensos de peixe fresco e belos nacos de carne e pensar, “Nã! Bom, bom vai ser chegar a casa e comer atum”. Atenção, eu adoro atum, mas só assumo isso com determinação porque já enfiei o dente num belo naco e vi o que me faz aos intestinos. Estas relações tiradas dos contos de fada enlatados, só me assustam na medida em que se um do casal assa a pipoca, ou enche o parceiro de cera e o senta a um canto da casa para o idolatrar para a vida, ou o mata com uma concha de sopa por todos os anos de frustração acumulada.

Venho por este meio, como acto de serviço público, sugerir que procurem nas redes sociais ou próprio berçário, o pretendente para os vossos filhos mais asqueroso e bardajão possível, escolha não falta (há sempre o puto ranhoso do berçário). Vão construir nos vossos herdeiros um carácter forte e personalidade sem par. Isto é, se eles não cederem aos vícios das metanfetamínas ou abandonem a prática de vocabulário básico. Caso este seja o caso, mais vale parirem outra criança, não perderam grande coisa. Se esse é o resultado de um arranjinho paternal, sozinho no mundo ou não iria sair do sofá até aos 40 anos ou estaria a roubar o cobre das portas dos vizinhos.


Têm nas vossas mãos a possibilidade de não terem genros a serem atacados na padaria com pão de forma, enteadas cujo ponto alto do dia é o silêncio que se encontra dentro da bagageira do Mini onde se esconde dos seus filhos odiosos e, em traços gerais, filhos energumenos. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Pousa isso

O momento de magia incomparável que é o nascimento do teu filho está a decorrer e em vez de aproveitares cada segundo estás a ver tudo pelo ecrã do telemóvel. Tens que alinhar a câmara de maneira a que possas depois meter o vídeo nas redes sociais sem ferir susceptibilidades. Os primeiros minutos do encontro tiveram silêncios constrangedores, mais vale começar já a procurar alternativas no Tinder. A comida chegou à mesa, quer seja uma pizza saída do congelador ou o prato mais gourmet que te vai passar pelo estreito, frio é que ele se come bem, pois a prioridade é tirar uma fotografia, meter uns efeitos, divulga-la e só dar uma garfada após responder ao primeiro par de comentários. A tua namorada está linda hoje, podias olhar para ela que está ao teu lado no sofá e dizer-lho, mas nada é mais verdadeiro que um like no facebook. Pousa isso.

Estamos numa era de tecnologia. Já não precisamos de ter músculo no dedo para rodar os números no telefone, uma cadeira para conversas longas pois o fio é curto e saber o último nome dos nossos amigos para os procurar nas páginas amarelas. Acabaram os gritos de, “desliga a internet que eu vou ligar à tia!”. Já lá vai o tempo em que esperávamos uma semana para ver relevados rolos queimados e sorrisos desfocados. Ou receber cartas de anúncio de gravidez, após a criança já estar a terminar o ensino básico.

Vivemos numa era com todos os trunfos para sermos pessoas sociáveis, comunicarmos com os que amamos e descobrir amores por detrás de caras desconhecidas. Porém, ninguém "o" pousa. Estamos todos demasiado ocupados a olhar para ecrãs para ver o que se passa à volta. Antigamente os pescoços rodavam. Estão demasiado ocupados a fazer likes e mudar as fotografias de perfil para o melhor ângulo ou para frases em prol de revoltas que não conhecem o significado.

A menos que a água se transforme em vinho no teu copo, estás a gastar tempo em tirar a fotografia. A menos que o teu cabelo vá sofrer de combustão espontânea em segundos e as tuas amigas o queiram soprar até à exaustão, estás a gastar tempo em tirar a fotografia. Sou pró fotografia, mas mais pró vida. Os amigos não se medem por likes e estamos a cegar pelo que as redes sociais nos dizem. Nem todos estão felizes e bem, mas ninguém mete fotografias do patrão a mandar-nos abaixo ou da discussão que tiveram com o namorado pela manhã, a menos que queiram frases de piedade porque a falta de amor-próprio não tem mão no ego.

A tecnologia deixa-nos alcançar o mundo, mas não se esqueçam de pousa-la. Porque um dia, tal como um VHS vocês não vão funcionar com nenhum aparelho actual e mesmo com histórias por contar, se não tiverem ninguém para as ouvir, é como se não existissem.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Parar é morrer

Aquele que passa uma vida sem viajar, nunca aprende a viver. Sempre tive um fascínio inexplicável pelo mundo e o que ele teria para me oferecer. Até hoje não sei qual é o meu sonho profissional, não sei “o que quero ser”, só sei que quero viajar e o trabalho que me proporcionar isso será o certo. Tendo em consideração que não uso notas de 100 como forro das calças, costumo usar as minhas poupanças para aproveitar o que as novas cidades têm para me oferecer, deixando para segundo plano a viagem e a acomodação.

Se a companhia aérea a fazer os melhores preços tiver uma frota composta de carrinhas de caixa aberta com asas, onde as hospedeiras são cabras do monte e há uma grande probabilidade do piloto estar em automático pois o humano responsável está inconsciente há três meses e ninguém deu por isso porque não lhe pagavam de qualquer maneira…perfeito! Não que tenha um desejo de morte prematura, são prioridades. Há companhias aéreas em que se paga muito mais para ter direito a uma sandes de salpicão com bolor, hospedeiras com interacção digna de uma cabra do monte e uma criança que tenta afinar o timbre durante 5 horas consecutivas.

O mesmo acontece com os Hostels. Lisboa tem ganho imensos prémios com o passar dos anos, graças a ser a cidade com os melhores Hostels do mundo. São verdadeiramente melhores que muitos hotéis. A realidade é que Lisboa é uma excepção e nem tudo são rosas. Não precisamos de ir ao extremo dos filmes de terror em que metade dos viajantes é morto à paulada por grupos de rufias com tramp stamps a condizer. O real filme de terror é adormecer num quarto compartido com 40 outros indivíduos. Há quem chame espaços semelhantes de prisão ou bunker. Nestes, a grande maioria sofre de flatulência, dois são sonâmbulos e um zulo mentecapto que não conhece o significado de desodorizante nos acorda com festinhas na face e a presença de um pombo morto na cama como prova de apreço e possível começo de relação matrimonial.

Se não gostam de ir ao ginásio pelos balneários, então esqueçam toda a experiência de um Hostel pois há uma grande probabilidade de encontrarem a miúda do The Ring presa no ralo da banheira. Tendo em consideração o preço que se paga por uma cama, se terminarmos a experiência sem herpes ou hepatite, é extremamente positivo.

O mundo das viagens foi feito para os económicos (vá, pobres) e para os ricos, os do meio-termo acabam por nunca aproveitar inteiramente, porque estão ocupados a seguir os roteiros turísticos estabelecidos pela agência. Os pobres até na casa dos locais comem se for o caso e os ricos conseguem voar a dormir, dormir nos melhores hotéis, dormir no Taj Mahal se lhes der na gana (ninguém diria que eu gosto de dormir, certo?). Viajar é algo que tem que ser vivido intensamente, quer seja numa carruagem sobrepovoada, com o sovaco de um polaco a servir de almofada, com um guia turístico chamado Fánã ou a babar champanhe num cadeirão de veludo a bordo de um jacto particular, o que conta é não parar. Parar é morrer!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Tripas a la pot pourri

Há três tipos de pessoas no mundo: as que compram livros que vêm em saquinhos que cheiram a pot pourri e oferecem saquetas de chá; as que apenas compram o livro se na primeira página houver indícios que alguém morreu ou está para morrer de maneira macabra; e as pessoas normais. Não que não seja apreciadora de chá, mas capas de gente quase a beijar-se à chuva fazem-me levantar questões sobre o mercado dos guarda chuvas e de pastas dentífricas. Como ser normal não é uma opção, enquadro-me orgulhosamente na segunda categoria. Caso, tal como eu, sejam “deste tipo de gente” e isso levante dúvidas e exaltações perante a sociedade que vos rodeia, criem uma história da vossa infância, alternativa e traumática, onde os vossos pais usavam donuts como pega-monstros e a vossa testa como parede. Automaticamente, torna-se perfeitamente aceitável gostar de sangue a jorrar pelas paredes.

Livros românticos são a vertente silenciosa e mais higiénica de ter 40 gatos, livros de fantasia são a antevisão de um futuro com problemas de coluna (nem Jesus Cristo precisou de tantos livros do tamanho das páginas amarelas para contar a história da sua vida), livros de auto ajuda ajudam o bolso de quem os escreveu e ensinam elementos fundamentais da vida como “não se esqueçam de respirar”, livros cómicos são a constatação que somos intelectualmente limitados e não percebemos a piada ou o autor não tem efectivamente piada e os livros do tipo policial são uma maneira subtil de planear a eventualidade da nossa entidade patronal nos irritar e ser necessário tomar medidas que envolvam um saco do lixo e um rio. Todo o tipo de livros se adequa a um tipo de pessoa e altura da nossa vida, mas é impossível não fazer uma leitura mental de alguém através do que está na sua mesinha de cabeceira. Se o seu amigo tem o Hannibal ao lado de livros de culinária, se calhar é melhor não pernoitar nessa casa, por outro lado se a sua namorada tiver acabado de ler toda a colecção do “Íamo-nos beijando mas eu gosto é de te sentir a arfar” e agora está a ler o ultimo livro sobre serial killers de um autor Sueco, ela não só vai terminar a relação, como viu as mensagens da Maria Tatiana e o teu corpo vai desaparecer misteriosamente.

Hoje em dia, com tantas séries e filmes, por vezes as pessoas esquecem-se de se perder num bom livro. O cheiro de páginas nunca antes esfolheadas e a sensação de sermos o actor e realizador daquele filme. Os livros são bons professores, companheiros e bases para copo. Eu sou das que aprecia mentes perturbadas e longos passeios à beira mar. Falta saber o que está na tua cabeceira ao adormecer.

[Escrito para o número 2 da Revista Digital do blog Flames]