terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Por uma uva

A idade é um posto. Só ninguém avisa é que pode ser um mau posto. Ninguém me perguntou se queria ser promovida nisto da idade, eu estava perfeitamente conformada com o desemprego etário dos meus ricos 20 anos. Agora dou por mim com uma cara capaz de ganhar um São Bernardo numa competição de pedigree e a fazer douradinhos às 6 da manhã, porque me pareceu uma ocupação do meu estado de insónia mais plausível que aprender a dançar quadrilha, sozinha.

Trabalhar à noite destruiu o pouco potencial que tinha para ser uma pessoa normal. Podem começar a percorrer as carreiras da noite nessas cabecinhas e se vos alegrar o dia até me podem visualizar como uma acompanhante de luxo disfuncional que gosta de acepipes. Trabalho quando os outros estão em casa e o meu leque de escolhas de parceiros para a vida passam por desempregados, alcoólatras ou drag queens. Nem os sem abrigo querem nada comigo, que quando saiu do trabalho estão eles a dormir, uma palavra amiga torna-se rapidamente num calhau na testa. Aceitei esta escolha para a vida, mas sei que vou chegar aos trinta anos totalmente senil. Ainda tenho uns anos pela frente e já dou por mim a caminho de casa a divagar sobre problemas da nação, como as tendências axadrezadas da moda lenhador e como haverão barbas carregadas de ténias.

Na literatura a noite sempre foi tida como a altura de expressar o nosso lado oculto e maligno. Ora o meu lado maligno vai surgir com extrema rapidez se eu não conseguir regularizar os meus sonos e fingir que estou muito feliz todas as manhãs quando saiu de casa. “Ter uma vida” é um conceito pouco exequível no meu caso, visto que estou perto de criar um facebook para a minha almofada, sendo a única relação estável da minha vida. 

Aproxima-se a passos largos o fim de ano e pondero seriamente nem pedir os desejos de meia noite. Aqui comem-se uvas à meia noite e não passas, a menos que um dos meus desejos seja encontrar o amor da minha vida na ala de urgências do hospital local, mais depressa morro engasgada a enfiar pela goela uma uva por badalada (e nem vou frisar o impacto das grainhas que serão projectadas pela minha boca a velocidade sobrenatural), do que consigo desejar o fim de noites mal dormidas, a sorte grande (ou pequena, já estou por tudo) e um príncipe sem ténias na barba e menos maquilhagem que eu, antes que termine a abébia divina de desejos descabidos.

Uma excelente passagem de ano e que passem as doze badaladas num pais cuja tradição passe por dar doze caneladas a desconhecidos, sempre parece mais plausível que uvas (o próximo país para que emigre terá, certamente, um brioche com melaço por cada badalada como tradição, é esse o meu nível de sorte).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Espírito Natalício

Espírito natalício. Aquele sentimento que nos possui nesta altura do ano e que nos acolhe nos seus braços como se nos tentasse fazer um mata-leão até nos sugar a vida do corpo. Fazem-nos crer que pendurar bolas mergulhadas em glíter (que o nosso gato vai adoptar como brinquedo favorito quando o nosso cão ou crianças hiperactivas mandarem a árvore abaixo), nos vão inspirar a amar e abraçar toda a santa alma. Ora, isso é um mito urbano.

Aumenta todos os anos o número de pessoas que passa o Natal longe de quem lhe é querido. Uma experiência envolta em saudade e sabor a filhós, que nada parece colmatar. Contudo, isto só acontece devido à memória extremamente curta do ser humano, benza a Deus os belos peixinhos de aquário que evocam bolhinhas de espanto cada vez que se cruzam com a alga de sempre, que são um Einstein emocional em comparação com o comum dos mortais. Passar o Natal perto das nossas vastas famílias é sinónimo de corridas pelos presentes ideias, em lojas apinhadas, numa economia em crise, ao som de cânticos de natal que nos dão vontade de comer um sapato e crianças aos berros que nos fazem desejar que apareça uma rena e as enfie no saco do pai natal, a posteriori colocado numa despensa fechada a sete chaves, mantida assim até ao fim das festividades (rena esta que seria portadora de uma garrafa de Chardonnay, para combinar com o Xanax tomado ao almoço, para colmatar os níveis de stress atingidos pelos tons que nunca mais vou poder ouvir após os petizes terem danificado a minha audição para a vida).

A seguir ao natal devia haver uma festividade dedicada às pessoas que lidam com o público como seu trabalho do quotidiano. O Natal é o equivalente aos fins de semana de desconto do Pingo Doce, só que com inflação de preços e gente a tentar trocar o puto feio da família por uma boneca do Frozen em tamanho extra grande no corredor três ao pé das esfregonas. As mães esgotam-se entre a busca incessante dos presentes que estarão esgotados na véspera de natal, pois todas as crianças no país foram fabricadas em massa e querem, portanto, o mesmo. O pai perde-se nos pensamentos de como a sua filha cresceu depressa e no apogeu dos seus 2 anos de idade já é um Ás do Iphone 6, gosta de música emo, tem perfil no Tinder e pondera ser feminista. Entre empurrões e olhos arrancados, os que lidam com o público ficam com a parte boa, que são espasmos, olhos esbugalhados, um leve babar pelo canto inferior direito da boca e um grito estridente em resposta a “Quer gelo na sua Pepsi?”. Deviam dar uma prenda de natal a esse empregado de mesa que vos aturou mais nos últimos 5 minutos que o vosso filho pródigo desde que descobriu que não falar com vocês é aceitável desde que pareça ocupado ao telemóvel.

Tudo isto por uma noite mágica em que a paz domina. Após um mês de corrida e ódio, o cansaço conduz-nos a uma noite pacífica em que só queremos comer que nem ursos após hibernar, ser abençoados pelo espírito consumista e dormir num qualquer recanto da casa que esteja em silêncio. Esta data magnífica que celebra o dia em que o senhor rechonchudo e, visivelmente, daltónico, do anúncio da Coca-Cola sobrevoa, montado em renas com sinusite, as casas com chaminé e presenteia as crianças ricas (que as pobres têm buracos no tecto e isso não se qualifica como chaminé), significará sempre, apesar dos seus altos e baixos, a altura da família para muitos de nós. Para mim todo o ano é dos que amo, mas nesta data deixo parte do meu coração reservada ao orgulho pelo meu controlo próprio. Este foi, orgulhosamente, mais um ano passado sem esbofetear um menor e não ter contribuído para o desaparecimento sombrio de um pai histérico.
 

[Espero que o vosso Natal tenha sido na presença dos que mais amam e esse espírito consumista que tanto afaga o ego tenha saído bem gordo da noite de Natal.]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Matei

Eu matei alguém! Matei alguém importante. Provavelmente, esse alguém, viria a ganhar um prémio Nobel, era um viajante no tempo ou a Lassie. Na minha vida passada devo ter matado alguém e devia ser um pedaço de mau caminho enquanto mulher, daquelas que quem olha directamente contrai uma doença venérea, como punição do vislumbre. Agora cá estou eu, com o nariz entupido a enfiar a floresta amazónica nariz acima, a fazer torradas na minha testa e a querer colo do corrimão da escada, porque é o que mais se assemelha a um braço, e sinto que estou a levar tampa.

Nascida do sexo feminino e sem quaisquer tréguas hormonais, até já vejo romance em filmes cujo busílis é decapitar o maior número de indivíduos no menor espaço de tempo. Depois da minha última relação, que relatada por alto parece a sinopse do Breaking Bad, acho-me merecedora de um romance digno do grande ecrã. Ora o Universo em parceria com o seu grande companheiro Karma, decidiram enviar na minha direcção toda uma panóplia de belos exemplares masculinos, muito apaixonados da vida, mas que, enfim…não! Não queria passar por mal agradecida ao Universo, quero alguém muito simples e o problema reside exactamente nisso, só me calham na rifa criaturas complexas que dá dó. Agora sei que vou ficar apeada para a eternidade com um gato manco e um nariz torto de tanto me assoar.

Querido Universo, eu não quero um homem que me diga a cada dois segundos que tem saudades minhas, pois se ausentou para ir ao urinol, não quero um homem cujo telemóvel faz mais parte do seu corpo que o seu apêndice e seria deveras importante que não me passes rasteiras com homens super interessantes que faltaram às aulas de beijos atrás do pavilhão na escola básica.


Por favor Universo. Poupa-me!

domingo, 7 de dezembro de 2014

Subsidiação de Estilo de Vida

Exmos. Senhores,

Venho por este meio felicitar a iniciativa, da qual tive conhecimento, em que vários países subsidiam a mudança de sexo em pessoas que provam estar a ser psicologicamente limitadas por terem nascido no corpo, digamos, errado. Gostava de vos apresentar o meu caso e esperar que o tenham em consideração para futura subsidiação. Eu nasci para ser uma dondoca e fui colocada, erroneamente, num cenário suburbano e operário. Eu não fui feita para laborar e estou a sofrer angústias terríveis. Todo o processo de acordar cedo e ter que efectuar...coisas…cansa! Gostaria de entrar no vosso projecto de mudança de estilo de vida. Saio bastante em conta pois gosto da minha genitália, mas gostaria ainda mais se ela estivesse agora esborrachada no divã de uma penthouse.

Forçada desde jovem a usar ténis e roupas arrapazadas tornou-se um problema no meu actual quotidiano em que volta e meia me é imposta a roupa de dondoca e maquilhagem apropriada. Ando em saltos como se estivesse sempre a tentar apanhar moedas do chão, maquilho-me com um traço digno de Picasso e uso vestidos como um camionista. Sei que em mim há alguém que seria perfeita a passear na sua enorme sala montada a cavalo, a atirar notas de 200€ pela janela do seu Ferrari para a classe operária apanhar com os dentes à minha passagem e a ser fabulosa, em traços gerais.

Caríssimos, sem vocês não conseguirei! Preciso do vosso financiamento para esta causa justa e de real importância. O mundo está a perder uma dondoca de talento nato e a Kim Kardashian não tarda é só um rego em andas e vão precisar de alguém com tamanha ausência de propósito na vida que a substitua. Eu sou a vossa pessoa.


Cordiais cumprimentos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Saudade

“Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi”

Eu sei que está estabelecido na constituição da república portuguesa que um indivíduo depois de registado em território nacional tem que se tornar alguém emocionalmente perturbado e que defina na perfeição a palavra “saudade”. Eu fui registada na margem sul e isso pode ter acarretado alguma interferência no processo. Fiz as malas e entre abraços e chamadas de atenção em relação aos homens espanhóis e ao pé de atleta em balneários, ninguém me explicou qual seria a altura certa para começar a ter saudades.

Haverá um momento em que ouvir fado abraçada a uma estátua de plástico luminoso de Fátima e fazer um altar a um pastel de nata será, certamente, apropriado, um momento em que vou sentir saudades de ouvir músicas de natal pelas ruas de Lisboa a partir de Setembro e atirarei a minha dignidade pela janela ao anunciar que o meu sonho de imigrante é dormir em conchinha com o Cristiano Ronaldo. Eu não gosto de surpresas. Da mesma maneira que não gostaria de ter um ataque de gazes a meio de uma entrevista de trabalho, também não gosto da ideia de ser atingida pelo conceito de saudade quando estiver num momento de loucura íntima com um exemplar espanhol. Transitando, fugazmente, de um encontro romântico a um momento de terapia em que estarei enrolada em mantas com rímel e baba a escorrer queixo abaixo e o Juan Carlos a tentar sair pela janela sem partir o pescoço.

Sou uma mulher adulta e independente! Que pode comer empadas em lágrimas, encostada a um recanto da sua casa, abraçada à última fatia de pão alentejano que enfiei na mala quando sai do país. Mas, o busílis da questão é que ninguém tem que saber. Tirando o meu vizinho, que as paredes são falsas.

Se revelamos demasiado cedo que existe saudade, é um par de horas para que a nossa mãe nos apareça à porta de pantufas para nos levar de volta para o nosso país…ao colo. Se não nos expressamos a tempo, as probabilidades passam por nos rotularem de insensíveis e adoptarem um labrador para colmatar a nossa ausência.

O meu nível de comunicação actual parece estar a manter o padrão necessário para que não mudem a fechadura de casa sem me avisar. Para os interessados no ritual, passa por proclamar palavras aleatórias, mescladas com sons imperceptíveis, que passam rapidamente da temática emocional à física quântica. Podem declarar-vos doentes mentais, mas não duvidarão do vosso amor.