domingo, 23 de novembro de 2014

Terror dos tempos modernos

A uma tenra idade descobri que se tivesse que me descrever de uma forma calorosa, iria substituir o cliché, “gosto de longos passeios na praia”, por “gosto de livros e filmes de assassinos em série com tanto sangue escarrapachado nas paredes que a trama foi escrita em parceria com a Robbialac”. Nunca me vou esquecer daquela noite de Verão a que sucumbi à ausência de raciocínio lógico de uma criança de 7 anos e decidi ver às escondidas dos meus pais o filme It. A minha luta pelas condições básicas providenciadas aos animais de circo começou ai. Só queria que fossem fortes o suficiente para fugir dos palhaços demoníacos, pois, se estes fazem ralos de banheira borbulhar sangue, imagino o que farão a póneis. Porém, o terror sempre me entreteve. Nada mais entusiasmante que assistir a um filme em que o assassino poderia ter enveredado pela carreira olímpica, onde seria campeão da modalidade de marcha e onde a má qualidade dos produtos têxteis na sociedade actual é exposta pela explosão espontânea de todas as camisas das loiras em fuga.

A partir do momento em que a ficção se subjuga à realidade e ouvimos o chão ranger noutra divisão, não havendo mais ninguém em casa, ai a porca torce o rabo. Bem que me podem encontrar escondida no armário vestida de ninja, a empunhar um garfo e a tentar descobrir o número do Liam Neeson nas páginas amarelas. Viver sozinho leva-nos a testar os nossos limites. A má qualidade de soalhos a nível internacional trabalha numa forte parceria com as mentes macabras que proliferam da Suécia, que expõem o seu trabalho nos actuais best sellers de terror, mas, também, no IKEA.

O IKEA é o sumário das maiores obras de terror conhecidas pela humanidade. Os produtos cativam, mas os materiais são susceptíveis de desintegração espontânea, sentimo-nos autênticos palhaços quando nos apercebemos que fomos levados a comprar, como se de um bem essencial se tratasse, um tacho para estufar carne quando somos vegetarianos, a montagem dos móveis que trás ao de cima o nosso lado mais obscuro (aquele icónico parafuso que falta sempre) e, acima de tudo, qualquer ser humano sobrevive a folhear um catálogo do IKEA, até o entretém, mas entrar numa loja física é o equivalente a projectarmo-nos contra uma parede repetidamente enquanto entoamos o ultimo single da Nicki Minaj. É suicida!

Somos seduzidos a este espaço com intenção de gastar pouco dinheiro e quando damos por nós estamos a tentar comprar o filho amoroso de um vietnamita que estava no corredor três à procura de uma cadeira. Quando entramos, avaliamos todos os preços ao pormenor, mas após dois segundos já fomos buscar um segundo carrinho. Estes suecos são enviados do demónio. Quando entramos não há maneira de voltar para trás. Como uma casa assombrada, a probabilidade é que alguns fiquem para trás, temos que encarar esse facto e ser egoístas, sair de lá vivo é a prioridade. Eles fazem-nos crer que precisamos de três trens de cozinha de cores diferentes e de almofadas peludas, porque sempre quisemos dormir com pelos na boca. Quando saímos e nos apercebemos o que comprámos, o impulso é de voltar para trás e trocar o produto, mas na realidade é isso que eles querem. Fiquem com esses 10 piaçabas com ilustrações de sapos em ácidos, oferecem como prenda de natal aos primos em segundo grau.

Vejo vidas a desmoronarem-se diante de mim e sinto-me inútil. Eu fui salva por uma desconhecida que me esbofeteou e arrastou inconsciente de lá para fora esta semana. Porém, nem assim larguei aquele conjunto de lençóis lindo. Os suecos são má rês, quando derem por eles até pela televisão saem, a escorrer nheca pelos seus longos cabelos loiros, a grunhir nomes de armários. Salvem-se. Não deixem que este filme de terror se torne a vossa vida.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Quando eu era pequenino...

A falta de posição dos portugueses para com as incongruências ultrajantes da nossa sociedade, estão lentamente a condenar as gerações futuras a um piercing encima do lábio superior, um eterno fio de manga preso no canino de maneira a que o sorvam constantemente em público e a indumentária digna de um habitante da Musgueira. O decréscimo de músicas infantis de qualidade irá levar as crianças de hoje a partir para a vida com a sabedoria de um alho-porro.

Os Quinta do Bill em tempos escreveram sobre uma criança que ainda mal abria os olhos e já tinha o amor da sua vida fisgado. Eram bons tempos, em que a vida se determinava cedo, já se nascia com conta no Totta e dívidas ao barbeiro. A música faz parte da nossa aprendizagem e o que ouvimos enquanto meros petizes, influencia as pessoas em que nos tornamos.

As músicas da minha geração vinham repletas de lições de vida boémia, sadismo e morte. Escusado será dizer que hoje sou uma adulta algo perturbada, mas perfeitamente preparada para um apocalipse zombie ou jantar na casa dos sogros. O Avô Cantigas cantava sobre o Fungágá da Bicharada e como Doidas Andam as Galinhas, dois retratos perfeitos da noite Portuguesa, os bacanais dignos de animais em que “…outros mais também virão…” e os desfiles de “galinhas” que, doidas, tentam ter sorte em mais uma noite pelo Cais do Sodré. Os títulos do Avô Cantigas eram tão específicos que as músicas não requeriam uma grande componente poética, substituindo quadras eloquentes por um frenético LáláLáláLá. E não nos podemos esquecer dos jogos cantados, em que se debatia a temática de uma justiça inexistente e de falta de higiene pública “…as cuecas do Juiz, Dominó, embrulhadas em jornal. Dominó. Esta rua cheira a sangue, foi alguém que se matou…” (neste caso também pode ter sido só alguém mórbido sob o efeito de LSD que escreveu isto e pegou moda, mas gosto de acreditar na critica social).

A vida foi-nos entregue numa bandeja de prata, em que sabíamos que atirar paus a gatos e beijar indivíduos moribundos no meio de florestas eram práticas aceites pela sociedade, desde que não assustássemos idosos ou aceitássemos alimentos nutritivos de desconhecidos. Bons tempos! Em que cantava baladas mórbidas, de sorriso nos lábios, em campos verdejantes, sem ter a mínima noção do que dizia, porque estava demasiado ocupada a aprender as coreografias.

Nos dias que correm, as crianças apenas usufruem dos conhecimentos provenientes das quadras do equivalente ao Pedro Abrunhosa infantil: o Panda. Uma criatura que ganhou o respeito nacional, mas que só balbucia ideias aleatórias e sem conteúdo. A menos que pretendam armar as crianças com bananas e laranjas para ultrapassar os obstáculos da vida, saber descrever os itens da fruteira pouco lhes vai ser útil. São músicas que nem visam a uma alimentação saudável. Eu sei a música do MacDonalds e não é por isso que comprei uma propriedade em frente ao estabelecimento, o facto de saberem que a banana está na fruteira só implica que a deixem lá para não arruinar o conceito musical. Não houvesse as figuras da Disney a dar um cheirinho de realidade, com a Violetta e a Miley Cyrus a representar, com excelência, o antes e depois do consumo de drogas pesadas, e estava esta nação condenada. A Miley Cyrus é o exemplo perfeito de uma criança que só ouvia músicas sobre bananas, agora é vê-la a esfregar-se em paredes como um urso pardo com candidíase.

Podemos mesmo culpar as crianças de hoje por chumbarem, se vestirem como matrafonas de 40 anos e ouvirem música americana sobre o movimento ondulatório dos glúteos? Vamos voltar aos bons velhos tempos de música sobre vida boémia, violência gratuita e necrofilia acompanhado por alegres coreografias e lálálás. Está na hora de tomar uma posição e salvar esta geração. Vá…ide já ter com os vossos petizes e atirem-lhe com um pau à testa.