quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Karma por cunha

No mundo existem dois tipos de retorno cósmico, reconhecidos de modo generalista como Karma. Quando divididos em categorias, há o karma e o componente cósmico sádico e irónico que conseguiu o trabalho como karma por ser filho do Presidente da Junta Cósmica. Nasci numa bela noite de Verão estrelada em que ia dar na televisão o filme Quo Vadis, que a minha mãe esperava ansiosamente ver. Como amante de cinema desde o ventre, decidi partilhar o momento cinematográfico com a minha progenitora e sair a tempo da segunda parte. Escusado será dizer que a televisão não estava ligada e que ela me deve ter rogado uma praga subtil entre dentes por ter perdido o filme. Fiquei entalada para a vida com uma Copa B medíocre e um karma sem qualificações graças ao Império Romano.

Considero-me uma pessoa forte e determinada (adjectivos dignos de uma entrevista de trabalho, quando na realidade só sou teimosa para burro), mas há dias que só nos apetece cumprimentar a nossa entidade patronal com uma serra eléctrica e oferecer abraços e vouchers de desconto nos serviços de primeiros socorros do centro de saúde local aos nossos colegas de trabalho. Pareço sempre bem e disposta a dar o meu melhor, mas há dias que por dentro só me apetecia rebolar na cama e fazer sons de foca moribunda.

Querido karma, dá-me uma abébia que estou cansada de estar a trabalhar durante o dia, pareço um gnu de olhos inchados e sem maquilhagem, e de estar sempre a tropeçar em rasteiras tuas. Acho que no mínimo me deves algum prémio de mérito por todas as crianças que me empurraram ou tentaram dar beijinhos em pequena e eu não as esmurrei. Hoje em dia esmurro, por isso estamos quites no resto. Mas dormir era porreiro e não ter vinte novelas mexicanas de baixo orçamento a decorrerem no mesmo período de tempo na minha vida seria agradável. Obrigado.

sábado, 16 de agosto de 2014

A originalidade do virar

Tenho saudades dos bons velhos tempos em que me deslocava a um fotógrafo com o rolo dentro daquela cápsula plástica baça e ansiava pelas fotografias durante o fim-de-semana. Ia busca-las na expectativa do que lá viria, num misto de esperança platónica de estar fotogénica em todas as fotos e medo de a minha tia avó ter metido a mão à máquina e ter fotografado a verruga das costas para mostrar ao doutor que vive lá longe. Havia magia (no processo, não na verruga) e isso acompanhou-me toda a vida, com a presença constante de uma máquina fotográfica, com a paixão pela arte e até voluntariando-me para tirar fotografias a turistas pelas ruas fora.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Há dois anos se tivéssemos a esticar o braço para tentar tirar uma fotografia que ia dar origem a uma série de repetições por cortar a testa ou estar desfocada, parecíamos idiotas. Hoje “idiota” é o look a seguir, pois ai de quem se voluntarie a tirar uma foto a um grupo de vinte indivíduos! Pois é preferível um deles esticar-se o suficiente, ou desmembrar um dos braços e o arremessar para cima de um poste só para garantir que foi ele a tirar a foto. Nesta, pelo menos um dedo de cada um dos seus compinchas aparecerá para um dia mostrar ao seu bisneto, “olha, este era o meu dedo quando tinha 20 anos, bom dedo hã?”.

Não me vejo como conservadora, tanto que já aprendi a virar o telemóvel ao contrário e fazer cara de distraída (um clássico das fotografias de baixa qualidade por webcams e telemóveis) e boca de pato, que segundo entendi é o que está na moda. Não obstante, vejo esta tendência fotográfica de virar a máquina e tentar repetidamente a ver se acerta, a reflectir-se na necessidade de um elevado numero de jovens mulheres, virarem o neurónio uma manhã e tentarem o “lesbianismo”, como se fosse a nova marca de sabão para a roupa, a ver se pega. Eu sempre gostei de fotografia, não é por uma moda bimba que isso vai mudar, da mesma maneira que há mulheres que gostam de pessoas do mesmo sexo desde que se conhecem, mesmo que haja uma pandemia de leggins floridos que dê vontade de optar pela extinção da raça humana.

Porque é que a juventude não vai experimentar empadas? Também é alternativo e não é para qualquer um. Não sei quanto a vocês, mas eu seria uma lésbica deplorável, nem sei o que se passa nas minhas partes baixas quanto mais no repolho de outra mulher. O que é que se faz com aquilo? A menos que uma vagina me ensine a jogar xadrez não consigo desenvolver interesse pela matéria. A minha nem me é capaz de avisar quando a menstruação termina, como boa sádica fica a brincar ao pára-arranca até eu optar por usar fraldas de incontinência o mês inteiro por via das dúvidas. A vida ensinou-me a não confiar em vaginas. Não tenho nada contra com o resto da mulher que está anexada ao dito órgão, mas aquele perímetro não é de confiança.

Caso haja jovens raparigas a ler este regurgitar de informação inútil, façam-se um favor e vão tirar fotos com ar de pato distraído e deixem as lésbicas para quem as quer, elas têm mais do que fazer do que vos andar a ensinar o B, A, BÁ, para depois vocês descobrirem que as mulheres também ressonam, têm pelos e gazes bem mais elaborados do que os homens (já para não relembrar que há um maior numero de palavras depreciativas no feminino do que no masculino e não é em vão). Que se mudem os tempos, mas que a próxima vontade tenha a ver com férias alargadas.
  

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Da tela para o colchão

A primeira vez que passamos as portas de um cinema é um momento mágico que nos inicia numa vida de imaginação fervorosa e que esperamos manter durante toda uma vida. Passámos de um tempo em que havia poucos cinemas e reduzida selecção de filmes, para uma época recheada de filmes mas que temos que vender o nosso carro e o baço do nosso filho primogénito para ter dinheiro para comprar um bilhete duplo, sem pipocas incluídas.

Os aficionados por cinema vêem-se na obrigação de ver todas as grandes estreias, nem que seja no seu minúsculo computador que sobreaquece o colchão onde se apoia (filmes comprados num espaço comercial e não no senhor que vende flores na sexta à noite no Bairro Alto e com devida factura, não o histórico de internet. Pirataria é para pessoas com pernas de pau e palas). É triste abdicar do suspense que só o ecrã gigante proporciona e da desculpa plausível que é comer um quilo de pipocas sem pestanejar. Não obstante, em casa podemos ver um filme com um par de cuecas na cabeça, comer lombo de porco sentados na cama, em casos de incontinência parar o filme vinte vezes e ainda ter o poder de projectar o portátil janela fora caso o desfecho não seja do nosso agrado.

Nos dias que correm, ir ao cinema, é um ritual de grande elegância e expectativa, que se transforma numa amálgama de bufos de desespero, sobrolhos franzidos e vontade de esbofetear crianças até saberem álgebra a nível académico. Quando invisto o tempo e dinheiro para me deslocar a um cinema crio a ilusão que estarei com pessoas sóbrias e tão embrenhadas no filme como eu. Quando de súbdito, tenho alguém a cegar-me com o foco de luz proveniente do ecrã do seu telemóvel, a voz da peixeira que decide atender o telefone e sussurrar em Si maior que está a ver um filme e ainda não percebeu o enredo, o individuo que parece precisar de sorver as pipocas e o típico casal que não percebe o conceito de quarto.  Estes factores externos aliados ao poder de em casa poder mudar de filme vezes sem conta numa noite em busca de um com lamechice q.b. aliada a desmembramentos a alta velocidade, encima de um pastor alemão geneticamente transformado, faz-me reflectir sempre em como podia ter poupado esse dinheiro.

O meu cérebro doentio esquece-se destes pormenores com facilidade recorrente fazendo-me ansiar o dia que vou ao cinema e vislumbro aquele ecrã que me conquistou ao primeiro olhar. Quem nasce com o bichinho da sétima arte irá sempre querer ver todos os filmes, nem que seja para ter a liberdade de falar negativamente dos mesmos. A sétima arte aumenta as nossas expectativas do romance ao assassinato perfeito, mas mais importante, torna-nos sonhadores. Nem que seja pela fresta de uma porta, um bom filme será sempre um bom filme e um sonhador nunca deixa de o ser.

[Esta crónica foi escrita a pedido das criadoras do blog Flames, que a título de surpresa, me incluíram no primeiro numero da sua revista electrónica. Obrigado e boa sorte meninas]

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Podes chamar-me Tó

Gervásio nasceu num dia fatídico em que ninguém teve o bom senso de distribuir chapadas aos pais e familiares presentes que julgavam que este seria um nome brilhante. O nome que nos dão à nascença vai ser parte fulcral da nossa identidade e do modo como vamos encarar a vida e os seus obstáculos. É um pormenor que não pode ser decidido de ânimo leve, pois se derem à luz uma criança pouco dotada de inteligência ela nem vai descobrir onde é o notário para poder mudar o nome que os pais lhe deram sob o efeito de drogas leves ou ausência de actividade cerebral permanente.

O meu nome era para ter sido Mafalda, mas a minha sábia mãe, sentada com uma barriga que quase lhe tapava a linha de visão para o belo horizonte, contemplou todas as ofensas e piadas que poderiam surgir em torno do meu futuro nome. Tendo em consideração que o número de piadas que surgiu foi elevado, começou a pensar em outras opções. Dizem que as mães têm os sentidos apurados ao extremo e ela já devia estar a pressentir que o seu futuro rebento ia arranjar motivos suficientes para as restantes crianças serem maldosas com ela e a ofenderem, mesmo sem terem que recorrer ao seu nome. Porém, há entidades paternais que não reflectem assim tanto na escolha do nome, ou então reflectem em demasia, com pesquisas incessantes na Internet na esperança de encontrar um nome escrito numa língua totalmente aleatória, que signifique “Gota de água da cascata benzida pelo nenúfar de cor alaranjada” ou “Pessoa isenta de impostos”. Um dia vamos esgotar o leque de opções em nomes próprios e vamos começar a recorrer a sons e aí sim teremos dias animados, em que arrotamos numa sala e o fulano que está a fazer café na sala ao lado responde, ou faremos expressões típicas de um AVC para conseguir pronunciar o pronome do sr. Agnhóotzica (o segundo O é mudo caso se estivessem a perguntar).

Esta reflexão dá-se graças a uma conhecida minha que decidiu chamar os seus cães de Traveca e Pachacha. Não sou particular fã de animais com nomes como Afonso e Guilherme, fico sempre à espera que pule detrás de um arbusto uma criança rosada de cabelos loiros e lá vem um São Bernardo a deitar agua por todos os orifícios. Não obstante também não achei esta escolha de nomes muito certa, talvez por não me alegrar o conceito de ter travecas ou pachachas no colo e muito menos fazer-lhes festas. Aprendi a uma tenra idade, quando decidi chamar o meu primeiro cão de Pretinho, visto que a minha imaginação era limitada e o cão era preto, que os nomes que damos aos nossos animais podem tornar-se uma problemática quando os perdemos na Margem Sul. Dei por mim aos gritos “Anda cá Preto…Não fujas Preto…Ohhh Preto…”, com uma inocente idade numa zona mais populada de indivíduos de raça negra do que Angola, com a minha mãe a correr atrás de mim aos gritos “É só um cão…É só um cão…não…não é o senhor…”. Tentei partilhar esta história com a minha conhecida, que não pareceu perceber a analogia. Estarei, portanto, na primeira fila quando ela perder um dos cães e tiver que correr Avenida da Liberdade acima a gritar pela sua pachacha ou pelo traveca, caso não seja apedrejada até não ter dentes na boca, pode ser que venha a ter uma boa história para contar um dia.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mundo Cruel

Cama feita, pequeno-almoço na mesa e a constatação que somos um talento nato para a vida de dondoca. A vida arrancou-me à força, enquanto bracejava e arranhava paredes em angustia, da minha casa da era pombalina que já pedia misericórdia que nem o Marquês teve que aguentar esta nação tantos anos. Empacotei os meus pertences sem data e destino marcado. Perante incongruências laborais colocaram-me num hotel onde irei sofrer para lá de um mês.

Pantufas branquinhas e colchão que parece um marshmallow, piscina e televisão do tamanho da minha prévia sala. Não sei como irei sobreviver sem ter que me preocupar com a limpeza da casa e lavagem de lençóis e toalhas. Estou pesarosa. Já para não falar do pequeno-almoço. É esgotante ter que descer as escadas para provar tipos de fiambre que julgo serem carne de unicórnio e usar cereais como confetti. Não desejo a ninguém.

Atenção, estou a trabalhar arduamente. Só ainda não me apercebi por estar demasiado ocupada a descobrir em que piso é o ginásio que nunca usarei mas que me vou convencer até ao último segundo que hoje é o dia. Quando paro e constato que quando chegar a altura de abandonar este poiso vou ser vagamente escravizada para pagar cada fatia de pão que aqui comi e cada de mão de tinta que vão ter que dar nas paredes por eu as ter abraçado até à exaustão para comprovar a sua veracidade, até me dói, mas depois ponho uma musica saloia, incomodo os restantes hospedes e o sentimento passa.