domingo, 20 de julho de 2014

Vida ao Desbarato

Em tempos de D. Dinis (Duarte Dinis, o senhor da padaria), eu era uma cachopa toda feliz com tempo de sobra até para moldar os meus burriés seguindo a vertente renascentista. Actualmente, respiro moderadamente para não ocupar tempo, comida é por meio intravenoso e vida social é com as minhas pestanas, quando me despeço delas enquanto caiem queimadas de tanto uso. Não tenho tido tempo para ser uma borboleta social deste mundo e julgo que na vida pessoal a minha mãe me vendeu no OLX, isso explicaria muita coisa, porém regurgitarei informação desnecessária em pseudo-crónicas sempre que possível.

Promoveram-me e vão-me recambiar para outro país, porém, o curto período de tempo que me deram para colocar toda uma vida numa mala de vinte quilos leva-me a crer que descobriram a minha real origem e estou a ser deportada. Subitamente estou a vender tudo o que me acompanhou nos últimos anos e a dormir abraçada a roupa enquanto lavada em lágrimas de despedida, perante decisões entre um par de sapatos e uma bomba de asma, é difícil estabelecer prioridades sob pressão. Sinto-me um cigano que nem chapéu preto estiloso tem a tentar impingir armários e meias rotas a toda a gente. Confesso que até me tenho safado e só falta a cama, já pensei em escrever uma ode sobre os bons momentos que já se ocorreram nela, mas depois reformulei a descrição de venda para “cama inteira”.

Decidi que era qualificada o suficiente para desfazer todos os meus móveis e embala-los para venda, julgo que vai ser fácil descobrirem a minha identidade quando eu aparecer nas noticias a atirar tábuas de madeira em chamas pela janela e a gritar pela independência do contraplacado. Só sabemos o mundo de coisas que rodeia a nossa vida quando a temos que arrumar. Já agendei o cancelamento da água, luz, e até internet, mas se há coisa que me intriga é como é que posso deixar de receber as mensagens da telepizza sem exorcizar o telemóvel.

Sem tempo para grandes despedidas, abraços e choradeira, estou a vender a minha vida ao desbarato em troca de uma viagem sem retorno marcado.

domingo, 13 de julho de 2014

Culto do centavo

Ser pobre é ver a palavra saldos escrita numa janela, mesmo que seja de uma loja de esfregões, e fazer uma coreografia meticulosamente estudada que envolve elementos religiosos, um panda e um divã. Eu como sócia número 3102 do grupo recreativo de quem não tem onde cair morto, festejo a época de saldos com uma jantarada com os amigos e uma dádiva à Bobone.

O conceito de saldos agrada-me, porém, não sou uma boa praticante do desporto. Tudo começa com uma incompreensão das denominações dadas à época, pois se entramos numa loja que está em saldos e perguntamos onde estão as promoções demonstra toda uma incompreensão e falta de chá relativa ao culto das t-shirts, pois as promoções já foram, agora são os saldos! Já se dissermos saldos numa loja que está em promoções, só nos falta sentarem num sofá, nos abraçarem e rirem como um avô carinhoso que vai contar a história de como o coelho Bidé morreu. Não são na realidade dois nomes para um grupo de produtos com preços inferiores aos estipulados de início? Por mim até podem chamar isso de Funeral do coelho Bidé e eu estarei lá a remexer nas pilhas de roupa feliz da vida, vá, se calhar vestida de preto, mas estou certamente presente. 

Uma colecção coube harmoniosamente bem arrumada numa loja durante uma estação completa, mas chega esta época e são feitas torres de roupa no centro das lojas e a procura por um par de cuecas torna-se numa aventura. Antes de mais, a magia que é a eventualidade da roupa não nos cair toda encima sufocando-nos e contabilizando mais uma fatalidade neste trabalho de risco, temos que ser mais rápidas que as outras pindéricas que querem aquela bandolete, temos que ser engenhosas para enfiar o nosso traseiro L numa peça S porque é a ultima e é preciso ter confiança que as nossas amizades se vão manter até ao Natal para comprarmos já as prendas todas sem desperdiçar dinheiro. É neste processo que a porca torce o rabo. Eu não tenho talento para explorar pilhas de roupa sem me entediar. A nova colecção organizada e bem iluminada entoa um chamamento e eu acabo por comprar um par de meias pelo preço promocional de dez camisas. Mas saiu feliz, sem arranhões e sem o cérebro toldado pela experiencia pós guerra. Sou oficialmente a pior pobre da história.

A realidade é que não sou uma daquelas japonesas pequeninas e amorosas que sabem fazer maquilhagens que transformam um gnu na pequena sereia, e podem vestir um vestido com folhos até aos olhos em rosa choque e parecer bonecas. Vestir aqui a menina envolve toda uma metodologia que não pode ocorrer sob pressão, senão vai dar efeitos piores do que o “matrafona enrolada em celofane”, que é o resultado, volta e meia, quando me esforço para sair à noite em trajes da moda. Venho, portanto, enaltecer as qualidades de todas as corajosas que se expõem neste mundo dos saldos e saem orgulhosamente intactas com peças que não parecem ter sido destruídas pelo cão da vizinha. Eu, feliz permanecerei a observar a vossa agilidade com a testa colada às montras. Uma feliz época de caça minhas caras!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Prostituição emocional

O Titanic em 1912 embateu contra um iceberg e afundou em alto mar, por entre os destroços um pedaço de madeira flutuava com uma jovem chamada Rose, que era demasiado espaçosa e preferia ter espaço para um napron, do que para dividir a sua porta flutuante com o amor da sua vida. Quando ocorre o fim de uma relação amorosa e damos por nós à deriva numa porta com napron, assim que alguém nos avista avisam toda a guarda costeira e dá-se o começo da prostituição emocional.

Uma mulher recentemente solteira deve produzir algum tipo feromonas, comparável ao cio, que se sente a distâncias absurdas e estupidifica o sexo oposto (e por vezes o mesmo). A título de combater a falta de amor-próprio típica do fim de uma relação onde já nem rapávamos as axilas para poupar o ecossistema dos nossos pertences, damos começo à, por mim intitulada, prostituição emocional. Somos cercadas por diversos homens interessados, do piropo brejeiro ao pedido de amor eterno, e sendo cedo de mais para começar uma nova relação, aceitamos discretamente as suas palavras que nos afagam o ego. Aceitamos clientes vários e o seu pagamento que nos sustenta o ego, mas não passa de um negócio emocional, está implícito que não haverá casamento. Não há cartões de crédito e muito menos cheques, tem que ser dinheiro físico, emoções regurgitadas em palavras já ouvidas e altamente sobrevalorizadas, nada de promessas futuras. Ocasionalmente, neste processo, deparamo-nos com homens cheios de potencial, mas que são um investimento de risco, pois é terminar uma carreira de sucesso que estabelecemos com as feromonas, em prol de mais uma possível desilusão.

O pijama bolorento e chinelos com sola descolada passam de roupa de lavar a caixa de areia do gato, a roupa de fazer parar o trânsito e choverem números de telefone. A ausência de higiene intima passa de problemática que lhe vai causar infecções, para base de um odor distinto e afrodisíaco (que lhe vai causar infecções na mesma). Toda a realidade das princesas da Disney em que até os pássaros cantavam e lavavam o chão parece plausível sem o efeito de drogas pesadas.

Eu confesso-me uma acompanhante de luxo nesta matéria, em que só aceito clientes com um certo carisma e carteira emocional mas, verdade seja dita, não posso fazer nada quanto aos piropos provenientes dos andaimes da vida a menos que lhes enfie um pé na boca. Porém, o ego não se apoquenta, precisa de mentiras que soem a mimos enquanto espera por um pardal que lhe lave a roupa.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

As favas de Eva

Eva era uma jovem dinâmica que gostava de maçãs e longos passeios à volta da única árvore que constituía o paraíso. Uma manhã a bela rapariga alertou Adão que ele devia tapar a latrina atrás da árvore depois de defecar, o equivalente a baixar o tampo da sanita dos tempos passados, mas visto que Adão tinha sido o primeiro inquilino do paraíso achou de mau tom a ordem de Eva. Porém, obedeceu enquanto lhe rogava uma praga entre dentes. Nos dias que correm as mulheres ainda pagam pelo erro de Eva não saber comer o raio da maçã e ficar calada, subjugando gerações à primeira macumba bíblica.

Foram, garantidamente, homens a criar maquilhagem, saltos altos e tangas. Não foi num dia solarengo que banhava o quarto de uma jovem acabada de acordar, que uma epifania atingiu-a como se de um raio se tratasse e ela concluiu: “Devia haver uma maneira de enfiar rabo acima todo este tecido que confortavelmente adere ao meu traseiro, de maneira a desconhecidos não me catalogarem pelas linhas que transparecem pela roupa”. Pois, na realidade o que mais se quer é ter renda enfiada no rego, pelo bel-prazer da vista alheia, mesmo que envolva ciência o ajeitar do tido pedaço de tecido sem que faça ricochete e nos faça chorar em público por termos piorado a situação. Lacrimejo por cada tanga puxada até ao pescoço que vejo a gritar por ajuda ao tentar fugir das calças de mulheres que se agacham sem pensar nas consequências. O bambolear natural das mulheres não é uma tentativa de sex appeal mas sim um método de não perdermos as cuecas entre as bordas e o segredo das mulheres irem acompanhadas à casa de banho é para não correr riscos e haver sempre acessibilidade a uma equipa de socorro.

Os saltos altos foram um mecanismo inventado pelos homens para que houvesse mobilidade reduzida na altura de fugir de otários. Não só diminui relativamente a velocidade habitual de uma mulher, torna-se um limbo quando alcoolicamente alteradas, dão sinal sonoro quando tentamos sair sorrateiramente da cama e os homens lêem os sapatos como perfis de redes sociais, havendo dos saltos de mulher casada, aos saltos da mulher que está desesperada por contacto humano e aceita tudo menos levar com sardinhas nos olhos enquanto fazem sexo. A maquilhagem foi uma via alternativa criada para bloquear os poros das mulheres, na esperança que a acumulação de estuque facial as fizessem calar. Não funcionou como pretendido, mas tem a capacidade de baixar a auto estima feminina quando na ausência de produto.

A realidade é que as mulheres são naturalmente bonitas mas estão demasiado ocupadas a pagar as favas da latrina do outro. Já os homens roncam, cheiram mal dos pés e andam para ai a baloiçar um par de bolas peludas e é como se fossem princesas, podem não tomar banho uma semana e no máximo há uma saudação masculina de risos brejeiros e repetição ensurdecedora de que isso é que é ser homem. Queridas mulheres, compreendo que a vida vos conduza a uma rua sem saída e que vão continuar a usar maquilhagem, saltos altos e cuecas que vos vão eventualmente cortar ao meio, mas tudo o que se qualifique como decisões de moda estúpidas fora destas categorias, como calças a serem substituídas por leggins, só se têm a culpar a vocês mesmas, pois não há muitas mais figuras bíblicas com pedalada para estas desculpas tiradas a ferros para a nossa ausência de amor próprio e auto-mutilação gratuita.