quarta-feira, 25 de junho de 2014

O amor não chega

Uma relação amorosa é como um dente do siso. Sabemos que um dia irá aparecer, mas mostra-se ao mundo quando menos esperamos. Constatamos desde cedo que irá, eventualmente, criar problemas, mas para quê arranca-lo se está tão lindo e desprovido de problemas no seu canto. Até ao dia em que notamos todos os restantes dentes a ficar tortos e ou optamos por o deixar intocado pelo conforto que é evitar a visita ao dentista, correndo o risco de ganharmos semelhanças com o focinho de um cavalo, deitando pela janela todo o investimento em aparelhos com elásticos multicolor, ou o arrancamos. Mesmo com preparação e anestesia esta opção vai doer, provavelmente inflamar e fazer-nos desejar ter o maldito dente de volta. Porém, quando a dor termina, estamos mais leves.

Esta semana arranquei o meu siso. Agora é esperar que os outros dentes ocupem o espaço vago e volte tudo ao lugar que lhe compete.

[Comentários de pena politicamente correcta são uma utilização errónea dos vossos teclados]

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Happy birthday

Vamos saudar a revista Happy por celebrar este mês o seu centésimo aniversário. Oito anos a criar postos de trabalho a psicólogas dependentes de alucinogénos que criam problemas que não existem com unicórnios anorécticos, editores daltónicos que julgam verde alface ser o tom ideal para plano de fundo de uma narrativa intensa e comentadores de moda que publicitam itens de lojas de luxo numa revista cujo poiso natural é na mesa da cabeleireira de bairro social ou sala de espera do ginecologista.

O conceito de felicidade da revista é algo que me cativa pelo seu cariz enigmático. A felicidade é algo que associo a sorrisos, amor e bolo de chocolate, porém os criadores desta revista associam a jovens subnutridas e carrancudas, que gostam de vestir roupas desapropriadas para a estação presente ou até para este planeta, que parecem ter sido tiradas à força da ala de apoio à depressão crónica, dando-lhes o lugar de destaque: a capa. A escolha por pessoas tão miseráveis e descontentes com a sua vida é tão plausível como um anúncio de luvas em que o modelo tem cotos. A revista tem um preço bastante apelativo, o que a torna uma compra viável na época das castanhas e nos quiosques das lotas. Uma vez por mês pode investir no sentimento de satisfação de não ser tão energúmeno como julgava ao passar os olhos pelas histórias sem fundamento da revista, por outro lado irá ser arrebatado pela desilusão de não ser brilhante o suficiente para ter usado essas míseras moedas em algo mais útil, como para colocar debaixo do pé daquela mesa que estava a abanar.

Esta maravilha literária mensal vai ilibar o seu pensamento das dúvidas que o atormentam no quotidiano. Nunca mais vai acordar em sobressalto com a dúvida se o azul petróleo saiu de moda, vai aprender que pode perder cinco quilos se trinchar o seu braço fora e esclarecerá todas as questões patentes na problemática de fazer uma orgia vendada, equilibrada no topo de uma palmeira com toda a equipa de hóquei de Santa Comba Dão. São anos a melhorar o seu conteúdo e a aumentar as páginas de publicidade, possibilitando a bênção de em cem páginas só quatro terem letras. Acredito no espírito da revista e em como o seu núcleo literário jaz nas palavras florescentes impossíveis de ler e no bom coração dos editores que enchem as páginas de cremes e perfumes de brinde para colmatar a perda cerebral do leitor.

Parabéns à Happy e que façam muitos mais anos a levantar a moral dos compradores de outras revistas, que a evitam nas prateleiras como se de sarna se tratasse, a título de preservar um nível decente de amor-próprio.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Turquia

Fugir ao quotidiano, ao conhecido, pode significar fugir aos percursos turísticos e grandes capitais e enveredar por caminhos desconhecidos onde o tráfico de órgãos é uma viabilidade. Fui à descoberta do interior e sul da Turquia, onde os montes vulcânicos conferem uma beleza desértica e as praias de água quente nos fazem crer que estamos no paraíso, não fosse a substituição de areia por calhaus que nos levam a desejar ser socialmente aceitável rebolar até à agua.

Descampado, vaca, palmeira, mausoléu, é a sequência rítmica que nos acompanha estrada fora, ao som dos cânticos religiosos incessantes, que a dada altura cremos conhecer a letra. Sair de um autocarro e ser cegado pelo sol ardente faz-nos esfregar a vista e perceber que se calhar a viagem era para Corroios, pois a tez bronzeada é um tom possivelmente adquirido na Costa da Caparica e denota-se algum azeite a escorrer pela face dos locais ao invés de suor. A moda dos cortes de cabelo em forma de pote de barro rapidamente prova que é a Turquia, pois a cerâmica não é o forte da Margem Sul do Tejo. As mulheres dividem-se entre o fascínio e o medo da típica europeia, os homens parecem um disco riscado com o cio. Se a presença de álcool estivesse mais patente nos seus hábitos culturais e na minha corrente sanguínea, talvez todo o ritual de acasalamento protótipo deste povo não parecesse um desastre desesperado.

O preço irrisório da comida faz-nos arriscar em pratos cujo nome nem sabemos pronunciar e mesmo que quiséssemos ninguém nas imediações seria capaz de traduzir. Uma coisa se torna certa após os primeiros restaurantes: tudo leva iogurte. Já bebidas é aproveitar as maravilhas da água del cano, pois uma cerveja custa um baço e dois dentes. Acordar e usufruir dos encantos de um pequeno almoço de hotel, por vezes a salvaguarda de toda uma gastronomia que intensifica as filas de espera para a casa de banho, torna-se uma degustação de cinquenta variedades de azeitonas, queijos com cortes e crostas artísticas mas que sabem todos a jornal e, o inesperado, iogurte.

Uma cultura fechada mas fascinante, que prezam a natureza como nunca antes tinha presenciado e tão supersticiosos que os gatos pretos suicidam-se à nascença. Regateadores natos, que nos levam a fazer compras em que pensamos ter ganho a batalha dos cêntimos, quando só queríamos comprar umas gramas de chá e saímos de galinha em punho. Onde todos os recantos parecem saídos de um filme, ora romântico e místico, ora onde se estripam porcos e estudantes de artes. A Turquia é um país a visitar e explorar, com um povo bom mas culturalmente muito diferente do nosso, onde nos devemos acompanhar de um espírito aberto e um pacote de bolachas.

domingo, 1 de junho de 2014

Vou ali e já venho

Uma semaninha de lombo escarrapachado ao sol e prioridades organizadas por ordem descendente após andar de balão e de camelo. Volto daqui a 8 dias. Bem haja e sejam felizes.

Sem censura

A música é pornografia no seu estado mais límpido. Umas exibições são magnificas e gostaríamos de alcançar a performance do artista, outras não percebemos o que está a acontecer e se aquilo sequer se enquadra como prática da actividade, e há ainda as que desejávamos nunca ter presenciado porque a imagem nos irá perseguir até ao fim dos nossos dias. Ir a concertos para mim sempre foi a definição clara de êxtase e, este fim-de-semana, apercebi-me que passei a adolescência a antecipar o momento em que poderia ver os meus artistas favoritos ao vivo e fazer parte daquele frenesim de emoções que é um concerto e, agora, após ter ido a um bom número, apercebo-me que estou a ficar velha de mais para isto, como um adolescente experimentalista, agora adulto cansado e marreco, começo-me a contentar com a posição de missionário.

O roçar de corpos e suor costas abaixo pode soar a algo sensual, mas quando falamos de um festival, sendo o suor de milhares de corpos dos quais uma razoável percentagem não leu o manual de como empregar desodorizante, a sensualidade fica-se pela possibilidade de batermos com a cana do nariz no gradeamento, bloqueando as fossas nasais. Ouvir a pessoa ao nosso lado assassinar cada palavra da nossa música favorita, parecendo estar a entoar o hino israelita em vez de uma balada em inglês, e tolerar guinchos de contentamento de fãs por cada vez que o cantor expira, sob a constatação que ainda não se esqueceu de respirar, são pormenores aos quais já estou imune. Porém, cada vez mais é comum que crianças sem amor à vida assistam a concertos sem presença dos pais. Acho que a regra deve passar por proibirem a sua entrada ou por os atarem a postes ao fundo do recinto para não terem tendência a fazer mosh pits, impedindo de ver os concertos aqueles que efectivamente pagaram pelos seus bilhetes e não os obtiveram por consolação de só ter chumbado a duas disciplinas. Volta e meia um come a cabine de som ou o pé de alguém e lá tenho que me rir, o que é desagradável. O mosh pit foi criado, exclusivamente, para concertos em que nem com legendas se percebe o que o cantor diz, então de pouco serve estar parado, mais vale correr feito um gnu.

Assisti a um concerto em que o artista atirava bolos à cara do público em delírio com a ideia. Ao que parece o negócio das pastelarias já não é tão próspero como antigamente, pois visivelmente nenhuma daquelas criaturas via um bolo há anos. Eu compreendo o encanto de comer depois de tantas horas ali em pé, mas ficavam mais bem servidos se o homem tivesse atirado umas febras.

Nada se equipara à sensação de estar num recinto cheio de pessoas que partilham os mesmos gostos (de pastelaria) e a constatação de que se ocorre um desastre natural não há safa possível. Cantar em uni som faz-me crer, erroneamente, que não canto assim tão mal e ouvir um “com licença”, antes de nos empurrarem, ganha todo um sentido bíblico. Não obstante, vou ter que deixar de ir a concertos, por estar a perder o fio à meada no que diz respeito aos seus conceitos e achar que pelos preços cobrados deveríamos estar imunes à ressaca no dia seguinte.