quinta-feira, 29 de maio de 2014

Erro de Impressão

“Se Deus te assinalou algum defeito te encontrou”
Deus provavelmente estava todo animado a desenhar um dálmata quando os meus pais decidiram procriar e perdeu o raciocínio. A variedade de sinais no meu corpo tem patente um trabalho imensurável por parte de Deus que não se poupou a esforços em acumular defeitos no meu ser, no que parece ser um intrínseco jogo de juntar pontos com mau feitio, porque aqueles que se aproximam com caneta em punho morrem prematuramente.

Hoje recordo-me dos ditos repetidos vezes sem conta pela minha avó quando eu era criança, pensava eu que ela os repetia por estar a roçar o senil e afinal eram dicas, absolutamente nada subtis, à minha pobre confecção. Fui dotada de poucos atributos físicos para além da exímia capacidade de afastar os dedos dos pés como a saudação do Star Trek e abanar o nariz como a personagem do Bewitched (Casei com uma Feiticeira), o que demonstra, provavelmente, demasiado tempo livre a ver televisão em criança e não um talento natural. Não obstante, não me considero uma pessoa assim com tantos defeitos que Deus se tivesse que dar ao trabalho de parar de preencher os seus livros de colorir em que rabiscava dálmatas, para me colocar sinais em sítios humanamente impossíveis de ver a olho nu. Vendo bem, também posso ter sido um erro de impressão.

Há uma semana por mês em que faço jus a todos os sinais que porto em mim e eles até se tornam néon. Denominada como menstruação ou possessão demoníaca, todos os meses transformo-me numa lontra bipolar, sem qualquer réstia de amor-próprio e capaz de fingir a sua morte em público se descaradamente me roubam o fim de uma fartura. Num misto de sentimentos entre querer mandar o meu namorado para casa da mãe dele, mas ir no seu colo porque estou carente como um cão abandonado, e querer ver filmes de terror porque sinto familiaridade com a temática sanguínea torcendo convictamente pelo serial killer, mas não conseguir ver um romance sem me querer matar porque a vida de toda a gente é linda menos a minha, a minha presença torna-se insuportável. Ser chato ganha um novo sentido, considerando que o meu QI desce notavelmente e me enquadro no padrão de pessoas que quando vêem um cão falam com ele com dicção de recém-nascido e se atiram para o chão para rebolar com ele, apesar de estarem em plena Avenida da Liberdade.

Gostaria de me mostrar solidária com todos aqueles, que tal como eu, têm que ouvir ditos maledicentes e capazes de destruir a auto-estima das suas avós e como benesse ainda precisam de usar mais protector solar. Alegrem-se amigos, porque todos gostarão de vocês, por lhes lembrarem dálmatas e quando derem pelo vosso real mau feitio já é tarde.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ser Português é F...

Ser português é nascer a cantar o Fado, enquanto se reza a Fátima que a ladainha da Family Frost pare de tocar de madrugada na rua e caso não se concretize por meio divino partimos o retrovisor da carrinha com uma bola de Futebol. Fado, Fátima e Futebol diz-se que são os três F que definem a nossa nacionalidade. Para além do facto subjacente de eu me provar um terrível exemplar do espécime português, não deixa de ser caricato que o que nos define vai de encontro em grande parte às temáticas que se dizem tabu quando tencionamos manter uma conversa saudável: Futebol, Religião e Politica (deve haver comunistas que cantem o fado, logo, é politico).

Deram-se mais umas eleições que me parecem ter sido relativamente negligenciadas, como aquele conhecido com mau hálito que fingimos não ver no metro para evitar o constrangimento de querer regurgitar quando abre a boca. Há cartazes em todo o lado e o icónico carro com altifalantes que ensurdece a população com as mais encantadoras baladas políticas, para o qual as pessoas olham e ouvem com desprezo, como quem diz “se não vir é porque não existe”. A população deixou de acreditar na política, como tal acho que está na altura de criar um novo método de voto, como por exemplo colocar urnas à entrada do piquenique do Continente. Não seria exacto que os votos viriam da população mais instruída politicamente, mas ao menos alguém se deslocaria às urnas e não seria como agora, que os únicos vinte votos que deram entrada são dos infelizes que tiveram que trabalhar nos postos de voto e votaram de tédio. Votar não é só um direito, como uma obrigação, nem que seja em branco, caso se abstenham do voto, abstenham-se também do direito de opinar da situação mal parada do país, pois sentados no sofá certamente não estão a mudar nada para além do canal.

Não tenho particular apetência para falar de politica, o meu favoritismo passou, em jovem, pelo comunismo, três dias por ano, porque os concertos do Avante eram melhores que os dos comícios de extrema direita. No que diz respeito a futebol sempre fui da equipa que ganhar o que me permite estar sempre a festejar vitórias de equipas que nem sei pronunciar o nome. Já Fátima é uma terra muito bonita e também aprecio a escolha do nome Fátima para criancinhas de tez pálida, mas sinceramente não sei rezar e as minhas crenças passam pela fé na humanidade e por viagens low cost.

sábado, 24 de maio de 2014

Falta de visão

Ao nascimento os nossos pais esperam que sejamos saudáveis e de preferência pouco estúpidos, umas crianças têm um perfil aventureiro, brincalhão, eu tinha em mim algo de empreendedora. Na escola primária vendia fotocópias de desenhos do Dragon Ball, a preços dignos de serem obras de Dalí, em prol de comprar o bem mais precioso na infância de qualquer um, gomas. Cresci e desenvolvi a minha lábia de vendedora, sendo na escola básica capaz de vender tranças de lã de cores variadas, que anunciava serem pulseiras de sorte com os mais variados significados, na compra de várias recebiam uma descrição do seu signo que retirava detalhadamente do teletexto. Abandonei a carreira de aldrabona a uma tenra idade pois verifiquei que aquelas crianças de ingenuidade sem par não iriam certamente originar os adultos mais brilhantes, não constituindo um desafio para o meu desenvolvimento psicológico e económico. Escusado será dizer que era uma mulher de negócios que trabalhava na obscuridade do anonimato, pois se a minha mãe descobrisse arrancava-me a cabeça a grito. Não fosse a falta de desafio e teria dado uma traficante de droga ou armas extraordinária.

Passado tantos anos de ter abandonado uma carreira promissora na área do tráfico de produtos ilegais, olho em volta e apercebo-me que nasci no país errado, pois tanto alarido em torno dos requisitos das bandas que irão actuar no Rock in Rio é pura falta de visão. De pistas de atletismo, frigoríficos e barcos insufláveis, tudo faz parte da lista de necessidades básicas dos artistas estrangeiros. Quando nos deparamos com os pedidos das bandas portugueses, passam por água engarrafada e os ingredientes necessários à confecção de sopas de cavalo cansado. Ora é falta de visão! O português só pensa no dia de hoje e como é bom enfardar pão com manteiga após balbuciar meia dúzia de palavras cantadas. Já bandas, como os Arcade Fire, que engenhosamente pediram 100 toalhas de banho, estão visivelmente a planear um futuro em que alguém da banda tem uma overdose ou simplesmente deixam de produzir música de jeito. Se em cada concerto lhes providenciarem essa quantidade de toalhas, eles estão mais do que amanhados para ser proprietários de uma promissora carrinha de venda de toalhas em qualquer praça europeia.

Foco-me agora, então, no que me levou a falar sobre este assunto, que foi a ausência de lasanha na superfície comercial que frequento. Se não fosse a falta de visão portuguesa, tínhamos abastecido os super mercados como se nos estivéssemos a aproximar de um apocalipse zombie, visto que, este fim-de-semana, Lisboa foi invadida sem dó nem piedade por espanhóis. É triste que nem o país rentabiliza esta situação, nem eu janto lasanha. Se eu tivesse seguido o meu destino, traçado desde tenra idade, tinha conseguido vender uma bazuca por preço amigável à equipa que visivelmente vai perder, provavelmente portadora de uma lasanha que estaria disposta a abdicar ao bom amigo traficante de armas. Caso contrário, ao menos tinha uma bazuca para acertar no fulano que ficou com a última lasanha.

domingo, 18 de maio de 2014

O fim é o começo

Um relacionamento amoroso é algo sagrado, com o poder de revelar em nós o apogeu da felicidade e cujo rompimento devia ser ensinado na pré-primária. Em criança terminar com o primeiro namorado passa pela azáfama de chamar o petiz de mal cheiroso e de o empurrar para uma poça de lama, quando crescemos ganhamos um senso de responsabilidade que nos impede de empurrar namorados para o esgoto, levanto a todo um ritual de término, equivalente ao acasalar de pavões, muita dança para contornar a questão e esvoaçar para distrair os olhares, mas pouca conversa.

É de um comodismo incomparável nos mantermos com alguém quando não estamos felizes. Uma situação desconfortável é arrastada por meses, senão anos, na esperança que uma viga o atinja numa zona essencial do cérebro e ele agradeça doravante a nossa existência ou simplesmente lhe dê o badagaio, evitando as típicas conversas desagradáveis de rompimento. O manancial de frases criadas para atenuar a situação já se tornou de tal modo senso comum que não há uma maneira subtil de atingir o assunto. Enviar uma mensagem a dizer, “temos que falar”, tornou-se o culminar do pânico do nosso parceiro, quando na realidade só queremos saber se comprou areia para o gato.

Hoje li uma notícia que vítimas de violência doméstica aguardam em média 13 anos antes de romper com o seu companheiro. A menos que estejam a planear com tórrido pormenor como lhe dar com a torradeira na cabeça, custa-me compreender tamanha angústia preservada por tanto tempo. Homem que me toque vai descobrir que, “o que é que faz um saco preto atado a boiar no Tejo”, não é o começo de uma anedota. Compreendo que há situações deveras complicadas, mas a vida é curta demais até para cornetos sem o fundo de chocolate, quanto mais para abusos do nosso espaço físico e psicológico.

Começa sempre com uma frase de introdução exacta o suficiente para o nosso companheiro saber o desenrolar da situação e evitar perguntas redundantes. Passa sempre pela explicação que no começo não tínhamos conhecimento dos seus hábitos nojentos ou ambição de viver às nossas custas por inércia crónica (ou mulheres politicamente correctas traduzem isto para “não és tu, sou eu”, o que é uma aldrabice que saiu na lateral da embalagem da farinha Amparo no tempo da avozinha). Um chora, o outro acompanha por solidariedade e alivio de finalmente ser livre. Passado uma semana um deles decide que quer manter uma amizade, que não vai saber manter porque ainda não compreendeu o porquê de ter levado com os pés.

Há uma panóplia de razões por detrás de um rompimento amoroso, cada caso é um caso, mas na grande maioria das vezes, quando termina a paixão, uma relação mantém-se pelo comodismo. O conforto de saber que, mesmo que não seja perfeito, conhecemos aquilo com que podemos contar e, duvidosamente, irá ficar pior. Aliado a todo o reboliço emocional envolvente, terminar uma relação é um pincel de todo o tamanho. Quer seja por comodismo, ou, tal como eu, pela vontade de ascender a nível espiritual e ser um dia canonizada por um nível de paciência sem precedentes, nunca se esqueçam que em primeiro lugar está a vossa felicidade.

 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Provocar o Universo

O universo tem uma maneira muito particular de funcionar e o ser humano tende a brincar com este mecanismo sistemático e perfeito, na tentativa de testar a resistência universal a um big bang. Há coisas contra natura que levam o universo a verter pingos de suor frio pelo pescoço (sim o universo tem nuca) e pensar fingir a sua própria morte. Temos o caso de ainda haver pessoas que fazem like em fotografias de facebook por acreditarem que vão salvar a vida do esquilo leproso indonésio, o absurdo dos insolentes que comem frango assado sem batatas de pacote e o mítico uso de tangas por elementos do sexo masculino.

Um dia, durante um strip masculino, Saturno vai sair de órbita e em chamas aniquilar o clube onde um homem abana alegremente a genitália, provavelmente, em associação com o resto do planeta Terra. Sempre achei tenebrosa a punição de crimes violentos através da cadeira eléctrica, não obstante acho que quem pensou que a tanga da sua mulher lhe assentava que era um mimo, devia ser sujeito a levar com cadeiras e cabos eléctricos arremessados por mulheres cuja líbido se viu assassinada pela imagem. Um soutien tem dois compartimentos, pois há duas ondulações no peito da mulher, ora a mim parece uma questão arquitectónica bastante frontal a tanga masculina precisar de compartimentos para as suas variadas ondulações, ou, por falta de mente capaz de criar tal produto, a extinção imediata das tangas masculinas, bem como de todas as imagens alguma vez captadas dos púbicos relacionados.

As mulheres vão a clubes masculinos na esperança de ver os músculos que os seus maridos perderam ou nunca tiveram e apreciar barrigas de tanque com tanto óleo que dava para fritar batatas. Na sua generalidade, as mulheres preferiam que o strip masculino terminasse no tirar das calças, em que vislumbravam um rabinho definido totalmente enfiado numa sunga, aplaudiam e voltavam todas rejubilantes aos seus afazeres. Porém, por sadismo óbvio por parte dos proprietários destes estabelecimentos, não há espectáculo que acabe sem um tomate que espreita do seu T0 dourado a roçar-se ao olho da espectadora ao som da macarena, terminando qualquer tipo de sensualidade que pudesse estar ali patente. Já para não referir os que se despem totalmente, pois isso é o fim da picada, as mulheres têm seios, leito de sonhos masculinos, os homens têm uma suricata morta entre as pernas, que por muito que as mulheres apreciem a sua existência não vão aplaudir a aparição da mesma por mero exibicionismo, regra geral desapontante, destronando a imagem da barriga que fritava batatas. As mulheres gostam de criar expectativas e a última coisa que se quer num clube nocturno são desilusões.

A mente feminina é exercitada pelo mistério e este deve ser mantido a todo o custo. O acreditar em todo um potencial escondido num homem é muito mais sensual do que a descoberta que somos portadoras de uma imaginação fértil sem precedentes. 

sábado, 10 de maio de 2014

Nascer com cara de empadão

A dádiva da maternidade equipara-se em grande escala a ser abduzido por uma forma de vida extraterrestre. O cérebro da portadora é sugado até o auge do seu raciocínio ser a constatação que ainda tem cinco dedos em cada mão e a sua memória torna-se equivalente à de um peixinho dourado com demência. Antigamente havia uma maior resistência por parte das portadoras, sendo o maior sintoma o crescimento da incubadora móvel e incapacidade de controlar sentimentos. Porém, nos dias que correm, com facilidade as portadoras transformam-se em monos cerebrais e físicos, incapazes de efectuar a mais simples das tarefas.

Não há bela sem senão e uma gravidez acarreta implicações, como cuidados extra de alimentação e precauções para não escorregar e rebolar ribanceira abaixo. Lembro-me, como se fosse ontem, de ver mulheres de barriga imensa a trabalhar e comer como um ser humano. Subitamente, com duas semanas de gestação, mexer qualquer membro tornou-se um combate contra a gravidade, toda a gente é alvo de uma gravidez de alto risco (inclusive o futuro pai e a tia que está na menopausa) e a alimentação passa por mais restrições do que a de um gato com prisão de ventre.

O conhecimento sobre doenças, infecções e problemáticas possíveis numa gravidez são cada vez mais conhecidas. Não há benesse maior no avanço da medicina e há realmente cuidados a ter, mas há mulheres que agem como se o seu feto nascesse prematuramente a relinchar de entusiasmo por presenciar, através do umbigo da mãe, alguém num mesmo restaurante a comer deliberadamente uma folha de alface. Intriga-me o motivo por detrás das grávidas se dignarem a jantar fora, quando estão cientes que não há nada em menu algum que possam comer sem colocar objecções. Não fique à espera que um empregado de mesa vá ao Alasca pescar o mais fresco peixe e tirar as suas escamas com as mais delicadas pétalas de rosa, quando o vosso marido não se arrasta nem ao frigorífico para vos passar o leite.

As minhas observações, obviamente provenientes de alguém com o relógio biológico algo perro, limitam-se a tentar ilustrar que há momentos para ser vividos intensamente e um deles é a gravidez. Há mulheres demasiado obcecadas com a alimentação, só comendo fruta portadora de uma personalidade forte e bifes provenientes de vacas mais brancas que pretas, porém não abdicam de álcool e tabaco. Se os médicos não vos fizeram um desenho ilustrativo do mal que certos vícios podem provocar numa gravidez é porque partem do pressuposto que vocês têm um quociente de inteligência superior ao de um castor. Ingénuos! Cada vez que vislumbro uma mulher com uma barriga do tamanho de uma melancia de tão grávida que está, a fumar como um camionista ansioso só me apetece cumprimenta-la com uma cadeira no nariz.

Dizia-se que mal fazia não corresponder aos desejos, se havia apetite para um empadão tinha que ser comido ou a criança iria nascer com cara de empadão. Obviamente que os cursos profissionais de cozinha não davam vazão a tantos futuros pais. Subitamente a medicina entreviu e a única coisa que se pode apreciar num empadão, quando grávida, é o cheiro. Azares infelizmente acontecem, mas, quer culpem os tomates crus da salada ou os do vosso marido, se viverem cada momento da vossa gravidez sem ataques hipocondríacos, certamente nascerá uma criança saudável e com menos tendências paranóicas que vocês. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

De ficar com olhos em bico

A calçada conta as histórias de quem já a pisou, os muitos que pararam para admirar os monumentos erguidos em volta. Notam-se os traços renascentistas aqui e além, que passam despercebidos entre o cheiro a café e pão que se faz sentir, em tempos pré-romanos conhecida por Olisipo, hoje em dia Lisboa, em breve Macau Parte II – O Encher de Chouriços Histórico.

A colonização de Macau foi aquele presente de Natal que a tia afastada nos oferece e de bom tom sorrimos e agradecemos, mas encafuamos na cave porque já sabemos à partida que não lhe vamos dar o uso apropriado. Ao passear pelas ruas de Macau vemos vestígios portugueses, dos pasteis de nata cuja receita lhes deve ter sido ensinada em português, língua que desconheciam e por isso sabem a ovos mexidos, a calçada portuguesa mais básica e alguma má disposição por parte de taxistas aquando da intenção de percorrer trajectos curtos. Era pedir a um ferreiro para confeccionar um bolo. Portugal não sabia o que fazer com aquele território. Porém, desde que houve a renúncia à propriedade do território macaense a sua evolução económica tem sido enorme. Passou de poiso de amantes exóticas de muitos portugueses, para Las Vegas asiático.

Bancos com fachadas meramente escritas em mandarim, lojas que tudo vendem em que a língua oficial é o cantonês, onde se entra para comprar uma esfregona e se sai com uma caixa de palitos e nos damos por felizes, problema nosso se não percebemos as instruções de uso fornecidas pela comerciante para eficazmente lavar o chão com palitos, e tuk tuks, em todo o lado e de todos os tamanhos, o que começou por ser amoroso torna-se agora ridículo, quando têm mais lugares que uma limusina. Estamos lentamente a tentar transformar a capital portuguesa numa cópia do nosso projecto falhado, agora, bem sucedido.

Compreendo a parte do empreendedorismo, mas quando damos por nós a ver uma senhora de tamanho considerável a sair de uma tuk tuk a motor para a empurrar colina a cima, leva-nos à constatação que isto é o mero extorquir da cultura dos outros, por algum motivo não são o meio de transporte nacional, nós temos colinas! Haverá algo mais irónico do que uma traineira que não aguenta um pouco de inclinação ser a moeda de troca por todos os portugueses que viajam diariamente para Macau à procura de trabalho? Colonização com colonização se paga. Perdemos a nossa oportunidade com Macau, não é por termos tuk tuks com a cara de Fernando Pessoa estampada a subir a rua da Sé que nos vai redimir do quanto os afundámos e curar a dor de cotovelo de terem vindo ao de cima sem nós, e acima de nós.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Uma questão de onda

A mãe natureza é uma força indomável e à qual todos devemos grande respeito, mas Garrett McNamara tem testado os seus limites, das ondas mais perigosas às maiores do mundo, passando pela Nazaré onde quebrou o recorde mundial. Certamente no decorrer destas aventuras bateu com a cabeça em algum calhau e ficou com o juízo toldado. Esta semana fez uma aparição na praia do Barreiro para surfar uma onda que nasce do funcionamento de um dos barcos da travessia do Tejo, a onda intitulada de Gasoline (o nome não deixa nada à imaginação).

Sem intenções pretensiosas para com os petizes, filhos de casais sem preocupações sobre os danos causados às suas crias por levar no focinho com petróleo com vestígios de rio, e para com os indivíduos de avançada idade que não se importam com a sensação viscosa de ter lodo até ao pescoço, alegando que faz bem à pele, mas aquilo nunca foi uma praia, apenas um pedaço de areal geograficamente mal enquadrado por Deus. McNamara sairá do Barreiro com um bronze sem igual, pois não há petróleo de melhor qualidade que o usado nos barcos do Tejo, não há solário que compare a sua durabilidade, pois mais depressa corta um braço do que o deixa de ter bronzeado. Não obstante, no que diz respeito a ondas, se me pagar bem eu chapinho com bastante determinação e certamente ficará mais bem servido.

Como uma banda rock em final de carreira, McNamara deve estar a tentar ganhar os últimos trocos antes da reforma, mas seguindo um conceito alternativo que envolve ser assaltado na Margem Sul e nadar pela sua vida até Lisboa. Quando me deparo com notícias deste calibre ganho outro respeito por entidades artísticas portuguesas como a Ana Malhoa. Ao menos sempre foi consistente na sua má prestação e nunca criou expectativas aos seus seguidores para lá dos implantes mamários, não podendo ir mais abaixo nos padrões musicais.

Segundo as notícias, a onda que McNamara vai surfar só ocorre 6 vezes por mês, quando se dá o casamento perfeito entre a maré baixa e a hora de ponta, porque se o barco não estiver cheio até cima mais vale atirarem um balde de água à cara do homem, pois vai ser o mais perto de uma onda que ele vai ter. Portugal marca a sua presença mais uma vez nos grandes feitos que metem água.