quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

T2 Aluga-se

O âmago cultural e histórico lisboeta pode ser agora o seu lar. Venha descobrir as maravilhas de habitar no centro da cidade, onde é fácil o acesso às principais fontes de tráfego automóvel e tráfico de drogas. O encanto de assistir em primeira-mão ao declínio dos negócios familiares que o rodeiam e às manifestações pela sua rua onde frases sem nexo serão proclamadas devido à quantidade de erva fumada previamente. Tudo isto pode deixar de ser um sonho, a realidade está a seus pés.

Um T2 numa das ruas mais emblemáticas da cidade e vista para uma repartição do Estado sem propósito algum está agora disponível para habitação e para o enganar quanto à sua durabilidade e condições básicas. Todos os tectos possíveis já abateram no decorrer de um ano, havendo muito pouca probabilidade que abatam segunda vez, a humidade devido à proximidade de uma colina irá proporcionar-lhe uma avaliação meteorológica antes mesmo de sair de casa e dispõe ainda de uma janela interior com vista para uma possível vala comum da antiga PIDE. Não podemos deixar de frisar a facilidade de acesso aos transportes públicos, bastando abrir a janela para ter a sensação que tem um eléctrico a atravessar os quartos a cada 10 minutos. Ir fazer as compras do mês vai começar a ser tarefa fácil, pois vai optar pelas compras online e os senhores das entregas que se orientem com o estacionamento, pois nesta zona histórica de privacidade incomparável não é possível estacionar. Os requisitos são de tal forma elevados que nem os caixotes do lixo são admitidos nesta zona para não arruinar a paisagem histórica dos sacos azuis e pretos a feder a peixe à porta de casa. Uma vivência incomparável, onde terá tudo o que precisa no seu prédio, dos senhores de origem paquistanesa que fornecem qualquer tipo de produto lícito, ou não, até horas tardias, à possibilidade de saber se está lua cheia ou nova sem sair da cozinha, pois as marés baixas irão trazer à sua canalização o cheiro a defunto típico do Tejo. A sua casa será tão cobiçada que sazonalmente terá algum animal a querer tomar posse da sua cozinha.

Não perca nem mais uma maratona, nem qualquer evento matinal que envolva gente a bufar e gritar durante os fins-de-semana em que quer descansar. Não desperdice nem mais uma noite sem ouvir os bêbados a chamarem pela sua mãe e a tentarem arrastar-se para casa enquanto regurgitam a sua porta. Seja o primeiro! Seja o primeiro a ficar soterrado quando houver o mais pequeno sismo, pois a sua casa foi construída numa época em que fundações de madeira tinham uma lógica sem paralelo. Por uma quantia totalmente desproporcional às condições da casa, o sonho de viver no centro da cidade pode ser seu. Contacte-nos.


[Hoje apercebi-me que quando tiver que alugar esta casa vou ter problemas]

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

As vacas já não são gordas

Ouvem-se rumores de que os portugueses estão cotados como dos melhores funcionários enquanto emigrados. Estou desejosa de emigrar para ver esta linhagem de portugueses no seu habitat artificial, pois aqui, a maioria assemelha-se a sardos fora de água e a minha paciência está no linear de ir vender os meus colaboradores para a lota. É muito bonito sermos o país do fado (profissionais de lamúrias mil), do futebol (alguém dá um pontapé numa lata e pára tudo para ver) e Fátima (é bom que rezem…), porém onde está a energia e motivação para levar este pais para a frente?

Se no dia de hoje se festejou um feriado em 1932, ai de quem trabalhe, que falta de tacto o desrespeito para com os antepassados. Se há uma manifestação, toca de rompante para a Avenida da Liberdade, onde gritaremos frases que farão políticos lacrimejar e abandonar a vida politica, como, “Queremos Coelho à caçador”, que foi a favorita da última parada da CGTP. Se alguém comentou que é greve, mesmo sem conhecimento do seu catalisador, vá de ficar em casa a lavar peúgas, a necessidade de crescimento económico nacional é mera fantasia. Já para não falar do caso romântico que este povo partilha com os médicos e as suas folhas mágicas que os ilibam de comparecer ao trabalho por períodos paradoxais. Tudo é um motivo plausível para parar nem que seja por um dia. E como compreendo! Quem me dera ter duas folgas seguidas para ficar com a cara alapada à fronha a sufocar em pasmaceira. Contudo, considero-me uma sortuda em ter um trabalho nos dias que correm e vão ter que me esfolar viva para me arrancar de lá.

O pensamento passa por, “se eu for bom naquilo que faço, estou entalado, porque saberão que sou bom naquilo que faço, então vou fingir que sou uma palmeira durante um turno inteiro”. Profissionalismo é sinal da tentadora compensação de sobrecarga horária e trabalhos fora do horário laboral, que nos podem levar a ter destaque no mundo laboral. Falta de profissionalismo é sinal que efectividade não será um termo familiar no vosso vocabulário. Têm que notificar esta nova geração sobre o fim da época das vacas gordas.

Há uma enormidade de gente talentosa em Portugal e custa-me vê-las perder oportunidades em prol de vagas ocupadas por pessoas sem motivação que estão ali pelos seus lindos olhos, a bela da cunha ou a arte de criar uma personalidade durante entrevistas. Trabalhar que nem um burro de carga deixa de ter tanto encanto quando nos apercebemos que estamos a trabalhar para aqueles que foram contratados para trabalhar para nós. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Vida de gritos

A repetição leva à perfeição é um conceito que me agrada e conforta cada vez que penso que vejo, repetidamente, desde criança,   filmes de terror de baixa qualidade, intitulados vulgarmente de faca e alguidar, e me vou tornar numa profiler extraordinária ou numa serial killer que não sabe onde é a jugular. Tenho consciência que caso os filmes de terror fossem uma boa fonte para criar pessoas mentalmente perturbadas, eu seria menina de já me ter passado da marmita de tal maneira que a série do Dexter teria o meu nome. Contudo, gosto de me ver como quem se vai safar num apocalipse zombie ou de uma convenção de assassinos em série que possa ocorrer em Lisboa.
Poderia culpar a entidade paternal de me ter viciado na arte do sangue projectado em direcções estapafúrdias, porém tenho defeitos suficientes para usar esse trunfo com mais sensatez, culpo-me a mim e à minha curiosidade mórbida em relação ao cinema. O que um dia me assustou hoje são as minhas comédias românticas (ninguém se ri tanto com catanas e jactos de sangue como eu), o que antes me fazia sonhar hoje assusta-me. Tornou-se num ritual sempre que vou a casa dos meus pais, alugar o pior filme de terror no clube de vídeo e vê-lo como se fosse um premiado para os Óscares. O Krugger foi, em parceria com a minha avó (pior que ele três dias), a minha ama. Aprendi tudo o que sei sobre correr em direcção do grito de morte da minha amiga loira, correr para o último andar que só tem como possível saída uma janela para a linha-férrea, ir sempre a caves suspeitas sozinha apesar de todos dizerem que é estúpido mas ninguém ser capaz de me impedir e achar que serras eléctricas soam a pardais a chamar-me para dançar em campos verdejantes.
A minha geração foi treinada a odiar palhaços e se rir de filmes de terror (apesar de não admitir que os ver sozinho em casa é má ideia), segundo os nomeados para os Óscares deste ano depreendo que esta nova geração vai aprender a ser escrava da toxicodependência, pelo menos durante 12 anos.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A procura

Em todo o mundo há diariamente pais a chorarem a perda dos seus filhos ou a dúvida do seu paradeiro. Quando pensamos nisso assimilamos automaticamente a uma sensação com a qual não nos queremos identificar nem nos nossos piores pesadelos. Porém, tão sazonal como a distribuição de Ferrero Roches, os pais de Maddy voltam aos jornais, com divagações desconexas e totalmente aleatórias, que caso a criança fosse sobredotada seria perfeitamente plausível que ela própria tenha fugido de casa para não ter que tolerar as patacoadas da sua entidade paternal.

Acho louvável o esforço e amor investido em não desistir da busca de um filho por anos, acho que qualquer pai o faria. Contudo, tudo isto me parece uma campanha de marketing interminável, floreada para ocultar os verdadeiros culpados do desaparecimento: os pais. As inconsistências das suas histórias desde o primeiro dia, aliadas a desencantarem passado tantos anos um suspeito já morto e enterrado à 4 anos chamado Euclides, faz deles tudo menos credíveis. Está na altura de notificarem este casal que se já tivessem calado, já ninguém se lembraria deles e que são de tal modo irritantes que nenhum país no seu perfeito juízo quer a sua presença num instituto prisional com medo que se torne num manicómio.

É estranho nutrir algum desconforto pela existência de pessoas que nem conhecemos pessoalmente, sabendo que o sentimento cliché deveria ser de pena ou compaixão. Só tenho é pena da menina que nasceu numa casa algo duvidosa e das outras duas crianças que coabitam com estas pessoas, sabendo que sanidade não será o ponto forte destes indivíduos enquanto adultos. Toda esta fantochada é para mim mero desrespeito por aqueles que já sofreram na realidade por uma perda. Quem me dera estar errada.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Avisar que é bom...nada

“Depois da luta entre os deuses, a Terra cai no mar e extingue-se a vida. Mas não eternamente: o mundo reerguer-se-á, novo e fértil, e a dois humanos sobreviventes caberá a tarefa de repovoar o planeta.

Olha que bonito, o mundo acaba hoje e eu, feita parva, fiz compras para o mês inteiro. Os Maias anunciaram que ia acabar o mundo com centenas de anos de antecedência e é perfeitamente lógico, ao ponto de pessoas abandonarem tudo e irem para colinas à espera que extraterrestres os viessem safar (também isso muito lógico). Os desgraçados dos Vikings dedicam-se a fazer o seu calendário, com as suas pragas e fins de mundo (sendo obviamente uns porreiros que pouparam duas pessoas que mesmo que sejam feias que nem breu vão ter que procriar que nem coelhos), e ninguém lhes liga. Onde é que já se viu anunciar o fim do mundo no rodapé das notícias na véspera do evento?

Sinto a presença de algum cepticismo racial. Está certo que os Vikings não eram as pessoas mais corteses de sempre, contudo têm tanto direito de amaldiçoar a civilização como qualquer um. Não percebo bem a parte da Terra cair no mar, vou assumir que é uma metáfora para um cataclismo, porque eu se for desta para melhor à pala de uns fulanos com capacetes cornudos, podem ter a certeza que vou de galochas às bolinhas. Independentemente da civilização antiga em questão, é algo notório que estavam todos de acordo na parte em que de todas as gerações a tramar, tinha que ser a nossa.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Lugar ao sol

A educação que nos é proporcionada em casa é toda a base daquilo que nos vamos tornar enquanto adultos. Em casa sempre me foi ensinado que sensato era nunca contar com nada de mão beijada e esperar sempre por uma boa luta para garantir um lugar ao sol. Abrir uma revista e deparar-me com uma amostra de creme provoca-me taquicardia, guardo-o como se tivesse sido um Deus qualquer a abençoar a minha revista com tamanha oferenda, de imediato regularizo a pulsação e esqueço-me do creme que vai acabar por rebentar na minha mala. Desconhecidos que me oferecem sumos, amostras de perfume e até donuts à saída do metro confundem-me, regredindo para os cinco anos de idade em que o “lutar pelo lugar ao sol” se traduzia em “agarra no presente, ferra-lhe um pontapé nas canelas e corre pela vida”. Já para não falar do Natal, toda uma data festiva obscura em que dão presentes com a premissa que fui uma boa pessoa o ano inteiro, mas não vejo ninguém a verificar o meu registo criminal.

Perante várias oferendas regulares às quais fui habituada com o passar dos anos, acho extraordinário como passei quase 26 anos de existência sem saber o Santo Graal dos bens oferecidos. Fui, recentemente, a uma sapataria onde me interessei por uns sapatos todos airosos, sendo eu portadora de umas meias dignas de quem anda descalço na Serra da Estrela, comentei em voz alta que não seria capaz de os experimentar com tamanha manta enrolada aos pés, prontamente a senhora forneceu-me um par de meias. Gratuitamente! Pasmei. Os meus olhos arregalaram-se e só me apetecia abraçar a senhora e dançar a valsa com a poltrona, pois aquilo parecia um momento saído do mais encantador filme da Disney. Todo este processo enquanto a minha mãe me olhava de soslaio como se eu fosse atrasada mental e tapava de leve a cara para não se verem as semelhanças.

Este evento levou a uma longa conversa com a minha entidade maternal em como me tinha educado da maneira errónea, pois ando eu a investir dinheiro em meias à um quarto de século, com dinheiro que já tinha dado para um condomínio privado (mais coisa menos coisa), quando bastava chegar a sapatarias, aleatoriamente, e sendo portadora de uns chinelos me fazer interessada em comprar um par de ténis. Nunca sabendo se somos detentores do mais exemplar fungo nas unhacas, os funcionários estão dispostos a oferecer as suas próprias meias. Esta lição devia ter-me sido transmitida logo a seguir a aprender no abecedário a letra B, de “Bens-oferecidos-em-prol-de-não-danificar-material-possivelmente-vendável-com-fungos-altamente-transmissíveis”.

Foi desvendado um mundo novo para mim e agora sempre que entro numa loja para comprar algo, questiono-me o que oferecerão eles pelo meu bem-estar, sem prendas e mimos agora não compro nada. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Por favor encafuem-me num porão

Décadas de luta para obter os direitos humanos básicos, revoluções para estabelecer limites de poder e grandes percas de tempo sem fundamento absolutamente nenhum (houve qualquer coisa no Vietname em 1959, com uns quantos americanos que serve de bom exemplo), para além de criarem alas de doentes mentais com stress pós traumático, subsidiadas pelos próprios. Tudo isto são factos históricos, mas que não decorreram durante a minha existência. Não me estou a queixar de não ter morrido num porão de navio nas Descobertas, tão carregada de escorbuto que nem os ratos me quereriam comer. Porém, sinto que toda a minha existência está pendente no poder que uma caneta bic teve numa cassete.

É extraordinário poder viver uma vida confortável, num mundo que apesar de inúmeros defeitos, não se compara com o quotidiano de dor com que os escravos se tinham que confrontar ou com as mulheres que em actos revolucionários lutaram pelo seu direito a voto. Devemos-lhe tudo. A nossa era é de evolução tecnológica. Num curto espaço de tempo sentimos a necessidade existencial de investir em vinis, cassetes, cds e, agora, cometer actos ilegais em prol de não pagar direitos aos artistas (hoje em grande número, mas apenas dotados da arte do Photoshop e do auto tune, antigamente, sem alternativa, se tivesse a cassete dos pauliteiros de Miranda, ouvia repetidamente até me transformar num cepo). Hoje em dia, o acontecimento mais revoltante, capaz de nos tirar do sério, é chegarmos a casa e o serviço de internet estar indisponível por mais de quinze minutos. É, automaticamente, motivo para acender uma tocha e caminhar em direcção à sede da Meo para lhes queimar tudo, dos pacotes promocionais à senhora da cafetaria. O nosso egocentrismo é perfeitamente plausível, visto que de pouco serviria andarmos a atormentarmos os nossos sonos com os direitos já obtidos no passado e com o sofrimento alheio, para isso já sofremos pelas pessoas a passar desgraças na Casa dos Segredos.

Sendo absorta pelo poder da divagação, deixei-me levar quando queria debater o poder de uma aplicação de telemóveis, não, não estou a falar do Candy Crush, que só de pensar no nome já pressinto mais vinte pedidos para jogar, estou a falar do Flappy Bird. Um jogo que alimentou a criação de mensagens de raiva para o seu criador, bem como inúmeros artigos e vídeos no Youtube em que partiam telemóveis pela frustração proporcionada pelo jogo. Estamos a falar de um jogo cujo busílis passa por dar toques no ecrã para o desgraçado do pássaro não marrar contra canos que servem de obstáculo, aparentemente, os gráficos básicos aliados a uma dificuldade fora do normal levaram várias pessoas a projectar telemóveis pela janela e publicitar o acontecimento. O seu criador que conseguiu ter o primeiro lugar de aplicações com mais downloads no mundo, retirou-a do mercado (a macacada do marketing), recebendo também por isso ameaças de morte. Resumidamente, começo a achar o escorbuto algo menos doloroso do que viver numa sociedade em que as pessoas se ameaçam de morte em prol de um pássaro tão mal desenhado que mal passa de um pixel com olhos. Deviam era soltar uns ursos e meter este pessoal a jogar ao pau com eles, alegrava os ursos, os pauliteiros e não tínhamos que ouvir tanta asneira visto que duvidosamente os ursos iriam perceber as regras do jogo. Temo o que os próximos cinquenta anos trarão à sociedade, aceitando o facto que o melhor que pode acontecer será começarmos a comunicar com projecção de baba ao nos tornarmos incapazes de reagir a estímulo cerebral, e se tiver um filho vou fecha-lo na despensa para não ter que lidar na escola com as crias destas anonas que me rodeiam. Minha rica mãe, se tivesse adivinhado isto ainda eu estava sentada na embalagem de papel higiénico ao lado da comida para o gato.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Romance à força

As baladas, as velas, os peluches e a vontade incontrolável de arrancar o coração batente do nosso peito e presenteá-lo…ao rio…em chamas. O dia dos namorados é o único dia no calendário que se tornou incontornável. Há os fãs do dia que esperam receber alguma prova de afecto para compensar os outros 364 dias de relações frustradas em que querem partir a cana do nariz da cara metade com uma torradeira, e há os que odeiam o dia de tal modo que têm prazer de arrebentar balões, furar olhos a ursos de peluche e ligar aos ex namorados a dizer que os odeiam. Indiferente? Ninguém consegue ficar, nem um eremita numa gruta escura, pois até esse se iria questionar o porquê de estar ali sozinho (provavelmente porque cheira mal ou matou a companheira para a ceia de natal).

Todas as pessoas gostam de ser amadas, porém, o que intriga muitos é o porquê de haver um dia no qual há a obrigação de ter alguém e provar-lhe o seu amor. A resposta passa por um director de marketing mal amado. Ninguém consegue ser indiferente porque há publicidade e bombardear-nos com corações e casais com o maxilar deslocado de tanta felicidade. Por muito simpatizantes do amor e da sua celebração, principalmente para quem trabalha em espaços públicos neste dia, é inevitável ficarmos irritadiços, quer pelas caras carrancudas mal amadas, como pelas caras forçadas de quem está a tentar aguentar o casamento ou a seguir o cliché do dia porque a namorada o obriga.

Como se não fosse suficiente, é mais um dia para dar presentes e para nos esquecermos de dar presentes. Tem que ser uma lembrança sentimental, não é um dia em que oferecer uma perna de presunto seja plausível, a menos que chamem o vosso companheiro carinhosamente de porco fumado. O sr Valentim foi um padre que em prol de amor lhe arrancaram o coração e expuseram em praça pública e a sua cabeça foi empalada, porém não se vê para aí gente a cortar cabeças para oferecer à mulher dos seus filhos e os corações mais vendidos não são certamente os que se compram no talho.

Sou uma fã do amor e de tudo o que este significa, principalmente se houver prendas, pequenos-almoços na cama e mimos fornecidos voluntariamente, porém é tudo uma questão de perspectiva. Esta data é uma boa campanha de marketing posta em funcionamento numa sociedade que precisa de acreditar no amor, a questão é que tudo o que é forçado perde o sentido, tal como a obrigatoriedade de oferecer prendas no Natal, ou achar as mulheres umas fixes por terem um dia. O amor não se compra, é uma doença parcialmente venérea.
 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vacas roxas impiedosas

O referendo sobre imigração a decorrer na Suíça irá determinar muito em breve como será o futuro dos portugueses ali residentes. Para os imigrantes portugueses a habitar na Suíça acho que esta não é a melhor altura para irem àquela tour de vacas roxas que vos foi oferecida por e-mail, nem tão pouco aceitar pastéis de nata dos vizinhos, que quando derem por vocês estão a ser arrastados para a fronteira. O português é o novo senegalês mal cheiroso que ninguém quer (que os limpinhos são um mimo), mas ao contrário destes, que França não conseguiu expulsar nem com nomes feios e atirando-lhes brioches à cabeça, os Suíços terão todo o gosto de usar a forma ovalada dos portugueses entupidos em chocolates para os fazer rebolar Alpes abaixo.

Na Suíça há “portugueses” que imigraram para lá há gerações e estão a votar contra a permanência de portugueses em terras suíças. Isto, certamente, diz muito sobre nós. Está certo que durante anos a Suíça foi vista aos olhos de muitos como o sítio em que se arranja trabalho “nem que seja nas obras”, não havendo a necessidade de aprender sequer a sua língua ou contribuir para a sociedade, pois eram apenas um meio para um fim. Mas ao menos nunca tiveram que perceber as nossas bacuradas e isso é de longe o maior presente que podíamos prestar à sociedade. Nunca os desrespeitámos, pelo contrário, eram o simbolismo de prosperidade para os amantes de sítios frios e amantes de turismo, e a última esperança para os camafeus sem educação que há em todas as famílias e que queremos mandar para fora para deixar de os ouvir. Os portugueses amplificaram a venda de chocolates e de postais que enviavam para as suas famílias em prova de bem-estar e riqueza (outros não os enviavam e comiam-nos para manter os níveis de açúcar no sangue e queimavam os postais para se aquecer, por aguentarem uma vida precária em prol de alimentar os familiares que em Portugal pensavam que o pai conduzia um BMW e portanto estavam no direito de comprar Vista Alegre para partir durante momentos de frustração).

Compreendo que queiram impor limites à imigração para fornecer emprego e condições aos naturais da Suíça, porém o povo português é pacato e preguiçoso demais para trepar muros e ser fora da lei. Se os mandarem embora, eles vão, tirando os que vão fingir que são arbustos. Por este motivo acho que quem lá está deveria ter a opção de ficar e doravante alguns critérios podem ser impostos, mas não demasiados senão lá entalam os portugueses outra vez.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Um espirro por um funeral

Os elementos do sexo masculino têm em si, durante toda a sua vida, algo de veterano de guerra sociopata que sofre de incontinência. Como qualquer criança, em pequena a minha coordenação motora e raciocínio lógico nem sempre estavam aliados, criando queixos esfolados, joelhos negros e egos destruídos. Foi cedo que percebi que de pouco servia chegar a casa e me queixar às entidades grisalhas, que a meus olhos tinham sido tu cá tu lá com os dinossauros. Por cada dedo meu que estivesse partido, tinha que sucumbir à história em como a minha avó havia partido os dois braços a estender a roupa num dia de verão em que fez demasiado vento. Partir um dente, era ver ela sacar da placa e ma esfregar no nariz para me mostrar como já não tinha nenhum e estava rija. Tudo aquilo que alguém possa ter, a realidade é que os idosos tiveram pior, porque têm cem anos de avanço ou porque estão senis e acreditam que fizeram parte do império egípcio e andavam a carregar calhaus às costas para bel-prazer de César.

No dia em que sai de casa calculei que esta fase havia passado, sabendo que um dia seria eu a que atiraria o seu olho de vidro à cabeça do meu neto insolente quando ele se queixasse de ser míope. Porém, não houve intervalo na fase do queixume, estava errada e os meus pais nunca me alertaram com medo que eu nunca saísse de casa. Arranjei um homem!

Eu caminho em casa como se de um pequeno pónei me tratasse, é só magia e confettis, nunca me dói nada. Isto, pois há doenças que se apanham por via respiratória, os homens apanham tudo por osmose. Se eu for atropelada por um Mini, garantidamente ele vai tentar salvar-me ao atravessar a estrada na altura em que uma carrinha de caixa aberta cheia de cabras do monte estiver a passar. Não estou destinada a sentir o glamour de me doer um dedo, nem a alma, sem ter que meter compressas frias na alma de outro.

Recentemente estabeleci laços deveras fortes com a minha sanita e as dores que tinha fizeram-me aproximar-me espiritualmente da personagem que no “América Proibida” come o lancil. Pensei ter, finalmente, a minha oportunidade! A personagem máscula cá de casa cedeu-me 24 horas de melhoras antes que ele próprio decide-se tossir duas vezes, cuspir para a pia e tomar a decisão administrativa que ia morrer se não tomasse soro naquele instante. Momento, no qual, as minhas energias retomaram, não pelo lado maternal que despertou em mim, mas porque as dores foram tomar um copo para festejar a reforma antecipada. Agora compreendo a minha mãe nunca estar doente, se espirrasse em seguida tinha que correr com o meu pai para as urgências.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Dieta indiscutivelmente funcional

Milhares de mulheres em todo o mundo se questionam diariamente como podem perder aqueles quilos extra, em busca de um corpo desejado ou na esperança de não atravancar o elevador do prédio. Algumas contam calorias, outras só comem frutas, umas fingem ser vegetarianas para não as chatearem por pedirem sempre salada e outras tentam convencer-se diariamente que não vão comer fast food e quando pedimos um hambúrguer ficam a fixa-lo com um olhar tenebroso de quem preferia que ele caísse ao chão do que estar a presenciar o momento e no meio de tanta saliva e tremeliques acabamos por lhes enfiar o hambúrguer na boca por piedade. Pois tenho a anunciar que descobri o segredo do “perca peso já”!

É um processo de busca interior, tudo começa com o encontrar o ying e o yang, seguido de estarem fartos de trabalhar e se enfiarem num carro com amigos. A jornada começa com a busca de um sítio onde comer, nomeadamente na margem sul, onde têm que ir sem auxílio de gps, apenas por serem levemente idiotas e saírem na saída errada. Uns quilómetros passados, o destino é Sesimbra, perto do mar para purificar a alma e os poros. Tem de haver alguma chuva e neblina para criar ambiente perante tão divina purificação e perca de peso. Entram num restaurante de extraordinário aspecto e serviço, e pedem sem pestanejar umas amêijoas à bulhão pato. Atenção, para executar esta dieta rigorosa precisam de dois amigos com tanta falta de cultura nacional, fome e estupidez como vocês. Desprezando todas as notícias veraneantes sobre bactérias nas amêijoas portuguesas e o facto de ser Fevereiro e nenhuma amêijoa que se preze estar viva e de boa saúde, alambazamo-nos e continuamos a refeição em paz, chafurdando pão na molhanga do bife que acompanha.

Esta é a dieta mais genuína e simples que podem encontrar. Dois dias após todo este ritual mágico, garanto-vos que vão pintar à pistola com uma pinta que nem sabem o vosso nome. A probabilidade é de não só regurgitarem tudo o que comeram no intervalo de tempo como ainda um rim ou vértebra, dando mais espaço para aquela t-shirt bem catita que sempre quiseram enfiar na barriga (retirar órgãos é um negócio crescente em vários pontos do mundo e vocês podem fazê-lo de borla). Também podem, como aqui a vossa amiga, cair a caminho da casa de banho e dar uma marretada na cabeça, desculpa perfeita para ficarem magras e usarem aquela bandolete pindérica que a vossa tia-avó vos deu.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

8 ou 80

Aos mais susceptíveis, peço desculpa em antemão, mas todos os discursos pseudo-pedagógicos relacionados com a morte de personalidades começa-me a doer como uma picareta no escalpe. Quando não existia internet cada um se preocupava com os mortos da sua rua, hoje em dia todos se acham no direito de avaliar a vida de personalidades e de os considerarem ora o filho pródigo, ora o primo drogado do lado do pai.

Enche a juventude o facebook de fotos do Mandela quando foi o Eusébio a falecer e vice-versa, prova do impacto cultural que tiveram no crescimento desta geração, ou pelo menos o conhecimento que têm sobre isso. Vá de falar do Paul Walker que bom mocinho que era, com aqueles olhos azuis e cabelos airosos e loiros de certeza que nunca matou uma mosca. Agora, temos o Philip Hoffman, grande actor com um legado cinematográfico extraordinário, mas que morreu sob o efeito de drogas. Tenho efectivamente muita pena que tenha falecido, mas a genialidade dos seus papéis impedem que ele tivesse um vício? Faz dele alguém com uma carreira menos memorável? Agora de pouco adianta saberem se ele morreu entupido de heroína por gostar ou por “precisar”. Perdeu-se uma grande personagem e acima de tudo perdeu-se um homem que era importante para alguém.

Estamos perante uma sociedade que parece fazer a onda cada vez que o Justin Bieber é preso, viola, espanca ou o que quer que seja que a sua extraordinária equipa de marketing utiliza para ele não sair dos tablóides. Bem ou mal, todos sentem uma sede bandida em comentar os feitos publicitários desde e de outros, mas que tomam como fúteis porque todas as semanas há uma noticia maior para recordar e comentar. Homens que fazem história, com uma carreira séria, reservados ao ponto de nem nos lembramos deles até aparecerem nos Óscares uma vez a cada cinco anos, têm que ser julgados depois de mortos quanto aos seus vícios. Se é um exemplo? De todo que não. Mas droga há em todo o lado.

Garanto-vos que no vosso restaurante familiar, ou na loja onde compram meias têm alguém que é ou foi viciado em algum tipo de droga. Porém, nunca andaram convosco na escola, não sabem nem o seu nome, quanto mais aperceberem-se dos vícios que os fazem estar ali a dobrar camisolas todo o dia, e certamente não falarão deles no facebook a menos que vos ameacem com uma seringa. Hoje em dia é tão fácil adoptar um vício, como um cão abandonado. Há uma vida secreta em muita gente, não é preciso ser rico ou famoso, são todos humanos mas nem todos são dotados de força. Nem todos conseguem negar uma ajuda para aguentar mais um dia. Quantos de nós se podem gabar de não conhecer ninguém que tome anti-depressivos? Será a vida deles menos memorável? Se calhar, mas é principalmente para eles. Deixam de conseguir andar, apreciar, respirar sem ajuda e isso já é triste o suficiente para ainda serem avaliados depois de mortos. Mesmo sem se aperceberem, a opção por uma droga, em vida já lhes tirou demasiado, não fiquem a patinar na maionese em prol de vidas alheias mal vividas. A realidade é que por vezes nem as pessoas que temos perto conhecemos. Invistam bem o vosso tempo e vivam as vossas vidas, pois a menos que sejam gatos, não terão outra.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Gordura localizada...na infância

Já o dito anuncia que “de pequenino é que se torce o pepino”, mas eu optei pela premissa que não se brinca com a comida e temperei-o com azeite. Enquanto criança há uma panóplia de cenários estapafúrdios que se tornam perfeitamente aceitáveis por não termos dentes na boca e lidarmos com todos os problemas através de birras e amuanços. Hoje, reflectindo sobre o que foi a minha infância, apetece-me voltar atrás no tempo, encontrar a minha versão em jardineiras listadas e penteado que podia pôr a minha mãe em tribunal por abuso de poder e esbofetear-me até deixar de me armar em portadora de sensatez.

Quando somos meros jovens repletos de saúde, devia ser parte das disciplinas leccionadas no ensino obrigatório ensinarem-nos a apreciar uma pizza ou pedaço de bacon frito embebido em chocolate. Eu era um tédio de criança que enloquecia com ervilhas, mas hamburguers não me assistiam. Vejo aí a falha da minha educação, pois era obrigação dos meus pais me doparem e enfiarem gomas pela goela até lhes dar o devido valor.

A ignorância é uma benção. Quando nos tornamos adultos, potencialmente, responsáveis, ganhamos um peso sob a contagem decrescente que é a nossa vida e fazemos de tudo para nos aumentar uns números. A fase da nossa vida em que nem sabemos o significado de diabetes, colesterol e pandeiro desproporcional, é a idade em que apreciamos genuinamente os alimentos. Hoje como um donut e acompanho-o com 3 litros de água com limão na esperança que o meu organismo esteja distraído e não repare no açucar cristalizado a boiar no sangue. Pena ter sido ingénua ao ponto de não agarrar a oportunidade de culpar os meus pais pela minha gordura localizada e celulite, como sendo problemas arrastados desde a minha infância.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Crianças como cogumelos

Há uma idade crítica na existência feminina em que os nossos parentes e até amigos se questionam o porquê do macho alfa não ter ainda tratado de providenciar o seu legado nesta bela incubadora, que incha, que é a mulher. Julgo ter alcançado essa temida idade visto que todas as minhas amigas começaram a disparar crianças cá para fora, e tomar um café com elas tornou-se um teste aos meus reflexos, senão for suficientemente rápida levo com uma hormona ou um puto na testa. Um dia acordei e, como cogumelos, estavam em todo o lado, algumas julgo que até saltaram a fase dos 9 meses de gestação, pois as criancinhas que ainda só mugem, choram e babam já têm um facebook mais activo que o meu.

Os meus pais e amigos próximos sabem que todo este potencial humano, que sou eu, tem para dar mais uns 50 anos de fertilidade bombástica (isto é o que eu digo a mim mesma), então nem se questionam sobre tal, pois a resposta será um levantar de sobrolho, gargalhada sombria e divagação sobre os feitos nunca executados das suas próprias vidas para os distrair do alvo. Há quem execute uma lista de afazeres antes de padecer, eu tenho a lista de afazeres antes de planear uma criança, nomeadamente já ter educado o macho alfa e ter feito asneiras suficientes (que ocultarei orgulhosamente da criança, excepto quando tiver que dar uma lição de moral na qual qualquer feito meu será embelezado drasticamente). Sejamos realistas, ainda estou demasiado ocupada em viajar, fingir que me esforço em ter abdominais e não ter fungos nas unhas dos pés.

A pièce de résistance é a minha avó, cuja fraca memória a faz focar no meu homem como se fosse a ultima Coca-Cola do deserto e provavelmente a minha única escapatória a uma vida de celibato e mutilação psicológica. Cada vez mais evito reuniões familiares em que as minhas primas vão pastar o seu rebanho de filhos que parecem ganhos em promoções do Jumbo. Admiro muito todas as mães deste mundo (até as minhas primas) mas a título de honrar o seu papel nobre, vou ficar quieta no meu canto mais um tempo. Expectante pelo momento em que o parto deixe de parecer um cenário macabro, confuso e do qual ninguém quer fazer parte até se aperceberem que já lá estão (como uma ressaca em que a alma vos parece sair pelo nariz), retirado de um filme do Tarantino no começo de carreira.