terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Por uma uva

A idade é um posto. Só ninguém avisa é que pode ser um mau posto. Ninguém me perguntou se queria ser promovida nisto da idade, eu estava perfeitamente conformada com o desemprego etário dos meus ricos 20 anos. Agora dou por mim com uma cara capaz de ganhar um São Bernardo numa competição de pedigree e a fazer douradinhos às 6 da manhã, porque me pareceu uma ocupação do meu estado de insónia mais plausível que aprender a dançar quadrilha, sozinha.

Trabalhar à noite destruiu o pouco potencial que tinha para ser uma pessoa normal. Podem começar a percorrer as carreiras da noite nessas cabecinhas e se vos alegrar o dia até me podem visualizar como uma acompanhante de luxo disfuncional que gosta de acepipes. Trabalho quando os outros estão em casa e o meu leque de escolhas de parceiros para a vida passam por desempregados, alcoólatras ou drag queens. Nem os sem abrigo querem nada comigo, que quando saiu do trabalho estão eles a dormir, uma palavra amiga torna-se rapidamente num calhau na testa. Aceitei esta escolha para a vida, mas sei que vou chegar aos trinta anos totalmente senil. Ainda tenho uns anos pela frente e já dou por mim a caminho de casa a divagar sobre problemas da nação, como as tendências axadrezadas da moda lenhador e como haverão barbas carregadas de ténias.

Na literatura a noite sempre foi tida como a altura de expressar o nosso lado oculto e maligno. Ora o meu lado maligno vai surgir com extrema rapidez se eu não conseguir regularizar os meus sonos e fingir que estou muito feliz todas as manhãs quando saiu de casa. “Ter uma vida” é um conceito pouco exequível no meu caso, visto que estou perto de criar um facebook para a minha almofada, sendo a única relação estável da minha vida. 

Aproxima-se a passos largos o fim de ano e pondero seriamente nem pedir os desejos de meia noite. Aqui comem-se uvas à meia noite e não passas, a menos que um dos meus desejos seja encontrar o amor da minha vida na ala de urgências do hospital local, mais depressa morro engasgada a enfiar pela goela uma uva por badalada (e nem vou frisar o impacto das grainhas que serão projectadas pela minha boca a velocidade sobrenatural), do que consigo desejar o fim de noites mal dormidas, a sorte grande (ou pequena, já estou por tudo) e um príncipe sem ténias na barba e menos maquilhagem que eu, antes que termine a abébia divina de desejos descabidos.

Uma excelente passagem de ano e que passem as doze badaladas num pais cuja tradição passe por dar doze caneladas a desconhecidos, sempre parece mais plausível que uvas (o próximo país para que emigre terá, certamente, um brioche com melaço por cada badalada como tradição, é esse o meu nível de sorte).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Espírito Natalício

Espírito natalício. Aquele sentimento que nos possui nesta altura do ano e que nos acolhe nos seus braços como se nos tentasse fazer um mata-leão até nos sugar a vida do corpo. Fazem-nos crer que pendurar bolas mergulhadas em glíter (que o nosso gato vai adoptar como brinquedo favorito quando o nosso cão ou crianças hiperactivas mandarem a árvore abaixo), nos vão inspirar a amar e abraçar toda a santa alma. Ora, isso é um mito urbano.

Aumenta todos os anos o número de pessoas que passa o Natal longe de quem lhe é querido. Uma experiência envolta em saudade e sabor a filhós, que nada parece colmatar. Contudo, isto só acontece devido à memória extremamente curta do ser humano, benza a Deus os belos peixinhos de aquário que evocam bolhinhas de espanto cada vez que se cruzam com a alga de sempre, que são um Einstein emocional em comparação com o comum dos mortais. Passar o Natal perto das nossas vastas famílias é sinónimo de corridas pelos presentes ideias, em lojas apinhadas, numa economia em crise, ao som de cânticos de natal que nos dão vontade de comer um sapato e crianças aos berros que nos fazem desejar que apareça uma rena e as enfie no saco do pai natal, a posteriori colocado numa despensa fechada a sete chaves, mantida assim até ao fim das festividades (rena esta que seria portadora de uma garrafa de Chardonnay, para combinar com o Xanax tomado ao almoço, para colmatar os níveis de stress atingidos pelos tons que nunca mais vou poder ouvir após os petizes terem danificado a minha audição para a vida).

A seguir ao natal devia haver uma festividade dedicada às pessoas que lidam com o público como seu trabalho do quotidiano. O Natal é o equivalente aos fins de semana de desconto do Pingo Doce, só que com inflação de preços e gente a tentar trocar o puto feio da família por uma boneca do Frozen em tamanho extra grande no corredor três ao pé das esfregonas. As mães esgotam-se entre a busca incessante dos presentes que estarão esgotados na véspera de natal, pois todas as crianças no país foram fabricadas em massa e querem, portanto, o mesmo. O pai perde-se nos pensamentos de como a sua filha cresceu depressa e no apogeu dos seus 2 anos de idade já é um Ás do Iphone 6, gosta de música emo, tem perfil no Tinder e pondera ser feminista. Entre empurrões e olhos arrancados, os que lidam com o público ficam com a parte boa, que são espasmos, olhos esbugalhados, um leve babar pelo canto inferior direito da boca e um grito estridente em resposta a “Quer gelo na sua Pepsi?”. Deviam dar uma prenda de natal a esse empregado de mesa que vos aturou mais nos últimos 5 minutos que o vosso filho pródigo desde que descobriu que não falar com vocês é aceitável desde que pareça ocupado ao telemóvel.

Tudo isto por uma noite mágica em que a paz domina. Após um mês de corrida e ódio, o cansaço conduz-nos a uma noite pacífica em que só queremos comer que nem ursos após hibernar, ser abençoados pelo espírito consumista e dormir num qualquer recanto da casa que esteja em silêncio. Esta data magnífica que celebra o dia em que o senhor rechonchudo e, visivelmente, daltónico, do anúncio da Coca-Cola sobrevoa, montado em renas com sinusite, as casas com chaminé e presenteia as crianças ricas (que as pobres têm buracos no tecto e isso não se qualifica como chaminé), significará sempre, apesar dos seus altos e baixos, a altura da família para muitos de nós. Para mim todo o ano é dos que amo, mas nesta data deixo parte do meu coração reservada ao orgulho pelo meu controlo próprio. Este foi, orgulhosamente, mais um ano passado sem esbofetear um menor e não ter contribuído para o desaparecimento sombrio de um pai histérico.
 

[Espero que o vosso Natal tenha sido na presença dos que mais amam e esse espírito consumista que tanto afaga o ego tenha saído bem gordo da noite de Natal.]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Matei

Eu matei alguém! Matei alguém importante. Provavelmente, esse alguém, viria a ganhar um prémio Nobel, era um viajante no tempo ou a Lassie. Na minha vida passada devo ter matado alguém e devia ser um pedaço de mau caminho enquanto mulher, daquelas que quem olha directamente contrai uma doença venérea, como punição do vislumbre. Agora cá estou eu, com o nariz entupido a enfiar a floresta amazónica nariz acima, a fazer torradas na minha testa e a querer colo do corrimão da escada, porque é o que mais se assemelha a um braço, e sinto que estou a levar tampa.

Nascida do sexo feminino e sem quaisquer tréguas hormonais, até já vejo romance em filmes cujo busílis é decapitar o maior número de indivíduos no menor espaço de tempo. Depois da minha última relação, que relatada por alto parece a sinopse do Breaking Bad, acho-me merecedora de um romance digno do grande ecrã. Ora o Universo em parceria com o seu grande companheiro Karma, decidiram enviar na minha direcção toda uma panóplia de belos exemplares masculinos, muito apaixonados da vida, mas que, enfim…não! Não queria passar por mal agradecida ao Universo, quero alguém muito simples e o problema reside exactamente nisso, só me calham na rifa criaturas complexas que dá dó. Agora sei que vou ficar apeada para a eternidade com um gato manco e um nariz torto de tanto me assoar.

Querido Universo, eu não quero um homem que me diga a cada dois segundos que tem saudades minhas, pois se ausentou para ir ao urinol, não quero um homem cujo telemóvel faz mais parte do seu corpo que o seu apêndice e seria deveras importante que não me passes rasteiras com homens super interessantes que faltaram às aulas de beijos atrás do pavilhão na escola básica.


Por favor Universo. Poupa-me!

domingo, 7 de dezembro de 2014

Subsidiação de Estilo de Vida

Exmos. Senhores,

Venho por este meio felicitar a iniciativa, da qual tive conhecimento, em que vários países subsidiam a mudança de sexo em pessoas que provam estar a ser psicologicamente limitadas por terem nascido no corpo, digamos, errado. Gostava de vos apresentar o meu caso e esperar que o tenham em consideração para futura subsidiação. Eu nasci para ser uma dondoca e fui colocada, erroneamente, num cenário suburbano e operário. Eu não fui feita para laborar e estou a sofrer angústias terríveis. Todo o processo de acordar cedo e ter que efectuar...coisas…cansa! Gostaria de entrar no vosso projecto de mudança de estilo de vida. Saio bastante em conta pois gosto da minha genitália, mas gostaria ainda mais se ela estivesse agora esborrachada no divã de uma penthouse.

Forçada desde jovem a usar ténis e roupas arrapazadas tornou-se um problema no meu actual quotidiano em que volta e meia me é imposta a roupa de dondoca e maquilhagem apropriada. Ando em saltos como se estivesse sempre a tentar apanhar moedas do chão, maquilho-me com um traço digno de Picasso e uso vestidos como um camionista. Sei que em mim há alguém que seria perfeita a passear na sua enorme sala montada a cavalo, a atirar notas de 200€ pela janela do seu Ferrari para a classe operária apanhar com os dentes à minha passagem e a ser fabulosa, em traços gerais.

Caríssimos, sem vocês não conseguirei! Preciso do vosso financiamento para esta causa justa e de real importância. O mundo está a perder uma dondoca de talento nato e a Kim Kardashian não tarda é só um rego em andas e vão precisar de alguém com tamanha ausência de propósito na vida que a substitua. Eu sou a vossa pessoa.


Cordiais cumprimentos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Saudade

“Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi”

Eu sei que está estabelecido na constituição da república portuguesa que um indivíduo depois de registado em território nacional tem que se tornar alguém emocionalmente perturbado e que defina na perfeição a palavra “saudade”. Eu fui registada na margem sul e isso pode ter acarretado alguma interferência no processo. Fiz as malas e entre abraços e chamadas de atenção em relação aos homens espanhóis e ao pé de atleta em balneários, ninguém me explicou qual seria a altura certa para começar a ter saudades.

Haverá um momento em que ouvir fado abraçada a uma estátua de plástico luminoso de Fátima e fazer um altar a um pastel de nata será, certamente, apropriado, um momento em que vou sentir saudades de ouvir músicas de natal pelas ruas de Lisboa a partir de Setembro e atirarei a minha dignidade pela janela ao anunciar que o meu sonho de imigrante é dormir em conchinha com o Cristiano Ronaldo. Eu não gosto de surpresas. Da mesma maneira que não gostaria de ter um ataque de gazes a meio de uma entrevista de trabalho, também não gosto da ideia de ser atingida pelo conceito de saudade quando estiver num momento de loucura íntima com um exemplar espanhol. Transitando, fugazmente, de um encontro romântico a um momento de terapia em que estarei enrolada em mantas com rímel e baba a escorrer queixo abaixo e o Juan Carlos a tentar sair pela janela sem partir o pescoço.

Sou uma mulher adulta e independente! Que pode comer empadas em lágrimas, encostada a um recanto da sua casa, abraçada à última fatia de pão alentejano que enfiei na mala quando sai do país. Mas, o busílis da questão é que ninguém tem que saber. Tirando o meu vizinho, que as paredes são falsas.

Se revelamos demasiado cedo que existe saudade, é um par de horas para que a nossa mãe nos apareça à porta de pantufas para nos levar de volta para o nosso país…ao colo. Se não nos expressamos a tempo, as probabilidades passam por nos rotularem de insensíveis e adoptarem um labrador para colmatar a nossa ausência.

O meu nível de comunicação actual parece estar a manter o padrão necessário para que não mudem a fechadura de casa sem me avisar. Para os interessados no ritual, passa por proclamar palavras aleatórias, mescladas com sons imperceptíveis, que passam rapidamente da temática emocional à física quântica. Podem declarar-vos doentes mentais, mas não duvidarão do vosso amor.

domingo, 23 de novembro de 2014

Terror dos tempos modernos

A uma tenra idade descobri que se tivesse que me descrever de uma forma calorosa, iria substituir o cliché, “gosto de longos passeios na praia”, por “gosto de livros e filmes de assassinos em série com tanto sangue escarrapachado nas paredes que a trama foi escrita em parceria com a Robbialac”. Nunca me vou esquecer daquela noite de Verão a que sucumbi à ausência de raciocínio lógico de uma criança de 7 anos e decidi ver às escondidas dos meus pais o filme It. A minha luta pelas condições básicas providenciadas aos animais de circo começou ai. Só queria que fossem fortes o suficiente para fugir dos palhaços demoníacos, pois, se estes fazem ralos de banheira borbulhar sangue, imagino o que farão a póneis. Porém, o terror sempre me entreteve. Nada mais entusiasmante que assistir a um filme em que o assassino poderia ter enveredado pela carreira olímpica, onde seria campeão da modalidade de marcha e onde a má qualidade dos produtos têxteis na sociedade actual é exposta pela explosão espontânea de todas as camisas das loiras em fuga.

A partir do momento em que a ficção se subjuga à realidade e ouvimos o chão ranger noutra divisão, não havendo mais ninguém em casa, ai a porca torce o rabo. Bem que me podem encontrar escondida no armário vestida de ninja, a empunhar um garfo e a tentar descobrir o número do Liam Neeson nas páginas amarelas. Viver sozinho leva-nos a testar os nossos limites. A má qualidade de soalhos a nível internacional trabalha numa forte parceria com as mentes macabras que proliferam da Suécia, que expõem o seu trabalho nos actuais best sellers de terror, mas, também, no IKEA.

O IKEA é o sumário das maiores obras de terror conhecidas pela humanidade. Os produtos cativam, mas os materiais são susceptíveis de desintegração espontânea, sentimo-nos autênticos palhaços quando nos apercebemos que fomos levados a comprar, como se de um bem essencial se tratasse, um tacho para estufar carne quando somos vegetarianos, a montagem dos móveis que trás ao de cima o nosso lado mais obscuro (aquele icónico parafuso que falta sempre) e, acima de tudo, qualquer ser humano sobrevive a folhear um catálogo do IKEA, até o entretém, mas entrar numa loja física é o equivalente a projectarmo-nos contra uma parede repetidamente enquanto entoamos o ultimo single da Nicki Minaj. É suicida!

Somos seduzidos a este espaço com intenção de gastar pouco dinheiro e quando damos por nós estamos a tentar comprar o filho amoroso de um vietnamita que estava no corredor três à procura de uma cadeira. Quando entramos, avaliamos todos os preços ao pormenor, mas após dois segundos já fomos buscar um segundo carrinho. Estes suecos são enviados do demónio. Quando entramos não há maneira de voltar para trás. Como uma casa assombrada, a probabilidade é que alguns fiquem para trás, temos que encarar esse facto e ser egoístas, sair de lá vivo é a prioridade. Eles fazem-nos crer que precisamos de três trens de cozinha de cores diferentes e de almofadas peludas, porque sempre quisemos dormir com pelos na boca. Quando saímos e nos apercebemos o que comprámos, o impulso é de voltar para trás e trocar o produto, mas na realidade é isso que eles querem. Fiquem com esses 10 piaçabas com ilustrações de sapos em ácidos, oferecem como prenda de natal aos primos em segundo grau.

Vejo vidas a desmoronarem-se diante de mim e sinto-me inútil. Eu fui salva por uma desconhecida que me esbofeteou e arrastou inconsciente de lá para fora esta semana. Porém, nem assim larguei aquele conjunto de lençóis lindo. Os suecos são má rês, quando derem por eles até pela televisão saem, a escorrer nheca pelos seus longos cabelos loiros, a grunhir nomes de armários. Salvem-se. Não deixem que este filme de terror se torne a vossa vida.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Quando eu era pequenino...

A falta de posição dos portugueses para com as incongruências ultrajantes da nossa sociedade, estão lentamente a condenar as gerações futuras a um piercing encima do lábio superior, um eterno fio de manga preso no canino de maneira a que o sorvam constantemente em público e a indumentária digna de um habitante da Musgueira. O decréscimo de músicas infantis de qualidade irá levar as crianças de hoje a partir para a vida com a sabedoria de um alho-porro.

Os Quinta do Bill em tempos escreveram sobre uma criança que ainda mal abria os olhos e já tinha o amor da sua vida fisgado. Eram bons tempos, em que a vida se determinava cedo, já se nascia com conta no Totta e dívidas ao barbeiro. A música faz parte da nossa aprendizagem e o que ouvimos enquanto meros petizes, influencia as pessoas em que nos tornamos.

As músicas da minha geração vinham repletas de lições de vida boémia, sadismo e morte. Escusado será dizer que hoje sou uma adulta algo perturbada, mas perfeitamente preparada para um apocalipse zombie ou jantar na casa dos sogros. O Avô Cantigas cantava sobre o Fungágá da Bicharada e como Doidas Andam as Galinhas, dois retratos perfeitos da noite Portuguesa, os bacanais dignos de animais em que “…outros mais também virão…” e os desfiles de “galinhas” que, doidas, tentam ter sorte em mais uma noite pelo Cais do Sodré. Os títulos do Avô Cantigas eram tão específicos que as músicas não requeriam uma grande componente poética, substituindo quadras eloquentes por um frenético LáláLáláLá. E não nos podemos esquecer dos jogos cantados, em que se debatia a temática de uma justiça inexistente e de falta de higiene pública “…as cuecas do Juiz, Dominó, embrulhadas em jornal. Dominó. Esta rua cheira a sangue, foi alguém que se matou…” (neste caso também pode ter sido só alguém mórbido sob o efeito de LSD que escreveu isto e pegou moda, mas gosto de acreditar na critica social).

A vida foi-nos entregue numa bandeja de prata, em que sabíamos que atirar paus a gatos e beijar indivíduos moribundos no meio de florestas eram práticas aceites pela sociedade, desde que não assustássemos idosos ou aceitássemos alimentos nutritivos de desconhecidos. Bons tempos! Em que cantava baladas mórbidas, de sorriso nos lábios, em campos verdejantes, sem ter a mínima noção do que dizia, porque estava demasiado ocupada a aprender as coreografias.

Nos dias que correm, as crianças apenas usufruem dos conhecimentos provenientes das quadras do equivalente ao Pedro Abrunhosa infantil: o Panda. Uma criatura que ganhou o respeito nacional, mas que só balbucia ideias aleatórias e sem conteúdo. A menos que pretendam armar as crianças com bananas e laranjas para ultrapassar os obstáculos da vida, saber descrever os itens da fruteira pouco lhes vai ser útil. São músicas que nem visam a uma alimentação saudável. Eu sei a música do MacDonalds e não é por isso que comprei uma propriedade em frente ao estabelecimento, o facto de saberem que a banana está na fruteira só implica que a deixem lá para não arruinar o conceito musical. Não houvesse as figuras da Disney a dar um cheirinho de realidade, com a Violetta e a Miley Cyrus a representar, com excelência, o antes e depois do consumo de drogas pesadas, e estava esta nação condenada. A Miley Cyrus é o exemplo perfeito de uma criança que só ouvia músicas sobre bananas, agora é vê-la a esfregar-se em paredes como um urso pardo com candidíase.

Podemos mesmo culpar as crianças de hoje por chumbarem, se vestirem como matrafonas de 40 anos e ouvirem música americana sobre o movimento ondulatório dos glúteos? Vamos voltar aos bons velhos tempos de música sobre vida boémia, violência gratuita e necrofilia acompanhado por alegres coreografias e lálálás. Está na hora de tomar uma posição e salvar esta geração. Vá…ide já ter com os vossos petizes e atirem-lhe com um pau à testa.
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

É como andar de bicicleta

O pensamento era o limite. Não havia viagem que não pudesse fazer, amigo que não pudesse ter, profissão que não pudesse exercer e roupa que não pudesse trocar em praça pública, enquanto se debatia com a problemática de qual dos três namorados seria o ideal. A Barbie reflecte a puritana, sonhadora, sem vergonha, que roça o badalhoco, que há em nós desde os tempos áureos da nossa infância.

Hoje em dia vejo que por vezes me trato como a minha Barbie em tamanho real de copa desvalorizada, morena, com mau feitio, mas que não precisa de se despir em público para se integrar (não debato que os seus métodos não sejam de uma eficácia sem precedentes) e não empata a vida e sonhos do Ken. Esta semana saí no mercado com uma embalagem melhorada e sob a temática “Barbie ciclista”. Como qualquer boneca plástica, sento-me no selim e finjo que sei andar de bicicleta, tentando arquear estes joelhos que só conhecem dito movimento em casas de banho públicas. Não há nada mais glorificante que a realização, perto dos 30 anos, que já não sabemos esticar um braço para fazer sinal de pisca, sem levar a bicicleta a tomar o rumo oposto ao pretendido e nos “esbardalharmos” contra uma montra após efectuar um circulo perfeito sob rodas.

Todos os dias rumo a casa de bicicleta após 9 horas de trabalho, em que o meu corpo já me odeia o suficiente e tem a vivacidade de um queque trespassado. Deixo-me fascinar pela leve brisa que leva os meus cabelos a esvoaçar, que após um metro se torna o ar gélido que certamente me vai conduzir a uma pneumonia. O encanto da natureza verdejante que embeleza a avenida, que passado um quarteirão se transforma num mero pensamento de mono sobrancelha entediada, de “árvore…árvore…árvore…”, até que levamos um velhote à frente e só nos apercebemos porque aquela lomba não estava ali anteriormente (daqui a um mês recebo uma menção honrosa da Catalunha pela minha contribuição activa para a redução do índice de envelhecimento em Barcelona). As colinas que moldam a cidade, começam a moldar também as minhas pernas, em forma de batata. Todo um caminho de alegria e libertação do stress diário, que me permite chegar a casa e sufocar contra a minha almofada estrategicamente colocada à porta, onde me aninho como um feto que está farto de brincar à piada dos pontapés na barriga.

Diz algo sobre o ser humano a insatisfação com o facilitismo e monotonia. No meu caso diz alguma ausência de exercício mental. Todas as noites teimo em fazer o percurso curto para casa, sabendo que o caminho vai estar cortado e tornarse-á o mais longo. Na ausência de alguém que me estique um bofetão bem assente na lombada para me chamar à razão, subo colinas até estar capaz de ofender o fabricante da bicicleta e a sua rica mãe.

Sejam activos e saudáveis e sigam exemplos de pessoas que percebem de algum desporto que não a matança do velhote e que não pareçam leitões com problemas cardíacos durante a actividade. Os meus conselhos nunca irão muito para além do “como não morrer” e a resposta será sempre: “parem antes de ter um ataque cardíaco”.

domingo, 26 de outubro de 2014

Olha bem

Os seus olhos cruzaram-se e numa explosão de emoções súbita, todo o mundo parecia fazer sentido.

Este conceito romântico, arrancado a ferros das parábolas que nos fizeram subtis lavagens cerebrais enquanto crianças, faz-nos crer que seremos felizes e encontraremos a nossa cara-metade, nem que seja no pastor alemão do nosso avô (que esteja patente que segundo os contos da Disney, apaixonarem-se por um salmão não é politicamente correcto, tese levada a fundo na Pequena Sereia, mas se farfalheira e bestialidade for a vossa tara, é perfeitamente plausível encontrarem amor num matrimónio com um poodle, desde que a sua casota tenha talheres falantes, lição in Bela e o Monstro).

Algo deve ter ocorrido no processo da minha lavagem cerebral. Provavelmente distrai-me com uma mosca e perdi o fio à meada e nos dias que correm se alguém me olha fixamente na rua por mais de 3 segundos assumo que ou uma das minhas orelhas se desagregou do corpo ou me pintei como se trabalhasse no Chapitô.

Em Portugal estamos habituados a olhar discretamente e comentar descaradamente assim que a uma distância segura. Em Espanha as pessoas metem conversa aleatoriamente e os homens fazem um típico ritual de acasalamento que envolve fixar olhares por um tempo que exige anos de treino. Não me considero alguém sem auto estima, mas também não me acho merecedora de rituais do género quando estou a comprar pão ainda a arrancar aquela ramela matreira da covinha do olho. Apesar do meu ego se derreter e encarnar uma miúda de 15 anos, o meu Eu exterior, quando há elaboração de palavras, é impelido a responder, de sobrancelha arqueada a demonstrar desconfiança e uma mão no desodorizante roll-on que tenho na mala, pronta a dar-lhe um uso violento e sem escrúpulos, à espera que a acção suavizante e anti-manchas cegue o indivíduo em caso de ataque (spray pimenta é ilegal uma miúda safa-se com o que pode).

A comunidade heterossexual aqui é relativamente pequena, os que não estão ocupados, andam a cirandar como abelhas num campo de flores e eu ando de mata moscas em punho. Vou ter que passar por algum tipo de cura do efeito que os homens portugueses tiveram em mim e aprender a elaborar palavras outra vez, que isto dos ruídos que me saem quando tento ser eloquente, só me faz parecer atraente a um nível Chewbacca. Claro que a seguir me tiram o passaporte português, porque mulher que é olhada e não pensa que é por ter um macaco no nariz, não deve ter raízes portuguesas (por algum motivo, antigamente, as senhoras deixavam crescer bigode). Ou então é, efectivamente, uma portuguesa com um incrível nível de auto-estima. Até ao dia que descobre que realmente tinha um macaco no nariz e aquele jovem não lhe piscava o olho mas sim tentava pestanejar com determinação suficiente para provocar uma acção eólica e fazer o dito bicho mucoso saltar do nariz da jovem.

Não vivam de parábolas e romances canídeos por pensarem que não haverá outra alternativa. Há sempre um donut numa qualquer prateleira que vos irá preencher esse vazio. Vá, e um príncipe à vossa espera, mas se este estiver numa prateleira, atenção, pois estão a participar em tráfico humano ou estão a comprar um Ken.

sábado, 18 de outubro de 2014

Bilhete de Ida: Barcelona

Uma pessoa…um destino…uma aventura, que estava tão difícil de começar que pensava ser necessário matar um pinguim budista com uma caneta bic ao som da banda sonora do Flash Gordon, como ritual de iniciação. Fiz a minha mala e rumei a caminho de Barcelona.

Papelada e burocracia digna de quem imigrou para o Zanzibar, qual União Europeia, esta gente quer independência e estão dispostos a fazer-nos crer que entrámos na cidade a nado. Lá que a merecem por esforço, merecem! Papéis aliados à decisão administrativa que tomei em não querer partilhar casa levou-me a uma busca pelo estúdio perfeito, queria um daqueles como nas séries. Rapidamente descobri que o terraço da minha mãe em Portugal equivale a uma casa para famílias de 5 filhos e dois serra da estrela em Barcelona. Preços aleatórios como que valores tirados de uma cartola. 650€ para usufruir da fantástica experiência de rebolar por cima da cama para alcançar o pacote de leite que está no frigorífico. Passado duas semanas a dormir no chão de casas alheias e praticar o meu eloquente portunhol, finalmente, encontrei o meu poiso. Daqueles como nas séries. Pequenino como deve ser, mas lindo e acima de tudo…meu! Tive que vender um dos meus rins e subalugar o meu futuro filho primogénito, para pagar as cinco rendas que pedem no primeiro mês, mas olhemos pelo lado positivo, não detectei ainda nenhuma barata do tamanho de um persa (comum nesta terra como tapas) e tenho um vizinho giro cuja probabilidade de ser homossexual é apenas de 50%.

O meu pai tem esperanças de um dia ser avô e eu sempre atenuei essas esperanças pelo meu gosto algo duvidoso por homens de qualidade e desde que aterrei em Barcelona conclui que o meu futuro passa por ter 20 gatos e morrer sufocada pela cauda de um deles. Não sou homofóbica, mas nesta cidade a percentagem é no mínimo injusta, a menos que saia à rua de caçadeira e cace um turista distraído, não me safo certamente.

Estou apaixonada por esta cidade e tudo o que ela tem para oferecer. Vejo-me a passar aqui algum tempo e agora, mais calma e organizada, a voltar a escrever. Obrigado aos que ficaram à espera de um regresso.

 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Karma por cunha

No mundo existem dois tipos de retorno cósmico, reconhecidos de modo generalista como Karma. Quando divididos em categorias, há o karma e o componente cósmico sádico e irónico que conseguiu o trabalho como karma por ser filho do Presidente da Junta Cósmica. Nasci numa bela noite de Verão estrelada em que ia dar na televisão o filme Quo Vadis, que a minha mãe esperava ansiosamente ver. Como amante de cinema desde o ventre, decidi partilhar o momento cinematográfico com a minha progenitora e sair a tempo da segunda parte. Escusado será dizer que a televisão não estava ligada e que ela me deve ter rogado uma praga subtil entre dentes por ter perdido o filme. Fiquei entalada para a vida com uma Copa B medíocre e um karma sem qualificações graças ao Império Romano.

Considero-me uma pessoa forte e determinada (adjectivos dignos de uma entrevista de trabalho, quando na realidade só sou teimosa para burro), mas há dias que só nos apetece cumprimentar a nossa entidade patronal com uma serra eléctrica e oferecer abraços e vouchers de desconto nos serviços de primeiros socorros do centro de saúde local aos nossos colegas de trabalho. Pareço sempre bem e disposta a dar o meu melhor, mas há dias que por dentro só me apetecia rebolar na cama e fazer sons de foca moribunda.

Querido karma, dá-me uma abébia que estou cansada de estar a trabalhar durante o dia, pareço um gnu de olhos inchados e sem maquilhagem, e de estar sempre a tropeçar em rasteiras tuas. Acho que no mínimo me deves algum prémio de mérito por todas as crianças que me empurraram ou tentaram dar beijinhos em pequena e eu não as esmurrei. Hoje em dia esmurro, por isso estamos quites no resto. Mas dormir era porreiro e não ter vinte novelas mexicanas de baixo orçamento a decorrerem no mesmo período de tempo na minha vida seria agradável. Obrigado.

sábado, 16 de agosto de 2014

A originalidade do virar

Tenho saudades dos bons velhos tempos em que me deslocava a um fotógrafo com o rolo dentro daquela cápsula plástica baça e ansiava pelas fotografias durante o fim-de-semana. Ia busca-las na expectativa do que lá viria, num misto de esperança platónica de estar fotogénica em todas as fotos e medo de a minha tia avó ter metido a mão à máquina e ter fotografado a verruga das costas para mostrar ao doutor que vive lá longe. Havia magia (no processo, não na verruga) e isso acompanhou-me toda a vida, com a presença constante de uma máquina fotográfica, com a paixão pela arte e até voluntariando-me para tirar fotografias a turistas pelas ruas fora.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Há dois anos se tivéssemos a esticar o braço para tentar tirar uma fotografia que ia dar origem a uma série de repetições por cortar a testa ou estar desfocada, parecíamos idiotas. Hoje “idiota” é o look a seguir, pois ai de quem se voluntarie a tirar uma foto a um grupo de vinte indivíduos! Pois é preferível um deles esticar-se o suficiente, ou desmembrar um dos braços e o arremessar para cima de um poste só para garantir que foi ele a tirar a foto. Nesta, pelo menos um dedo de cada um dos seus compinchas aparecerá para um dia mostrar ao seu bisneto, “olha, este era o meu dedo quando tinha 20 anos, bom dedo hã?”.

Não me vejo como conservadora, tanto que já aprendi a virar o telemóvel ao contrário e fazer cara de distraída (um clássico das fotografias de baixa qualidade por webcams e telemóveis) e boca de pato, que segundo entendi é o que está na moda. Não obstante, vejo esta tendência fotográfica de virar a máquina e tentar repetidamente a ver se acerta, a reflectir-se na necessidade de um elevado numero de jovens mulheres, virarem o neurónio uma manhã e tentarem o “lesbianismo”, como se fosse a nova marca de sabão para a roupa, a ver se pega. Eu sempre gostei de fotografia, não é por uma moda bimba que isso vai mudar, da mesma maneira que há mulheres que gostam de pessoas do mesmo sexo desde que se conhecem, mesmo que haja uma pandemia de leggins floridos que dê vontade de optar pela extinção da raça humana.

Porque é que a juventude não vai experimentar empadas? Também é alternativo e não é para qualquer um. Não sei quanto a vocês, mas eu seria uma lésbica deplorável, nem sei o que se passa nas minhas partes baixas quanto mais no repolho de outra mulher. O que é que se faz com aquilo? A menos que uma vagina me ensine a jogar xadrez não consigo desenvolver interesse pela matéria. A minha nem me é capaz de avisar quando a menstruação termina, como boa sádica fica a brincar ao pára-arranca até eu optar por usar fraldas de incontinência o mês inteiro por via das dúvidas. A vida ensinou-me a não confiar em vaginas. Não tenho nada contra com o resto da mulher que está anexada ao dito órgão, mas aquele perímetro não é de confiança.

Caso haja jovens raparigas a ler este regurgitar de informação inútil, façam-se um favor e vão tirar fotos com ar de pato distraído e deixem as lésbicas para quem as quer, elas têm mais do que fazer do que vos andar a ensinar o B, A, BÁ, para depois vocês descobrirem que as mulheres também ressonam, têm pelos e gazes bem mais elaborados do que os homens (já para não relembrar que há um maior numero de palavras depreciativas no feminino do que no masculino e não é em vão). Que se mudem os tempos, mas que a próxima vontade tenha a ver com férias alargadas.
  

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Da tela para o colchão

A primeira vez que passamos as portas de um cinema é um momento mágico que nos inicia numa vida de imaginação fervorosa e que esperamos manter durante toda uma vida. Passámos de um tempo em que havia poucos cinemas e reduzida selecção de filmes, para uma época recheada de filmes mas que temos que vender o nosso carro e o baço do nosso filho primogénito para ter dinheiro para comprar um bilhete duplo, sem pipocas incluídas.

Os aficionados por cinema vêem-se na obrigação de ver todas as grandes estreias, nem que seja no seu minúsculo computador que sobreaquece o colchão onde se apoia (filmes comprados num espaço comercial e não no senhor que vende flores na sexta à noite no Bairro Alto e com devida factura, não o histórico de internet. Pirataria é para pessoas com pernas de pau e palas). É triste abdicar do suspense que só o ecrã gigante proporciona e da desculpa plausível que é comer um quilo de pipocas sem pestanejar. Não obstante, em casa podemos ver um filme com um par de cuecas na cabeça, comer lombo de porco sentados na cama, em casos de incontinência parar o filme vinte vezes e ainda ter o poder de projectar o portátil janela fora caso o desfecho não seja do nosso agrado.

Nos dias que correm, ir ao cinema, é um ritual de grande elegância e expectativa, que se transforma numa amálgama de bufos de desespero, sobrolhos franzidos e vontade de esbofetear crianças até saberem álgebra a nível académico. Quando invisto o tempo e dinheiro para me deslocar a um cinema crio a ilusão que estarei com pessoas sóbrias e tão embrenhadas no filme como eu. Quando de súbdito, tenho alguém a cegar-me com o foco de luz proveniente do ecrã do seu telemóvel, a voz da peixeira que decide atender o telefone e sussurrar em Si maior que está a ver um filme e ainda não percebeu o enredo, o individuo que parece precisar de sorver as pipocas e o típico casal que não percebe o conceito de quarto.  Estes factores externos aliados ao poder de em casa poder mudar de filme vezes sem conta numa noite em busca de um com lamechice q.b. aliada a desmembramentos a alta velocidade, encima de um pastor alemão geneticamente transformado, faz-me reflectir sempre em como podia ter poupado esse dinheiro.

O meu cérebro doentio esquece-se destes pormenores com facilidade recorrente fazendo-me ansiar o dia que vou ao cinema e vislumbro aquele ecrã que me conquistou ao primeiro olhar. Quem nasce com o bichinho da sétima arte irá sempre querer ver todos os filmes, nem que seja para ter a liberdade de falar negativamente dos mesmos. A sétima arte aumenta as nossas expectativas do romance ao assassinato perfeito, mas mais importante, torna-nos sonhadores. Nem que seja pela fresta de uma porta, um bom filme será sempre um bom filme e um sonhador nunca deixa de o ser.

[Esta crónica foi escrita a pedido das criadoras do blog Flames, que a título de surpresa, me incluíram no primeiro numero da sua revista electrónica. Obrigado e boa sorte meninas]

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Podes chamar-me Tó

Gervásio nasceu num dia fatídico em que ninguém teve o bom senso de distribuir chapadas aos pais e familiares presentes que julgavam que este seria um nome brilhante. O nome que nos dão à nascença vai ser parte fulcral da nossa identidade e do modo como vamos encarar a vida e os seus obstáculos. É um pormenor que não pode ser decidido de ânimo leve, pois se derem à luz uma criança pouco dotada de inteligência ela nem vai descobrir onde é o notário para poder mudar o nome que os pais lhe deram sob o efeito de drogas leves ou ausência de actividade cerebral permanente.

O meu nome era para ter sido Mafalda, mas a minha sábia mãe, sentada com uma barriga que quase lhe tapava a linha de visão para o belo horizonte, contemplou todas as ofensas e piadas que poderiam surgir em torno do meu futuro nome. Tendo em consideração que o número de piadas que surgiu foi elevado, começou a pensar em outras opções. Dizem que as mães têm os sentidos apurados ao extremo e ela já devia estar a pressentir que o seu futuro rebento ia arranjar motivos suficientes para as restantes crianças serem maldosas com ela e a ofenderem, mesmo sem terem que recorrer ao seu nome. Porém, há entidades paternais que não reflectem assim tanto na escolha do nome, ou então reflectem em demasia, com pesquisas incessantes na Internet na esperança de encontrar um nome escrito numa língua totalmente aleatória, que signifique “Gota de água da cascata benzida pelo nenúfar de cor alaranjada” ou “Pessoa isenta de impostos”. Um dia vamos esgotar o leque de opções em nomes próprios e vamos começar a recorrer a sons e aí sim teremos dias animados, em que arrotamos numa sala e o fulano que está a fazer café na sala ao lado responde, ou faremos expressões típicas de um AVC para conseguir pronunciar o pronome do sr. Agnhóotzica (o segundo O é mudo caso se estivessem a perguntar).

Esta reflexão dá-se graças a uma conhecida minha que decidiu chamar os seus cães de Traveca e Pachacha. Não sou particular fã de animais com nomes como Afonso e Guilherme, fico sempre à espera que pule detrás de um arbusto uma criança rosada de cabelos loiros e lá vem um São Bernardo a deitar agua por todos os orifícios. Não obstante também não achei esta escolha de nomes muito certa, talvez por não me alegrar o conceito de ter travecas ou pachachas no colo e muito menos fazer-lhes festas. Aprendi a uma tenra idade, quando decidi chamar o meu primeiro cão de Pretinho, visto que a minha imaginação era limitada e o cão era preto, que os nomes que damos aos nossos animais podem tornar-se uma problemática quando os perdemos na Margem Sul. Dei por mim aos gritos “Anda cá Preto…Não fujas Preto…Ohhh Preto…”, com uma inocente idade numa zona mais populada de indivíduos de raça negra do que Angola, com a minha mãe a correr atrás de mim aos gritos “É só um cão…É só um cão…não…não é o senhor…”. Tentei partilhar esta história com a minha conhecida, que não pareceu perceber a analogia. Estarei, portanto, na primeira fila quando ela perder um dos cães e tiver que correr Avenida da Liberdade acima a gritar pela sua pachacha ou pelo traveca, caso não seja apedrejada até não ter dentes na boca, pode ser que venha a ter uma boa história para contar um dia.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mundo Cruel

Cama feita, pequeno-almoço na mesa e a constatação que somos um talento nato para a vida de dondoca. A vida arrancou-me à força, enquanto bracejava e arranhava paredes em angustia, da minha casa da era pombalina que já pedia misericórdia que nem o Marquês teve que aguentar esta nação tantos anos. Empacotei os meus pertences sem data e destino marcado. Perante incongruências laborais colocaram-me num hotel onde irei sofrer para lá de um mês.

Pantufas branquinhas e colchão que parece um marshmallow, piscina e televisão do tamanho da minha prévia sala. Não sei como irei sobreviver sem ter que me preocupar com a limpeza da casa e lavagem de lençóis e toalhas. Estou pesarosa. Já para não falar do pequeno-almoço. É esgotante ter que descer as escadas para provar tipos de fiambre que julgo serem carne de unicórnio e usar cereais como confetti. Não desejo a ninguém.

Atenção, estou a trabalhar arduamente. Só ainda não me apercebi por estar demasiado ocupada a descobrir em que piso é o ginásio que nunca usarei mas que me vou convencer até ao último segundo que hoje é o dia. Quando paro e constato que quando chegar a altura de abandonar este poiso vou ser vagamente escravizada para pagar cada fatia de pão que aqui comi e cada de mão de tinta que vão ter que dar nas paredes por eu as ter abraçado até à exaustão para comprovar a sua veracidade, até me dói, mas depois ponho uma musica saloia, incomodo os restantes hospedes e o sentimento passa.

 

domingo, 20 de julho de 2014

Vida ao Desbarato

Em tempos de D. Dinis (Duarte Dinis, o senhor da padaria), eu era uma cachopa toda feliz com tempo de sobra até para moldar os meus burriés seguindo a vertente renascentista. Actualmente, respiro moderadamente para não ocupar tempo, comida é por meio intravenoso e vida social é com as minhas pestanas, quando me despeço delas enquanto caiem queimadas de tanto uso. Não tenho tido tempo para ser uma borboleta social deste mundo e julgo que na vida pessoal a minha mãe me vendeu no OLX, isso explicaria muita coisa, porém regurgitarei informação desnecessária em pseudo-crónicas sempre que possível.

Promoveram-me e vão-me recambiar para outro país, porém, o curto período de tempo que me deram para colocar toda uma vida numa mala de vinte quilos leva-me a crer que descobriram a minha real origem e estou a ser deportada. Subitamente estou a vender tudo o que me acompanhou nos últimos anos e a dormir abraçada a roupa enquanto lavada em lágrimas de despedida, perante decisões entre um par de sapatos e uma bomba de asma, é difícil estabelecer prioridades sob pressão. Sinto-me um cigano que nem chapéu preto estiloso tem a tentar impingir armários e meias rotas a toda a gente. Confesso que até me tenho safado e só falta a cama, já pensei em escrever uma ode sobre os bons momentos que já se ocorreram nela, mas depois reformulei a descrição de venda para “cama inteira”.

Decidi que era qualificada o suficiente para desfazer todos os meus móveis e embala-los para venda, julgo que vai ser fácil descobrirem a minha identidade quando eu aparecer nas noticias a atirar tábuas de madeira em chamas pela janela e a gritar pela independência do contraplacado. Só sabemos o mundo de coisas que rodeia a nossa vida quando a temos que arrumar. Já agendei o cancelamento da água, luz, e até internet, mas se há coisa que me intriga é como é que posso deixar de receber as mensagens da telepizza sem exorcizar o telemóvel.

Sem tempo para grandes despedidas, abraços e choradeira, estou a vender a minha vida ao desbarato em troca de uma viagem sem retorno marcado.

domingo, 13 de julho de 2014

Culto do centavo

Ser pobre é ver a palavra saldos escrita numa janela, mesmo que seja de uma loja de esfregões, e fazer uma coreografia meticulosamente estudada que envolve elementos religiosos, um panda e um divã. Eu como sócia número 3102 do grupo recreativo de quem não tem onde cair morto, festejo a época de saldos com uma jantarada com os amigos e uma dádiva à Bobone.

O conceito de saldos agrada-me, porém, não sou uma boa praticante do desporto. Tudo começa com uma incompreensão das denominações dadas à época, pois se entramos numa loja que está em saldos e perguntamos onde estão as promoções demonstra toda uma incompreensão e falta de chá relativa ao culto das t-shirts, pois as promoções já foram, agora são os saldos! Já se dissermos saldos numa loja que está em promoções, só nos falta sentarem num sofá, nos abraçarem e rirem como um avô carinhoso que vai contar a história de como o coelho Bidé morreu. Não são na realidade dois nomes para um grupo de produtos com preços inferiores aos estipulados de início? Por mim até podem chamar isso de Funeral do coelho Bidé e eu estarei lá a remexer nas pilhas de roupa feliz da vida, vá, se calhar vestida de preto, mas estou certamente presente. 

Uma colecção coube harmoniosamente bem arrumada numa loja durante uma estação completa, mas chega esta época e são feitas torres de roupa no centro das lojas e a procura por um par de cuecas torna-se numa aventura. Antes de mais, a magia que é a eventualidade da roupa não nos cair toda encima sufocando-nos e contabilizando mais uma fatalidade neste trabalho de risco, temos que ser mais rápidas que as outras pindéricas que querem aquela bandolete, temos que ser engenhosas para enfiar o nosso traseiro L numa peça S porque é a ultima e é preciso ter confiança que as nossas amizades se vão manter até ao Natal para comprarmos já as prendas todas sem desperdiçar dinheiro. É neste processo que a porca torce o rabo. Eu não tenho talento para explorar pilhas de roupa sem me entediar. A nova colecção organizada e bem iluminada entoa um chamamento e eu acabo por comprar um par de meias pelo preço promocional de dez camisas. Mas saiu feliz, sem arranhões e sem o cérebro toldado pela experiencia pós guerra. Sou oficialmente a pior pobre da história.

A realidade é que não sou uma daquelas japonesas pequeninas e amorosas que sabem fazer maquilhagens que transformam um gnu na pequena sereia, e podem vestir um vestido com folhos até aos olhos em rosa choque e parecer bonecas. Vestir aqui a menina envolve toda uma metodologia que não pode ocorrer sob pressão, senão vai dar efeitos piores do que o “matrafona enrolada em celofane”, que é o resultado, volta e meia, quando me esforço para sair à noite em trajes da moda. Venho, portanto, enaltecer as qualidades de todas as corajosas que se expõem neste mundo dos saldos e saem orgulhosamente intactas com peças que não parecem ter sido destruídas pelo cão da vizinha. Eu, feliz permanecerei a observar a vossa agilidade com a testa colada às montras. Uma feliz época de caça minhas caras!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Prostituição emocional

O Titanic em 1912 embateu contra um iceberg e afundou em alto mar, por entre os destroços um pedaço de madeira flutuava com uma jovem chamada Rose, que era demasiado espaçosa e preferia ter espaço para um napron, do que para dividir a sua porta flutuante com o amor da sua vida. Quando ocorre o fim de uma relação amorosa e damos por nós à deriva numa porta com napron, assim que alguém nos avista avisam toda a guarda costeira e dá-se o começo da prostituição emocional.

Uma mulher recentemente solteira deve produzir algum tipo feromonas, comparável ao cio, que se sente a distâncias absurdas e estupidifica o sexo oposto (e por vezes o mesmo). A título de combater a falta de amor-próprio típica do fim de uma relação onde já nem rapávamos as axilas para poupar o ecossistema dos nossos pertences, damos começo à, por mim intitulada, prostituição emocional. Somos cercadas por diversos homens interessados, do piropo brejeiro ao pedido de amor eterno, e sendo cedo de mais para começar uma nova relação, aceitamos discretamente as suas palavras que nos afagam o ego. Aceitamos clientes vários e o seu pagamento que nos sustenta o ego, mas não passa de um negócio emocional, está implícito que não haverá casamento. Não há cartões de crédito e muito menos cheques, tem que ser dinheiro físico, emoções regurgitadas em palavras já ouvidas e altamente sobrevalorizadas, nada de promessas futuras. Ocasionalmente, neste processo, deparamo-nos com homens cheios de potencial, mas que são um investimento de risco, pois é terminar uma carreira de sucesso que estabelecemos com as feromonas, em prol de mais uma possível desilusão.

O pijama bolorento e chinelos com sola descolada passam de roupa de lavar a caixa de areia do gato, a roupa de fazer parar o trânsito e choverem números de telefone. A ausência de higiene intima passa de problemática que lhe vai causar infecções, para base de um odor distinto e afrodisíaco (que lhe vai causar infecções na mesma). Toda a realidade das princesas da Disney em que até os pássaros cantavam e lavavam o chão parece plausível sem o efeito de drogas pesadas.

Eu confesso-me uma acompanhante de luxo nesta matéria, em que só aceito clientes com um certo carisma e carteira emocional mas, verdade seja dita, não posso fazer nada quanto aos piropos provenientes dos andaimes da vida a menos que lhes enfie um pé na boca. Porém, o ego não se apoquenta, precisa de mentiras que soem a mimos enquanto espera por um pardal que lhe lave a roupa.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

As favas de Eva

Eva era uma jovem dinâmica que gostava de maçãs e longos passeios à volta da única árvore que constituía o paraíso. Uma manhã a bela rapariga alertou Adão que ele devia tapar a latrina atrás da árvore depois de defecar, o equivalente a baixar o tampo da sanita dos tempos passados, mas visto que Adão tinha sido o primeiro inquilino do paraíso achou de mau tom a ordem de Eva. Porém, obedeceu enquanto lhe rogava uma praga entre dentes. Nos dias que correm as mulheres ainda pagam pelo erro de Eva não saber comer o raio da maçã e ficar calada, subjugando gerações à primeira macumba bíblica.

Foram, garantidamente, homens a criar maquilhagem, saltos altos e tangas. Não foi num dia solarengo que banhava o quarto de uma jovem acabada de acordar, que uma epifania atingiu-a como se de um raio se tratasse e ela concluiu: “Devia haver uma maneira de enfiar rabo acima todo este tecido que confortavelmente adere ao meu traseiro, de maneira a desconhecidos não me catalogarem pelas linhas que transparecem pela roupa”. Pois, na realidade o que mais se quer é ter renda enfiada no rego, pelo bel-prazer da vista alheia, mesmo que envolva ciência o ajeitar do tido pedaço de tecido sem que faça ricochete e nos faça chorar em público por termos piorado a situação. Lacrimejo por cada tanga puxada até ao pescoço que vejo a gritar por ajuda ao tentar fugir das calças de mulheres que se agacham sem pensar nas consequências. O bambolear natural das mulheres não é uma tentativa de sex appeal mas sim um método de não perdermos as cuecas entre as bordas e o segredo das mulheres irem acompanhadas à casa de banho é para não correr riscos e haver sempre acessibilidade a uma equipa de socorro.

Os saltos altos foram um mecanismo inventado pelos homens para que houvesse mobilidade reduzida na altura de fugir de otários. Não só diminui relativamente a velocidade habitual de uma mulher, torna-se um limbo quando alcoolicamente alteradas, dão sinal sonoro quando tentamos sair sorrateiramente da cama e os homens lêem os sapatos como perfis de redes sociais, havendo dos saltos de mulher casada, aos saltos da mulher que está desesperada por contacto humano e aceita tudo menos levar com sardinhas nos olhos enquanto fazem sexo. A maquilhagem foi uma via alternativa criada para bloquear os poros das mulheres, na esperança que a acumulação de estuque facial as fizessem calar. Não funcionou como pretendido, mas tem a capacidade de baixar a auto estima feminina quando na ausência de produto.

A realidade é que as mulheres são naturalmente bonitas mas estão demasiado ocupadas a pagar as favas da latrina do outro. Já os homens roncam, cheiram mal dos pés e andam para ai a baloiçar um par de bolas peludas e é como se fossem princesas, podem não tomar banho uma semana e no máximo há uma saudação masculina de risos brejeiros e repetição ensurdecedora de que isso é que é ser homem. Queridas mulheres, compreendo que a vida vos conduza a uma rua sem saída e que vão continuar a usar maquilhagem, saltos altos e cuecas que vos vão eventualmente cortar ao meio, mas tudo o que se qualifique como decisões de moda estúpidas fora destas categorias, como calças a serem substituídas por leggins, só se têm a culpar a vocês mesmas, pois não há muitas mais figuras bíblicas com pedalada para estas desculpas tiradas a ferros para a nossa ausência de amor próprio e auto-mutilação gratuita.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O amor não chega

Uma relação amorosa é como um dente do siso. Sabemos que um dia irá aparecer, mas mostra-se ao mundo quando menos esperamos. Constatamos desde cedo que irá, eventualmente, criar problemas, mas para quê arranca-lo se está tão lindo e desprovido de problemas no seu canto. Até ao dia em que notamos todos os restantes dentes a ficar tortos e ou optamos por o deixar intocado pelo conforto que é evitar a visita ao dentista, correndo o risco de ganharmos semelhanças com o focinho de um cavalo, deitando pela janela todo o investimento em aparelhos com elásticos multicolor, ou o arrancamos. Mesmo com preparação e anestesia esta opção vai doer, provavelmente inflamar e fazer-nos desejar ter o maldito dente de volta. Porém, quando a dor termina, estamos mais leves.

Esta semana arranquei o meu siso. Agora é esperar que os outros dentes ocupem o espaço vago e volte tudo ao lugar que lhe compete.

[Comentários de pena politicamente correcta são uma utilização errónea dos vossos teclados]

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Happy birthday

Vamos saudar a revista Happy por celebrar este mês o seu centésimo aniversário. Oito anos a criar postos de trabalho a psicólogas dependentes de alucinogénos que criam problemas que não existem com unicórnios anorécticos, editores daltónicos que julgam verde alface ser o tom ideal para plano de fundo de uma narrativa intensa e comentadores de moda que publicitam itens de lojas de luxo numa revista cujo poiso natural é na mesa da cabeleireira de bairro social ou sala de espera do ginecologista.

O conceito de felicidade da revista é algo que me cativa pelo seu cariz enigmático. A felicidade é algo que associo a sorrisos, amor e bolo de chocolate, porém os criadores desta revista associam a jovens subnutridas e carrancudas, que gostam de vestir roupas desapropriadas para a estação presente ou até para este planeta, que parecem ter sido tiradas à força da ala de apoio à depressão crónica, dando-lhes o lugar de destaque: a capa. A escolha por pessoas tão miseráveis e descontentes com a sua vida é tão plausível como um anúncio de luvas em que o modelo tem cotos. A revista tem um preço bastante apelativo, o que a torna uma compra viável na época das castanhas e nos quiosques das lotas. Uma vez por mês pode investir no sentimento de satisfação de não ser tão energúmeno como julgava ao passar os olhos pelas histórias sem fundamento da revista, por outro lado irá ser arrebatado pela desilusão de não ser brilhante o suficiente para ter usado essas míseras moedas em algo mais útil, como para colocar debaixo do pé daquela mesa que estava a abanar.

Esta maravilha literária mensal vai ilibar o seu pensamento das dúvidas que o atormentam no quotidiano. Nunca mais vai acordar em sobressalto com a dúvida se o azul petróleo saiu de moda, vai aprender que pode perder cinco quilos se trinchar o seu braço fora e esclarecerá todas as questões patentes na problemática de fazer uma orgia vendada, equilibrada no topo de uma palmeira com toda a equipa de hóquei de Santa Comba Dão. São anos a melhorar o seu conteúdo e a aumentar as páginas de publicidade, possibilitando a bênção de em cem páginas só quatro terem letras. Acredito no espírito da revista e em como o seu núcleo literário jaz nas palavras florescentes impossíveis de ler e no bom coração dos editores que enchem as páginas de cremes e perfumes de brinde para colmatar a perda cerebral do leitor.

Parabéns à Happy e que façam muitos mais anos a levantar a moral dos compradores de outras revistas, que a evitam nas prateleiras como se de sarna se tratasse, a título de preservar um nível decente de amor-próprio.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Turquia

Fugir ao quotidiano, ao conhecido, pode significar fugir aos percursos turísticos e grandes capitais e enveredar por caminhos desconhecidos onde o tráfico de órgãos é uma viabilidade. Fui à descoberta do interior e sul da Turquia, onde os montes vulcânicos conferem uma beleza desértica e as praias de água quente nos fazem crer que estamos no paraíso, não fosse a substituição de areia por calhaus que nos levam a desejar ser socialmente aceitável rebolar até à agua.

Descampado, vaca, palmeira, mausoléu, é a sequência rítmica que nos acompanha estrada fora, ao som dos cânticos religiosos incessantes, que a dada altura cremos conhecer a letra. Sair de um autocarro e ser cegado pelo sol ardente faz-nos esfregar a vista e perceber que se calhar a viagem era para Corroios, pois a tez bronzeada é um tom possivelmente adquirido na Costa da Caparica e denota-se algum azeite a escorrer pela face dos locais ao invés de suor. A moda dos cortes de cabelo em forma de pote de barro rapidamente prova que é a Turquia, pois a cerâmica não é o forte da Margem Sul do Tejo. As mulheres dividem-se entre o fascínio e o medo da típica europeia, os homens parecem um disco riscado com o cio. Se a presença de álcool estivesse mais patente nos seus hábitos culturais e na minha corrente sanguínea, talvez todo o ritual de acasalamento protótipo deste povo não parecesse um desastre desesperado.

O preço irrisório da comida faz-nos arriscar em pratos cujo nome nem sabemos pronunciar e mesmo que quiséssemos ninguém nas imediações seria capaz de traduzir. Uma coisa se torna certa após os primeiros restaurantes: tudo leva iogurte. Já bebidas é aproveitar as maravilhas da água del cano, pois uma cerveja custa um baço e dois dentes. Acordar e usufruir dos encantos de um pequeno almoço de hotel, por vezes a salvaguarda de toda uma gastronomia que intensifica as filas de espera para a casa de banho, torna-se uma degustação de cinquenta variedades de azeitonas, queijos com cortes e crostas artísticas mas que sabem todos a jornal e, o inesperado, iogurte.

Uma cultura fechada mas fascinante, que prezam a natureza como nunca antes tinha presenciado e tão supersticiosos que os gatos pretos suicidam-se à nascença. Regateadores natos, que nos levam a fazer compras em que pensamos ter ganho a batalha dos cêntimos, quando só queríamos comprar umas gramas de chá e saímos de galinha em punho. Onde todos os recantos parecem saídos de um filme, ora romântico e místico, ora onde se estripam porcos e estudantes de artes. A Turquia é um país a visitar e explorar, com um povo bom mas culturalmente muito diferente do nosso, onde nos devemos acompanhar de um espírito aberto e um pacote de bolachas.

domingo, 1 de junho de 2014

Vou ali e já venho

Uma semaninha de lombo escarrapachado ao sol e prioridades organizadas por ordem descendente após andar de balão e de camelo. Volto daqui a 8 dias. Bem haja e sejam felizes.

Sem censura

A música é pornografia no seu estado mais límpido. Umas exibições são magnificas e gostaríamos de alcançar a performance do artista, outras não percebemos o que está a acontecer e se aquilo sequer se enquadra como prática da actividade, e há ainda as que desejávamos nunca ter presenciado porque a imagem nos irá perseguir até ao fim dos nossos dias. Ir a concertos para mim sempre foi a definição clara de êxtase e, este fim-de-semana, apercebi-me que passei a adolescência a antecipar o momento em que poderia ver os meus artistas favoritos ao vivo e fazer parte daquele frenesim de emoções que é um concerto e, agora, após ter ido a um bom número, apercebo-me que estou a ficar velha de mais para isto, como um adolescente experimentalista, agora adulto cansado e marreco, começo-me a contentar com a posição de missionário.

O roçar de corpos e suor costas abaixo pode soar a algo sensual, mas quando falamos de um festival, sendo o suor de milhares de corpos dos quais uma razoável percentagem não leu o manual de como empregar desodorizante, a sensualidade fica-se pela possibilidade de batermos com a cana do nariz no gradeamento, bloqueando as fossas nasais. Ouvir a pessoa ao nosso lado assassinar cada palavra da nossa música favorita, parecendo estar a entoar o hino israelita em vez de uma balada em inglês, e tolerar guinchos de contentamento de fãs por cada vez que o cantor expira, sob a constatação que ainda não se esqueceu de respirar, são pormenores aos quais já estou imune. Porém, cada vez mais é comum que crianças sem amor à vida assistam a concertos sem presença dos pais. Acho que a regra deve passar por proibirem a sua entrada ou por os atarem a postes ao fundo do recinto para não terem tendência a fazer mosh pits, impedindo de ver os concertos aqueles que efectivamente pagaram pelos seus bilhetes e não os obtiveram por consolação de só ter chumbado a duas disciplinas. Volta e meia um come a cabine de som ou o pé de alguém e lá tenho que me rir, o que é desagradável. O mosh pit foi criado, exclusivamente, para concertos em que nem com legendas se percebe o que o cantor diz, então de pouco serve estar parado, mais vale correr feito um gnu.

Assisti a um concerto em que o artista atirava bolos à cara do público em delírio com a ideia. Ao que parece o negócio das pastelarias já não é tão próspero como antigamente, pois visivelmente nenhuma daquelas criaturas via um bolo há anos. Eu compreendo o encanto de comer depois de tantas horas ali em pé, mas ficavam mais bem servidos se o homem tivesse atirado umas febras.

Nada se equipara à sensação de estar num recinto cheio de pessoas que partilham os mesmos gostos (de pastelaria) e a constatação de que se ocorre um desastre natural não há safa possível. Cantar em uni som faz-me crer, erroneamente, que não canto assim tão mal e ouvir um “com licença”, antes de nos empurrarem, ganha todo um sentido bíblico. Não obstante, vou ter que deixar de ir a concertos, por estar a perder o fio à meada no que diz respeito aos seus conceitos e achar que pelos preços cobrados deveríamos estar imunes à ressaca no dia seguinte.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Erro de Impressão

“Se Deus te assinalou algum defeito te encontrou”
Deus provavelmente estava todo animado a desenhar um dálmata quando os meus pais decidiram procriar e perdeu o raciocínio. A variedade de sinais no meu corpo tem patente um trabalho imensurável por parte de Deus que não se poupou a esforços em acumular defeitos no meu ser, no que parece ser um intrínseco jogo de juntar pontos com mau feitio, porque aqueles que se aproximam com caneta em punho morrem prematuramente.

Hoje recordo-me dos ditos repetidos vezes sem conta pela minha avó quando eu era criança, pensava eu que ela os repetia por estar a roçar o senil e afinal eram dicas, absolutamente nada subtis, à minha pobre confecção. Fui dotada de poucos atributos físicos para além da exímia capacidade de afastar os dedos dos pés como a saudação do Star Trek e abanar o nariz como a personagem do Bewitched (Casei com uma Feiticeira), o que demonstra, provavelmente, demasiado tempo livre a ver televisão em criança e não um talento natural. Não obstante, não me considero uma pessoa assim com tantos defeitos que Deus se tivesse que dar ao trabalho de parar de preencher os seus livros de colorir em que rabiscava dálmatas, para me colocar sinais em sítios humanamente impossíveis de ver a olho nu. Vendo bem, também posso ter sido um erro de impressão.

Há uma semana por mês em que faço jus a todos os sinais que porto em mim e eles até se tornam néon. Denominada como menstruação ou possessão demoníaca, todos os meses transformo-me numa lontra bipolar, sem qualquer réstia de amor-próprio e capaz de fingir a sua morte em público se descaradamente me roubam o fim de uma fartura. Num misto de sentimentos entre querer mandar o meu namorado para casa da mãe dele, mas ir no seu colo porque estou carente como um cão abandonado, e querer ver filmes de terror porque sinto familiaridade com a temática sanguínea torcendo convictamente pelo serial killer, mas não conseguir ver um romance sem me querer matar porque a vida de toda a gente é linda menos a minha, a minha presença torna-se insuportável. Ser chato ganha um novo sentido, considerando que o meu QI desce notavelmente e me enquadro no padrão de pessoas que quando vêem um cão falam com ele com dicção de recém-nascido e se atiram para o chão para rebolar com ele, apesar de estarem em plena Avenida da Liberdade.

Gostaria de me mostrar solidária com todos aqueles, que tal como eu, têm que ouvir ditos maledicentes e capazes de destruir a auto-estima das suas avós e como benesse ainda precisam de usar mais protector solar. Alegrem-se amigos, porque todos gostarão de vocês, por lhes lembrarem dálmatas e quando derem pelo vosso real mau feitio já é tarde.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ser Português é F...

Ser português é nascer a cantar o Fado, enquanto se reza a Fátima que a ladainha da Family Frost pare de tocar de madrugada na rua e caso não se concretize por meio divino partimos o retrovisor da carrinha com uma bola de Futebol. Fado, Fátima e Futebol diz-se que são os três F que definem a nossa nacionalidade. Para além do facto subjacente de eu me provar um terrível exemplar do espécime português, não deixa de ser caricato que o que nos define vai de encontro em grande parte às temáticas que se dizem tabu quando tencionamos manter uma conversa saudável: Futebol, Religião e Politica (deve haver comunistas que cantem o fado, logo, é politico).

Deram-se mais umas eleições que me parecem ter sido relativamente negligenciadas, como aquele conhecido com mau hálito que fingimos não ver no metro para evitar o constrangimento de querer regurgitar quando abre a boca. Há cartazes em todo o lado e o icónico carro com altifalantes que ensurdece a população com as mais encantadoras baladas políticas, para o qual as pessoas olham e ouvem com desprezo, como quem diz “se não vir é porque não existe”. A população deixou de acreditar na política, como tal acho que está na altura de criar um novo método de voto, como por exemplo colocar urnas à entrada do piquenique do Continente. Não seria exacto que os votos viriam da população mais instruída politicamente, mas ao menos alguém se deslocaria às urnas e não seria como agora, que os únicos vinte votos que deram entrada são dos infelizes que tiveram que trabalhar nos postos de voto e votaram de tédio. Votar não é só um direito, como uma obrigação, nem que seja em branco, caso se abstenham do voto, abstenham-se também do direito de opinar da situação mal parada do país, pois sentados no sofá certamente não estão a mudar nada para além do canal.

Não tenho particular apetência para falar de politica, o meu favoritismo passou, em jovem, pelo comunismo, três dias por ano, porque os concertos do Avante eram melhores que os dos comícios de extrema direita. No que diz respeito a futebol sempre fui da equipa que ganhar o que me permite estar sempre a festejar vitórias de equipas que nem sei pronunciar o nome. Já Fátima é uma terra muito bonita e também aprecio a escolha do nome Fátima para criancinhas de tez pálida, mas sinceramente não sei rezar e as minhas crenças passam pela fé na humanidade e por viagens low cost.

sábado, 24 de maio de 2014

Falta de visão

Ao nascimento os nossos pais esperam que sejamos saudáveis e de preferência pouco estúpidos, umas crianças têm um perfil aventureiro, brincalhão, eu tinha em mim algo de empreendedora. Na escola primária vendia fotocópias de desenhos do Dragon Ball, a preços dignos de serem obras de Dalí, em prol de comprar o bem mais precioso na infância de qualquer um, gomas. Cresci e desenvolvi a minha lábia de vendedora, sendo na escola básica capaz de vender tranças de lã de cores variadas, que anunciava serem pulseiras de sorte com os mais variados significados, na compra de várias recebiam uma descrição do seu signo que retirava detalhadamente do teletexto. Abandonei a carreira de aldrabona a uma tenra idade pois verifiquei que aquelas crianças de ingenuidade sem par não iriam certamente originar os adultos mais brilhantes, não constituindo um desafio para o meu desenvolvimento psicológico e económico. Escusado será dizer que era uma mulher de negócios que trabalhava na obscuridade do anonimato, pois se a minha mãe descobrisse arrancava-me a cabeça a grito. Não fosse a falta de desafio e teria dado uma traficante de droga ou armas extraordinária.

Passado tantos anos de ter abandonado uma carreira promissora na área do tráfico de produtos ilegais, olho em volta e apercebo-me que nasci no país errado, pois tanto alarido em torno dos requisitos das bandas que irão actuar no Rock in Rio é pura falta de visão. De pistas de atletismo, frigoríficos e barcos insufláveis, tudo faz parte da lista de necessidades básicas dos artistas estrangeiros. Quando nos deparamos com os pedidos das bandas portugueses, passam por água engarrafada e os ingredientes necessários à confecção de sopas de cavalo cansado. Ora é falta de visão! O português só pensa no dia de hoje e como é bom enfardar pão com manteiga após balbuciar meia dúzia de palavras cantadas. Já bandas, como os Arcade Fire, que engenhosamente pediram 100 toalhas de banho, estão visivelmente a planear um futuro em que alguém da banda tem uma overdose ou simplesmente deixam de produzir música de jeito. Se em cada concerto lhes providenciarem essa quantidade de toalhas, eles estão mais do que amanhados para ser proprietários de uma promissora carrinha de venda de toalhas em qualquer praça europeia.

Foco-me agora, então, no que me levou a falar sobre este assunto, que foi a ausência de lasanha na superfície comercial que frequento. Se não fosse a falta de visão portuguesa, tínhamos abastecido os super mercados como se nos estivéssemos a aproximar de um apocalipse zombie, visto que, este fim-de-semana, Lisboa foi invadida sem dó nem piedade por espanhóis. É triste que nem o país rentabiliza esta situação, nem eu janto lasanha. Se eu tivesse seguido o meu destino, traçado desde tenra idade, tinha conseguido vender uma bazuca por preço amigável à equipa que visivelmente vai perder, provavelmente portadora de uma lasanha que estaria disposta a abdicar ao bom amigo traficante de armas. Caso contrário, ao menos tinha uma bazuca para acertar no fulano que ficou com a última lasanha.

domingo, 18 de maio de 2014

O fim é o começo

Um relacionamento amoroso é algo sagrado, com o poder de revelar em nós o apogeu da felicidade e cujo rompimento devia ser ensinado na pré-primária. Em criança terminar com o primeiro namorado passa pela azáfama de chamar o petiz de mal cheiroso e de o empurrar para uma poça de lama, quando crescemos ganhamos um senso de responsabilidade que nos impede de empurrar namorados para o esgoto, levanto a todo um ritual de término, equivalente ao acasalar de pavões, muita dança para contornar a questão e esvoaçar para distrair os olhares, mas pouca conversa.

É de um comodismo incomparável nos mantermos com alguém quando não estamos felizes. Uma situação desconfortável é arrastada por meses, senão anos, na esperança que uma viga o atinja numa zona essencial do cérebro e ele agradeça doravante a nossa existência ou simplesmente lhe dê o badagaio, evitando as típicas conversas desagradáveis de rompimento. O manancial de frases criadas para atenuar a situação já se tornou de tal modo senso comum que não há uma maneira subtil de atingir o assunto. Enviar uma mensagem a dizer, “temos que falar”, tornou-se o culminar do pânico do nosso parceiro, quando na realidade só queremos saber se comprou areia para o gato.

Hoje li uma notícia que vítimas de violência doméstica aguardam em média 13 anos antes de romper com o seu companheiro. A menos que estejam a planear com tórrido pormenor como lhe dar com a torradeira na cabeça, custa-me compreender tamanha angústia preservada por tanto tempo. Homem que me toque vai descobrir que, “o que é que faz um saco preto atado a boiar no Tejo”, não é o começo de uma anedota. Compreendo que há situações deveras complicadas, mas a vida é curta demais até para cornetos sem o fundo de chocolate, quanto mais para abusos do nosso espaço físico e psicológico.

Começa sempre com uma frase de introdução exacta o suficiente para o nosso companheiro saber o desenrolar da situação e evitar perguntas redundantes. Passa sempre pela explicação que no começo não tínhamos conhecimento dos seus hábitos nojentos ou ambição de viver às nossas custas por inércia crónica (ou mulheres politicamente correctas traduzem isto para “não és tu, sou eu”, o que é uma aldrabice que saiu na lateral da embalagem da farinha Amparo no tempo da avozinha). Um chora, o outro acompanha por solidariedade e alivio de finalmente ser livre. Passado uma semana um deles decide que quer manter uma amizade, que não vai saber manter porque ainda não compreendeu o porquê de ter levado com os pés.

Há uma panóplia de razões por detrás de um rompimento amoroso, cada caso é um caso, mas na grande maioria das vezes, quando termina a paixão, uma relação mantém-se pelo comodismo. O conforto de saber que, mesmo que não seja perfeito, conhecemos aquilo com que podemos contar e, duvidosamente, irá ficar pior. Aliado a todo o reboliço emocional envolvente, terminar uma relação é um pincel de todo o tamanho. Quer seja por comodismo, ou, tal como eu, pela vontade de ascender a nível espiritual e ser um dia canonizada por um nível de paciência sem precedentes, nunca se esqueçam que em primeiro lugar está a vossa felicidade.