Era uma vez, contavam-se
histórias de felicidade, conquista, príncipes e princesas. Histórias que
conduziram tantas infâncias e criaram as fundações de muitos, como eu. Com um
sorriso no canto dos lábios, recordo as horas investidas nestes contos e
pergunto-me o que raio teriam os meus progenitores na cabeça. Fizeram-me crer
que é perfeitamente plausível que um príncipe encantado seja um mentiroso
compulsivo; beije defuntas que encontra por aí esparramadas, enquanto dá um
passeio para esticar as pernas; que um fetiche por pés faz dele interessante;
e que ser feita prisioneira por um fulano com acentuada falta de higiene
pessoal, é razoável desde que ele seja rico. Depois, perguntam-me o porquê do
meu cepticismo quanto ao amor.
O Tinder é uma aplicação criada
para encontrar o amor (de umas horas, se tiverem sorte). Eu sempre me acusei
como incapaz de, sequer, considerar a possibilidade de usar uma aplicação para
encontrar, nem que seja, um engate. Chamem-me antiquada, mas cresci com
histórias de princesas com claros problemas psicológicos e vi demasiados filmes
de terror. Levar um desconhecido para casa, na minha cabeça, não terminará em
algo que não seja o meu desmembramento (e não de uma maneira sexy).
Se uma aplicação vê a necessidade
de criar um botão de emergência, isso, devia ser para os seus usuários, uma
chamada de atenção vermelha, com holofotes, fogos de artificio e uma senhora
gorda a cantar ópera. Mas, vamos assumir, que chegou aquela altura da minha
vida em que decido participar activamente no meu homicídio assistido. Acho, que
o mínimo que a aplicação podia fazer era facilitar-me a vida, mas não, preciso
descrever-me numa frase e encontrar uma foto decente. É mais fácil que Deus
fale comigo para construir uma arca! Não tenho experiência nisto! Não sei se
com uma frase como “gosto de passeios à beira mar e não ser degolada” ia chamar
muito à atenção.
Gosto do amor à moda antiga. Conhecer
alguém num local público (testemunhas), onde posso avaliar se tem um tamanho
que me permita dar-lhe um KO técnico e fingir que sou doce, ao fazer-lhe umas
cócegas em algum momento da conversa, para avaliar se tem pontos fracos e,
acima de tudo, se tem uma arma na algibeira (nunca se julguem demasiado boas
para um assassino medíocre, nem a todas nos pode calhar um serial killer
artístico que não recorre a armas).
Encontrar o verdadeiro amor exige
trabalho e atenção aos detalhes. Não há nada como o eliminar de potenciais
caras-metade por detalhes fúteis que não admitimos em voz alta, mas nos fazem
ver que aquela pessoa não é para nós. Aquela patada na gramática, que repete
uma e outra vez como se nos quisesse ver sangrar dos ouvidos, que cordialmente,
tentamos corrigir ao repetir bem dito e só nos serve para o ver a dar outro
rotativo na boca a Camões; aquele tom de voz agudo acompanhado de um arrastar
sopinha de massa; aquela corrente de ouro a sair da farfalheira do peito; ou
aquela gargalhada estridente que parece uma morsa em cio. Todos estes exemplos,
que partilho dos meus traumas pessoais, em prol da vossa busca pelo amor, foram
casos de minutos, sem me desperdiçarem tempo (sem conversa da chacha de cores
favoritas, trocas de fotos e intenções, e possível investimento em jantares).
Pensem nisso a próxima vez que deslizarem esse dedo para a direita.
Este foi um serviço público do
Ministério da Busca do Amor nos Sítios Errados, com apoio do Departamento de
Traumas Infantis.



