sábado, 30 de maio de 2020

Branco Nuclear

Tom moreno, beijado pelo sol, que emana todo o calor e alegria do Verão. Guardo com carinho os anos de pele quente ao sol e cabelo que aclarava com a força do Verão. Hoje, a minha composição é definida pelo atraente tom de branco-defunto. Um branco pálido que daria inveja a qualquer folha A4 pronta a ser impressa.

Viver na Holanda é sinónimo de nos atirarmos ao chão da sala quando um raio de sol penetra a janela, para sugar 5 minutos daquele centímetro quadrado de alegria. Aqui dá-se muito valor aos dias de calor e as pessoas saem à rua de garrafa de vinho em punho e rumam para os parques no centro da cidade onde, sem água onde mergulhar, vão estar de biquíni posto até as dez da noite. Quem não tem cão, caça com gato, já dizia o outro. Aqui há praias, mas tendem a ser algo ventosas e a água, ai jesus a água, é a sensação térmica de enfiarmos a cabeça num granizado e perder o nariz, toda uma experiência que podemos desfrutar graças a um mero segundo dentro de água (sim, cai-vos o nariz se metem o dedo gordo do pé na água, um fenómeno fabuloso).

Eu idolatro o espírito dos holandeses e a maneira como dão valor ao sol, como portuguesa sempre o tive como garantido, mas agora compreendo. Se há sol, vão-me ver a comer na rua, nem que seja à beira da estrada à chapada com uma gaivota e a levar com gravilha na testa. Preciso de sol e nem é tanto pela vitamina, mas pelo aspecto moribundo que tenho, vejo as minhas veias com mais clareza que nos livros de ciências. Não sabia que o grau abaixo do branco era o invisível, mas isso parece.

Auto bronzeador não é uma solução para alguém como eu. Não poder tocar em nada durante horas, ter de trocar lençóis e, depois de tudo, correr o risco de parecer uma zebra, parece-me muito trabalho para ser confundida com a prima afastada de um cavalo. Solários? Devo ter sido um leitão da Bairrada noutra vida, tenham paciência, mas o conceito cria-me calafrios. Como última opção poderia escolher uma cor bonita e tatuar-me de cima a baixo no mesmo tom, seria inovador, consistente e provavelmente tão doloroso que desistiria depois de um pé moreno.

Com determinação, lutarei com holandeses pelo meu lugar ao sol, pois parece a maneira mais económica e menos trabalhosa de ficar morena. Irei colocar todo o meu empenho em ir de indumentaria diminuta para um parque, onde todas as minhas forças serão empregues em esparramar as minhas pregas pelo relvado, com precisão e arte.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Um Espirro Por Um Funeral

As crianças são criaturas inocentes, cheias de alegria e sonhos maiores que o mundo, cuja coordenação motora e raciocínio lógico nem sempre estão aliados, criando queixos esfolados, joelhos negros e egos destruídos. Considerando que sou um ser que, desde pequena, tropeço na chuva e escorrego no ar, cedo percebi que de pouco servia chegar a casa e queixar-me às entidades grisalhas. Por cada dedo que partisse, tinha de sucumbir à história em como a minha avó tinha partido os dois braços a estender a roupa num dia de verão em que fez demasiado vento. Lascar um dente era sinónimo de vê-la a sacar da placa e me a enfiar olho adentro (foi o começo da minha primeira conjuntivite, quase que ficava cega, mas não me queixei), para mostrar como não tinha nenhum e estava rija. Tudo aquilo do que se possam queixar até a uma certa idade, vai ser superado com esplendor por qualquer idoso. Isto, porque, vos levam cem anos de avanço, ou estão senis e acreditam que fizeram parte do império egípcio e andavam a carregar calhaus às costas para bel-prazer de César.

No dia em que sai de casa calculei que esta fase havia passado, sabendo que um dia seria eu a que arremessaria o seu olho de vidro à cabeça do meu neto insolente, quando ele se queixasse de ser míope. Porém, o descanso do guerreiro não passava de uma miragem. Não houve intervalo na fase do queixume e os meus pais nunca me alertaram com medo de que eu nunca saísse de casa. Arranjei um homem!

Os elementos do sexo masculino têm em si, durante toda a sua vida, algo de veterano de guerra sociopata com lepra sazonal. Eu caminho em casa como se de um pequeno pónei me tratasse, é só magia e confettis, nunca me dói nada. Não importa se uma doença se transmite por contacto físico, via respiratória ou voodoo, os homens apanham tudo por osmose. Não estou destinada a sentir o glamour de me doer um dedo, nem a alma, sem ter que meter compressas frias na alma de outro.

Infelizmente, tive algumas relações fugazes, mas intensas, com a minha retrete ao longo dos anos e as dores que tive, proporcionaram-me momentos de júbilo existencial, equivalentes ao senhor do filme América Proibida que come o lancil. Inúmeras vezes pensei vislumbrar a minha oportunidade de ouro. A personagem masculina aproxima-se como um cavaleiro alado, os meus olhos lacrimejam de emoção, agarra-me nas mãos com ternura, tosse duas vezes, cuspe para a pia e toma a decisão administrativa que vai morrer se não tomar soro nesse mesmo instante.

Esta é a história da reforma antecipada da minha esperança de poder queixar-me de dores. Agora compreendo porque é que não tenho memória da minha mãe doente, pois se ela espirrasse, lá teria de levar o meu pai às urgências.


sexta-feira, 22 de maio de 2020

Oração da Noite

Querida Santinha dos Labores Que Não Enriquecem Nem a Alma,

Dai-me forças para não esbofetear incessantemente a minha entidade patronal. Já não sei se são dias, semanas ou meses a formar novas rugas da incredibilidade por cada palavra que profere. Não o julgo querida santinha! Assumo que tenha caído de cabeça de um terceiro andar quando era criança e tenha batido nos estendais de todos os andares a caminho do chão. A verdade é que as minhas sobrancelhas já me tapam os olhos de tamanhas pregas, de horas de sobrolho esticado aos céus, e a parte inferior da minha cara foi vítima de paralisia, ficando o nariz arrepanhado num dos lados e a boca levemente aberta em descrer, da repetição da minha cara de “estará a brincar? Estará drogado? Estarei a ter um AVC?”.

Penso como terá chegado a este posto, por talento não foi certamente, será primo de alguém? Não que ninguém ama assim um primo. Será que foi a típica ascensão por senioridade na companhia? A menos que queiram ter alguém a quem culpar quando a companhia ruir perante os seus olhos, não vejo o propósito.

Comportei-me, dei-lhe tempo e orientação para crescer como ser humano, mas não posso mais. Sonho com ele a ser alvo de treino dos Pauliteiros de Miranda. A quarentena roubou-me o poder de fingir que me importo e agora quando ele fala eu procuro alguma mosca que me entretenha. O telefone toca e eu tenho de filtrar a raiva em gritar exasperadamente, antes de atender com um (plausível e profissional): “Quê?”.

Preciso da tua ajuda santinha, que já me culpei a mim, mas nem eu acreditava nisso. Agora encontrei um grupo de almas tão perdidas como eu, que não o suportam, e vejo isto a descambar rapidamente.

Lanço as mãos ao céu em louvor a todas as almas com entidades patronais que não são completos energúmenos. Agora deixe de se dar palmadinhas nas costas e de jogar poker online cara Santa. Ponha um bocadinho de dedicação no meu caso, que já levo um par destes chefes e a meu ver tem você favoritismo por alguns dos seus crentes. Não ando eu para aqui a rezar para que você esteja a ler a Maria divina.

Que a força esteja consigo (ou como quer que seja que se acaba uma oração).

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Império de Fita Adesiva

O fino salto alto aferrasse ao soalho, como um metrónomo a marcar o ritmo, sente-se a identidade feminina a ressoar em cada passo. Giro a cabeça e suspiro exasperadamente, como quem salta um batimento cardíaco. Aquele corpo de porcelana com medidas perfeitas, movendo-se com uma harmonia que me faz trautear a Garota de Copacabana. Será isto inveja ou um teste à minha heterossexualidade? Oiço, então, um cavalheiro a perguntar-lhe qual a sua graça, respondeu com o tom de voz de um pai natal ébrio a trabalhar em part time num centro comercial: Joaquim.

Temendo não ter as qualificações necessárias para o trabalho, tomei a decisão que quero ser uma Drag Queen. Tenho consciência que o conceito passa por homens que se vestem e actuam como mulheres e eu sendo uma, poderia ser subentendido como batota, mas quem me conhece, sabe que a minha maquilhagem tem o traço artístico de um desenho indecifrável de uma criança de 4 anos (sim, aquele que guardam e fingem que é lindo, mas por dentro pensam que mais vale que o catraio cresça para ser bonito ou inteligente, que artista não vai ser) e ando de saltos altos, como uma mula em andas na calçada portuguesa, a tentar apanhar moedas do chão com a boca. Mas, atenção, não quero ser uma Drag Queen matrafona que para isso fico quieta, quero alcançar um nível que faça ambos os sexos duvidar da sua sexualidade, ao não saberem o que raio eu sou. O suprassumo dos jogos mentais femininos.

São mulheres de tomates. Efectivamente. Anos a melhorar as suas maquilhagens, vestuários e a arte de levar a genitália colada com fita adesiva entre as pernas, muitas vezes, durante mais de 10 horas. Eu não consigo nem empurrar a minha hérnia para dentro, que fique quieta por cinco minutos e estes homens, fazem desaparecer um conjunto de órgãos para lugares nunca antes explorados. Levem um grupo de mulheres a um striptease em que o stripper dispa a tanga e o homem é apedrejado por atentado ao pudor, enquanto elas convulsam com arcadas (ninguém quer ver aquela coisa a bambolear por aí livre). Mas, se ele saca de um rolo de fita adesiva e faz a genitália desaparecer, até o viramos do avesso para compreender onde foi aquilo parar. O mundo Drag gera-me tantas perguntas! Seriam histórias dignas de ser contadas junto à lareira, a mulheres que tiram apontamentos fervorosamente, sentadas de pernas cruzadas num tapete felpudo.

Poderia, finalmente, sair dos cânones de nomes cliché e ter um nome artístico. A minha cabeça brame com um sem fim de opções. Poderia ser algo com classe, como Estrelícia Davenport (a minha definição de classe soa a nome de actriz porno Venezuelano dos anos 80 está claro), descritivo como Luísa Marmota ou até artístico-bardajão como Candy Diaz. Um nome com impacto, uma peruca de três cores e enchimentos a dar-me as curvas certas, e eu seria capaz de dominar o mundo [ponto de reflexão: anos a ouvir marcas a anunciar push ups diminutos, como a grande inovação, após a invenção do pão de forma, e agora descubro que há todo um mercado de almofadados corporais que podiam ter-me ajudado a fazer publicidade enganosa com muito mais engenho e cair sem me esfolar toda? Sinto-me defraudada].

Ser Drag Queen é uma prova de poder de homens, que têm a arte de enxovalhar o sexo feminino em áreas que lhes são designadas à nascença pela sociedade. Não só o fazem, como o fazem melhor que muitas de nós e nos fazem reflectir, em como queríamos ser bonitas como o Osvaldo. Chega de patriarcado Drag, que eu também quero!