sexta-feira, 15 de maio de 2020

Amor Incondicional

“Quero alguém que me ame incondicionalmente”. Aquela frase cliché, que todos parecem proferir levianamente quando alguém lhes pergunta o que buscam num parceiro. Ao nível de muitas frases idiomáticas, como “Pensar na morte da bezerra”, compreendemos o significado, mas, garantidamente, foi uma constatação formulada por alguém sob o efeito de estupefacientes.

Eu quero amar e ser amada condicionalmente! Quem diz que o seu amor não tem condições é porque é ingénuo ou não sabe amar. Sendo a principal condição, o respeito.  “Ah, mas o respeito está implícito no amor”, se este é o vosso pensamento, por favor enviem-me um email com a vossa morada que terei todo o gosto em deslocar-me ao vosso domicílio e esticar-vos uma lambada. Devia ser, mas não é.

Visualizem, acordar todos os dias com o rabo do vosso parceiro na vossa cara a expelir ventosidades pelo ânus, porque vos ama e não há nenhuma condição que impeça o seu sentido de humor podrido. Estar prestes a dar uma garfada num muito antecipado almoço e, o amor da nossa vida, decide fingir que é um gato, esticando em câmara lenta a sua mão em direcção ao nosso prato, olhando-vos fixamente, como se isso fosse impedir de vermos a direcção dos seus membros superiores, alcança o prato e dá-lhe patadinhas até que caia da mesa, sorri e come o seu bife, como se nada fosse, porque vos ama e não há nenhuma condição que o impeça de comportar-se, literalmente, como um animal. Imaginem estar na sala de estar, o puto começar a gritar que não quer comer as ervilhas e, a vossa cara metade, entre palavras ternas, projecta a criança janela fora como um frisbee, porque vos ama e não há nenhuma condição que impeça arremessar os vossos prodígios pela janela.

“Não sejas exagerada!”, podem pensar, mas sejam quais forem as vossas condições, todos as devíamos ter, e há um sem número de casais que se afundam nas expectativas de uma expressão desacertada. Descobrir que alguém me trai, é quando baste para agradecer pelos bons tempos vividos e dar-lhe a morada na Gronelândia para onde enviei todos os seus pertences. No dia em que um homem me tocar com um dedo que seja, eu vou sair de casa, entrar num concessionário, pedir para fazer um test drive ao maior carro que tenham e passar-lhe por cima. Como podem ver: condições! Porque a única pessoa a quem vou amar incondicionalmente, é a mim mesma.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Crime, Disse Ela

Entidade ao nível de um detective ou médico forense com um olhar clínico sem precedentes. A sua experiência ímpar garante que nenhuma pergunta é demasiado complexa, nenhum caso é demasiado violento e não há mistério algum impossível de resolver. Perante momentos gore, não pestaneja, tira apontamentos enquanto come fervorosamente pipocas. O reflexo do sexo feminino perante qualquer filme, livro ou história de crime contada no vão de escadas pela vizinha Ludovica.

Desde tenra idade a mulher mostra sinais de algum défice no campo da repugnância. Do ponto negro no nariz do namorado que ela sente ter que fazer explodir ou vai ter um ataque de ansiedade, ao assistir a séries de assassinos em série, avaliando as fotos dos defuntos como se fosse mudar a narrativa do episódio por descobrir algo novo naquele cadáver decomposto, nada a impressiona. Sabe-se lá donde vem este estômago de ferro. Pode ser que esteja relacionado com mensalmente sermos uma pinhata de resíduos grotescos, ou sei lá, sermos capazes de criar pestanas num embrião enquanto comemos torradas.

Se pensam que é uma casualidade que todas as livrarias tenham destacadas no centro a temática de crime e que a Netflix esteja a desenterrar a história de cada indivíduo que, em algum momento, matou um gato a grito, para fazer um documentário de dez episódios, enganam-se! As mulheres são grandes consumidoras da temática, pois gostam de resolver mistérios e lidar com problemáticas que parecem impossíveis de resolver. Metade das relações que uma mulher tem ao longo da vida, fundam-se na premissa de poder moldar aquele projecto de homem, em alguma coisa que se preze. Começam por tentar decifrar o mistério de determinado galã estar solteiro, sendo este, tão bem parecido; e, ao começar uma relação, acabam por lidar com as problemáticas, desencadeadas, entre outras coisas, pelo facto de ele ser um sociopata, ou dos pés lhe cheirarem a peúgas centrifugadas com cozido à portuguesa. Mas, como qualquer caso (de mau aproveitamento de tempo) criminal, chega a altura de encerrar o caso e arquivar o expediente daquele ser inanimado, a quem abanámos com um pau por algum tempo, a ver se mexia.

Poderiam intuir, então, que somos perigosas. Afinal de contas, alguém que faz um bailinho celebrativo por anunciarem outra temporada de Mind Hunters e vê cada episódio a um palmo do ecrã, pode ser que saiba o suficiente de assassinos em série para a vossa vida estar em risco. Não temam meus caros. Gostamos de estar informadas, porque, caso não saibam, historicamente, as mulheres têm uma tendência a ser o sexo lixado. Não fazemos intenções de sujar as mãos ao desbarato, mas se soubermos as manhas todas dos grandes cérebros do crime, estamos um passo mais perto de nos defendermos e matar o coronel mostarda, na biblioteca, com um candelabro, do que se ficarmos quietas a ver se chove (vá...isso...e somos um bocado sádicas).

sábado, 9 de maio de 2020

Tradição Analógica

Há tradições familiares que pela força dos tempos se destroem para sempre. Como os belos fins de tarde a queimar bruxas na praça, há 400 anos, ou ir às sextas feiras buscar filmes ao clube de vídeo, há mais anos do que gostaria de admitir. Hoje pretendo falar da última, uma simples acção que concentrava uma amálgama de emoções ímpar.

Antecipação.

Caia a noite e rumávamos em família ao clube de vídeo. O cérebro em pleno festim matemático, a vida ensinava-nos estatística e avaliação sociológica desde pequenos. Era fundamental ter controlado em que dia sairia cada filme, calcular uma média de dez cópias disponíveis para alugar (se fosse um filme muito antecipado pelas massas), avaliar a probabilidade de dez pessoas do bairro quererem vê-lo e, acima de tudo, estudar a velocidade média de cada vizinho a chegar ao ponto de extracção. Olho com repulsa os petizes que se queixam dos 5 segundos que um vídeo demora a carregar. Estes nunca compreenderão a frustração de antecipar ver um filme, esperar quase um ano para que saia do cinema e seja disponibilizado em cassete, não conseguir uma das cópias no dia do lançamento, ter que esperar dois dias para que algum bom samaritano devolva o vídeo e rezar termos o timing perfeito, para o conseguir na primeira devolução.

Adrenalina.

Havia uma tensão no ar demarcada por papelinhos com carinhas tristes que destacavam os filmes já alugados. Havia sempre aquele membro da família que sabíamos que devia ficar em casa pelo seu gosto antagónico e faria o processo ser um longo episódio de Shark Tank, em que cada membro da família tinha que defender a sua sugestão como se estivesse nela pendente um investimento milionário. A adrenalina de podermos levar a nossa adiante. Uma última caixa sem papel, uma família unida pelo desejo de o alugar, o primo estúpido que certamente foi adoptado (não por ser estúpido, mas por ser ruivo), a insistir num filme independente que parecia um porno, 20 minutos a discutir a berros e a vizinha Clotilde que entretanto chegou e decidiu contar o final de três filmes, sem que ninguém lhe perguntara. Um cliente entra, os seus passos ecoam, vai directo ao balcão e pede o filme! O nosso filme! O dono da loja, pesaroso, aproxima-se de nós e coloca na caixa que eu agarrava fervorosamente, um papelinho. Era demasiado tarde. Os meus joelhos sucumbiam à pressão e caia.

Culpa.

Era hora de levar a segunda opção para casa. A que só o primo estúpido queria (afinal não era um porno). Ninguém abdicava de marcadas feições contrariadas e cenhos franzidos. Ele sentiria culpa se não fosse estúpido, mas nós, sentíamos por o ter deixado levar a dele a cabo.

Orgulho.

O filme poderia ser excepcional, mas não o poderíamos admitir. A batalha que havia arrebatado o nosso orgulho, ainda era recente. Fosse como fosse, residia nessa cassete um investimento económico e emocional. Que não ocorresse a ninguém perder um só momento do filme. Ir à casa de banho ou à cozinha buscar um petisco era uma acção colectiva, com momento a ser estipulado pela matriarca. Se o patriarca adormecesse durante o filme, entoando um ressonar tenor, seria submetido à expulsão da sala, mas, não antes de lidar com a cara de desilusão e olhar de raiva de todos.

Ódio.

Toda a fluidez do funcionamento dos clubes de vídeos residia numa colaboração colectiva entre vizinhos. Mas, todos os bairros tinham um par de exemplares da mais pura escória da sociedade, que não respeitava os dois dias de entrega, sem medo das repercussões e ficavam com os vídeos, por vezes, mais de uma semana. Em nossa casa, determinávamos quem iria devolver o filme assim que o alugávamos, teria de ser uma acção precisa e sem falhos, como o desactivar de uma bomba. Sendo a bomba a minha mãe quando descobrisse que teria de pagar a multa por devolução atrasada. Mais nos valia ir vender um rim, para conseguir o dinheiro e ela nunca descobrir.

Compaixão.

A única alternativa era apelar à compaixão do dono da loja. Prometer a nossa fidelidade, independentemente da quantidade de vídeo clubes que abrissem no bairro, assinar a sangue tais intenções, sacrificar uma cabra numa noite de lua cheia e oferecer o nosso filho primogénito para repositor (eu fiquei a dever-lhe três fedelhos para repositores, menos mal que fechou). Assim, podia ser que, secretamente, rompesse a confidencialidade dono-de-clube-de-vídeo/cliente e nos dissesse quando teria o vizinho de vir a entregar o vídeo ou, melhor, nos guardasse uma das cópias quando fosse devolvida.

Perda.

A cada lua cheia, na acção social de rebobinar a cassete, o leitor de vídeo regurgitava fita negra. Era enfiar os dedos nos orifícios da cassete e rodá-la como se a nossa vida dependesse disso. O pânico, o horror, de ter de pagar por um filme que não era bom e que, possivelmente, só serviria como adorno de árvore de natal.

Mas a principal perda é que fecharam. Para sempre. As novas gerações nunca vão compreender depender de um parágrafo para avaliar se um filme seria bom ou mau. Executar uma leitura analítica e literária do título. Avaliar aquelas três micro-imagens na parte de trás da capa (o trailer da altura). Estudar a capa até ao mais ínfimo detalhe, imaginando de que raio se trataria o filme.

Saudosista? Quiçá. Mas adorava esta tradição. Hoje tudo é fácil, o trailer conta quase a história toda, vemos a avaliação no imdb e determinamos se merece o nosso tempo, a família raramente se reúne para ver filmes, se não gostamos do enredo aos cinco minutos paramos e vemos outro. 

Enfim…mudam-se os tempos, mudam-se os filmes.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Não Sabem o Que Perdem

“E vocês, para quando?”

A pergunta que todas as mulheres grávidas projectam, como uma bola de ténis, à cana do nariz das amigas que estão em relações longas, mas ainda não decidiram reproduzir os seus genes duvidosos. A dádiva da vida é algo fabuloso. Também fabuloso, é que mais futuras mães não levem cabeçadas quando proclamam esta pergunta com um tom carregado de julgamento.

Casa comprada, marido imaculado, emprego de sonho. Os objectivos base que, enquanto crianças, estabelecemos como garantidos antes aos 23 anos de idade, quanto muito. Vemos as princesas da Disney a amanharem-se com homens com património imobiliário (um fabuloso castelo, ou no caso do Simba, “tudo o que a luz alcança”, hoje em dia as imobiliárias já não medem as coisas assim, é uma pena), isto, antes dos 18 anos de idade e, no benefício da dúvida, proporcionamo-nos mais cinco anos, não vá a puberdade ser mais lenta que desejado. Soubesse a pequena Eu de dez anos de idade, que passaria dos trinta e ainda estaria a patinar em maionese existencial, teria tentado trepar de regresso ao conforto do útero da minha mãe.

As minhas amigas já vão pelo segundo e terceiro petiz, dando-se ao luxo de arruinar a vida de ao menos um deles com um nome que lhe vai proporcionar uma carga de porrada diária desde a creche. O nascimento de um novo ser é um milagre. Deposito toda a minha fé nas capacidades reprodutoras dos demais, para criar gerações que não estejam repletas de fedelhos mal-educados, mas eu acho que o meu relógio biológico veio sem pilha de fábrica. Eu assassino um cacto em menos de uma semana, seria imprudente procriar. Estou quanto muito a zelar pelo bem-estar dos vossos futuros filhos, porque filho meu aos 3 anos já saberia usar nunchucks melhor que o Bruce Lee.

Não nos prendamos aos cânones impostos pela sociedade, desfrutem das vossas decisões e sejam plenamente felizes com elas, independentemente, do que as pessoas que vos rodeiam estão a fazer. O vestido rodado da Cátia Vanessa não tem porque vos ficar bem, nem tão pouco a sua vida.