Tom moreno, beijado pelo
sol, que emana todo o calor e alegria do Verão. Guardo com carinho os anos de
pele quente ao sol e cabelo que aclarava com a força do Verão. Hoje, a minha
composição é definida pelo atraente tom de branco-defunto. Um branco pálido que
daria inveja a qualquer folha A4 pronta a ser impressa.
Viver na Holanda é sinónimo
de nos atirarmos ao chão da sala quando um raio de sol penetra a janela, para
sugar 5 minutos daquele centímetro quadrado de alegria. Aqui dá-se muito valor
aos dias de calor e as pessoas saem à rua de garrafa de vinho em punho e rumam
para os parques no centro da cidade onde, sem água onde mergulhar, vão estar de
biquíni posto até as dez da noite. Quem não tem cão, caça com gato, já dizia o
outro. Aqui há praias, mas tendem a ser algo ventosas e a água, ai jesus a
água, é a sensação térmica de enfiarmos a cabeça num granizado e perder o
nariz, toda uma experiência que podemos desfrutar graças a um mero segundo
dentro de água (sim, cai-vos o nariz se metem o dedo gordo do pé na água, um fenómeno fabuloso).
Eu idolatro o espírito dos
holandeses e a maneira como dão valor ao sol, como portuguesa sempre o tive
como garantido, mas agora compreendo. Se há sol, vão-me ver a comer na rua, nem
que seja à beira da estrada à chapada com uma gaivota e a levar com gravilha na
testa. Preciso de sol e nem é tanto pela vitamina, mas pelo aspecto moribundo que
tenho, vejo as minhas veias com mais clareza que nos livros de ciências. Não sabia que o grau abaixo do branco era o invisível, mas isso parece.
Auto bronzeador não é uma
solução para alguém como eu. Não poder tocar em nada durante horas, ter de
trocar lençóis e, depois de tudo, correr o risco de parecer uma zebra,
parece-me muito trabalho para ser confundida com a prima afastada de um cavalo.
Solários? Devo ter sido um leitão da Bairrada noutra vida, tenham paciência,
mas o conceito cria-me calafrios. Como última opção poderia escolher uma cor
bonita e tatuar-me de cima a baixo no mesmo tom, seria inovador, consistente e
provavelmente tão doloroso que desistiria depois de um pé moreno.
Com determinação, lutarei com holandeses pelo meu lugar ao sol, pois parece a maneira mais económica e menos trabalhosa de ficar morena. Irei colocar todo o meu empenho em ir de indumentaria diminuta para um parque, onde todas as minhas forças serão empregues em esparramar as minhas pregas pelo relvado, com precisão e arte.



