Tempos de peso imensurável.
Cravar na parede mais um dia passado em quarentena, suspirar perante as medidas
dos governantes, recear pelo futuro a que seremos condenados e acima de tudo
temer pelos nossos, que queremos a são e salvo. Tempos em que, como indivíduos
e nação, espelhamos aquilo que somos, mas o espelho dos americanos parece estar
embaciado.
Um presidente é o reflexo do seu
povo, diriam alguns, afinal de contas, foram estes que votaram para este obter
o cargo. A realidade é que conseguimos ver à distância quem votou em dita bola
de plasticina laranja para presidente, normalmente, destacam-se pelas tatuagens
supremacistas, bonés do Trump, ausência de dentes e bom senso. Todos os demais,
que ficaram em casa e não foram votar em 2016, tiveram quatro anos para se
arrepender.
A todos os energúmenos que
ingressassem em hospitais por injectarem Cif para a veia depois dos conselhos
do presidente deviam-lhes retirar, automaticamente, o cartão de eleitor e levar
um par de lambadas, para que lhes saísse o Cif pelas ventas. Mas, dando a outra
face, quem os pode julgar? São pessoas desesperadas que querem a sua liberdade
e o seu presidente devia ser alguém em quem pudessem confiar.
Mudamos de canal e vemos que
enquanto muitos se mantêm em casa e respeitam a quarentena, manifestações enchem
as ruas de vários Estados, por motivos de força maior: os cabeleireiros e as
lojas de fertilizantes para plantas estarem fechados. O Drama! O Horror!
Invocam a gritos o cliché de que a América é a terra da liberdade e querem ter
a liberdade de fazer uma permanente e cavar batatas. Trump em conferências e
tweets congratula estes bravos que lutam pelo que querem. Se a OMS enviar esta
gente toda para uma ilha qualquer na Antárctica com uma sandocha de atum, é o
melhor investimento para a saúde de todos nós, mental e física. Mas, dando a
outra face, quem os pode julgar? São pessoas desesperadas que querem a sua
liberdade e o presidente não devia ser cheerleader de más condutas.
O presidente deixou que o
responsável de cada Estado determinasse em que momento podem regressar à
normalidade e, entretanto, que tipo de negócio é fundamental permanecer aberto
na zona que governam, ao que parece, sem limitações nem questionar a sanidade
mental de cada um. Temos, então, Estados em que os negócios e espaços fundamentais são:
lojas de armas (bom truque psicológico: quem precisa de ter medo de uma
pandemia, se há pacóvios armados em todo o país), pavilhões de wrestling
(porque há que lutar contra a pandemia) e praias (de acordo com o presidente o
sol queima o vírus)…é! O Estado de Florida consegue destacar-se, sendo um
combinar perfeito de todas as más ideias de todos os outros Estados. Os
próprios americanos começam a rezar para que Florida se descole acidentalmente
do continente e parta à deriva com todos os seus habitantes. Mas, dando a outra
face, quem os pode julgar? Acho que nós podemos, que somos pessoas desesperadas
que já não têm mais faces para dar!
Queriam ver-se livres dos
imigrantes? Queriam que os mexicanos pagassem pelo muro? Não se preocupem. Eles
estão já a fazer as malas e vão encarregar-se de construir o muro no regresso a
casa, para certificar-se que vocês não os seguem. Imagino os pobres nativo
americanos a dar voltas na tumba de tamanha vergonha alheia, a pensar, e
morremos nós para isto.
Desisto de ver noticias! Agradeço
que me mandem um sms quando puder sair de casa ou quando tiverem instalado uma
coleira de choques a Trump, para que ele leve descargas cada vez que diz
baboseiras [pensamento exacerbado, que vou manter para mim mesma: antigamente
os reis e presidentes caiam como tordos, e agora que é preciso, não há
psicóticos com boa vontade].
Um bem haja e um feliz 25 de
Abril a todos.



