sábado, 25 de abril de 2020

Dando a Outra Face

Tempos de peso imensurável. Cravar na parede mais um dia passado em quarentena, suspirar perante as medidas dos governantes, recear pelo futuro a que seremos condenados e acima de tudo temer pelos nossos, que queremos a são e salvo. Tempos em que, como indivíduos e nação, espelhamos aquilo que somos, mas o espelho dos americanos parece estar embaciado.

Um presidente é o reflexo do seu povo, diriam alguns, afinal de contas, foram estes que votaram para este obter o cargo. A realidade é que conseguimos ver à distância quem votou em dita bola de plasticina laranja para presidente, normalmente, destacam-se pelas tatuagens supremacistas, bonés do Trump, ausência de dentes e bom senso. Todos os demais, que ficaram em casa e não foram votar em 2016, tiveram quatro anos para se arrepender.

A todos os energúmenos que ingressassem em hospitais por injectarem Cif para a veia depois dos conselhos do presidente deviam-lhes retirar, automaticamente, o cartão de eleitor e levar um par de lambadas, para que lhes saísse o Cif pelas ventas. Mas, dando a outra face, quem os pode julgar? São pessoas desesperadas que querem a sua liberdade e o seu presidente devia ser alguém em quem pudessem confiar.

Mudamos de canal e vemos que enquanto muitos se mantêm em casa e respeitam a quarentena, manifestações enchem as ruas de vários Estados, por motivos de força maior: os cabeleireiros e as lojas de fertilizantes para plantas estarem fechados. O Drama! O Horror! Invocam a gritos o cliché de que a América é a terra da liberdade e querem ter a liberdade de fazer uma permanente e cavar batatas. Trump em conferências e tweets congratula estes bravos que lutam pelo que querem. Se a OMS enviar esta gente toda para uma ilha qualquer na Antárctica com uma sandocha de atum, é o melhor investimento para a saúde de todos nós, mental e física. Mas, dando a outra face, quem os pode julgar? São pessoas desesperadas que querem a sua liberdade e o presidente não devia ser cheerleader de más condutas.

O presidente deixou que o responsável de cada Estado determinasse em que momento podem regressar à normalidade e, entretanto, que tipo de negócio é fundamental permanecer aberto na zona que governam, ao que parece, sem limitações nem questionar a sanidade mental de cada um. Temos, então, Estados em que os negócios e espaços fundamentais são: lojas de armas (bom truque psicológico: quem precisa de ter medo de uma pandemia, se há pacóvios armados em todo o país), pavilhões de wrestling (porque há que lutar contra a pandemia) e praias (de acordo com o presidente o sol queima o vírus)…é! O Estado de Florida consegue destacar-se, sendo um combinar perfeito de todas as más ideias de todos os outros Estados. Os próprios americanos começam a rezar para que Florida se descole acidentalmente do continente e parta à deriva com todos os seus habitantes. Mas, dando a outra face, quem os pode julgar? Acho que nós podemos, que somos pessoas desesperadas que já não têm mais faces para dar!

Queriam ver-se livres dos imigrantes? Queriam que os mexicanos pagassem pelo muro? Não se preocupem. Eles estão já a fazer as malas e vão encarregar-se de construir o muro no regresso a casa, para certificar-se que vocês não os seguem. Imagino os pobres nativo americanos a dar voltas na tumba de tamanha vergonha alheia, a pensar, e morremos nós para isto.

Desisto de ver noticias! Agradeço que me mandem um sms quando puder sair de casa ou quando tiverem instalado uma coleira de choques a Trump, para que ele leve descargas cada vez que diz baboseiras [pensamento exacerbado, que vou manter para mim mesma: antigamente os reis e presidentes caiam como tordos, e agora que é preciso, não há psicóticos com boa vontade].


Um bem haja e um feliz 25 de Abril a todos.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Recessão de Sonho

Caríssima entidade patronal,

Após reflectir, seriamente, quanto à oportunidade única que me foi dada de trabalhar desde o conforto do lar, venho por este meio comunicar, que estou capaz de matar uma cabra a grito (se me providenciarem uma cabra, terei todo o gosto de vos provar a veracidade desta afirmação por vídeo conferência).

Todas as manhãs ao toque do alarme, que eu carinhosamente esbofeteava repetidamente (o botão nunca parece estar no mesmo sítio, vicissitudes da vida) eu desejava poder trabalhar desde casa, pobre néscia era. Agora que compreendo as normas deste convénio, prefiro voltar a ver-vos ao vivo para que consigam experienciar, não só o meu olhar desaprovativo de tudo o que dizem, como consigam desfrutar dos efeitos sonoros proporcionados pelos meus eloquentes suspiros. Quem sou eu para vos privar do deleite da minha presença e de tal experiência sensorial?

As vídeo chamadas são o principal motivo para a ruína desta experiência social. Acho incongruente e anti natura a expectativa de me verem numa indumentária que não seja um pijama ou, o cânone cultural, que é a “roupa de estar em casa”. Diria, até, que é antipatriótico! Não podem fazer seminários de 8 horas e esperar que não coma, beba ou adormeça. Estou farta de ser julgada por pedir palavra a meio das conferências para comunicar que vou defecar, mas também me julgam quando desapareço sem dizer nada e, nem falemos, da vez que vos levei comigo para a retrete (continuei a olhar fixamente para vocês durante todo o processo, com inteira atenção, não compreendo o que mais querem de mim!). Dói-me cada vez que interrompem a minha sessão de zumba e, ainda por cima, duvidam da minha palavra quando garanto que estava a trabalhar no orçamento que me havia sido pedido.

Não sei que dia é hoje e, honestamente, enquanto não me ligarem vou fingir que é sábado. É, então, dia de reflectir sobre a vida. Concluí, que gosto de estar em casa, apesar dos meus glúteos terem agora vida própria e estarem tão grandes que se registaram para votar. Mas se estar em casa requer que tome banho, me maquilhe, vista apresentavelmente e tenha de fingir que estou com atenção ao que dizem, prefiro sair à rua!

Com desejos de soltura imediata, antes que coma o canário,

Cordiais cumprimentos.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Subsidiação de Estilo de Vida

Exmos. Senhores,

Venho por este meio felicitar a iniciativa, da qual tive conhecimento, em que vários países subsidiam a mudança de sexo a pessoas que provam estar a sofrer de uma limitação psicológica por terem nascido no corpo, digamos, errado. Gostava de vos apresentar o meu caso e espero que o tenham em consideração para futura subsidiação.

Eu nasci para ser uma dondoca e fui colocada, erroneamente, num cenário suburbano e operário. Eu não fui feita para laborar e estou a sofrer angústias terríveis. Todo o processo de acordar cedo e ter de efectuar...coisas…cansa! Já para não falar do bullying constante. Não há dia em que não me julguem preguiçosa e me escravizem em nome da produtividade proletária. Eu não pedi para ser colocada nesta posição! Ninguém me vê a apontar o dedo à débil desenvoltura dos meus progenitores com jogos de azar, que me poderia ter poupado esta vida repleta de tamanhas chagas. Gostaria, portanto, de candidatar-me ao vosso subsídio pois sofro de clara limitação psicológica por ter nascido num corpo errado, nomeadamente, de pobre. Saio bastante em conta pois gosto da minha genitália, mas gostaria ainda mais se ela estivesse agora esborrachada no divã de uma penthouse na Indonésia.

Fui diagnosticada pelo Google com uma doença terminal. Sofro de delírios quanto ao meu status e o meu estilo de vida opulente levará ao meu padecer, se não paro de chamar de pobretanas a transeuntes aleatórios, enquanto faço pontaria à testa dos seus rebentos com moedas de cêntimo. De acordo com o médico especializado que me diagnosticou, a única possibilidade de salvação é uma mudança drástica de estilo de vida e, caso vos sobrem fundos, ajudaria, à ansiedade de tamanha transição, um implante mamário de copa D.

Não temam, pois quero ser um membro activo na sociedade e quero trabalhar! Só peço, humildemente, um emprego no qual seja feliz, e onde o salário seja, proporcionalmente, inverso à quantidade de trabalho. Quero alcançar os pequenos luxos da vida, como não saber quantas assoalhadas tem a minha casa e nunca mais temer o fim de um rolo de papel higiénico (que resulta sempre naquele cenário degradante, de esticar-me na sanita para alcançar outro, que por algum motivo sombrio se guarda num móvel nada acessível), pois haverá sempre um novo, dobrado cuidadosamente em triângulo, por um jovem de quem nunca saberei o nome, porque não me interessa.

Caríssimos, sem vocês não conseguirei! Preciso do vosso financiamento para esta causa justa e de real importância. Ao contrário dos diamantes, a família Kardashian não é para sempre e, na sua ausência, alguém precisa colmatar todo o vazio que a sua existência aporta ao mundo. Eu sou a vossa pessoa.
Cordiais cumprimentos.

 
[Uma ode às grandes empreendedoras da vida, como as Kardashian, a quem não falta genitália para mendigar. Perante as brumas da memória de que uma delas criou um crowdfunding para ser a bilionária mais jovem do mundo…e ter conseguido]

domingo, 19 de abril de 2020

Têm Oito Saídas de Emergência

O horizonte vislumbra-se ao longe, incidindo sobre ele, raios de luz que parecem divinos. Agradecemos aos céus a sorte que temos, abrimos os braços de rompante para planar sobre as nuvens que nos rodeiam. Apercebemo-nos, então, que estamos num avião e esticámos uma bofetada à hospedeira que, garantidamente, irá cuspir em todos os refrescos que me sirva nas 12 horas de viagem que ainda faltam.

Entrar no avião e cumprimentar a hospedeira de monho perfeitamente centrado, que repete ritmicamente saudações como se tivesse sido programada para autodestruir-se se um passageiro não se sente bem-vindo. Indica-me o lugar, com um olhar de agradecimento, quando observa que não entro a bordo com trigémeos recém-nascidos. Pedi lugar à janela, não pelas vistas, mas para evitar que a clássica senhora de fato de treino nos tente passar por cima a cada dez minutos para esticar as pernas, glorificando as suas varizes, como um memorial a veteranos de guerra. Olhamos para os passageiros a entrar, como se um desfile se tratasse, rezando, mentalmente, que não fique ao nosso lado um ser da lista negra: bebés (ou qualquer ser que supere os decibéis concebíveis ao ouvido humano); pessoas que não respeitam as leis de convivência aérea (como: a pessoa sentada no meio tem o direito legal aos dois apoios de braço); pessoas que não foram cordialmente apresentadas a nenhuma marca de desodorizante; indivíduos a quem a companhia aérea devia ter proporcionado dois lugares, mas o capitalismo não o permitiu, transbordando dobras de pele por encima dos apoios de braços.

É hora de voar e não questionar como aquela carrinha com asas vai chegar ao seu destino. O importante é que foi barato e há bar aberto durante todo o voo. A hospedeira começa a fazer a demonstração de segurança e todos os passageiros fingem que estão ocupados, excepto eu, que com o olhar mais penetrante e desconfortável, a olho fixamente. Isto, porque sei, que a minha vida pode depender desses minutos de atenção. Não caso o avião caia, porque aí estamos todos mortos (que isto não é o Lost), mas porque sei, que é uma questão de tempo até que uma hospedeira perca as estribeiras, saque de uma metralhadora e dê cabo de toda a gente que fingiu estar a dormir nos seus dois minutos de fama. Isto, enquanto eu como M&Ms no cockpit, cortesia da casa, por bom comportamento.

As mordomias de ter alguém durante doze horas a trazer-me comida, bebida, mantinhas, e almofadas, enquanto desfruto de filmes que ainda não estão no cinema (nem nunca vão estar), é um luxo! Está bem que, passado um par de horas, quero cortar as pernas de tão inchadas que estão; quero empalar a velha do assento da frente para que deixe de testar os limites da cadeira reclinável; e estou farta de evitar a unhaca do dedo do pé do senhor do acento de trás que, como um idoso de gabardina sem nada por baixo, espreita sorrateiramente entre a janela e o meu banco, aguardando o seu momento de glória. Mas vale a pena (porque não estamos sóbrios quando nada disto passar)!

Aterramos, sinais de cintos ainda acesos, mas toda a gente, que aguentou 12 horas sem tugir nem mugir, precisa de se levantar assim que as rodas embatem no chão, como suricatas em êxtase. Chega o momento de sair, despedir da hospedeira que olha fixamente o vazio, questionando a sua escolha profissional, e concluir que temos tempo de constituir família no terminal do aeroporto antes que cheguem as nossas malas.

Não há nada como viajar.