“De Espanha nem bons ventos, nem
bons casamentos”, entoou a minha avó sussurrando, como apelo ao meu bom senso
ao despedir-se de mim, faz mais de cinco anos, quando embarcava o voo que me
levou para a terra de nuestros hermanos. Ri-me, trocista, como se isso alguma
vez fosse suceder. Eu, moi-même, a sucumbir aos encantos de um ser aciganado,
vendedor de caramelos, carregado de brilhantina no cabelo, sentado num carro a
diesel barato e com uma mãe dançarina de flamenco, carregada de maquilhagem,
uma verruga à esquerda do lábio e uma flor do tamanho de um repolho na cabeça
(se me faltou algum estereótipo peço desculpa, esforçar-me-ei mais para a
próxima).
Arranjei então um namorado
catalão. O que faz dele o pão de passas do território espanhol, não é bom para
besuntar na molhanga de um bife, mas também não serve de sobremesa. É o “nem chove, nem molha” da metáfora padeira.
Há todo um processo de
aprendizagem de ambas as partes para uma relação multicultural saudável. Eu
ensino-o a comer pão com manteiga, não vá um dia a minha saúde estar débil e,
ao pedir-lhe uma torrada, ele apareça com um pão besuntado com azeite e um
tomate esborrachado no meio (era eu doente a um canto e ele morto no outro).
Ensino-o que quando apresentada uma descomunal embriaguez, o procedimento essencial,
aconselhado pelo Ministério da Saúde, é entupir-nos de caldo verde e pão com
chouriço. Não churros com chocolate, que isto não é uma ida à feira de
Matosinhos com os pequenos. Sou mediadora de debates e dou palestras a ele e
aos seus familiares em como não há um monopólio de comércio de toalhas em
Portugal e asseguro que as mulheres portuguesas não têm todas bigodes (ter
temos, mas vá…).
Ele, por outro lado, ensina-me
toda a sua cultura de merda. Não... Não estou a difamar a sua cultura, eles
fazem isso sozinhos, eu só estou a constatar factos. Nós temos o Zé Povinho e eles
o Caganer, agora ponderam vocês, “com tal denominação, de que se poderá tratar?”.
Pois, caro leitor, trata-se de um personagem, que eles colocam no presépio, tipicamente de
traje campesino, a defecar. Andam os três reis magos a dar voltas ao que
oferecer ao salvador recém-nascido e, vem o camponês catalão, arrear o presente
atrás da vaca do presépio. Ambas as culturas têm, então, pequenas estátuas de
personagens, potencialmente ofensivas aos olhos de outras culturas. Os catalães,
acharam então por bem, não ficar empatados connosco. Como o natal não tinha já
problemas suficientes com os clássicos dilemas familiares e um campesino
incontinente a invadir o presépio, criaram o Caga Tio. Este, resumidamente, é
um pau, aconchegado numa manta, esboçando um sorriso agradável, olhos melosos e com um chapéuzinho como o do Caganer,
ao qual os petizes enchem à paulada com outro pau (este sem olhos), na esperança
de que o primeiro defeque chocolates. Ora que boa ideia! Ah! Mas têm de cantar
ao mesmo tempo (qual ritual satânico).
Quando eu pensava que a Catalunha
havia compactado todas as possibilidades de traumatizar novas gerações em duas
personagens, eis que me é apresentado o seu equivalente ao nosso São Martinho. Quando
era pequena, saltava alegremente sobre a fogueira, entoando cânticos joviais
sobre as castanhas que iríamos comer em seguida. Eles vestem-se de doentes
mentais, criam uma figura gigante de um louco e ateiam-lhe fogo com gasolina. É…!
Eu com seis anos comia cola e os catalães aprendiam a ocultar um homicídio por acção
do fogo.
Gosto de acreditar que ensinamos
às nossas crianças bons costumes, mas tenho que dar o braço a torcer que se me
tivessem ensinado que se andasse à paulada recebia doces, que defecar é
considerado um acto religioso e que caso me depare com alguém louco lhe posso
atear fogo e resolver o problema, o meu trajecto de vida tinha sido
consideravelmente mais fácil.



