O conforto irrefutável de um atendimento serviçal, enquanto
sentados num banco de estofos suaves, em boa companhia e vista divina. Viajar
de avião em classe económica é tudo isto, mas sem o glamour. Sentados numa
cadeira voadora com cinto de segurança, com hospedeiras que não dormem à três dias
e cujos benefícios laborais são algo dúbios, sentados lado a lado com um senhor
que notoriamente não teve o prazer de ser apresentado a nenhuma marca de desodorizante e, com sorte, ter a vista sobre a asa direita que oculta toda a beleza do céu. Para
quê o champanhe e frutos tropicais servidos na primeira classe? É correto que
no Titanic os pobres morreram todos, mas neste caso se cai, caem todos juntos
(que isto não é o Lost).
Viagens longas de avião são sempre algo interessantes para a
corrente sanguínea. Podemos contar com a senhora de calças de fato de treino
que não passa quinze minutos sem se levantar para esticar as pernas. Queiramos
nós, ou não, colaborar com este exercício, ela seguirá a sua rotina, mesmo que
tenha que nos passar por cima. Conhecendo o caso, pensamos então pedir o
lugar à janela, pois assim ninguém nos chateia. Até que passamos pelas brasas e
acordamos com o pé do passageiro de trás, a espreitar ao lado da nossa cara, mesmo
entre a janela e a parte superior do nosso banco. Como um senhor idoso sem nada
por baixo da gabardina, aí está ele, pacifico à espera de contacto visual para
o seu momento de glória. Surge então o incontrolável desejo de agradecer ao destino
por não termos adormecido e, consequentemente, acordar com aquele dedo com fungos
e unha cortada com tesoura de podar enfiado num olho.
Olhamos para o lado e o senhor que cheira a defunto
encontrado na Stradivarius (sou só eu que tenho um ataque de asma quando entro
numa loja com tanto perfume no ar?), corresponde a mirada por compaixão
a toda a situação traumática vivida. Pensamos que esse foi o começo, apogeu e
fim da relação entre os dois. Mas não. Começa assim todo um ritual de querer
saber de nós e de nos oferecer amendoins que comprou por 7euros a bordo.
Negamos, sorrimos simpaticamente, e tomamos a decisão importante entre fingir
que dormimos e arriscar cegueira por unhaca alheia, ou ser presa ao aterrar por
assassinar um velho mal cheiroso com um amendoim projectado contra a traqueia.
Decidimos ver um filme. Afinal, a senhora do banco da frente
decidiu acordar e ter um pouco de compaixão, pondo o seu banco direito e
deixando-me respirar no meu acento. Tantos filmes bons disponíveis, alguns
ainda nem estrearam no cinema! Finalmente algo positivo deste trajecto. Carrego
no play e a mesma senhora que havia tido compaixão faz 10 minutos agora decidiu
que o seu escalpe se sentia mais desconfortável que eu, então vá de atirar com o seu longo
cabelo para trás, tapando na totalidade o meu ecrã e sufocando a minha vontade
de viver.
Respiras. Pensas. Já só faltam 10 horas. Tudo valerá a pena.
Por isso pedes whisky até ficares inconsciente.
[Gente gira, vou estar 2 semanas fora do estaminé. A menina
vai viajar =D. Até já]

Pensamento positivo: não falta animação durante a viagem. Não há glamour, mas peripécias existem às centenas ahahah :p
ResponderEliminarBoa viagem, diverte-te!
r: É mesmo! Obrigada :)
ResponderEliminarQue bom!
ResponderEliminar(A parte de ires viajar)
E sim... Os filmes são das poucas coisas boas de uma viagem longa...
É o whiskey.... Pois depende da companhia em que viajas!
Depois queremos (quero cá) as aventuras desta viagem!
Ai agora as emirates da vida têm bar aberto para os pobres da classe economica...bons moços, sabem o que se sofre!
EliminarQuando chegar conto as aventuras =D
O avião ainda não levantou voo e eu já fiz uma listinha mental com os filmes que quero ver e lá me vou entretendo, lutando com o sono se a viagem for de noite, durante o percurso. Como não há pipocas, vou acompanhando o filme com um vinhozito simpático. Da última vez que voei na Emirates atirei-me aos gins e o meu primeiro dia de férias foi feito em modo cabeça em combustão. Boa viagem! Ficamos à espera do relato!
ResponderEliminarSó há pouco me apercebi que aterrou no bth, o qual, aliás, tem estado pouco movimentado e não fora uns low costs de ocasião, certamente que tinha encerrado os hangares.
ResponderEliminarJá são muitas horas de voo acumuladas e sinto um profundo cansaço. Não obstante, creio que ainda não é desta ponho ponto final, pelo que, de vez em quando vai sair um short and sharp.
Gostei de a ler e manter-me-ei atento a próximas escalas, a fim de poder retribuir.
Como parece que vai ser o caso, desejo~lhe boas viagens.
Felizmente tive sempre MUITA sorte nas viagens de avião que fiz. O facto de ter viajado quase sempre em trabalho e, por isso, em classes mais caras também ajudou. ahah
ResponderEliminarHave fun! :)
ResponderEliminarNada,
ResponderEliminarNão sei porquê, algumas vezes (poucas, felizmente) sou um alvo das mais inusitadas pessoas. Delas, bem sabemos, podem vir as mais disruptivas palavras e acções. O resto não merece que fique para sempre guardado. ;)
Boa viagem, com direito aos clichés turísticos. E regressa com excesso de bagagem no que respeita a histórias para contar. :)
Ahahahaha o que eu me ri com este relato! Adorei principalmente o fim com a frase "sufocando a minha vontade de viver", genial!
ResponderEliminarSou assistente de bordo por isso também vejo tudo isto e muito mais [oh, muito muito mais...] a acontecer em direto. Não deixa de ser maravilhoso ler os relatos 'na ótica do utilizador' ;) boas férias!
Porque já viajei tanto e viajo tanto durante o ano... se tiver uma viagem de avião de mais de 4/5 horas já estou a desesperar lol
ResponderEliminarBeijinhos,
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