domingo, 5 de março de 2017

Cultura de Merda

“De Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, entoou a minha avó sussurrando, como apelo ao meu bom senso ao despedir-se de mim faz quase três anos, quando embarquei a bordo do voo que me trouxe para a terra dos caramelos baratos. Ri-me, trocista, como se isso alguma vez fosse suceder. Eu, moi-même, a sucumbir aos encantos de um ser aciganado, vendedor de caramelos, carregado de brilhantina no cabelo, sentado num carro a diesel barato e com uma mãe dançarina de flamenco, carregada de maquilhagem e uma flor do tamanho de um repolho na cabeça (se me faltou algum estereótipo peço desculpa, esforçar-me-ei mais para a próxima).

Arranjei então um namorado catalão. O que faz dele o pão de passas do território espanhol, não é bom para besuntar na molhanga de um bife, mas também não serve de sobremesa, é o “chove não molha” da metáfora padeira.

Há todo um processo de aprendizagem de ambas as partes para uma relação multicultural saudável. Eu ensino-o a comer pão com manteiga. Porque esborrachar um tomate no pão besuntado com azeite não conta como torradas, e caso eu esteja doente e alguém me apareça com pão com tomate na cama, vai passar a haver uma doente e um morto. Ensino-o que perante uma descomunal bebedeira se come caldo verde e pão com chouriço, não churros com chocolate, a menos que o objectivo seja regurgitar e, consequentemente, perder todo o investimento monetário implícito na compra de álcool. Faço palestras a ele e aos seus familiares em como não há um monopólio do negócio de toalhas em Portugal e constato que as mulheres portuguesas não têm todas bigodes (ter temos, mas vá…). Entre outros debates, como o domínio do bacalhau em território nacional.

Ele, por outro lado, ensina-me toda a sua cultura de merda. Não. Não estou a ofender a sua cultura, estou a constatar factos. Tudo começa com o seu Zé Povinho, que é uma personagem a arrear uma poia perfeita, intitula-se Caganer. Por toda Barcelona podem comprar desde uma Hello Kitty, ao Obama a defecar. Continuamos, pois, com uma das suas figuras natalícias presente, sem excepção, baixo a árvore de natal, é um Caga Tio. Resumidamente, é um pau com olhos e chapéu, ao qual se dá com outro pau (sem olhos) e se espera que o tronco cague chocolates para os petizes, ora coisa mais apetitosa nunca se viu. Aparte de tradições onde literalmente está presente a figura de uma poia, têm o equivalente ao nosso São Martinho, onde as crianças saltam a fogueira com as castanhas enquanto entoam musicas alegres. Eles têm um dia ao ano em que se vestem de doentes mentais, criam uma figura gigante de um louco e lhe ateiam fogo com gasolina. Só pensamentos positivos esta gente!

Gosto de imaginar que ensinamos às nossas crianças bons costumes, mas tenho que dar o braço a torcer que se me tivessem ensinado que se andasse à paulada recebia doces, que defecar é considerado arte e que caso me depare com alguém louco lhe posso atear fogo e resolver o problema, o meu trajecto de vida tinha sido consideravelmente mais fácil.

23 comentários:

  1. É uma aprendizagem de parte a parte ;) ahahah

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  2. Estás a ser, como direi?, um pouco parcial... Eles também o St. Jordi, quando oferecem livros e rosas, não é?
    Assim de repente, faltou-me a referência ao gel de banho não-sei-quê-puig que se comprava sempre a par dos caramelos e para não parecer que estou concentrada no passado, e o grupo inditex e afins?

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    1. Vaaaa Calíope...tens razão que o S Jordi é fofinho...tambem gosto dos castellers e dos corre fox (va confesso que amo Barcelona). Mas há tradições brilhantes que têm que ser mencionadas...e que tiveram que me ser explicadas com detalhe porque as minhas gargalhadas não deixavam compreender até ao fim xD

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    2. ...e há a siesta....
      (digo eu que volta e meia fecho a porta do consultório e serro o olho por 10 minutinhos...)

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  3. Olha não temos bigode não é bem assim... havia de ver a minha penugem há 3 dias atrás loool
    Com que então sucumbiste ao charme de nuestros hermanos aguardamos ansiosamente mais detalhes (especialmente os badalhocos) dessa relação multicultural ehehehhe. Mas olha parece-me bem um churro com chocolate depois de uma bezana... o chocolate cai bem em qualquer ocasião.

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    1. O bigode é psicologico cara Nonas!
      Um destes dias faço um post da parte badalhoca não te preocupes xD. Quanto aos churros...não me convencem!

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  4. r: Não tens que agradecer. Eu depois mando a conta pelo correio :p

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  5. Ahahahah
    .....Bigodes.....
    Ahahajahah

    É a tua avó já sabe?!?!

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    1. Sabe...gosta mais dele do que de mim!

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    2. :)
      As avozes são todas iguais...
      Mesmo sem loiça de folha de couve!!!

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    3. É verdade Boop...é bem verdade!

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    4. De certeza que ele foi dizer à tua avó que não é espanhol, limpando a boca de seguida por ter pronunciado essa palavra (que é catalão) e ela foi na conversa! :D

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    5. A avó já não tem a memoria de antes...deve pensar que é de algum povo estranho com sotaque manhoso xD

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  6. Hahaha.. olha, eu achei meio surreal essa história do Caganer a primeira vez que a ouvi haha. Mas não sabia que além dele os catalães eram tão fixados assim em caganeira hahaha.. Irei ver com meus olhos em breve :)

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  7. :D Que saudades desta escrita ♥ e viva a interculturalização :D

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    1. Saudades tuaaaas!! O teu blog agora não deixa comentat não te consigo chatear 😜

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  8. Como não gosto dos catalães, abstenho-me de comentar. Era só para dizer que curti ver um link para aqui num blog de bola. Era só. Boa tarde.

    ps; mas o texto é catita. :)

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  9. Nada,
    As tuas dissertações nunca carecem de objectos (animados ou inanimados) que nos prendem a atenção. Depois, as peripécias que com eles partilhas, fazem o resto.
    Que nunca percam a vossa dose de doutrina quotidiana.
    E, não minto, já aprendi algumas coisas com este texto. ;)

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  10. Hahaha Parece que vivemos mesmo aqui ao lado, mas culturalmente somos mesmo muito diferentes.

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  11. Adorei!
    Sempre achei que muitas das soluções da vida passavam por atear fogo a algumas pessoas... afinal não andei enganada, só no país errado! :)

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