sábado, 25 de fevereiro de 2017

O Bibelô da Humanidade

Avó que se prese tem o conjunto completo de louça de folha de couve, a fazer pandã com bibelôs duvidosos a ganhar pó nas estantes mais altas da sala de jantar. Se isto é um facto por si só, não deveria ser de espantar que as pirâmides de Gizé, sendo um marco histórico inigualável, tão válido como a travessa feia da avó, estejam cheias de pó.

Fui ao Egipto no ano passado, numa data muito bem escalonada entre atentados, desvios de aviões da Egiptair e rebeliões que explodiam monumentos históricos como bombinhas de mau cheiro.  Foi a minha primeira viagem com guia, pois não havia outra maneira de circular no país nesse período. Estou acostumada a fazer o que me apetece e guiar-me pelo meu instinto, porém, o meu instinto dizia para arrojar uma cadeira à cara do guia. Era a criatura mais racista, machista e outros -istas que podem imaginar, mas felizmente não é representação de todos os egípcios pois conhecemos alguns incríveis, nomeadamente o jovem que trabalhava na Pizza Hut do Cairo.

A primeira percepção do Cairo é: “Vou morrer aqui”. Um pó que cerra o céu num tom amarelado, ruído ensurdecedor (a buzina dos carros é utilizada como chamada de atenção, pisca, saudação e actividade didáctica), discussões violentas em plena “estrada” (caminho e sentido direccional determinado pela primeira pessoa a conduzir nesse dia), lixo acumulado por entre os quais crianças jogam e, tudo isto, entre tanques de guerra carregados de metralhadoras e homens com bazucas nos telhados de prédios familiares. Não aconselho o Cairo como destino a ninguém por mais de um dia. Meramente o suficiente para desfrutar das pirâmides que sem duvida que valem a pena ver e um par de outros sítios curiosos.

O Egipto começa a interessar com o descer do Nilo em cruzeiro, cidades magnificas cheias de história e monumentos de dimensões inumanas. Os primeiros dias são de incontrolável espanto e encanto, mas após 5 dias de calor capaz de cozinhar uma lasanha ao sol e trinta e três templos o teu cérebro dá mensagem de erro e só vês estática. São calhaus a monte a um certo ponto e tentas ser agradecida pela oportunidade de estar ali e vivenciar historia, mas na realidade estás a fazer fotos aos hieróglifos que parecem aliens para provar aos teus amigos que aquilo foi obra extraterrestre. Aparte, sendo mulher, a única opção é entrar nos templos tapadita, mas com os 50 graus celsius à sombra, entre morrer de combustão espontânea por ter ofendido um Deus com o vislumbre da minha jugular ou morrer cozida lentamente debaixo de roupa, volta e meia salta o herege em nós e que venha o Deus!

Abu Simbel era o sitio que eu mais queria visitar, a sua história fascinava-me. Porém, o fascínio morre um pouco com a viagem de 6h de carro entre o absoluto deserto às 4 da manhã, como se de um intento de fugir do país se tratasse, com mais 50 carros, pois por dia a entrada é limitada. Quando chegas tudo vale a pena! Até que cais em ti e te recordas que terás que voltar para trás outras 6 horas, depois de uma mera hora aí.

Voltamos para o Cairo para encerrar esta viagem, agora que odiamos pó, os cristãos por terem arruinado tantos templos e o ser vivo em geral por profanar tantas peças únicas com os seus nomes forçados em pedra com uma bic, e na nossa ultima noite vemos o espectáculo de luz e som das pirâmides. O designado, “melhor espectáculo do Cairo” foi o equivalente a ter três fulanos a correr aos gritos, com lanternas apontadas às pirâmides e outros dois a fazerem com as mãos sombras de coelhinhos. A cereja no topo do bolo.

A viagem ao Egipto valeu a pena e foi uma experiência muito interessante, mas não a faria uma segunda vez sem um motivo plausível. Basicamente, se a entrega do Nobel da Paz fosse no Egipto e eu o ganhasse, pedia que mo mandassem por Fedex.
[Para quem queira ir ao Egipto e saber detalhes mais práticos podem enviar um email que tenho todo o gosto em ajudar e ser menos idiota]

18 comentários:

  1. Recordações, pelo menos, não te vão faltar :)
    Por um lado, adorava ir lá, por outro, não sei bem

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O melhor é ires e veres com os teus olhos...negativo nunca é, haverá memórias e isso ninguém te tira =)

      Eliminar
  2. Ahahahah
    Gosto da tua forma de narrar!
    O Mr Boop fez escala (1dia) no Egipto no ano passado (ou no outro, já não sei...) e falou exactamente desse esvaziar de gentes por causa das armas...
    É mais uma vez se confirma.
    Quando desejamos, aproveitamos muito mais! (Até são válidas as 6h de carro)
    Eu... Fico sempre encantada com o deserto! (Mas na verdade não o vivo com 50°! Com 46° talvez....)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. *vivi - que já lá vão uns anos!
      E viva os moços da pizza hut!

      Eliminar
  3. Eu imagino como não teria sido o Egipto nos tempos áureos. Já inventavam as viagens no tempo para irmos lá espreitar.

    Mas realmente agora do que li a viagem não foi nada boa mas pronto, valeu-te pelas memórias e as fotos que tiraste.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nonas devia ser incrivel!!! E ainda o é mas de uma maneira muito diferente, passa muito pelo amor pela história e por imaginares as piramides e os templos e tudo mais quando havia um imperio magnifico à sua volta.

      Viajar é SEMPRE bom!! Podes não fazer questão de voltar a um sitio porque uma dose te chega, mas viajar é abrir os olhos, aprender de outras culturas e alargar horizontes, nunca se devia dizer que não a uma viagem, longe ou perto =)

      Eliminar
  4. E bolas!!!!
    Não tive uma avó dessas!!!
    😂😂😂

    ResponderEliminar
  5. Não conheço o norte de África (com a excepção de Marrocos) com grande pena minha. Nos tempos que correm tenho muitos mixed feelings em relação a essas paragens, por um lado um fascínio completo pela cultura árabe, pela imensidão do deserto, até pelos muezins a chamar para a oração mas por outro o pavor de fazer pontaria inconsciente para um momento de bombas/guerras/raptos e sei lá deus mais o quê. Pelo relato, deve ter sido uma viagem e tanto (e são dessas peripécias de que te vais lembrar e não do carro com A/C, caso tenha havido um), se mudar de ideias e afogar os meus medos, pedir-te-ei dicas!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tens que ir Calíope...se te fascina o deserto não podes perder!! É um pedaço importante de história!

      Eliminar
  6. Mais uma vez uma descrição deliciosa, agora até fiquei com mais vontade de ir.....mas tenho a certeza que me ia portar mal e nesta altura do campeonato não me parece bem ficar presa por ter feito um guia engolir o proprio carro....

    ResponderEliminar
  7. Estivemos lá em 2009, ainda no tempo do Mubarak, ou seja, não havia tanques, mas todos os guardas tinham uma ak47. Essa sensação de "vou morrer aqui" também a tivemos. No Cairo, no meio do trânsito (muitas vezes pensei que era ali que havia uma colisão daquelas e iamos todos, os que estávamos na minivan) e quando tivemos a ideia genial de nos enfiarmos por ruas estreitas no mercado (pá, lojistas mais assustadores ever); em Assuão, a atravessar estradas com duas vias para cada lado. Em Hurgada, onde apanhei uma rica camadona de salmonela (e se tinha cuidado com o que comia e bebia). E, em geral, em todo o lado, porque os guardas armados de metralhadora tinham um ar incompetente à brava, e de quem era capaz de disparar por acaso ou distracção.

    De qualquer forma, adorei, e voltava. Foi a minha viagem de sonho, e mais calhaus houvesse e mais visitava.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Toda a gente devia fazer esta viagem ao menos uma vez na vida. Com ou sem tanques, com ou sem momentos de pânico, é essencial e faz-nos sentir pequeninos, grandes e agradecidos.
      Fico feliz que tenhas gostado da tua experiência =)

      Eliminar
  8. É pá, é muito fixe ler-te. Para além de rir, sinto-me mais feliz.
    Passo a explicar. Adoro viajar. Adoro mesmo. Há quem seja feliz a comprar malas LV e sapatos Louboutin. Eu é a descobrir terras. E já não faço uma viagem à séria desde que estive grávida da Bolachita. (quatro anitos, coisa pouca)
    Depois, leio isto e sinto que sou uma sortuda por ficar em casa, estatelada no sofá.

    ;D

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não sejas ruim...viajar faz bem nem que seja aos niveis de adrenalina. Eu em breve vou escrever de sitios onde fui que foram tão perfeitos que não dá nem para refilar =P. Va que a Bolachita ja tem idade para passear...toca a viajar!!!

      Eliminar
  9. Nada,
    Dos teus relatos, já sou um fã assumido. Vale a pena ler-te, atentar nas tuas opções linguísticas e nas perspectivas tão mais interessantes. De outra pessoa, a mesma viagem teria outra intenção. Gostei, por incrível que pareça, da tua experiência.
    E a minha avó, claro, não nega a sua posição. Tenho ideia de já ter vislumbrado por lá uma ou outra peça da espécie.

    ResponderEliminar
  10. Estive 6 dias no Cairo em trabalho e foi uma loucura. É senhora da confusão.

    ResponderEliminar
  11. Pela tua descrição parece um destino de sonho, vou só calçar-me e sigo já para o aeroporto. Not.

    ResponderEliminar