sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Tripas a la pot pourri

Há três tipos de pessoas no mundo: as que compram livros que vêm em saquinhos que cheiram a pot pourri e oferecem saquetas de chá; as que apenas compram o livro se na primeira página houver indícios que alguém morreu ou está para morrer de maneira macabra; e as pessoas normais. Não que não seja apreciadora de chá, mas capas de gente quase a beijar-se à chuva fazem-me levantar questões sobre o mercado dos guarda chuvas e de pastas dentífricas. Como ser normal não é uma opção, enquadro-me orgulhosamente na segunda categoria. Caso, tal como eu, sejam “deste tipo de gente” e isso levante dúvidas e exaltações perante a sociedade que vos rodeia, criem uma história da vossa infância, alternativa e traumática, onde os vossos pais usavam donuts como pega-monstros e a vossa testa como parede. Automaticamente, torna-se perfeitamente aceitável gostar de sangue a jorrar pelas paredes.

Livros românticos são a vertente silenciosa e mais higiénica de ter 40 gatos, livros de fantasia são a antevisão de um futuro com problemas de coluna (nem Jesus Cristo precisou de tantos livros do tamanho das páginas amarelas para contar a história da sua vida), livros de auto ajuda ajudam o bolso de quem os escreveu e ensinam elementos fundamentais da vida como “não se esqueçam de respirar”, livros cómicos são a constatação que somos intelectualmente limitados e não percebemos a piada ou o autor não tem efectivamente piada e os livros do tipo policial são uma maneira subtil de planear a eventualidade da nossa entidade patronal nos irritar e ser necessário tomar medidas que envolvam um saco do lixo e um rio. Todo o tipo de livros se adequa a um tipo de pessoa e altura da nossa vida, mas é impossível não fazer uma leitura mental de alguém através do que está na sua mesinha de cabeceira. Se o seu amigo tem o Hannibal ao lado de livros de culinária, se calhar é melhor não pernoitar nessa casa, por outro lado se a sua namorada tiver acabado de ler toda a colecção do “Íamo-nos beijando mas eu gosto é de te sentir a arfar” e agora está a ler o ultimo livro sobre serial killers de um autor Sueco, ela não só vai terminar a relação, como viu as mensagens da Maria Tatiana e o teu corpo vai desaparecer misteriosamente.

Hoje em dia, com tantas séries e filmes, por vezes as pessoas esquecem-se de se perder num bom livro. O cheiro de páginas nunca antes esfolheadas e a sensação de sermos o actor e realizador daquele filme. Os livros são bons professores, companheiros e bases para copo. Eu sou das que aprecia mentes perturbadas e longos passeios à beira mar. Falta saber o que está na tua cabeceira ao adormecer.

[Escrito para o número 2 da Revista Digital do blog Flames]

11 comentários:

  1. Na minha mesa de cabeceira não estão livros horripilantes, nem os das bolsinhas todas ramelosas. Estão normalmente livros cujos autores ficam para a história. Livros que contem eles próprios um pouco de um tempo qualquer. :)

    ResponderEliminar
  2. Já aprendi alguns truques com policiais :P

    ResponderEliminar
  3. Não sou muito esquisita no que toca a estilos literários, tão depressa estou a ler um romance como o seguinte já é um policial. Tenho é que me sentir presa à história. Adoro receber e comprar livros, não dispenso a sensação de pegar neles e desfolhá-los, de os ver marcados com setinhas coloridas para voltar a reler as passagens que mais me chamaram à atenção.

    ResponderEliminar
  4. Eu não te posso dizer qual o livro que está na minha cabeceira porque não tenho cabeceira, leia-se mesa de...
    Mas posso revelar-te que a pilha de livros por ler é de tal maneira alta, que se me cair em cima nem sequer acabo o que tenho em mãos, porque vou desta para melhor com uma lombada...
    Boas leituras. :)

    ResponderEliminar
  5. O prazer de um livro não se compara a nenhum outro! Não será melhor nem pior que outros prazeres, mas é único!
    Os livros que leio contam histórias de pessoas. O lado de dentro da história. não o exibicionismo do sexo, dos choros, dos sensionalismos, ou das histórias fáceis. São retratos da idiossincrasia. do único em cada um.
    Gosto de ler!

    ResponderEliminar
  6. Tenho o Philip Roth com a "Pastoral Americana".
    Um estrondo.

    ResponderEliminar
  7. Sinto-me envergonhada pois ja não pego num livro há algum tempo. Curiosamente compro-os e vou guardando para começar a ler...
    Ahhh... adoro policiais e fantástico.
    Lol....

    ResponderEliminar
  8. Tão bom! Excelente perspectiva de um tema que, não sendo super atractivo, se torna num bom momento de leitura. Quase que me contradigo.
    Eu sou um fã assumido de literatura. Sempre que me é possível, não deixo de ler. Como realças e tão bem, o cheiro de um livro não tem comparação. Embora, nem toda a gente entenda.
    Hoje, devo dizer, não deixo livros na cabeceira. Por certo, manias de um intolerável da confusão de títulos. Tempos houve, em que deixava sobre uma cadeira reinventada. No meio de tudo isto, sem que tivesse pensado, devo, certamente, encaixar num desses três tipos. Trabalhos duplicados. Devo ter de criar uma estória.

    Um óptimo 2015! Tanto ou mais pertinente e sarcástico.

    ResponderEliminar
  9. Muito bom!! Eu tenho que ler mais, muito mais. Tenho essa vontade e estou a cumpri-la. Para ver uma série ou um filme já não é preciso gastar tanto dinheiro e tempo como antes!... torna-se mais fácil... e esta é também uma desculpa fácil!.. so, no more excuses!

    ResponderEliminar