quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Saudade

“Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi”

Eu sei que está estabelecido na constituição da república portuguesa que um indivíduo depois de registado em território nacional tem que se tornar alguém emocionalmente perturbado e que defina na perfeição a palavra “saudade”. Eu fui registada na margem sul e isso pode ter acarretado alguma interferência no processo. Fiz as malas e entre abraços e chamadas de atenção em relação aos homens espanhóis e ao pé de atleta em balneários, ninguém me explicou qual seria a altura certa para começar a ter saudades.

Haverá um momento em que ouvir fado abraçada a uma estátua de plástico luminoso de Fátima e fazer um altar a um pastel de nata será, certamente, apropriado, um momento em que vou sentir saudades de ouvir músicas de natal pelas ruas de Lisboa a partir de Setembro e atirarei a minha dignidade pela janela ao anunciar que o meu sonho de imigrante é dormir em conchinha com o Cristiano Ronaldo. Eu não gosto de surpresas. Da mesma maneira que não gostaria de ter um ataque de gazes a meio de uma entrevista de trabalho, também não gosto da ideia de ser atingida pelo conceito de saudade quando estiver num momento de loucura íntima com um exemplar espanhol. Transitando, fugazmente, de um encontro romântico a um momento de terapia em que estarei enrolada em mantas com rímel e baba a escorrer queixo abaixo e o Juan Carlos a tentar sair pela janela sem partir o pescoço.

Sou uma mulher adulta e independente! Que pode comer empadas em lágrimas, encostada a um recanto da sua casa, abraçada à última fatia de pão alentejano que enfiei na mala quando sai do país. Mas, o busílis da questão é que ninguém tem que saber. Tirando o meu vizinho, que as paredes são falsas.

Se revelamos demasiado cedo que existe saudade, é um par de horas para que a nossa mãe nos apareça à porta de pantufas para nos levar de volta para o nosso país…ao colo. Se não nos expressamos a tempo, as probabilidades passam por nos rotularem de insensíveis e adoptarem um labrador para colmatar a nossa ausência.

O meu nível de comunicação actual parece estar a manter o padrão necessário para que não mudem a fechadura de casa sem me avisar. Para os interessados no ritual, passa por proclamar palavras aleatórias, mescladas com sons imperceptíveis, que passam rapidamente da temática emocional à física quântica. Podem declarar-vos doentes mentais, mas não duvidarão do vosso amor.

25 comentários:

  1. Respostas
    1. Oh sô dotor...trate lá de tirar esses comentários só para Google + no seu blog senão aqui a individua não se safa a comentar. Cordiais abracinhos!

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    2. Isso é para mim? Sou eu o doutor?

      Isso acontece mesmo? Eu sabia que não devia ter posto aquela treta (mas agora, se tirar, apaga os comentários todos).

      Quer comentar muito, a doutora? É assim muita coisa?

      Vou ver se chamo um técnico, aguarde um momento.

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    3. Verdade seja dita eu sou uma baldas que só consegue meter o rabo na blogosfera volta e meia...mas pah...sou boa samaritana e deve haver mais gente como eu que não vai à bola com essa coisa do google coiso. Não apagues nada deixa la...só não penses é que tenho falta de chá por nunca dizer nada...mando-te uma carta para a próxima xD

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    4. Na volta do correio, então, espero por qualquer coisa assim:

      Querida mãe, querido pai. Então que tal?
      Nós andamos do jeito que Deus quer
      Entre dias que passam menos mal
      Lá vem um que nos dá mais que fazer

      Mas falemos de coisas bem melhores
      A Laurinda faz vestidos por medida
      O rapaz estuda nos computadores
      Dizem que é um emprego com saída

      Cá chegou direitinha a encomenda
      Pelo 'expresso' que parou na Piedade
      Pão de trigo e linguiça pra merenda
      Sempre dá para enganar a saudade

      Espero que não demorem a mandar
      Novidade na volta do correio
      A ribeira corre bem ou vai secar?
      Como estão as oliveiras de 'candeio'?

      Já não tenho mais assunto pra escrever
      Cumprimentos ao nosso pessoal
      Um abraço deste que tanto vos quer
      Sou capaz de ir aí pelo Natal


      :)

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  2. Trata de te aguentar à bronca, não faças figuras :-)

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  3. As saudades são uma "doença" tramada que nos afeta com grande força.

    r: Concordo contigo! E acredita que, mesmo não te tendo colocado naquela lista, fazes parte das pessoas que também gostava de conhecer

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  4. Não ouço música portuguesa em geral porque me causa essa cena de saudades indizíveis que comicham a alma e sao inexplicaveis para o resto do mundo. Quanto a pasteis de nata há casas delas aqui... (uma tentacao horrivel a 10min to trabalho) e na semana passada fui regalar-me Com uma alheira e grelos. :)

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  5. Olha, todas as famílias têm o que deu com a cabeça no balde ao nascer. Mas, lá está, desde que seja um maluco bom, ninguém se importa demasiado.
    Quanto às saudades, espanta-as como puderes. Isso afunda uma pessoa.

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  6. Livra-te de arranjares um espanhol para dormires de conchinha, senão nem a tua mãe de pantufas à porta te traz de volta a casa! :)))

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  7. já tinha saudades destes "escritos" com fado e Fátima à mistura; relação perfeita para definir o conceituo que é exclusivo aqui deste quintal ao lado, junto ao Atlântico. Nós é que percebemos disso!

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  8. A saudade do pão alentejano já ninguém te tira :)

    Força por ai.

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  9. :D Tu aguenta-te! isto por cá não está para amar :D

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  10. Ok para que conste vou mudar a fechadura.........amei

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  11. Eu estive 4 anos a viver noutra cidade e já sentia saudade...



    www.tarasemanias.pt

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  12. Minha Lusa emigrante em terras da catalunha
    Deixa que de ti o arrependimento se apodere
    Qual melancólica e humilde testemunha
    E que o teu peito clame alto e de verdade
    Que tudo o que sentes não é para ter vergonha
    Pois que é um sofrido sentimento, a saudade!

    Grita, esperneia e quase sufocada implora
    Pois que nada é mais forte e presente na saudade
    de uma alma lusitana apelidada de Nada .
    Se não puderes vir a Portugal, de verdade
    Neste Natal de recordações, pois que emigrada,
    Que a família parta em grande velocidade
    Para te levar o bacalhau, o bolo rei e a rabanada!

    Ai essas saudades...Beijinho Nada***

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    1. Nossa tanta inspiração Maria!!!^^*
      Beijinhooooo e obrigado

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    2. Apenas tento imaginar o que será a saudade que sentes, porque nunca a senti.
      Beijinho

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    3. Obrigado...mesmo =)!! Por vezes faz bem, mas espero que não a tenhas que vir a sentir*

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  13. Diz quem sabe, que as saudades são um terreno pernicioso. Conta com os desejos de regresso antecipado. Ou com o título de louca desavinda. Continuação de boa estada, mesmo com todo o desenrolar de saudades desviantes e pessoas ansiosas :)

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  14. eu gosto do «lado quente da saudade»

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  15. a saudade só nos faz bem... faz-nos crescer.

    bj doce

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  16. Pois deve de haver um espacinho para a saudade, que também tem direito a existir. Mas há tantas outras coisas também!!!! Tudo com conta, peso e medida! Digo eu.....
    :)

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  17. Um sentimento que têm muito que se lhe diga.

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  18. De onde se prova que é possível ser-se sarcástica com a saudade. Mas cuidado, que "a presença da ausência", pode virar nostalgia e a nostalgia é a mãe de todas as saudades e não costuma chegar de pantufas.

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