terça-feira, 4 de novembro de 2014

Quando eu era pequenino...

A falta de posição dos portugueses para com as incongruências ultrajantes da nossa sociedade, estão lentamente a condenar as gerações futuras a um piercing encima do lábio superior, um eterno fio de manga preso no canino de maneira a que o sorvam constantemente em público e a indumentária digna de um habitante da Musgueira. O decréscimo de músicas infantis de qualidade irá levar as crianças de hoje a partir para a vida com a sabedoria de um alho-porro.

Os Quinta do Bill em tempos escreveram sobre uma criança que ainda mal abria os olhos e já tinha o amor da sua vida fisgado. Eram bons tempos, em que a vida se determinava cedo, já se nascia com conta no Totta e dívidas ao barbeiro. A música faz parte da nossa aprendizagem e o que ouvimos enquanto meros petizes, influencia as pessoas em que nos tornamos.

As músicas da minha geração vinham repletas de lições de vida boémia, sadismo e morte. Escusado será dizer que hoje sou uma adulta algo perturbada, mas perfeitamente preparada para um apocalipse zombie ou jantar na casa dos sogros. O Avô Cantigas cantava sobre o Fungágá da Bicharada e como Doidas Andam as Galinhas, dois retratos perfeitos da noite Portuguesa, os bacanais dignos de animais em que “…outros mais também virão…” e os desfiles de “galinhas” que, doidas, tentam ter sorte em mais uma noite pelo Cais do Sodré. Os títulos do Avô Cantigas eram tão específicos que as músicas não requeriam uma grande componente poética, substituindo quadras eloquentes por um frenético LáláLáláLá. E não nos podemos esquecer dos jogos cantados, em que se debatia a temática de uma justiça inexistente e de falta de higiene pública “…as cuecas do Juiz, Dominó, embrulhadas em jornal. Dominó. Esta rua cheira a sangue, foi alguém que se matou…” (neste caso também pode ter sido só alguém mórbido sob o efeito de LSD que escreveu isto e pegou moda, mas gosto de acreditar na critica social).

A vida foi-nos entregue numa bandeja de prata, em que sabíamos que atirar paus a gatos e beijar indivíduos moribundos no meio de florestas eram práticas aceites pela sociedade, desde que não assustássemos idosos ou aceitássemos alimentos nutritivos de desconhecidos. Bons tempos! Em que cantava baladas mórbidas, de sorriso nos lábios, em campos verdejantes, sem ter a mínima noção do que dizia, porque estava demasiado ocupada a aprender as coreografias.

Nos dias que correm, as crianças apenas usufruem dos conhecimentos provenientes das quadras do equivalente ao Pedro Abrunhosa infantil: o Panda. Uma criatura que ganhou o respeito nacional, mas que só balbucia ideias aleatórias e sem conteúdo. A menos que pretendam armar as crianças com bananas e laranjas para ultrapassar os obstáculos da vida, saber descrever os itens da fruteira pouco lhes vai ser útil. São músicas que nem visam a uma alimentação saudável. Eu sei a música do MacDonalds e não é por isso que comprei uma propriedade em frente ao estabelecimento, o facto de saberem que a banana está na fruteira só implica que a deixem lá para não arruinar o conceito musical. Não houvesse as figuras da Disney a dar um cheirinho de realidade, com a Violetta e a Miley Cyrus a representar, com excelência, o antes e depois do consumo de drogas pesadas, e estava esta nação condenada. A Miley Cyrus é o exemplo perfeito de uma criança que só ouvia músicas sobre bananas, agora é vê-la a esfregar-se em paredes como um urso pardo com candidíase.

Podemos mesmo culpar as crianças de hoje por chumbarem, se vestirem como matrafonas de 40 anos e ouvirem música americana sobre o movimento ondulatório dos glúteos? Vamos voltar aos bons velhos tempos de música sobre vida boémia, violência gratuita e necrofilia acompanhado por alegres coreografias e lálálás. Está na hora de tomar uma posição e salvar esta geração. Vá…ide já ter com os vossos petizes e atirem-lhe com um pau à testa.
 

25 comentários:

  1. fizeste me lembrar dos jogos acompanhados com musicas cada uma mais parva, como a do dominó.. e havia aquela do biquini novo onde já aprendíamos que devíamos de piscar o olho aos rapazes giros e se tirassemos o biquini eles até desmaiavam.. penso não estar a confundir musicas :P

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  2. Agora puseste-me aqui a pensar nas letras das músicas que ouvia quando eu era miúda (credo, isto dito desta forma parece tão longínquo esse tempo....) Descreveste-as tão bem, que me apercebi do quão estou 'velha e gasta' que não entendi metade do post, quando descrevias as músicas dos miúdos de agora. Rapidamente alcancei a ideia quando falaste em violetas e mileys, que de qualquer forma prefiro manter-me na ignorância lírica em relação a esses temas :)))

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  3. Que saudades dos tempos em que a única preocupação era mesmo saber as músicas dos jogos e as coreografias, completamente inocentes, sem perceber o significado do que estávamos a dizer e o quanto determinada expressão podia ter um significado completamente diferente noutro contexto.
    Essa inocência está a perder-se.

    r: Não é de regresso nem presencial, mas mando-te um abraço bem apertadinho!

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  4. No meu tempo, a bonecada retratava muitos órfãos e mães desaparecidas por dá cá aquela palha. Que tortura!

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  5. Por isso adoro que na escola dos meus petizes se explore (como deve de ser) o cancioneiro português!
    Sim... Depois em casa tb ouvem a violeta..... Me-do!!!!!!

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  6. Ai pá, esta agora vai ser de Velho do Restelo, mas a internet é que é a culpada disso tudo. Muita coisa, muito fácil, muito depressa, muito lixo.

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  7. Daqui a uns anitos, vou começar a preparar o meu regresso musical à infância, a segunda, mas serei muito criterioso na selecção.
    Nada de Avô Cantigas em versões menores das cantigas de maravilhar de José Barata Moura.
    É óbvio que vou recuperar os originais e vai ser giro ouvir cantar o "João come a papa" e o "Olha a bola João". Nessa altura já não darei pela "mudança" das letras, mesmo que me ponham no lugar do Macaco Zacarias, do Compadre Chimpanzé, do Tobias e do Chiquinho Capilé.
    Ah! E também o saudoso vinil dos "Os Operários do Natal".
    Boas pedaladas.

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  8. "urso pardo com candidíase"........................... nunca em dias da minha vida tinha feito uma comparação destas. Obrigada por este momento nada gráfico.

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  9. Muito bem atirado esse pau....e se tiveres um mais pesado eu vou ajudar-te a "azungar-lho" às mioleiras dos "põe a mão na cabecinha, agora na cinturinha, mais abaixo na perninha, vai a cima vai a baixo"...
    Bem, é o que temos! Na realidade, aolescentei-me,maiorizei-me e amadureci-me no início da proliferação das drogas ( o alcool já dava de comer a um milhão de portugueses na opinião de Salazar), falar das músicas de então levaria a dizer que:
    Eagles: Hotel Califórnia / New Kid in Town
    Bob Marley: Buffalo Soldier
    Doors: LA Woman
    Supertramp: Better days
    Eric Clapton: Pretty Girl
    Dire Straits: Tunel of love / Sultans of Swing
    Barclay James Harvest: Rebel Women e a inesquecivel Victims of Circunstance.

    Aprendi muito por mim, mais do que os meus próprios pais me puderam dar, sem pauladas na testa, hoje já posso falar dos meus filhos adultos que seguem as minhas pisadas e me deixam feliz.
    Desculpa este desabafo de nada na tua crónica Nada, sabe bem falar de infância mas lamento estar a assistir ao aumento da decadência de que falas...será que no final a culpa também é minha?

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    1. Depois dessa escolha musical ilustrada não acho que a culpa também seja tua. E obrigado pelo teu "desabafo", sabe bem ler =). A vida ensina-nos acima de tudo...e conseguimos ver bem aquilo em que nos tornamos...mas poder ver o mesmo nos filhos...é sem duvida motivo de orgulho =)
      Beijo*

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  10. Como recuei uns valentes anos ao ler este Post, Parabéns, adorei


    www.tarasemanias.pt

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  11. Ahahahaha...e não é que tens razão? :)
    “…as cuecas do Juiz, Dominó, embrulhadas em jornal. Dominó. Esta rua cheira a sangue, foi alguém que se matou…” Lembro-me tão bem disto. :) :)
    beijinho

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  12. Ri-me bastante, obrigada!! principalmente com a imagem do urso com candidíase..
    Eu acredito que ainda há esperança, tem de haver uma excepção que confirme a regra e... vamos acreditar na excepção. Acho que pertenço ao grupo desse "mundo perdido" e acredito pertencer à excepção :)

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  13. Aprecio um discurso tão mordaz quanto o teu. A inércia de um caminho que, em partes, admitimos a possibilidade de não ter retorno. Alerta pertinente o teu. Quem gere carências e vontades de gente pequena, tem aqui um folheto de ilustração. A música, por fim, é a grande culpada desta coisa de perder convicções e jogar com outras opções bajoujas.

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  14. E com o evoluir desta podridão ... como será o amanhã?

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  15. atirar paus, só a gatos! velha música infantil...

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  16. Olá.
    Beemmmmmm só gente conhecida por aqui.
    Parece-me muito má onda dizeres que a música dos nossos tempos nos preparava para almoços em casa dos sogros...
    Não devemos ter ouvido a mesma música.
    Era só isto..

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