domingo, 26 de outubro de 2014

Olha bem

Os seus olhos cruzaram-se e numa explosão de emoções súbita, todo o mundo parecia fazer sentido.

Este conceito romântico, arrancado a ferros das parábolas que nos fizeram subtis lavagens cerebrais enquanto crianças, faz-nos crer que seremos felizes e encontraremos a nossa cara-metade, nem que seja no pastor alemão do nosso avô (que esteja patente que segundo os contos da Disney, apaixonarem-se por um salmão não é politicamente correcto, tese levada a fundo na Pequena Sereia, mas se farfalheira e bestialidade for a vossa tara, é perfeitamente plausível encontrarem amor num matrimónio com um poodle, desde que a sua casota tenha talheres falantes, lição in Bela e o Monstro).

Algo deve ter ocorrido no processo da minha lavagem cerebral. Provavelmente distrai-me com uma mosca e perdi o fio à meada e nos dias que correm se alguém me olha fixamente na rua por mais de 3 segundos assumo que ou uma das minhas orelhas se desagregou do corpo ou me pintei como se trabalhasse no Chapitô.

Em Portugal estamos habituados a olhar discretamente e comentar descaradamente assim que a uma distância segura. Em Espanha as pessoas metem conversa aleatoriamente e os homens fazem um típico ritual de acasalamento que envolve fixar olhares por um tempo que exige anos de treino. Não me considero alguém sem auto estima, mas também não me acho merecedora de rituais do género quando estou a comprar pão ainda a arrancar aquela ramela matreira da covinha do olho. Apesar do meu ego se derreter e encarnar uma miúda de 15 anos, o meu Eu exterior, quando há elaboração de palavras, é impelido a responder, de sobrancelha arqueada a demonstrar desconfiança e uma mão no desodorizante roll-on que tenho na mala, pronta a dar-lhe um uso violento e sem escrúpulos, à espera que a acção suavizante e anti-manchas cegue o indivíduo em caso de ataque (spray pimenta é ilegal uma miúda safa-se com o que pode).

A comunidade heterossexual aqui é relativamente pequena, os que não estão ocupados, andam a cirandar como abelhas num campo de flores e eu ando de mata moscas em punho. Vou ter que passar por algum tipo de cura do efeito que os homens portugueses tiveram em mim e aprender a elaborar palavras outra vez, que isto dos ruídos que me saem quando tento ser eloquente, só me faz parecer atraente a um nível Chewbacca. Claro que a seguir me tiram o passaporte português, porque mulher que é olhada e não pensa que é por ter um macaco no nariz, não deve ter raízes portuguesas (por algum motivo, antigamente, as senhoras deixavam crescer bigode). Ou então é, efectivamente, uma portuguesa com um incrível nível de auto-estima. Até ao dia que descobre que realmente tinha um macaco no nariz e aquele jovem não lhe piscava o olho mas sim tentava pestanejar com determinação suficiente para provocar uma acção eólica e fazer o dito bicho mucoso saltar do nariz da jovem.

Não vivam de parábolas e romances canídeos por pensarem que não haverá outra alternativa. Há sempre um donut numa qualquer prateleira que vos irá preencher esse vazio. Vá, e um príncipe à vossa espera, mas se este estiver numa prateleira, atenção, pois estão a participar em tráfico humano ou estão a comprar um Ken.

17 comentários:

  1. Opá, o meu príncipe deve estar bem escondido na parte de trás da prateleira. :(

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  2. Sempre que sinto olhares fixados no meu peito, já sei: tenho uma nódoa, migalhas ou esqueci-me de tirar o cartão de identificação :D

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  3. hehehe...
    Fizeste-me rir, pá. Amei!
    :)))

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  4. Numa cidade assim grande, quem diria que haveria falta de macho!

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  5. Gostei tanto :)
    Muito Bom!

    www.tarasemanias.pt

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  6. E quando um homem foca um outro homem fixamente, o que é que isso é? É a mesma cena romântico-coiso? É que assim fico com medo de ir a Espanha. Já me aconteceu várias vezes por lá!

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    1. É ainda mais provável que seja a cena romântico coiso...aqui a percentagem de homens que focam homens é grande...mas assim que fores avistado a probabilidade de fugir "vivo" é mínima. Tens sorte de ainda estares prai todo vivaço

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  7. e eles, "los espanholes", convencidos que a miúda portuguesa é otária...atenção ao "rólone"

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  8. O meu deve estar bem escondido. Isso ou então ando no supermercado errado :p
    Já tinha saudades dos teus textos!

    r: Sim, isso é verdade, nem sempre é óbvio, mas ao fim de algum tempo começas a perceber se esse namoro é mesmo amor ou outra coisa qualquer

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  9. Que maneira tão divertida de olhar para as relações! O que me ri...

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  10. Depois de ler esta prosa delirante e vertiginosa, fica-se com a sensação de subir e descer a Sagrada Família sem parar num único degrau. Quando se sabe que há famílias que passam lá duas semanas de férias, uma para subir e outra para descer.
    Se ainda cá andasse, o Gaudi caía desamparado e frustrado.
    Pudera! Atravessar três séculos para tricotar um naperom de pedra e num instante de Nada a ilusão desmorona-se e fica o tal vazio que referes e que continua, se o donut ficar bem ajustado e os buracos coincidirem.
    Continuas em grande forma.

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  11. opah, tão bom... roll one vs spray pimenta ahahahah
    'pestanejar com determinação suficiente para provocar uma acção eólica' opah, as coisas que tu te lembras ahahahah
    'atraente a um nível Chewbacca' ahahahhaah
    Não consigo parar de rir... Os meus gatos estão a olhar para mim, como se eu tivesse enlouquecido ahahahah

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  12. É impossível, nestes moldes, ler-te e não rir com a melodia das tuas palavras amancebadas com a ironia, que tanto admiro.
    Conheço quem arremesse pedras às teorias infantil-pseudo-românticas. Mulheres e homens. Não deixo de os entender. Numa próxima, mando-os experimentar uma qualquer rua dessa banda.
    Continuação. Da adaptação e da atenção! ;)

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  13. ahahahah adorei xD opá... comparando com os ingleses eles são muito de conversa, de meter conversa e de dar trela até dizer chega!

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  14. Não me mates já as esperanças mulher! Deixa-me sonhar.

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