quarta-feira, 29 de outubro de 2014

É como andar de bicicleta

O pensamento era o limite. Não havia viagem que não pudesse fazer, amigo que não pudesse ter, profissão que não pudesse exercer e roupa que não pudesse trocar em praça pública, enquanto se debatia com a problemática de qual dos três namorados seria o ideal. A Barbie reflecte a puritana, sonhadora, sem vergonha, que roça o badalhoco, que há em nós desde os tempos áureos da nossa infância.

Hoje em dia vejo que por vezes me trato como a minha Barbie em tamanho real de copa desvalorizada, morena, com mau feitio, mas que não precisa de se despir em público para se integrar (não debato que os seus métodos não sejam de uma eficácia sem precedentes) e não empata a vida e sonhos do Ken. Esta semana saí no mercado com uma embalagem melhorada e sob a temática “Barbie ciclista”. Como qualquer boneca plástica, sento-me no selim e finjo que sei andar de bicicleta, tentando arquear estes joelhos que só conhecem dito movimento em casas de banho públicas. Não há nada mais glorificante que a realização, perto dos 30 anos, que já não sabemos esticar um braço para fazer sinal de pisca, sem levar a bicicleta a tomar o rumo oposto ao pretendido e nos “esbardalharmos” contra uma montra após efectuar um circulo perfeito sob rodas.

Todos os dias rumo a casa de bicicleta após 9 horas de trabalho, em que o meu corpo já me odeia o suficiente e tem a vivacidade de um queque trespassado. Deixo-me fascinar pela leve brisa que leva os meus cabelos a esvoaçar, que após um metro se torna o ar gélido que certamente me vai conduzir a uma pneumonia. O encanto da natureza verdejante que embeleza a avenida, que passado um quarteirão se transforma num mero pensamento de mono sobrancelha entediada, de “árvore…árvore…árvore…”, até que levamos um velhote à frente e só nos apercebemos porque aquela lomba não estava ali anteriormente (daqui a um mês recebo uma menção honrosa da Catalunha pela minha contribuição activa para a redução do índice de envelhecimento em Barcelona). As colinas que moldam a cidade, começam a moldar também as minhas pernas, em forma de batata. Todo um caminho de alegria e libertação do stress diário, que me permite chegar a casa e sufocar contra a minha almofada estrategicamente colocada à porta, onde me aninho como um feto que está farto de brincar à piada dos pontapés na barriga.

Diz algo sobre o ser humano a insatisfação com o facilitismo e monotonia. No meu caso diz alguma ausência de exercício mental. Todas as noites teimo em fazer o percurso curto para casa, sabendo que o caminho vai estar cortado e tornarse-á o mais longo. Na ausência de alguém que me estique um bofetão bem assente na lombada para me chamar à razão, subo colinas até estar capaz de ofender o fabricante da bicicleta e a sua rica mãe.

Sejam activos e saudáveis e sigam exemplos de pessoas que percebem de algum desporto que não a matança do velhote e que não pareçam leitões com problemas cardíacos durante a actividade. Os meus conselhos nunca irão muito para além do “como não morrer” e a resposta será sempre: “parem antes de ter um ataque cardíaco”.

13 comentários:

  1. Pelo menos nunca te faltará humor para falar sobre as coisas que acontecem :)

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  2. E o mundo mais limpo e puro agradecem :)

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  3. Esta frase final diz tudo :)
    Gostei imenso do post


    www.tarasemanias.pt

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  4. Nada que não me surpreenda nos teus conselhos já que vida há só uma a que temos e mais nenhuma...continua a exercitar-te nas tuas próprias regras que ainda vais fazer a escalada de Montjuich!

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  5. r: Pois temos, mas a verdade é que não estamos sozinhos, não somos os únicos a ter determinados problemas. Quando nos permitimos falar sobre o que nos atormenta compreendemos isso mesmo.
    Muito, muito obrigada. É mesmo bom ler isso :)

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  6. Esse esforço é só ao início, daqui a nada estás preparada para dar a volta ao mundo ao pedal. Love you.

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  7. Como é que este blogue desapareceu do meu feed de blogues? Fiquei contente por agora ter visto que não foi por ter acabado mas pq o blogger se passa de vez em quando...
    Perdi-me um pouco, mas percebi que Barcelona é uma cidade que permite ir de bicicleta para o trabalho e gostei disso! Daqui a uns tempos estarás a dar outro tipo de conselhos... :)

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  8. Eh valente! Vais ficar em melhor forma que a barbie!!!! :)))

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  9. A qualidade da tua escrita compensa a "copa desvalorizada" e o "mau feitio".
    O nosso acordo continua de pé? Já comprei Pronto e uma Swiffer. No próximo Verão estou aí para te limpar o pó. Salvo seja. Para limpar o pó da tua nova casa!

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    1. Claro, não quebro acordos!! É bom que tragas artilharia pesada de limpeza, estou a acumular gordura no fogão que é um mimo.

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  10. Também estou um bocado em baixo de forma...havia de fazer como tu...
    Bom exercício. :)
    beijinho

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  11. Para não dizeres que ignorei a "vuelta" deixo-te aqui um aplauso vibrante pelas tua opção velocipédica.
    É que pedalar em Barcelona é obra! É como estar em permanência a disputar o prémio da montanha.

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