quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Podes chamar-me Tó

Gervásio nasceu num dia fatídico em que ninguém teve o bom senso de distribuir chapadas aos pais e familiares presentes que julgavam que este seria um nome brilhante. O nome que nos dão à nascença vai ser parte fulcral da nossa identidade e do modo como vamos encarar a vida e os seus obstáculos. É um pormenor que não pode ser decidido de ânimo leve, pois se derem à luz uma criança pouco dotada de inteligência ela nem vai descobrir onde é o notário para poder mudar o nome que os pais lhe deram sob o efeito de drogas leves ou ausência de actividade cerebral permanente.

O meu nome era para ter sido Mafalda, mas a minha sábia mãe, sentada com uma barriga que quase lhe tapava a linha de visão para o belo horizonte, contemplou todas as ofensas e piadas que poderiam surgir em torno do meu futuro nome. Tendo em consideração que o número de piadas que surgiu foi elevado, começou a pensar em outras opções. Dizem que as mães têm os sentidos apurados ao extremo e ela já devia estar a pressentir que o seu futuro rebento ia arranjar motivos suficientes para as restantes crianças serem maldosas com ela e a ofenderem, mesmo sem terem que recorrer ao seu nome. Porém, há entidades paternais que não reflectem assim tanto na escolha do nome, ou então reflectem em demasia, com pesquisas incessantes na Internet na esperança de encontrar um nome escrito numa língua totalmente aleatória, que signifique “Gota de água da cascata benzida pelo nenúfar de cor alaranjada” ou “Pessoa isenta de impostos”. Um dia vamos esgotar o leque de opções em nomes próprios e vamos começar a recorrer a sons e aí sim teremos dias animados, em que arrotamos numa sala e o fulano que está a fazer café na sala ao lado responde, ou faremos expressões típicas de um AVC para conseguir pronunciar o pronome do sr. Agnhóotzica (o segundo O é mudo caso se estivessem a perguntar).

Esta reflexão dá-se graças a uma conhecida minha que decidiu chamar os seus cães de Traveca e Pachacha. Não sou particular fã de animais com nomes como Afonso e Guilherme, fico sempre à espera que pule detrás de um arbusto uma criança rosada de cabelos loiros e lá vem um São Bernardo a deitar agua por todos os orifícios. Não obstante também não achei esta escolha de nomes muito certa, talvez por não me alegrar o conceito de ter travecas ou pachachas no colo e muito menos fazer-lhes festas. Aprendi a uma tenra idade, quando decidi chamar o meu primeiro cão de Pretinho, visto que a minha imaginação era limitada e o cão era preto, que os nomes que damos aos nossos animais podem tornar-se uma problemática quando os perdemos na Margem Sul. Dei por mim aos gritos “Anda cá Preto…Não fujas Preto…Ohhh Preto…”, com uma inocente idade numa zona mais populada de indivíduos de raça negra do que Angola, com a minha mãe a correr atrás de mim aos gritos “É só um cão…É só um cão…não…não é o senhor…”. Tentei partilhar esta história com a minha conhecida, que não pareceu perceber a analogia. Estarei, portanto, na primeira fila quando ela perder um dos cães e tiver que correr Avenida da Liberdade acima a gritar pela sua pachacha ou pelo traveca, caso não seja apedrejada até não ter dentes na boca, pode ser que venha a ter uma boa história para contar um dia.

21 comentários:

  1. Um amigo dos meus pais chamou aos cães dele Dezanove e Vinte Sete. Os dias em que nasceram. A minha T. prefere nomes de Deuses (Thor e Zeus). Lá em casa, a cadela chama-se Rita, o cão chamou-se Yuri e o gato é o Óscar...

    Cada cabeça sua sentença! Mas tou contigo!

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  2. Ahahahah que raio de nomes. Também não gosto de cães com nomes de pessoas e, por isso, a minha cadela ficou com um nome nada original (Nika).

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  3. Pagava para te ter visto à procura do teu cão! ahahahahah

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  4. Que ricos nomes esses o que me fartei de rir :)
    Por acaso o meu tem um nome simples e foi ao acaso chama - se Fletcher
    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  5. Essa tua conhecida tem uma panca qualquer. É que só pode mesmo. Estou curiosa por saber o nome dos filhos, se é que tem...

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  6. hahahaha Eu sou péssima a arranjar nomes e títulos, seja para o que for. Desconfio que vou ter dilemas mil quando tiver que escolher nome para algum rebento. Uma amiga minha também não é muito imaginativa com isso e chamou Cão ao Cão e gato ao gato e pronto, problema resolvido.

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  7. Ahahahahahahahahahahah. Curto o assar pipocas. Pronto, é isso.

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  8. Respostas
    1. Eh pá, ontem deixei um comentário aqui que não entrou...acho que estou a ter sérios e graves problemas com os bastidores da minha conta...
      Um kissito
      :)))

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  9. Bela abordagem de Nada relativa aos nomes...curiosamente se fosses Mafalda teríamos uma crónica de Fada! Eu era para ser chamado Zacarias(vontade de padrinho) e os meus pais não quiseram...Quanto aos nomes dos bichanos, digo-te que Traveca e Pachacha são bem aplicados e tem o seu quê de interessante se no quotidiano as canitas dão aso ao nome que tem! Ainda me recordo dos nomes que davam às vacas e bois na ruralidade da minha infância, ela era a Galante, a Linda, a Galega, O Marelo, o Pisco, o Maciel, o Vilarinho (estes últimos eram os bois de serviço para a inseminação e manutenção da raça)...nos gatos e cães, a Kika, a Gambina, o piruças, o piroso, o Tirone, etc...enfim, ninguém levava a mal se ouvisse chamar pela Linda ou pela Galante, provavelmente tomariam isso por um elogio, não achas?
    ...nos últimos tempos ouvimos com insistência " anda cá coelho, deixa de fazer xixi atrás das portas, vai fazer nas costas do silva é bem mais seguro..."

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  10. Eu não sou uma boa a dar nomes aos animais... Tenho 3 gatas e chamam-se pipoca, coco e neca. Mais dois cães que se chamam puca e max... Nomes usuais que toda a gente utiliza :)

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  11. Como gosto de dar nomes, os meus bichos têm dois nomes cada um. Havendo necessidade de gritar, não há nenhum que me envergonhe!

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  12. Ahahahahah...tens razão. Os nomes que escolhemos quer para crianças quer para os animais podem ter repercussões muito grandes, que nem imaginamos. :) :)
    beijinho

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  13. Tó é um nickname muito sugestivo e sempre que se bisa -duas vezes- identifica logo as capacidades intelectuais do dono.
    Mas, o mais grave é quando se usa nas palavras cruzadas, porque dá origem a extrapolações recas, perdão, ricas, em ideias para degustar umas boas febras.
    Bem avisada andou a sua Mãe ao rejeitar a possibilidade de lhe chamar Mafalda. Já viu que se opção fosse essa, a Nada não era nada e estaria agora às voltas com uma Panóplia de Mada, em consequência da Ma(fal)da ter tido uma síncope?...
    Quanto há hipótese de de correr ao lado da sua amiga, pela avenida da Liberdade acima, a gritar pela pachacha dela, limito-me a recomendar alguma prudência, porque a esquadra da Praça da Alegria fica nas cercanias.

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  14. ahaha, demais :D ó preto anda à dona!

    kiss

    coisasquetaiseafins.blogspot.pt

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  15. Que riso! :D Eu tive uma gato chamado Bexia (não me perguntes) e outro de Micas do Rabo Torto (tinha mesmo o rabo/cauda torto). Eu sofri na primária com o nome que a mãe me escolheu mas hoje gosto muito dele. Inclusive, um romeno que conheci à pouco tempo morria de riso ao tentar dizer o meu nome, que lá na língua dele era muito pejorativo, e só conseguia mesmo tratar-me por Ana. Não me tratam habitualmente por Ana mas também dá para gozar pois em francês pronuncia-se como 'asno' (lindo né?). Quais os nomes afinal que não têm por onde pegar???? :P

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  16. O meu primo é pai de gémeas, as quais baptizou de Lara e Luna. E eu avisei que Luna é nome de cão.. Eu pelo menos conheço quatro cadelas com esse nome... Acho que lhe pode acontecer o mesmo que à dona da Pachacha...

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  17. ahahah Essa do Preto é muito boa!!

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  18. Estou a imaginar essa tua conhecida a gritar pela sua pachacha Avenida da Liberdade fora e de repente começarem a surgir homens vindos de diversas direcções a correrem atrás da pachacha. Ahah

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