quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Da tela para o colchão

A primeira vez que passamos as portas de um cinema é um momento mágico que nos inicia numa vida de imaginação fervorosa e que esperamos manter durante toda uma vida. Passámos de um tempo em que havia poucos cinemas e reduzida selecção de filmes, para uma época recheada de filmes mas que temos que vender o nosso carro e o baço do nosso filho primogénito para ter dinheiro para comprar um bilhete duplo, sem pipocas incluídas.

Os aficionados por cinema vêem-se na obrigação de ver todas as grandes estreias, nem que seja no seu minúsculo computador que sobreaquece o colchão onde se apoia (filmes comprados num espaço comercial e não no senhor que vende flores na sexta à noite no Bairro Alto e com devida factura, não o histórico de internet. Pirataria é para pessoas com pernas de pau e palas). É triste abdicar do suspense que só o ecrã gigante proporciona e da desculpa plausível que é comer um quilo de pipocas sem pestanejar. Não obstante, em casa podemos ver um filme com um par de cuecas na cabeça, comer lombo de porco sentados na cama, em casos de incontinência parar o filme vinte vezes e ainda ter o poder de projectar o portátil janela fora caso o desfecho não seja do nosso agrado.

Nos dias que correm, ir ao cinema, é um ritual de grande elegância e expectativa, que se transforma numa amálgama de bufos de desespero, sobrolhos franzidos e vontade de esbofetear crianças até saberem álgebra a nível académico. Quando invisto o tempo e dinheiro para me deslocar a um cinema crio a ilusão que estarei com pessoas sóbrias e tão embrenhadas no filme como eu. Quando de súbdito, tenho alguém a cegar-me com o foco de luz proveniente do ecrã do seu telemóvel, a voz da peixeira que decide atender o telefone e sussurrar em Si maior que está a ver um filme e ainda não percebeu o enredo, o individuo que parece precisar de sorver as pipocas e o típico casal que não percebe o conceito de quarto.  Estes factores externos aliados ao poder de em casa poder mudar de filme vezes sem conta numa noite em busca de um com lamechice q.b. aliada a desmembramentos a alta velocidade, encima de um pastor alemão geneticamente transformado, faz-me reflectir sempre em como podia ter poupado esse dinheiro.

O meu cérebro doentio esquece-se destes pormenores com facilidade recorrente fazendo-me ansiar o dia que vou ao cinema e vislumbro aquele ecrã que me conquistou ao primeiro olhar. Quem nasce com o bichinho da sétima arte irá sempre querer ver todos os filmes, nem que seja para ter a liberdade de falar negativamente dos mesmos. A sétima arte aumenta as nossas expectativas do romance ao assassinato perfeito, mas mais importante, torna-nos sonhadores. Nem que seja pela fresta de uma porta, um bom filme será sempre um bom filme e um sonhador nunca deixa de o ser.

[Esta crónica foi escrita a pedido das criadoras do blog Flames, que a título de surpresa, me incluíram no primeiro numero da sua revista electrónica. Obrigado e boa sorte meninas]

10 comentários:

  1. Eu sou muito raramente ao cinema.. acabo sempre por ver em casa no computador :)

    kisses***

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  2. Há muito optei por deixar a pietro beretta, que trazia religiosamente na algibeira, em casa com receio de não resistir em usá-la. É como dizes, desde os cochichos e risota iniciais de quem insiste em entrar na sala 10 minutos após ter começado a sessão, segue-se o impossível de suportar barulho do remexer nos "baldes” de pipocas...
    :)))

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  3. Há uns anos, não havia filme no cinema que me escapasse! Não falhava um! Depois comecei a ir somente a um filme por semana, e depois cheguei à fase actual, em que é um suplício somente o pensamento de me enfiar com dezenas de pessoas numa sala durante 2h...
    Não há nada como o conforto aconchegante do sofá e do peso nas pernas, onde estão os gatos a dormir. (e com um balde de pipocas à frente....)

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  4. Confesso que agora sou mais filmes em casa mas quando vejo um filme mesmo interessante, vou ao cinema. É outra emoção ;)

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  5. Que belo texto. As palavras, de um excelso conhecimento da prática, social e cinéfila deste país, tão certeiras. Sou fã de cinema. Porventura, lá atrás, com outra idade e permissividade, procurava mais vezes e com empenho. Fazia por não perder aqueles que, à partida, me interessavam. Os trailers. Também me cativavam. Enfim, restar-nos-ão os colchões. Embora, afoito, de quando em vez, ainda me aventure numa idade ao cinema :)

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  6. porra, ao preço que anda cada bilhete de cinema, qualquer dia voltamos aos tempos em que se vestia como se fossemos a um jantar de gala.
    e também odeio barulho e falta de respeito das pessoas no cinema, mas porra, não consigo trocar a sala de cinema por nada deste mundo!

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  7. Estou ausente, mas só para não dizeres que não vi esta “fita”, apenas te digo que fui um cineclubista militante e um cinéfilo compulsivo.
    A cinemateca sempre foi um poiso habitual. Agora até me fecharam o cinema de culto o “King”.
    Vejo, ainda que não aprecie especialmente filmes na tv ou no computador, mas não dispenso os desmembramentos antes, durante e depois e também mordo a pedido, porque como boxer que me prezo de ser, sou meigo e sensível.

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  8. Eu sou daquelas munidas com cartão de cinema que com temperaturas baixas vai lá picar o ponto todas as semanas. Adoro a sensação de estar refastelada no cadeirão a ser entretida. Em casa perde-se todo esse impacto.

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  9. Ver um filme em casa permite-nos ter outras comodidades, mas acho que nada supera a magia de entrar numa sala de cinema. Tenho pena é que algumas pessoas não se saiba controlar e achem que podem fazer tudo em todo o lado, não tendo a mínima noção de respeito.

    Acho que o MEC tem sempre as palavras certas :)

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  10. E que bela crónica escreveste tu, para não variar :)
    Não costumo ir regularmente ao Cinema. Quando vou é sobretudo pela companhia de alguém. Acho que os preços são estupidamente altos, sobretudo tendo em conta que as pessoas têm os filmes disponíveis à distância de um clique..

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