sábado, 16 de agosto de 2014

A originalidade do virar

Tenho saudades dos bons velhos tempos em que me deslocava a um fotógrafo com o rolo dentro daquela cápsula plástica baça e ansiava pelas fotografias durante o fim-de-semana. Ia busca-las na expectativa do que lá viria, num misto de esperança platónica de estar fotogénica em todas as fotos e medo de a minha tia avó ter metido a mão à máquina e ter fotografado a verruga das costas para mostrar ao doutor que vive lá longe. Havia magia (no processo, não na verruga) e isso acompanhou-me toda a vida, com a presença constante de uma máquina fotográfica, com a paixão pela arte e até voluntariando-me para tirar fotografias a turistas pelas ruas fora.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Há dois anos se tivéssemos a esticar o braço para tentar tirar uma fotografia que ia dar origem a uma série de repetições por cortar a testa ou estar desfocada, parecíamos idiotas. Hoje “idiota” é o look a seguir, pois ai de quem se voluntarie a tirar uma foto a um grupo de vinte indivíduos! Pois é preferível um deles esticar-se o suficiente, ou desmembrar um dos braços e o arremessar para cima de um poste só para garantir que foi ele a tirar a foto. Nesta, pelo menos um dedo de cada um dos seus compinchas aparecerá para um dia mostrar ao seu bisneto, “olha, este era o meu dedo quando tinha 20 anos, bom dedo hã?”.

Não me vejo como conservadora, tanto que já aprendi a virar o telemóvel ao contrário e fazer cara de distraída (um clássico das fotografias de baixa qualidade por webcams e telemóveis) e boca de pato, que segundo entendi é o que está na moda. Não obstante, vejo esta tendência fotográfica de virar a máquina e tentar repetidamente a ver se acerta, a reflectir-se na necessidade de um elevado numero de jovens mulheres, virarem o neurónio uma manhã e tentarem o “lesbianismo”, como se fosse a nova marca de sabão para a roupa, a ver se pega. Eu sempre gostei de fotografia, não é por uma moda bimba que isso vai mudar, da mesma maneira que há mulheres que gostam de pessoas do mesmo sexo desde que se conhecem, mesmo que haja uma pandemia de leggins floridos que dê vontade de optar pela extinção da raça humana.

Porque é que a juventude não vai experimentar empadas? Também é alternativo e não é para qualquer um. Não sei quanto a vocês, mas eu seria uma lésbica deplorável, nem sei o que se passa nas minhas partes baixas quanto mais no repolho de outra mulher. O que é que se faz com aquilo? A menos que uma vagina me ensine a jogar xadrez não consigo desenvolver interesse pela matéria. A minha nem me é capaz de avisar quando a menstruação termina, como boa sádica fica a brincar ao pára-arranca até eu optar por usar fraldas de incontinência o mês inteiro por via das dúvidas. A vida ensinou-me a não confiar em vaginas. Não tenho nada contra com o resto da mulher que está anexada ao dito órgão, mas aquele perímetro não é de confiança.

Caso haja jovens raparigas a ler este regurgitar de informação inútil, façam-se um favor e vão tirar fotos com ar de pato distraído e deixem as lésbicas para quem as quer, elas têm mais do que fazer do que vos andar a ensinar o B, A, BÁ, para depois vocês descobrirem que as mulheres também ressonam, têm pelos e gazes bem mais elaborados do que os homens (já para não relembrar que há um maior numero de palavras depreciativas no feminino do que no masculino e não é em vão). Que se mudem os tempos, mas que a próxima vontade tenha a ver com férias alargadas.
  

11 comentários:

  1. Sinais dos tempos, ainda no outro dia comentava sobre isso. Hoje em dia vamos de férias e num ápice tiramos 500 fotos, nos tempos em que usávamos os rolos as fotos eram bem mais preciosas. As que tiro hoje em dia raramente espreito e as antigas estou sempre a ver.

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  2. Olha, experimentar empadas parece-me um bom conselho para jovens raparigas!

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  3. Continuo a adorar o P&B...mas os tempos mudam e já nem o P&B tem a qualidade doutros tempos!

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  4. Mas que belo post finalmente alguém que me entende!!

    Beijinho*

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  5. É impressionante como as vontades mudam quase sem darmos por isso.
    Adoro fotografia, aquela sensação de querer eternizar um momento que depois posso rever vezes sem conta. Tenho a noção de que tiro imensas, só para garantir que ficam bem, mas não consigo tirá-las a «correr», tenho que apreciar o momento e então depois sim carrego no botão.
    Fartei-me de rir com o teu texto!

    Espero não desiludir :)
    Ter uns dias de férias, nem que sejam só dois ou três, acho que é fundamental e todas as pessoas precisam. Também têm direito a descansar e a não ter preocupações

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  6. Genial como passaste de uma bela recordação como os antigos rolos fotográficos para a tendência lésbica de algumas mulheres. Ahahahahah
    Sim, também sentia isso quando ia ao fotógrafo para revelar um rolo de fotografias. :) Era tão giro. :)
    beijinho

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  7. Ora aqui estão dois temas para abordar “en passant”. O primeiro, a fotografia, constitui uma das minhas grandes frustrações, já que sou uma autêntica negação a manejar a câmara, não obstante, por paradoxal que pareça, ser um grande apreciador de fotografia.
    Não tenho máquina fotográfica, mas se tivesse era certo que passava a vida a atender -nela- o telemóvel.
    Já no segundo, confesso que, independentemente da mordacidade perfeita com que foi abordado, discordo em absoluto do registo porque, sendo eu 100% hetero, entendo que cada um(a) tem direito à sua orientação desde que, obviamente, não me incomodem.

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    Respostas
    1. Jrd...
      Ao menos o bom gosto esta ai...não há como não adorar fotografia =). Não obstante, que fique claro que não sou contra de maneira alguma contra a homossexualidade, é um direito, bem como algo que nos é inerente, não é uma moda...e é exactamente isso que refiro no texto. O aumento de jovens que não se preocupa com sentimentos nem respeito e apenas leva esta experiência como uma brincadeira leviana, não tendo em consideração por vezes que as pessoas envolvidas são sérias quanto á sua orientação sexual.
      Uma excelente semana

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    2. Nada (este nickname não dá mesmo jeito nenhum... =) )
      Esqueci-me de mencionar que a minha inépcia é tanta, que uma vez peguei na câmara ao contrário e "autofotografei" o olho direito...
      Quanto às experiências a que alude em matéria de sexualidade, levadas a cabo por jovens, reconheço que se trata de um problema complexo, que pode deixar sequelas muito graves.
      Bom fim-de-semana

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  8. As palavras servem, entre outras coisas, para as aproveitarmos da melhor e mais desconcertante forma. Brincar com elas é um privilégio. Tangente a outras, como a fotografia e a paixão que por ela tenho. Usa-las, às palavras, num desconcerto que é tão feliz de ler. A actualidade deve-te algo, pela sempre atenta e escorreita dedicação.
    Quanto à ida ao laboratório de um fotografo, levando o rolo por desvendar, é qualquer coisa que não tem semelhante. Ter oportunidade de entrar, não apenas na loja, mas no laboratório é, para os apaixonados como eu, um valente momento. Agora, tudo isso se perdeu. E resume-se às fotografias previamente escolhidas, que passam no PC da loja para retocar os tons, a luz, etc. Das lésbicas, merecem a ressalva de que não vão em modas e que, entre patos e selfies, preferem a cortesia. Digo eu.

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  9. Lembro-me que houve uma altura em que tirar selfies era uma coisa considerada foleira. Eu continuo a achar foleira se tiradas a nós próprios, mas quando com um grupo de amigos é uma coisa engraçada. :)

    Quanto ao resto... olha, cada um sabe de si! :)

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