domingo, 13 de julho de 2014

Culto do centavo

Ser pobre é ver a palavra saldos escrita numa janela, mesmo que seja de uma loja de esfregões, e fazer uma coreografia meticulosamente estudada que envolve elementos religiosos, um panda e um divã. Eu como sócia número 3102 do grupo recreativo de quem não tem onde cair morto, festejo a época de saldos com uma jantarada com os amigos e uma dádiva à Bobone.

O conceito de saldos agrada-me, porém, não sou uma boa praticante do desporto. Tudo começa com uma incompreensão das denominações dadas à época, pois se entramos numa loja que está em saldos e perguntamos onde estão as promoções demonstra toda uma incompreensão e falta de chá relativa ao culto das t-shirts, pois as promoções já foram, agora são os saldos! Já se dissermos saldos numa loja que está em promoções, só nos falta sentarem num sofá, nos abraçarem e rirem como um avô carinhoso que vai contar a história de como o coelho Bidé morreu. Não são na realidade dois nomes para um grupo de produtos com preços inferiores aos estipulados de início? Por mim até podem chamar isso de Funeral do coelho Bidé e eu estarei lá a remexer nas pilhas de roupa feliz da vida, vá, se calhar vestida de preto, mas estou certamente presente. 

Uma colecção coube harmoniosamente bem arrumada numa loja durante uma estação completa, mas chega esta época e são feitas torres de roupa no centro das lojas e a procura por um par de cuecas torna-se numa aventura. Antes de mais, a magia que é a eventualidade da roupa não nos cair toda encima sufocando-nos e contabilizando mais uma fatalidade neste trabalho de risco, temos que ser mais rápidas que as outras pindéricas que querem aquela bandolete, temos que ser engenhosas para enfiar o nosso traseiro L numa peça S porque é a ultima e é preciso ter confiança que as nossas amizades se vão manter até ao Natal para comprarmos já as prendas todas sem desperdiçar dinheiro. É neste processo que a porca torce o rabo. Eu não tenho talento para explorar pilhas de roupa sem me entediar. A nova colecção organizada e bem iluminada entoa um chamamento e eu acabo por comprar um par de meias pelo preço promocional de dez camisas. Mas saiu feliz, sem arranhões e sem o cérebro toldado pela experiencia pós guerra. Sou oficialmente a pior pobre da história.

A realidade é que não sou uma daquelas japonesas pequeninas e amorosas que sabem fazer maquilhagens que transformam um gnu na pequena sereia, e podem vestir um vestido com folhos até aos olhos em rosa choque e parecer bonecas. Vestir aqui a menina envolve toda uma metodologia que não pode ocorrer sob pressão, senão vai dar efeitos piores do que o “matrafona enrolada em celofane”, que é o resultado, volta e meia, quando me esforço para sair à noite em trajes da moda. Venho, portanto, enaltecer as qualidades de todas as corajosas que se expõem neste mundo dos saldos e saem orgulhosamente intactas com peças que não parecem ter sido destruídas pelo cão da vizinha. Eu, feliz permanecerei a observar a vossa agilidade com a testa colada às montras. Uma feliz época de caça minhas caras!

9 comentários:

  1. Gosto muito da palavra «saldos», mas não tenho paciência para os explorar. Por natureza, já não a tenho para ir ao shopping e passar lá um dia/tarde/noite/dia inteiro a fazer compras, muito menos a encontro nesta altura do ano em que todas as pessoas parecem ter combinado para irem ao mesmo tempo. Quando vou já tenho que ter uma ideia do que quero, para perder o menos tempo possível. Claro que é agradável comprar uma camisola por cinco euros quando, anteriormente, a vimos a vinte, mas, mesmo assim, estou até à última para lá ir. Ainda hoje cá em casa estava a dizer que preciso de comprar mais um par ou dois de calções (já estou a dizer isto há mais de um mês) e, no entanto, continuo sem pôr os pés no shopping porque a minha vontade é zero. Quando lá for, se não entrar numa loja e sentir que os monos todos saíram à rua (é que os saldos são muito lindos, mas às vezes ficas a perguntar-te onde estão as peças bonitas que lá estavam antes desta época começar), acabo por me perder no que encontro, mas até essa altura chegar é problemático :p ahah

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  2. Já fui mais doida do que sou! Já dei mais importância a trapos do que dou.... Mas não viro a cara a uma boa pechincha! :))))

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  3. Nem todos podemos ser ricos ou banqueiros como o tio Ulrich ou a tia Jonet. Há que aguentar e se possível aproveitar as “Rebajas”, como se diz em Badajoz que é o posto de gasolina mais à mão, para atestar o depósito e assim poupar os euritos suficientes para poder fazer umas mercas à maneira, na Av. Liberdade, já que Les Champs Elisés, Kurfürstendamm, Gran Via, Knightsbridge, Via Veneto, (as coisas que eu sei) etc. já eram. Como dizem com ar sobranceiro os russos, os angolanos e, com é óbvio, os naturais da Quinta da Marinha e adjacências que acabaram de sacar o seu, deles, do BES.
    Aliás, nem sei se aquela artéria continua a fazer promoções como no tempo em que era portuguesa, i. é, antes de ter sido generosamente franqueada aos estrangeiros que se aproveitaram do país em saldo.
    Como vê nada entendo da matéria. Apenas uma referência ao coelho bidé, que não faço a mínima ideia de quem seja, para dizer que os bidés -tão úteis na vida das pessoas que não têm jacuzzi à disposição imediata- não mereciam que um deles tivesse esse nome. Ainda se fosse penico bidé...

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  4. A tua experiência na míngua de coerência e disponibilidade que é sucumbir à mais afamada época de azares vários na corrida desenfreada de loja em loja, quase que se aproxima do patamar físico e linguístico, quase instintivo, a que todos (salve raras excepções) já tivemos oportunidade de assistir. Por fim, a simpatia de quem nunca se esquece do outro. Boa sorte aos demais! E boas compras. Das que nunca ninguém usufrui.

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  5. Os saldos são bons, mas confesso que não gosto de andar no meio de tanta confusão.
    *já sigo o blog

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  6. Muito obrigada! Sem dúvida, concordo contigo :)

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  7. Gosto da confusão dos saldos, mas os saldos já não são o que eram :)

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  8. A minha experiencia diz-me que ou andas atenta e no primeiro dia de saldos estás à porta do shopping antes de abrir ou bem podes esquecer a época. Isso ou ter milhões de paciência, que é coisa que não tenho.

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  9. Os primeiros dias/semanas de saldos são para esquecer. Não tenho grande paciência, não..

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