quarta-feira, 2 de julho de 2014

As favas de Eva

Eva era uma jovem dinâmica que gostava de maçãs e longos passeios à volta da única árvore que constituía o paraíso. Uma manhã a bela rapariga alertou Adão que ele devia tapar a latrina atrás da árvore depois de defecar, o equivalente a baixar o tampo da sanita dos tempos passados, mas visto que Adão tinha sido o primeiro inquilino do paraíso achou de mau tom a ordem de Eva. Porém, obedeceu enquanto lhe rogava uma praga entre dentes. Nos dias que correm as mulheres ainda pagam pelo erro de Eva não saber comer o raio da maçã e ficar calada, subjugando gerações à primeira macumba bíblica.

Foram, garantidamente, homens a criar maquilhagem, saltos altos e tangas. Não foi num dia solarengo que banhava o quarto de uma jovem acabada de acordar, que uma epifania atingiu-a como se de um raio se tratasse e ela concluiu: “Devia haver uma maneira de enfiar rabo acima todo este tecido que confortavelmente adere ao meu traseiro, de maneira a desconhecidos não me catalogarem pelas linhas que transparecem pela roupa”. Pois, na realidade o que mais se quer é ter renda enfiada no rego, pelo bel-prazer da vista alheia, mesmo que envolva ciência o ajeitar do tido pedaço de tecido sem que faça ricochete e nos faça chorar em público por termos piorado a situação. Lacrimejo por cada tanga puxada até ao pescoço que vejo a gritar por ajuda ao tentar fugir das calças de mulheres que se agacham sem pensar nas consequências. O bambolear natural das mulheres não é uma tentativa de sex appeal mas sim um método de não perdermos as cuecas entre as bordas e o segredo das mulheres irem acompanhadas à casa de banho é para não correr riscos e haver sempre acessibilidade a uma equipa de socorro.

Os saltos altos foram um mecanismo inventado pelos homens para que houvesse mobilidade reduzida na altura de fugir de otários. Não só diminui relativamente a velocidade habitual de uma mulher, torna-se um limbo quando alcoolicamente alteradas, dão sinal sonoro quando tentamos sair sorrateiramente da cama e os homens lêem os sapatos como perfis de redes sociais, havendo dos saltos de mulher casada, aos saltos da mulher que está desesperada por contacto humano e aceita tudo menos levar com sardinhas nos olhos enquanto fazem sexo. A maquilhagem foi uma via alternativa criada para bloquear os poros das mulheres, na esperança que a acumulação de estuque facial as fizessem calar. Não funcionou como pretendido, mas tem a capacidade de baixar a auto estima feminina quando na ausência de produto.

A realidade é que as mulheres são naturalmente bonitas mas estão demasiado ocupadas a pagar as favas da latrina do outro. Já os homens roncam, cheiram mal dos pés e andam para ai a baloiçar um par de bolas peludas e é como se fossem princesas, podem não tomar banho uma semana e no máximo há uma saudação masculina de risos brejeiros e repetição ensurdecedora de que isso é que é ser homem. Queridas mulheres, compreendo que a vida vos conduza a uma rua sem saída e que vão continuar a usar maquilhagem, saltos altos e cuecas que vos vão eventualmente cortar ao meio, mas tudo o que se qualifique como decisões de moda estúpidas fora destas categorias, como calças a serem substituídas por leggins, só se têm a culpar a vocês mesmas, pois não há muitas mais figuras bíblicas com pedalada para estas desculpas tiradas a ferros para a nossa ausência de amor próprio e auto-mutilação gratuita.

18 comentários:

  1. Nada, deixaste-me a pensar em tudo! Não tinha visto a coisa nessa perspectiva, quiçá por motivos obvios, alguns relatados por ti, mas, pensando bem, a maquilhagem pode favorecer mas mascara a nossa beleza pura e natural, o fio dental devia ser para utilizar apenas na boca mas porque alguém se enganou e passou-o para baixo talvez porque alguem disse que o local foi algures apelidado de boca do corpo(!), sapatos altos servem essencialmente para deformar a coluna dorso lombar...bem, uma mulher produzida é sempre uma mulher produzida pena que se desmorone como um castelo de cartas quando chega a hora de comer a maçã, resta-lhe comê-la sozinha ou então esperar que o macho na sua gula demoníaca e infernal não repare que a fruta está bichada e por mais que se lave não evita a putrefação...
    Nota final: os homens não são todos como os descreves pena é que haja poucos com as bolas no sítio!

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  2. É facto, Eva nao tem de levar com as culpas de desmioladas que vao em "desmodas" que nao ajudam ninguém.
    Ri-me tanto com este post e precisava mesmo. Um excelente fim de semana venha a si que bem merece.

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  3. Com certeza não é por culpa da latrina de Adão, mas sim pela falta de espelho em casa, que algumas gajas vêm para a rua fazer figuras tristes.
    Não tenho nada contra tangas nem contra leggins, quando deixam transparecer corpos bonitos e esculturais, mas confesso que me tira um bocado a "tusa" ver mastodontes de cócoras, a procurar a esfregona de marca branca na prateleira mais baixa do supermercado, a mostrar um pneu de trator que transborda de umas calças de cintura descaída, ou o rego de um cu seboso de paquiderme, enforcado num minúsculo fio dental.
    Se não têm amor próprio, pelo menos tenham dó de nós e não andem por aí a contribuir para a disfunção sexual masculina. eheheheheh

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  4. Adorei hahaha xD Haja mais alguém neste mundo que perceba que leggins não são calças!

    (Já agora, sinto-me uma vaca autêntica por só agora te estar a responder a um comentário que me deixaste a 24 de Março (Março!), e que só há umas duas semanas vi. Desculpa. E muito obrigada. Eu é que adoro a tua maneira de escrever, a sério.)

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  5. Looool adorei o texto, e é tudo tão verdade...

    Bjxxx

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  6. Acho que o problema é que hoje em dia se vive tanto de modas que acabamos por perder a noção do ridículo. É preciso amor próprio e a cabeça no lugar.

    Sem dúvida, como em tudo temos os dois lados da moeda. E aprender aquela lição terá sempre o lado negativo e positivo

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  7. Creio que já falei aqui, em tempos, do Adão e da Eva, mas como não sou dado à leitura de romances eróticos, já não me lembro do que escrevi e, para não entrar em contradições, fruto da ignorância “bíblica”, não adianto muito mais, a não ser que ainda estou à espera que me esclareçam, quem comeu quem, naquele suposto “ménage à trois” entre o casal e a cobra -a maçã não chegou a ser comida e a prova é que há a "apple"- e apenas espero que a cobra fosse fêmea, para não ser alvo de interpretações erradas. Se bem que não tenha nada que criticar às preferências alheias.
    Tenham ou não "pneus", cada um(a) come o(a) que quer e o(a) deixam (não sei se isto vem no livro) é um assunto que não me diz respeito.

    Mesmo assim importa sublinhar que essa da latrina atrás da árvore dava pano para mangas, porque normalmente as mulheres é que vão lá atrás -da árvore- sempre que têm de se pôr de cócoras.
    Os homens não, quando afliiiitos, são destemidos e enfrentam as árvores sem medo do ricochete que lhes lixa os sapatos e as calças. Estas últimas, mais abaixo ou mais acima, consoante a evolução da incontinência.
    E já que falei de pano: De que material é que são feitos aqueles acessórios íntimos que entopem os sanitários dos restaurantes e espaços correlativos?

    Admirável em toda a sua pujança, a posição erecta do falo que é a Torre Eifel, posição essa que não serão, certamente, estranhos os adereços, leia-se fetiches, eróticos que a enquadram.
    É notável, sem dúvida, apesar de ter mais de um século, não enferruja e está sempre disponível para satisfazer as turistas de todas as idades.
    Já o mesmo não se poderá dizer do falo (cada vez mais falinhas mansas) que foi a de Pisa (com “s”) porque está cada vez mais descaído e não há saltos altos capazes de o endireitar e equilibrar as que querem pisar.

    Já sobre o estuque da maquilhagem muito haveria para dizer, até porque, em breve, a cirurgia plástica vai adoptar uma técnica substitutiva, graças à utilização de um parafuso. Mas isso fica para um outro comentário, se a tal me atrever.

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  8. Eu acho que o problema é a falta de espelhos, a sério, é que elas não podem ter espelhos em casa.

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  9. Concordo perfeitamente e adorei o texto, é uma bela explicação para o que se passa na moda feminina, mas eu não sacrifico o meu conforto... e penso que cada vez mais mulheres pensam assim.

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  10. Só te digo que gabo a paciência das mulheres que andam montadas em saltos altos em cima desta maravilhosa calçada portuguesa! Aos kms que faço a pé a caminho de casa e do trabalho, de manhã, à hora de almoço e à tarde, nem me atreveria a abdicar do meu conforto (tanto em roupa como em calçado) por causa das modas, como lhe chamam! Andar em bicos de pé só mesmo em casórios e isso já dá pano para mangas!!!

    Muito bom! :)

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  11. Adorei!
    Ser mulher é complicado, por vezes eheheh

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  12. O meu conforto está sempre acima de qualquer moda e manias.
    E nada tenho contra tangas, desde que estejam dentro das calças, afinal, cada um usa aquilo que mais lhe deixa confortável.

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  13. Gente porca - homem ou mulher - causa-me repulsa.

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  14. Ahahahahahahahahahahahahahahah. Pronto, é só !

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  15. Ri-me tanto com o texto e a quantidade de coisas que imaginei a partir dele. Genial, como sempre :)

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  16. A Eva foi muito na sua simplicidade, resumiu um todo e, a dada altura, alguém se lembrou de lhe adulterar as façanhas. A partir daí, resulta nas tuas palavras o percurso tão atabalhoado como questionável. Como sempre, um texto que mostra que estás sempre atenta e disponível para dar a mão a uma sociedade precipitada ;)

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  17. Eu continuo a dizer que se fossemos obrigados a andar todos nus éramos muito mais felizes... ao menos já não andávamos a imaginar o que é que estaria por detrás da roupa lol. E não havia candidíases para ninguém ehehehehe

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  18. o paraíso, a maçã, a eva e as complexidades daí advindas, a partir de um adão que não soube interpretar a coisa...

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