sexta-feira, 13 de junho de 2014

Turquia

Fugir ao quotidiano, ao conhecido, pode significar fugir aos percursos turísticos e grandes capitais e enveredar por caminhos desconhecidos onde o tráfico de órgãos é uma viabilidade. Fui à descoberta do interior e sul da Turquia, onde os montes vulcânicos conferem uma beleza desértica e as praias de água quente nos fazem crer que estamos no paraíso, não fosse a substituição de areia por calhaus que nos levam a desejar ser socialmente aceitável rebolar até à agua.

Descampado, vaca, palmeira, mausoléu, é a sequência rítmica que nos acompanha estrada fora, ao som dos cânticos religiosos incessantes, que a dada altura cremos conhecer a letra. Sair de um autocarro e ser cegado pelo sol ardente faz-nos esfregar a vista e perceber que se calhar a viagem era para Corroios, pois a tez bronzeada é um tom possivelmente adquirido na Costa da Caparica e denota-se algum azeite a escorrer pela face dos locais ao invés de suor. A moda dos cortes de cabelo em forma de pote de barro rapidamente prova que é a Turquia, pois a cerâmica não é o forte da Margem Sul do Tejo. As mulheres dividem-se entre o fascínio e o medo da típica europeia, os homens parecem um disco riscado com o cio. Se a presença de álcool estivesse mais patente nos seus hábitos culturais e na minha corrente sanguínea, talvez todo o ritual de acasalamento protótipo deste povo não parecesse um desastre desesperado.

O preço irrisório da comida faz-nos arriscar em pratos cujo nome nem sabemos pronunciar e mesmo que quiséssemos ninguém nas imediações seria capaz de traduzir. Uma coisa se torna certa após os primeiros restaurantes: tudo leva iogurte. Já bebidas é aproveitar as maravilhas da água del cano, pois uma cerveja custa um baço e dois dentes. Acordar e usufruir dos encantos de um pequeno almoço de hotel, por vezes a salvaguarda de toda uma gastronomia que intensifica as filas de espera para a casa de banho, torna-se uma degustação de cinquenta variedades de azeitonas, queijos com cortes e crostas artísticas mas que sabem todos a jornal e, o inesperado, iogurte.

Uma cultura fechada mas fascinante, que prezam a natureza como nunca antes tinha presenciado e tão supersticiosos que os gatos pretos suicidam-se à nascença. Regateadores natos, que nos levam a fazer compras em que pensamos ter ganho a batalha dos cêntimos, quando só queríamos comprar umas gramas de chá e saímos de galinha em punho. Onde todos os recantos parecem saídos de um filme, ora romântico e místico, ora onde se estripam porcos e estudantes de artes. A Turquia é um país a visitar e explorar, com um povo bom mas culturalmente muito diferente do nosso, onde nos devemos acompanhar de um espírito aberto e um pacote de bolachas.

19 comentários:

  1. Feliz pelo regresso sã e salva e com todos os órgãos, suponho.... :)))

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  2. É um dos sítios que gostava de conhecer :)

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  3. Da Turquia conheço Istambul. Foram dias de descoberta os que lá passei. Descoberta e estranheza, pelas diferenças culturais e também muito pela comida. Em Istambul o tradicional e o moderno andam lado a lado e a cidade em si tem uma dinâmica e uma vida que não consigo explicar, só sentindo conseguimos perceber aquela envolvência. Os turcos são doidos, o trânsito é uma desorganização, as pessoas fazem negócio com tudo.

    Quanto à comida... compreendo-te bem. O sabor a iogurte tem piada na primeira vez, mas ao fim de uns dias começa a apetecer comer coisas mais suaves ( e menos carne de borrego também!). Na Turquia provei as duas piores bebidas da minha vida, o ayran (iogurte com sal e água) e outra que nem sei o nome, só me lembro que era roxa e era intragável! Ambas sem alcool, claro.

    Quanto às negociatas... em países em que tudo é regateável, tenho a sensação que nós nunca vamos conseguir saber se estamos a pagar um preço justo por aquilo, ainda que tenhamos conseguido que baixassem bastante o preço. É tudo muito relativo e quando somos turistas os preços inflacionam bastante.

    Gostava de voltar à Turquia... gosto do som do chamamento para a oração que ecoa nas mesquitas e que se alastra pelos espaços. Acho mágico e único e é a coisa que mais me lembro de Istambul.

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    1. Eu tenho que lá voltar para espreitar istambul...concordo com o que dizes...mas a oração torna-se como viver ao lado de uma linha de comboio, deixas de ouvir...tive dois meses a viver num pais muçulmano e tocava frequentemente...já nem ouvia

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  4. Tenho 2 irmas de coracao desse país, estive lá 2 vezes e Zeums de de engenho e arte (e pilim) que voltarei. Tendo em conta a quantidade de turcos que conheco (vivo há anos num bairro turco) e o tempo que passei lá, gosto muito das pessoas, sao hospitaleiros e conversadores embora nem sempre seja fácil entender algumas coisas.
    Quanto à comida, a seguir à nossa - que é a melhor do mundo - no meu top pessoal é a deles. Gosto tanto que aprendi algumas receitas. Como o iogurte é original de lá e da Bulgária, é normal ser muito usado mas nem tudo leva iogurte nem faz mal à tripa. Por ser um país tao grande o tipo de alimentacao varia muito e talvez nao tenhas tido sorte. Espero que um dia experimentes cozinha turca da boa e tradicional (em vindo a Berlin que é mais perto e tu gostas, sei onde há comidinha de confianca) e quicá mudes de opiniao.
    A Maleta nao gosta de Ayran e eu acho que nao é fácil gostar daquilo à 1a. Eu comecei por dizer bilhéc mas hoje em dia adoro o iogurte salgado e fresco. Funciona muito bem para aplacar picante em algumas especialidades. E há bebidas alcoólicas típicas, como o Raki, que é como a nossa aguardente e licores vários.
    De resto, é um país cheio de História, segredos, tradicoes e que tem muito para explorar. Ainda bem que o saldo da tua viagem foi positivo :)

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    1. A próxima vez vais comigo!! Porque a mim não me enganam mais com iogurte...tou de greve!!

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  5. Bem, andaste ocupada!
    Adorei a discrição, espero que faças muitas mais (viagens) e que as descrevas por cá.
    :)

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  6. Percebe-se que foram umas férias bem conseguidas em Antalya(?) e por aí fora. Ainda bem.
    Nunca fui à Turquia, mas várias estadias mais ou menos prolongadas na Alemanha, chegaram e sobraram para degustar uns Kebabs genuínos, seguidos de “delícias turcas”, uma sobremesa deliciosa.
    Também aprendi que os alemães chamam malas turcas aos sacos de plástico dos supermercados, que é uma maneira original e ternurenta de provar que não são xenófobos e que amam perdidamente os três milhões e meio de naturais da Turquia que lá vivem e que já foram muito úteis -agora nem por isso- e, ainda por cima, fartaram-se de fazer filhos.
    Assim sendo, apenas posso acrescentar que no que diz respeito a banhos turcos, teriam de ser muito selectivos e qualquer referência ao filme com o nome da sobremesa, que vi com muito interesse, não pode ser incluída neste comentário porque era para maiores de 18 anos.
    E pronto, já falei o possível da Turquia e derivados. Ao cabo e ao resto não fui eu que gozei essa “delícia” de férias.

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  7. "gatos suicidam-se à nascença", só por esta frase, este relato era já apontado para um prémio de literatura de viagem. muito bom. adorei. ah! já agora seja bem regressada! :))

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  8. Por acaso ainda deixei um ou outro escapar :p ahahah

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  9. Turquia, era um pais que não me importava nada de visitar.
    Espero que tenham sido umas boas ferias.
    Obrigada pela visita :)
    Beijinhos

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  10. Turquia nunca fui mas a minha irmã teve uma experiência que pode levantar dúvidas. e mais fotos, não?

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    1. Fotos são mais que muitas...mas já sou tão chata com palavras que se meto para aqui fotos ainda me deserdam do blog

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    2. fotos yes, we like muitas fotos :)

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  11. Sinto que há muitos países europeus (aka) culturalmente mais próximos que gostaria de visitar antes de fugir muito da "zona de conforto". Como ainda não tive a possibilidade de o fazer muito, acho que só daqui a uns bons aninhos é que volto a pensar nisso. Esta dicotomia crítica/fascínio só prova que o choque cultural foi grandinho :P

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  12. Nunca mais tinha vindo ao teu blog. Estou a ver que foram umas boas férias. :)

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  13. Gostava imenso de visitar a Turquia, e só não o fiz este ano porque... pais. Preferem que fique mais "cá na Europa". Enfim, hei-de ir à Turquia um dia, seja como for. Espero que tenhas gostado e que te tenhas divertido! Pelo que vi, sim :P

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