domingo, 1 de junho de 2014

Sem censura

A música é pornografia no seu estado mais límpido. Umas exibições são magnificas e gostaríamos de alcançar a performance do artista, outras não percebemos o que está a acontecer e se aquilo sequer se enquadra como prática da actividade, e há ainda as que desejávamos nunca ter presenciado porque a imagem nos irá perseguir até ao fim dos nossos dias. Ir a concertos para mim sempre foi a definição clara de êxtase e, este fim-de-semana, apercebi-me que passei a adolescência a antecipar o momento em que poderia ver os meus artistas favoritos ao vivo e fazer parte daquele frenesim de emoções que é um concerto e, agora, após ter ido a um bom número, apercebo-me que estou a ficar velha de mais para isto, como um adolescente experimentalista, agora adulto cansado e marreco, começo-me a contentar com a posição de missionário.

O roçar de corpos e suor costas abaixo pode soar a algo sensual, mas quando falamos de um festival, sendo o suor de milhares de corpos dos quais uma razoável percentagem não leu o manual de como empregar desodorizante, a sensualidade fica-se pela possibilidade de batermos com a cana do nariz no gradeamento, bloqueando as fossas nasais. Ouvir a pessoa ao nosso lado assassinar cada palavra da nossa música favorita, parecendo estar a entoar o hino israelita em vez de uma balada em inglês, e tolerar guinchos de contentamento de fãs por cada vez que o cantor expira, sob a constatação que ainda não se esqueceu de respirar, são pormenores aos quais já estou imune. Porém, cada vez mais é comum que crianças sem amor à vida assistam a concertos sem presença dos pais. Acho que a regra deve passar por proibirem a sua entrada ou por os atarem a postes ao fundo do recinto para não terem tendência a fazer mosh pits, impedindo de ver os concertos aqueles que efectivamente pagaram pelos seus bilhetes e não os obtiveram por consolação de só ter chumbado a duas disciplinas. Volta e meia um come a cabine de som ou o pé de alguém e lá tenho que me rir, o que é desagradável. O mosh pit foi criado, exclusivamente, para concertos em que nem com legendas se percebe o que o cantor diz, então de pouco serve estar parado, mais vale correr feito um gnu.

Assisti a um concerto em que o artista atirava bolos à cara do público em delírio com a ideia. Ao que parece o negócio das pastelarias já não é tão próspero como antigamente, pois visivelmente nenhuma daquelas criaturas via um bolo há anos. Eu compreendo o encanto de comer depois de tantas horas ali em pé, mas ficavam mais bem servidos se o homem tivesse atirado umas febras.

Nada se equipara à sensação de estar num recinto cheio de pessoas que partilham os mesmos gostos (de pastelaria) e a constatação de que se ocorre um desastre natural não há safa possível. Cantar em uni som faz-me crer, erroneamente, que não canto assim tão mal e ouvir um “com licença”, antes de nos empurrarem, ganha todo um sentido bíblico. Não obstante, vou ter que deixar de ir a concertos, por estar a perder o fio à meada no que diz respeito aos seus conceitos e achar que pelos preços cobrados deveríamos estar imunes à ressaca no dia seguinte.

5 comentários:

  1. Não sei o que é estar num concerto desta dimensão, mas acredito que para quem lá esteja não seja fácil. Acho que, em alguns momentos, acaba por se perder o respeito, porque o que importa é encontrar o melhor lugar e se isso implica correr desenfreadamente e levar alguém à frente então que seja porque não vão parar. Gostava imenso de, por exemplo, ir ao Rock in Rio, sobretudo pelos artistas e pela experiência, mas o facto de ser de longe e de os preços não serem propriamente convidativos não são pontos a favor. Quem sabe um dia consiga, e se sobreviver hei-de relatar o que senti :p ahahah

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  2. Só vou a concertos à borla e o último a que fui, em agosto passado nas festas do mar em Cascais, ao fim de duas horas de pé e a levar empurrões, deixou-me sem conserto nem vontade de lá voltar este ano, a não ser que me paguem a gasolina e as febras. Ahahah

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  3. Tivesse ele atirado entrecostos e era ver gente de cabeças partidas a levar com o osso na tromba :D. A mim só há duas bandas que me levam a largar 60€ por um bilhete, fora isso, nem que venha o melhor cartaz dos 50 anos com bolos à mistura.

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  4. Acho que o atirar dos bolos tem que ver com insucessos culinários caseiros...estamos a falar de eletctro house e o Steve só para atirar com bolos `a cara dos clientes...são gostos, não considero sequer uma pequena dose de imaginação!

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  5. Já que aqui se fala de música, digo eu para a abotoadura: “Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão?!”.
    Trata-se de um adágio!) popular que a minha avó me ensinou. Ela que também se fartou de pular nos anos vinte do século passado, quando dançava ao som daquela canção que dizia ”Mamã compra-me uns sapatos que estes já estão gastos de dançar Charleston”.
    Significa isto, que vou comentar sobre um assunto que me passa “a latere” ou melhor, eu é que lhe passo ao lado e bem longe, por causa dos engarrafamentos.
    Nada tenho contra os concertos. Quando não há sintonias, a minha liberdade de gosto acaba onde começa a dos outros,
    Também assisti a alguns bem empolgantes na era pré-roda. Hoje recolho-me em espaços fechados, género CCB, Culturgest, Coliseu, etc. E em vários géneros de música.
    O Último mega(digo eu)concerto a que assisti tinha gente de idades várias: vinte - muita gente (!)-, trinta, quarenta, cinquenta, cinquenta, cinquenta... quando se chega aqui, os anos parecem um disco riscado, não avançam(risos).
    Foi no Pavilhão Atlântico, cheio que nem um ovo, (nada de Tonis) e o Aznavour cantou vinte canções vinte, sem direito a encore nem mosh pit.
    Nada de pornografia, apenas um toque de sedução e erotismo soft.


    E por aqui me fico. Se entender que não deve publicar, não hesite porque eu compreendo perfeitamente e não fico melindrado. Acredite.

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