domingo, 18 de maio de 2014

O fim é o começo

Um relacionamento amoroso é algo sagrado, com o poder de revelar em nós o apogeu da felicidade e cujo rompimento devia ser ensinado na pré-primária. Em criança terminar com o primeiro namorado passa pela azáfama de chamar o petiz de mal cheiroso e de o empurrar para uma poça de lama, quando crescemos ganhamos um senso de responsabilidade que nos impede de empurrar namorados para o esgoto, levanto a todo um ritual de término, equivalente ao acasalar de pavões, muita dança para contornar a questão e esvoaçar para distrair os olhares, mas pouca conversa.

É de um comodismo incomparável nos mantermos com alguém quando não estamos felizes. Uma situação desconfortável é arrastada por meses, senão anos, na esperança que uma viga o atinja numa zona essencial do cérebro e ele agradeça doravante a nossa existência ou simplesmente lhe dê o badagaio, evitando as típicas conversas desagradáveis de rompimento. O manancial de frases criadas para atenuar a situação já se tornou de tal modo senso comum que não há uma maneira subtil de atingir o assunto. Enviar uma mensagem a dizer, “temos que falar”, tornou-se o culminar do pânico do nosso parceiro, quando na realidade só queremos saber se comprou areia para o gato.

Hoje li uma notícia que vítimas de violência doméstica aguardam em média 13 anos antes de romper com o seu companheiro. A menos que estejam a planear com tórrido pormenor como lhe dar com a torradeira na cabeça, custa-me compreender tamanha angústia preservada por tanto tempo. Homem que me toque vai descobrir que, “o que é que faz um saco preto atado a boiar no Tejo”, não é o começo de uma anedota. Compreendo que há situações deveras complicadas, mas a vida é curta demais até para cornetos sem o fundo de chocolate, quanto mais para abusos do nosso espaço físico e psicológico.

Começa sempre com uma frase de introdução exacta o suficiente para o nosso companheiro saber o desenrolar da situação e evitar perguntas redundantes. Passa sempre pela explicação que no começo não tínhamos conhecimento dos seus hábitos nojentos ou ambição de viver às nossas custas por inércia crónica (ou mulheres politicamente correctas traduzem isto para “não és tu, sou eu”, o que é uma aldrabice que saiu na lateral da embalagem da farinha Amparo no tempo da avozinha). Um chora, o outro acompanha por solidariedade e alivio de finalmente ser livre. Passado uma semana um deles decide que quer manter uma amizade, que não vai saber manter porque ainda não compreendeu o porquê de ter levado com os pés.

Há uma panóplia de razões por detrás de um rompimento amoroso, cada caso é um caso, mas na grande maioria das vezes, quando termina a paixão, uma relação mantém-se pelo comodismo. O conforto de saber que, mesmo que não seja perfeito, conhecemos aquilo com que podemos contar e, duvidosamente, irá ficar pior. Aliado a todo o reboliço emocional envolvente, terminar uma relação é um pincel de todo o tamanho. Quer seja por comodismo, ou, tal como eu, pela vontade de ascender a nível espiritual e ser um dia canonizada por um nível de paciência sem precedentes, nunca se esqueçam que em primeiro lugar está a vossa felicidade.

 

32 comentários:

  1. «nunca se esqueçam que em primeiro lugar está a vossa felicidade», acho que esta frase é fundamental! Quando se está numa relação têm que querer os dois o mesmo. E quando digo isto é no sentido de ambos quererem remar para o mesmo lado. Não adiantar manter uma relação por comodismo, mais cedo ou mais tarde irá acabar, e talvez acabe da pior forma possível, quando já não se conseguirem falar e faltar o respeito.

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  2. Terminar dói. Não terminar pode doer mais.

    Beijinhos Marianos! :)

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  3. Infelizmente é sempre doloroso... terminei um relacionamento de mais de três anos quando tinha 19... custou-me tanto. O amor acabou, mas a amizade e o carinho serão eternos.

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  4. tão verdade que doí.
    tão acertado neste meu momento que desconcerta.

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  5. Mais nada! São precisos "tomates" para se ser feliz ;))))

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  6. Concordo mas o comodismo não é sinónimo de felicidade :/

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  7. Viva!
    Hoje tive um tempinho extra, para poder ler e comentar como deve de ser.
    Normalmente uso o G+1 para marcar presença, mas nem sempre me satisfaz.
    É um privilégio ler escritos bons, e eu vou tentar ser mais presente.
    Abraços e beijos. D

    http://acontarvindodoceu.blogspot.pt

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  8. Quanto à violência doméstica, uma vez ouvi isto: "Da primeira vez, você é vítima, da segunda já é cúmplice". Verdade, das incontornáveis. Apesar de, logicamente, ser assunto do qual falo sem conhecer na primeira pessoa.
    Quanto à "nossa" felicidade em primeiro lugar, é tudo mais tranquilo e claro desde que não haja filhos.

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  9. É isso mesmo, acima de tudo, amor próprio.

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  10. A renda da casa dividida por dois, vale bem uns sopapos nas trombas.
    Digo isto com conhecimento de causa, porque é assim comigo. Ela bate-me, mas lava-me a roupa e remenda-me as meias... e paga metade da renda. Ahahahah

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  11. Gostei muito do que escreveste (gosto sempre), e tal como tu não entendo como há pessoas que demoram tanto tempo a desapegar-se de alguém que lhes faz mal a todos os níveis... Mas é a tal coisa, há casos muito complicados por aí e pessoas extremamente violentas... e quando a vítima se desapega da relação, é o seu fim... e outros morrem tentando.

    :/ é um tópico muito complexo e triste.

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  12. Acho que o principal é gostarmos de nós e não estarmos dependentes da outra pessoa...
    R: Pois, isto aconteceu já há um mês, embora eu não o conheça, falávamos todos os dias praticamente, e fiz-lhe um scan dos livros inteiros de exame de fq e biologia, de uma hora para a outra ele deixa de falar, não responde a nenhuma sms, entra no facebook por instantes e não vê mensagens, não lhe liguei porque tenho medo que ele se tenha fartado e afastado, e ter a certeza disso eu.

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  13. Quero mesmo tentar compreender o porquê de haver quem suporte anos de maus tratos, sejam físicos ou verbais. E até quem se recosta numa relação que de relação só tem o facto de se conhecerem.
    Tento não julgar com demasiada dureza, mas há alturas em que é complicado até porque "a vida é curta demais até para cornetos sem o fundo de chocolate" ;)

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  14. Terminar nunca é uma situação fácil, seja para quem for, não acredito que seja. A não ser que a pessoa seja desprovida de sentimentos, não é agradável ver o outro sofrer. De qualquer das formas, aguentar uma relação partida também pode ser nocivo. Sou a favor de quando não há amor, é melhor seguir em frente. Apesar de quem hoje em dia e principalmente nesta fase do campeonato muitos aguentam-se pois a partilha de despesas é um ponto a favor. ( conheço muitos assim).

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  15. " O conforto de saber que, mesmo que não seja perfeito, conhecemos aquilo com que podemos contar e, duvidosamente, irá ficar pior." Concordo plenamente
    r: Obrigada pelo apoio :)

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  16. Partilho a tua opinião, devemos lutar por mais difícil que seja o caminho. Quando a luta já não valer a pena então é porque é hora de abraçarmos outra

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  17. É sabido que entre os seres vivos -deixemos de lado as “pedras”, por não aplicável- o Cisne é o mais famoso animal monogâmico. E não obstante (risos), vive feliz e a prova é que canta antes de morrer.
    Ao contrário de uma vizinha aqui perto que deveria ter “morrido” antes de cantar.
    Mas essa é a minha opinião, já que ela faz as delícias da audiência em redor, com as versões muito pessoais das cantigas românticas do Tony, que lhe saem pela janela a partir das oito da manhã, numa concorrência desenfreada às manifestações ruidosas das fossas nasais de outro vizinho que ressona até ao meio-dia.
    Mas deixemo-nos de manobras de diversão e vamos às coisas sérias, ainda que muito em síntese:

    O ANTES, i. é, o princípio, era o verbo, perdão, era a sedução.
    A estratégia simples; um olhar de modo de pássaro, um sorriso tímido, um leve estremecimento da face, um toque “casual”, tudo por iniciativa da mulher e pode passar-se à fase seguinte, quando há uma transferência e o homem aparece mais desinibido e, sobretudo, “convencido”
    O encantamento vai aumentando, mas a iniciativa muda de parceiro, agora já contempla um jantar, um diálogo mais profundo e, sobretudo, música.
    Shakespeare disse: Se a música é sedução, toquemos.
    A seguir vem o DURANTE, em que ambos se confessam, mutuamente, mais ou menos assim: «un peu - beaucoup - passionnément - à la folie».
    Por fim, ou seja, DEPOIS a coisa ir-se-á diluindo de maneiras diversas, com convulsões ou de forma civilizada e entediante, até acabar ou durar para sempre.

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  18. Acabar uma relação nunca é fácil... Mas às vezes é o melhor que se tem a fazer a bem até da saúde mental...
    Excelente texto ;)

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  19. Cada macaco no seu galho. Lá se diz.
    Todas as relações são distintas. Percorrem caminhos opostos ou mesmos semelhantes, mas nem todas terminam do mesmo modo.

    R.: Eu adorava ter uma máquina de costura antiga, mas não tenho espaço para isso nem dinheiro para comprar uma. Então fico com a minha querida que já tem uns quatro anos mas faz tudo o que quero.
    Podes sempre aprender a costurar na net. Sempre que tenho dúvidas sobre qualquer coisa sou um saltinho ao google e é-me sempre bastante útil.

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  20. terminou; depois disso, a sensibilidade de cada um para gerir o términus e o que há de vir, é que mandam no novo ciclo! achou eu!

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  21. Por isso é que depois de muitos anos eu sei ver que primeiro está a minha felicidade e então depois vem a do outro... às vezes bem mais depois. Se eu não estou bem será difícil manter outra pessoa feliz!

    Obrigada pela dica do Google Tradutor para o Blogger :)

    Ana,
    http://lights-colours-sounds.blogspot.co.uk/

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  22. Sim, é tudo muito bonito. A felicidade está primeiro e coiso, no entanto, partir em busca dela sem magoar o outro é que se torna difícil... São situações muito delicadas... Espero nunca mais passar por isso! :)

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  23. Aqui está um texto maravilhoso do qual eu concordo profundamente!! ;) é isto mesmo!!

    [uma delícia ler-te. Quando for grande quero escrever assim ;)]

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  24. sim concordo, em primeiro lugar está mesmo a felicidade de cada um de nós!

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  25. Muito obrigada pela mensagem de Feliz Aniversário,um grande beijo

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  26. Há tantos motivos para se aguentar situações no limite e impróprias para qualquer ser vivo.

    Somos complicados ou talvez só o queiramos parecer.

    Beijo

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  27. Cornettos sem fundo de chocolate nesta vida é que não! Totalmente intolerável :) (não sei se escreveste este texto porque sim ou porque estás a passar por isso, mas boa sorte para o que quer que seja). **

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    1. Felizmente escrevi este texto porque sim...mas obrigado =)

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  28. As pessoas acomodam-se a tudo. Quer nas relações quer em tudo na vida. As mudanças são sempre complicadas e há pessoas com dificuldade em encará-las.
    beijinho

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  29. Por vezes é dependência económica. Outras vezes emocional.
    Não se entende mas acontece. E há pessoas que nunca conseguem atingir a auto-estima suficiente para irem embora.

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