sábado, 10 de maio de 2014

Nascer com cara de empadão

A dádiva da maternidade equipara-se em grande escala a ser abduzido por uma forma de vida extraterrestre. O cérebro da portadora é sugado até o auge do seu raciocínio ser a constatação que ainda tem cinco dedos em cada mão e a sua memória torna-se equivalente à de um peixinho dourado com demência. Antigamente havia uma maior resistência por parte das portadoras, sendo o maior sintoma o crescimento da incubadora móvel e incapacidade de controlar sentimentos. Porém, nos dias que correm, com facilidade as portadoras transformam-se em monos cerebrais e físicos, incapazes de efectuar a mais simples das tarefas.

Não há bela sem senão e uma gravidez acarreta implicações, como cuidados extra de alimentação e precauções para não escorregar e rebolar ribanceira abaixo. Lembro-me, como se fosse ontem, de ver mulheres de barriga imensa a trabalhar e comer como um ser humano. Subitamente, com duas semanas de gestação, mexer qualquer membro tornou-se um combate contra a gravidade, toda a gente é alvo de uma gravidez de alto risco (inclusive o futuro pai e a tia que está na menopausa) e a alimentação passa por mais restrições do que a de um gato com prisão de ventre.

O conhecimento sobre doenças, infecções e problemáticas possíveis numa gravidez são cada vez mais conhecidas. Não há benesse maior no avanço da medicina e há realmente cuidados a ter, mas há mulheres que agem como se o seu feto nascesse prematuramente a relinchar de entusiasmo por presenciar, através do umbigo da mãe, alguém num mesmo restaurante a comer deliberadamente uma folha de alface. Intriga-me o motivo por detrás das grávidas se dignarem a jantar fora, quando estão cientes que não há nada em menu algum que possam comer sem colocar objecções. Não fique à espera que um empregado de mesa vá ao Alasca pescar o mais fresco peixe e tirar as suas escamas com as mais delicadas pétalas de rosa, quando o vosso marido não se arrasta nem ao frigorífico para vos passar o leite.

As minhas observações, obviamente provenientes de alguém com o relógio biológico algo perro, limitam-se a tentar ilustrar que há momentos para ser vividos intensamente e um deles é a gravidez. Há mulheres demasiado obcecadas com a alimentação, só comendo fruta portadora de uma personalidade forte e bifes provenientes de vacas mais brancas que pretas, porém não abdicam de álcool e tabaco. Se os médicos não vos fizeram um desenho ilustrativo do mal que certos vícios podem provocar numa gravidez é porque partem do pressuposto que vocês têm um quociente de inteligência superior ao de um castor. Ingénuos! Cada vez que vislumbro uma mulher com uma barriga do tamanho de uma melancia de tão grávida que está, a fumar como um camionista ansioso só me apetece cumprimenta-la com uma cadeira no nariz.

Dizia-se que mal fazia não corresponder aos desejos, se havia apetite para um empadão tinha que ser comido ou a criança iria nascer com cara de empadão. Obviamente que os cursos profissionais de cozinha não davam vazão a tantos futuros pais. Subitamente a medicina entreviu e a única coisa que se pode apreciar num empadão, quando grávida, é o cheiro. Azares infelizmente acontecem, mas, quer culpem os tomates crus da salada ou os do vosso marido, se viverem cada momento da vossa gravidez sem ataques hipocondríacos, certamente nascerá uma criança saudável e com menos tendências paranóicas que vocês. 

11 comentários:

  1. ahahahaah Amei! Talvez também pense assim por não ser mãe... No entanto, uma coisa é certa, também me apetece cumprimentar uma gravida "a fumar como um camionista ansioso" com uma cadeira no nariz! :)

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  2. És a maior :) Pensei que viesses anunciar que ias ser mamã, mas pelos vistos ainda não foi desta.
    Por falar em fumar, faz-me confusão aquelas pessoas que usam como foto de perfil, nas redes sociais, uma em que estão de cigarro na mão. É tão deselegante. :/

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  3. Gravidezes de risco que são as grandes responsáveis pelo aumento das crianças hiperativas. Aquelas que andam pelos centros comerciais a atirarem-se para o chão e a berrar.
    Tudo muito chique nos dias que correm.

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  4. Defendo os cuidados com a saúde, mas nunca caindo no exagero. A vida é para ser desfrutada.

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  5. Uma grávida tem que ter mais cuidados, mas também não é preciso levar a coisa ao extremo. Viver obcecada com a alimentação também não trará benesses, aliás, só fará pior. É preciso desfrutar do estado em que estão e viver esse momento com consciência, mas relaxadas. O pior mesmo são mesmo as grávidas que embirram com toda a comida e mais alguma porque acham que vai fazer mal à criança, mas depois não se privam de beber álcool nem de fumar. Não consigo ver grávidas a fumar, dá cabo do meu sistema nervoso

    Sim, isso também é verdade, mas sei que este ano não estive tão presente quanto gostaria. Ainda assim, aproveitei quando estive e levo boas recordações.

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  6. Uma grávida que fuma é bem capaz de dizer que tem cinco dedos em cada uma das quatro mãos, porque não as distingue dos pés, especialmente quando a melancia não lhe permite vê-los aí a partir do sexto mês.
    O seu QI situa-se nos dois dígitos, pelo que é injusto compará-la ao castor, que não precisa sequer de ser loiro alto e ter olhos azuis para competir com um engenheiro hidráulico. Diria antes que está mais perto da galinha poedeira e mesmo assim...
    Mas, atenção, o parceiro, seja ele camionista ou professor catedrático, não fica isento e até tem culpas agravadas, se não usa prerrogativa de poder ir fumar para a rua e evitar que o bebé seja um fumador passivo, enquanto a futura mamã não pode pedir-lhe para tomar conta do feto, enquanto vai tabaquear para a varanda.
    Um tabuleiro de empadão e uma cadeira (a ordem dos factores é arbitraria) em cheio nas “fuças” de ambos os fumadores devia fazer parte do receituário dos obstetras.
    Quanto aos ataques hipocondríacos, a questão reveste-se de alguma complexidade, sobretudo por causa do valor semântico da expressão “tomates”. É que se os da salada podem ser evitados, aos do marido deve ser reconhecido o desempenho anterior.
    Sim, porque espírito santo só houve um e qualquer marialva desconfiado, mesmo “humanista”, talvez não consiga perceber que é inconveniente agredir a companheira durante a gravidez e esquecer que tem muito tempo depois para o fazer...

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  7. Vim cá porque tu foste lá e gostei tanto que quero cá ficar. Onde é que me faço seguidora? Isto não é normal, o teu deve ter os mesmos problemas (mentais?) que o meu tem :)

    Quanto ao assunto do post, palmas! Eu já trabalhei num sítio com mais sete mulheres, em que a única que fumava era a grávida. É claro que lhe nasceu um rebento magro, amarelo e cheio dessas coisas com que elas depois chateiam meio mundo e as entretêm nas horas vagas, que são as bronquiolites.

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    1. Já consegui, seguindo o manual de instruções. O botanico é meio escondido e está disfarçado no masoquismo, mas cheguei lá na mesma :)

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  8. Exacto, o pessoal anda todo stressado :P

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  9. A gravidez é um dos temas que mais alterações vem sofrendo no debate de obrigações/deveres versus racionalidade, e na forma como individualmente se lida com a situação. Porventura, por se tratar de um medo que se apropria das mentes mais ou menos rijas, muitos (vou para lá da grávida) ficam toldados pela malfadada necessidade de parecer perfeito. Por fim, agradou-me, uma vez mais, o sentido apurado da tua perspectiva.

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  10. Nunca estive grávida, por isso não sei como reagiria estando. Mas concordo em pleno contigo. Sobre tudo.
    beijinho

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