terça-feira, 6 de maio de 2014

De ficar com olhos em bico

A calçada conta as histórias de quem já a pisou, os muitos que pararam para admirar os monumentos erguidos em volta. Notam-se os traços renascentistas aqui e além, que passam despercebidos entre o cheiro a café e pão que se faz sentir, em tempos pré-romanos conhecida por Olisipo, hoje em dia Lisboa, em breve Macau Parte II – O Encher de Chouriços Histórico.

A colonização de Macau foi aquele presente de Natal que a tia afastada nos oferece e de bom tom sorrimos e agradecemos, mas encafuamos na cave porque já sabemos à partida que não lhe vamos dar o uso apropriado. Ao passear pelas ruas de Macau vemos vestígios portugueses, dos pasteis de nata cuja receita lhes deve ter sido ensinada em português, língua que desconheciam e por isso sabem a ovos mexidos, a calçada portuguesa mais básica e alguma má disposição por parte de taxistas aquando da intenção de percorrer trajectos curtos. Era pedir a um ferreiro para confeccionar um bolo. Portugal não sabia o que fazer com aquele território. Porém, desde que houve a renúncia à propriedade do território macaense a sua evolução económica tem sido enorme. Passou de poiso de amantes exóticas de muitos portugueses, para Las Vegas asiático.

Bancos com fachadas meramente escritas em mandarim, lojas que tudo vendem em que a língua oficial é o cantonês, onde se entra para comprar uma esfregona e se sai com uma caixa de palitos e nos damos por felizes, problema nosso se não percebemos as instruções de uso fornecidas pela comerciante para eficazmente lavar o chão com palitos, e tuk tuks, em todo o lado e de todos os tamanhos, o que começou por ser amoroso torna-se agora ridículo, quando têm mais lugares que uma limusina. Estamos lentamente a tentar transformar a capital portuguesa numa cópia do nosso projecto falhado, agora, bem sucedido.

Compreendo a parte do empreendedorismo, mas quando damos por nós a ver uma senhora de tamanho considerável a sair de uma tuk tuk a motor para a empurrar colina a cima, leva-nos à constatação que isto é o mero extorquir da cultura dos outros, por algum motivo não são o meio de transporte nacional, nós temos colinas! Haverá algo mais irónico do que uma traineira que não aguenta um pouco de inclinação ser a moeda de troca por todos os portugueses que viajam diariamente para Macau à procura de trabalho? Colonização com colonização se paga. Perdemos a nossa oportunidade com Macau, não é por termos tuk tuks com a cara de Fernando Pessoa estampada a subir a rua da Sé que nos vai redimir do quanto os afundámos e curar a dor de cotovelo de terem vindo ao de cima sem nós, e acima de nós.

8 comentários:

  1. Quem é que não está a cima de nós?
    Nós até temos boas ideias, o difícil é aplicar as ditas ideias à nossa realidade.
    Ahh....e capital Isso tb falta! ;)

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  2. A História já era, ou seja, ficou para a História. O mais perto que estive de Macau foi a, mais ou menos, 11 mil quilometros.
    É tudo “chinês” para mim que não consigo distinguir o Cantonês do Mandarin (rimou). Sem qualquer conotação racista -que fique claro- são todos chineses e, falhado que foi o projecto de um tal Stanley Ho, de fundar uma Chinatown na margem da marginal, ficámos sem a Las Vegas de Carcavelos e o cidadão-jogador tuga teve de continuar a contentar-se com o Estoril e a perder uns euros em lugar de uns mops ou yuans.
    Quanto ao sobe e desce, a pé ou de tuk tuk, para ir às compras, uma coisa é certa, basta espreitar as montras das lojas chinesas, para dar-mos conta de que se estão a produzir com mais qualidade produtos de menos qualidade e os preços já nos deixam os olhos em bico.
    É a verdadeira vingança do chinês... ou do macaense.

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  3. Acima de nós, parece-me que está tudo.

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  4. Tentarmos reproduzir uma realidade que não é a nossa só nos tira identidade

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  5. Gostei muito da sua análise. Vivi em Macau bastante tempo e, talvez tenha sentido o seu post ainda melhor.

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  6. R: Depende tambem das pessoas que nos rodeiam e nos tentam mandar abaixo...

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  7. De facto, numa cidade como Lisboa, essas tuc-tucs não dão jeito nenhum.
    beijinho

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