quarta-feira, 23 de abril de 2014

Uma vida em série

Uma boa série televisiva é composta pelos mais extraordinários efeitos especiais, história eloquente e representações memoráveis. A minha vida se fosse uma série não passava do piloto, sendo que os efeitos especiais ia ser a minha avó vestida de yeti a atirar confettis no canto superior direito do ecrã. A minha representação da vida é duvidosa até na realidade, não há actriz que pudesse ser credível o suficiente para vender o peixe de tal pasmaceira adornada de momentos estapafúrdios. Estaria a contribuir para o insucesso garantido de todos os indivíduos envolvidos na produção, que nunca mais conseguiriam um emprego num clube de vídeos, quando mais no cinema. Não que duvide do meu talento natural para ser uma dona de casa desesperada ou produzir metanfetaminas na cave, mas o meu real talento passa por comer e bocejar segundo a arte ancestral apenas dominada por hipopótamos.

A minha fixação com séries começou e terminou com o Lost, desde então, devo-me achar mais que as massas por ter sobrevivido aos enredos da série, e não acompanho as novidades mais badaladas. Vejo episódios soltos de séries que me parecem interessantes, mas já passei por uma separação agressiva e não sei se o meu coração será capaz de mais sem dar de si. Sei que estou a entrar numa espiral sem retorno quando dou por mim a coreografar a música introdutória, a imitar a voz do indivíduo mais enigmático do mundo que relata o episódio anterior e a criar regras que envolvem só o visionamento da dita série na minha presença com um fim de relação irreversível caso tal não seja cumprido.

As séries abrem portas numa relação que antes nunca pensámos existir. Qual traição com uma russa vesga que nos faz crer que não somos valiosas o suficiente para o ritual monogâmico. Nasce, como por milagre, a autorização de traição caso a nossa personagem favorita aparecesse como uma oferenda, enrolado em papel celofán como cabaz que se preze, à nossa porta. Já tive relações mais sérias com personagens do que com namorados. Fizeram-me jurar deixar de ver a série se morresse, gritar cada vez que disparam armas na sua direcção, achar as suas companheiras sexuais umas badalhocas perversas e chorar de rejubilo quando se apaixonam por uma matrafona, criando a irreal esperança para criaturas moderadamente matrafonas como eu.

Quem nunca usou uma expressão da sua série favorita, apesar de extremamente desadequada visto que nem se trata da língua em uso no nosso pais, ou se fez crer alguém especialista no assunto presente na série (aplicável a tráfico de órgãos, investigação criminal ou morder pescoços), não perceberá a magia de uma boa série. Com altos e baixos como qualquer relação, as séries proporcionam-nos a sensação de casamento, com duração para lá de uma década e criando a hipótese da série ver o nosso fim antes de nós o dela.

22 comentários:

  1. Essa é que é essa... Uma pessoa envolve-se de tal maneira que prontos. Fizeste-me lembrar de"Friends". Quando acabou chorei baba e ranho como se tivesse perdido seis amigos de verdade '--

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  2. Há uns anos, não muitos, tinha uma série para cada dia da semana, sempre acompanhei as da foxlife e as do axn (ainda que a foxlife ganhe com larga vantagem). Tenho aquelas que, por mais vezes que tenha visto o episódio, não consigo mesmo deixar de acompanhar. E sei que um dia que a minha série favorita acabe vou sentir um aperto grande no coração. É que uma pessoa habitua-se ao enredo, às personagens, que depois é difícil perceber que talvez seja a hora de não haver mais nenhuma temporada.

    Beijinhos*

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  3. Eu assumo-me...sou uma geek de séries do fantástico.
    Neste momento vibro, estremeço, babo-me e quase me mijo cada vez que vejo um novo episódio de Game of Thrones. Ahhhh .... e tb estou a adorar Hannibal.

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  4. Também sou viciada em séries. Comecei com uma que dava na 1 que era a Invasão, era estranha mas gostava dela. Já do Lost nunca gostei mesmo. Já o Breaking Bad para mim foi a melhor delas todas que me ia arrancando o coração e quando acabou larguei uma lagrimita :-(

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  5. revejo-me em absoluto no último parágrafo.
    A minha série de eleição é Seinfeld e depois dessa a Balada de Hill Street.
    Das novas não sigo rigorosamente nenhuma.

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  6. Opah, tão bom!!! Adoro ler-te!!! :) Tens tanto, mas tanto jeito com as palavras.... :)
    Adoro a forma como consegues que eu imagine nesta minha carola todos os cenários que conjugas.... É simplesmente maravilhoso! :)

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  7. Completamente. Também sofri da depressão pós-Lost. Não conseguia imaginar-me numa relação com uma série depois daquela. Aquela era "A Tal". Mas a verdade é que o tempo cura tudo, e que entretanto já tive muitas outras depois dela. Presentemente estou numa relação sólida com Game of Thrones, embora também tenha sentimentos fortes por Californication. Mas tenho outras. Muitas outras! :P

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  8. Eu adoro bacalhau, mas não aguento comer batatas com bacalhau todos os dias. :)

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  9. Amiga bom dia texto maravilhoso realmente essa serie é ótima
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br

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  10. A verdade nas tuas palavras! Sempre o tom que convida à imaginação, contudo, leva a realidade pelo texto fora :)
    Em tempos, eu e os meus amigos, roubávamos tempo para viver o episódio anterior e usar, de quando em vez, de expressões de séries que nos uniam. Lost, infelizmente, perdeu o encanto, a dada altura. Por força de outras circunstâncias.

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  11. Hoje em dia vejo 4 séries... viciantes!!

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  12. Assino por baixo o comentário que me deixaste :) é mesmo bom saber da existência de pessoas assim, que se preocupam com os outros e conseguem aproveitar o melhor das coisas para marcar a diferença de forma positiva

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  13. Definitivamente as séries contêm areia a mais para o meu balde, até porque a televisão não é a minha praia, prefiro vê-la no campo, aos fins de semana prolongados, onde, curiosamente, a relação bígama que mantenho com as duas “televisões” residentes é insólita, dado que me envolvo muito mais com a que é encorpada e profunda, experiente e sem falhas, do que com a delgadinha, cuja técnica, refiro-me à mira, não me seduz e está sempre a desiludir-me. Fica desfocada, vai-se abaixo com frequência e lá fico eu sem saber como acaba o programa.
    É o embuste usual das promoções que valem sobretudo pela aparência, já que, em termos de efácia, normalmente temos flop.
    Este foi um não comentário. A metáfora, perfeita, merecia melhor. Eu sei...

    Bom fim-de-semana

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  14. Não vejo nenhuma série fielmente, acho que nunca vi, não gosto muito de compromissos.

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  15. Ahahah reflexão interessante! Eu viciada em séries me confesso, uma vez que a minha vidinha é tão desinteressante tenho de ter algo que me tire da realidade, e ler um livro já não consigo porque nem os da faculdade posso ver a frente. E quanto a filmes sou muito mais selectiva :D por isso opto pelas séries. No entanto concordo com algumas coisas que disseste.

    Beijinho

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  16. É quase como se a série tivesse sido criada por nós :)

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  17. Eu rio-me, tipo maluca que devia estar internada no manicómio, com A teoria do big bang...e agora que penso nisso, ficopreocupada, porque eu vivo intensamente aquilo e uso expressões deles. Dou por mim a bater três vezes à porta e a chamar 3x, também, pela pessoa e depois rio-me sozinha, porque ninguém entende o motivo. xD

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  18. poucas foram as séries que me arrebataram, mas
    essas tornaram-se essenciais!

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  19. Sou uma pessoa de séries de todos os géneros e feitios mas aqui me confesso que não me identifiquei com o teu texto xD pronto, uma vez estava a ver uma série por insistência do meu irmão; não estava a gostar nada, só via por causa de um personagem, que morre no terceiro episódio. E eu deixei de ver xD gostei imenso do teu texto, tão bem escrito! :)

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  20. R.: essa é uma visão muito mais pragmática eheh

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