segunda-feira, 28 de abril de 2014

Quem sai aos seus

A decisão de se apreciamos o sabor e textura de um alho-porro é absolutamente nossa, a menos que a nossa mãe o triture na sopa, camuflando a sua presença e inibindo-nos de uma decisão clara e objectiva. Já a decisão sobre a família que temos, não nos compete, pois a menos que sejamos órfãos e toca a partir bibelôs até nos mandarem para outro lar, não há volta a dar e temos que ficar com a família que nos foi intrujada à nascença. Poderia reflectir sobre a minha mãe que se julga um segurança de discoteca, empossada dos mais belos músculos e olhar feroz, capaz de virar um rufia ao contrário mais depressa do que espirra, mas que na realidade é uma mãe de metro e meio com um cão de olhar feroz do esforço derivado da sua falta de visão. Poderia falar do meu pai, homem digno e forte, capaz de tudo pela família, mas que se lhe dá para o sentimento finge ser um cepo, incapaz de proferir pão, permanecendo inerte na esperança que as lágrimas fiquem confusas com a origem da sua natureza, desistindo da sua missão de ser jorradas como que da cara de uma criança que partiu o nariz num baloiço. Ou ainda da minha avó que toda ela é um filme de terror inserido num tutorial sobre tricô. Mas a minha tia é o centro do meu raciocínio actual.

Uma mulher que gosta de ocultar o seu coração enorme atrás de um sobrolho levantado de julgamento de ideias, ausência de reflexão sobre as palavras que lhe saem da boca e certeza que toda a gente devia funcionar através de pressão. Eu fui uma criança entediante de tão pacata, portanto, a minha relação com a minha tia foi agitada. Sempre julgou que eu não gostava dela ou a minha mãe me afastava dela por ser bruta, mas na realidade era a minha pessoa favorita e para a casa de quem eu fugiria a pé nos meus diálogos eloquentes e perfeitamente plausíveis de birra, nos meus sábios 10 anos de idade. As nossas conversas, simplesmente, não eram longas e eu acabava por me esconder atrás das pernas da minha mãe, porque ela me picava na esperança que eu deixasse de ser um tédio e ocupação desnecessária de espaço terráqueo e eu com falta de argumentos de tenra idade e sob a lição de não desrespeitar a família calava-me.

A determinada altura da minha vida, comecei a chocar com ela por sermos demasiado parecidas. A teimosia e mau feitio está na família, eu guardo estas qualidades para momentos especiais, ela usa-os nas chamadas telefónicas. Aprendi a lidar com isso e usar o pouco tempo que conseguimos falar ou passar juntas para de uma maneira meia canastrona lhe dizer que gosto dela, como se atirasse uma bomba e fugisse, a ver se não reparam que fui eu que proferi as palavras.

Passado tantos anos de convivência e tentativas de criarmos um meio-termo entre personalidades tão parecidas mas tão distintas, ainda hoje as conversas por skype são algo do género:
[Eu armada em amorosa] – Olá…como estás? [coço o olho por algo que me entrou para a vista]
[Tia sem filtros] – Olá...[com voz de quem vai estripar um frango] tira os dedos dos olhos, estás farta de te esfregar e não estamos a falar nem há um minuto!
[Eu a coçar mais para provocar] – Deixa-me coçar o olho, tenho comichão, a janela está aberta deve ter entrado alguma coisa.
[Tia capaz de agarrar no carro e me vir estrafegar] – Janela aberta? Com este frio? Estás parva?
[Eu a tentar relembrar-me porque é que liguei] – Não tenho frio, isso deve ser da tua casa. Estás bem ou não?
[Tia a indicar saudades subtilmente] – Ah…aquela casa onde tu não vais? Também não vou à tua enquanto não me vieres ver.

A conversa tem sempre uma introdução shakespeariana e acaba por divagar para um sítio totalmente fora de contexto, originando conversas curtas para nenhuma de nós pisar o risco inimigo e em seguida continuarmos a ser as bestas sem sentimentos que somos no quotidiano.

21 comentários:

  1. Olha, já eu assim que era "picada" respondia logo! Tinha sempre resposta pronta! Portanto podes imaginar os tabefes que levei por ser respondona com tudo e todos eheheheh

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  2. Oh pobre ex-criança amorfa.. pela forma como pintaste a tua Tia, imaginei-a na minha cabeça como a senhora do filme "Nanny Mcphee" :) :P

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  3. Normalmente chocamos com é muito parecido. Vocês falam na mesma língua e de certeza que se lêem nas entrelinhas.
    De vez em quando tb me dizem que sou parecida com uma tia já falecida que era muito resmungona! Tenho curiosidade de saber como lidaríamos uma com a outra.

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  4. Muito mas muito bom, parece que a estou a ver....................cinco estrelas

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  5. É bom termos pessoas com quem nos identificamos :) vocês as duas juntas têm ar de quem abana a barraca :D

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  6. uma tia desse calibre compensa qualquer momento entediante que tenha acontecido na infância. boa semana. :)

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  7. As pessoas como os imanes, quando colocamos dois imanes com os polos semelhantes juntos, os imanes repelem-se.
    :))

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  8. Tão gráfico como realista. Talvez, um pouco distante na forma exacerbada ou extremada a que roçam muitas vezes. Eu, por norma, tenho preferências pelas almas mais atrozes e adornadas de espírito. É uma questão de entretenimento :)

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  9. O alho-porro não faz parte do meu imaginário, nem triturado nem sob a forma de martelo.
    Sou mouro, sulista e elitista, como diz aquele parolo do Menezes que nunca mais aprende que o “b” não é a vigésima primeira letra do abecedário.
    O meu fascínio nórdico situa-se lá muito mais longe.
    Apesar da aparente contradição (risos), vou mais pelo Sto. António do que pelo São João, embora não me imagine a comer sopa de manjerico, com uma quadra popular a boiar no prato.
    Mas vamos ao que interessa, i. é, à conversa com inspiração shakespeariana.
    Recorro a um curto mas célebre diálogo da peça Hamlet:

    Polonius: what have you been listening to lately, Sir?
    Hamlet: Words, Words, Words.

    Sempre que falo (quer dizer...) com a minha tia, sinto-me um perfeito Hamlet. Suspeito mesmo que ela nem precisa de respirar, tem fôlego de mergulhador.
    Assim que eu introduzo o trivial:
    -Olá tia como... (ela engrena a caixa automática e só trava quando eu a interrompo cordialmente com um afectuoso)
    Gostei muito de a ouvir, até um dia destes.

    A propósito. Lembrei-me de repente que tenho de lhe telefonar, por isso o comentário fica por aqui ou então continuo, mas só amanhã, claro...

    Nota: Uma imagem de excelência

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  10. Oh, no fundo até é uma relação gira :)
    beijinho grande ♥

    http://naervilhadapolly.blogspot.pt/

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  11. Eu também tenho momentos assim. Tem um tio que eu adoro, mas não consigo ter conversas sérias com ele. xD
    E também esfrego os olhos para disfarçar, quando tenho conversas sérias. :)
    muah*

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  12. Ela é tão genuína no que faz que sabe cativar :)
    Foi mesmo estratégico. Pensei em começar a rubrica com aquele que, para mim, será sempre a minha primeira escolha (Rui Veloso) por ser o meu artista favorito de todos e de sempre, mas depois reformulei e achei que devia começar por aqueles que eu adoro, mas que não são tão conhecidos, precisamente porque estão a começar e o que fazem é de extrema qualidade. Obrigada!

    Não trocava a minha família por nada. Há familiares que não conheço tão bem e que, por isso mesmo, não temos essa relação próxima, mas os que estão comigo sempre são do melhor que podia desejar.
    Isso é amor, sem dúvida nenhuma. E poderem falar assim uma com a outra só mostrar que têm uma relação cúmplice

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  13. Na realidade eu acho que ninguém lida muito bem com os seus sentimentos e muito menos no admitir no que toca às saudades :) Mas que é um texto engraçado de se ler, é :D

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  14. Rá, adorei tua forma de discorrer o texto!!
    Gostei do teu cantinho também!
    Vem me visitar?
    Estou reactivando meu blogue!!

    Beijos chérrie!

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  15. Às vezes sinto-me assim, totalmente fora da minha família também... e ao mesmo tempo, talvez pelo meu modo de ser, sinto-me triste ou com uma espécie de medo de ser alguém mau, por ter esta vontade enorme de fugir para um local só meu, longe de toda esta confusão que todos os dias é em casa.

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  16. Ups... essa indirecta foi muito directa|!

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  17. desculpa a demora , mas já te respondi ao comentário no meu ultimo post. Mais logo passo por aqui, com mais tempo, para ler mais um dos teus maravilhosos textos :)
    beijinho

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