quarta-feira, 9 de abril de 2014

Monarquia de batatas

Na brisa que se faz sentir por entre as ondas de calor que nos rodeiam, oiço sinais de mau presságio para o nosso país. Ou pode ser o telefone a tocar. A única coisa que passa a imagem de opulência na minha vida são os gémeos das minhas pernas, que para os enfiar numas calças é um desafio, quando nos ligam do banco partimos do pressuposto que não será essa a opulência que procuram.

Atendo o telefone e oiço uma voz simpática que se apresenta e anuncia que agora sou uma cliente com direito a uma gestora de conta disponível numa extensão de horário estapafúrdio, sendo capaz de a interromper do jogging matinal ao momento em que deita os seus filhos, aliada a outros benefícios que serão preciosos para tratar do meu monopólio de dois dígitos ao final do mês. Enquanto falava e me afagava o ego com adjectivos que por momentos me fizeram crer que era rica, apercebi-me que o estado da nação é irremediável. Quando se chega ao ponto de ligar a alguém que transforma o Jumbo num musical em que a protagonista celebra numa valsa apaixonada a promoção das batatas congeladas e a cataloga como uma cliente Premium, faz com que esta seja a única cliente do banco, ou os restantes clientes estejam a dançar a valsa com o sal no corredor seguinte.

O que eles não compreendem é que não tenho vida para amigos e muito menos para gestores carentes que precisam que os tranquilize com números redondos. Não quero parecer rude e depois precisar de um empréstimo e ela me mandar ir fazer o pino para a Alameda para juntar trocos, interrogo-me se a deveria convidar para jantar, já que sou rica e posso. Não obstante, como minha nova melhor amiga podia tratar-me do IRS.

Chegou outra vez aquela fase do ano em que todos deveríamos inserir dados online sobre as nossas despesas, mas toda a gente paga à cabeleireira ou fulano do clube de vídeo para o fazer por si. Eu não espero um Audi (até porque aposto que quem o receber vai assinar com sangue), nem sequer uma empada, só gostava mesmo que não me esmiuçassem mais os bolsos. Acho que será mesmo a decisão certa pedir à Maria, minha gestora de conta e melhor amiga, que me trate disso e falcatrue uns números em prol do emprego dela, pois a nossa amizade pode não sobreviver a um mau IRS. 

11 comentários:

  1. eu, quando recebo telefonemas desses, em geral são para o meu marido- o que me dá imensa alegria- pensar que estou casada com um magnata. como não sou eu a tratar do "iérreésse", mais me convenço que estou no topo da cadeia fiscal...quando caio na realidade, tomo chá de tília para começar a acalmar...

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  2. Eu conto com o marido para tratar disso, mas esta altura é tão crítica... é sempre um desespero!

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  3. Ainda te estou a imaginar a dançar valsa na secção dos congelados do Jumbo, agarrada às batatas. Imagino como serás tu às compras nos Saldos.. ;)

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  4. Os sinais de mau presságio resultam da tentativa das Marias e dos Manéis -quase em desespero- tentarem vender o vigésimo premiado aos incautos que caiem na esparrela de atender o telefone ou parar quando lhes fazem esperas à saída das escadas rolantes nos centros comerciais, caso em que é vantajoso ter uns gémeos bem fortes para nos safarmos a tempo do logro iminente e irmos comprar as batatas congeladas.
    Normalmente até aconselham uma solução flexível e acompanhamento personalizado. O IRS não é impeditivo do empréstimo, o problema resolve-se “a posteriori” com um novo empréstimo e etc., por aí fora.
    Mas essa dos pinos na Alameda é oportuna porque tem um enorme e reconfortante duche à disposição, bastante perto.
    E com isto tudo, inspirei-me (?) para fazer um poste. Talvez mais logo ou amanhã.
    Se entender que tem direito a comissão, diga, que eu dou ordem de transferência ao meu, salvo seja, banco. Pode ser que o saldo permita, ou então pago em botões...

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  5. devemos ter-nos cruzado na porta. comigo passou-se o mesmo!! mas eu tenho uma extra: tou desempregado desde 2012

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  6. Este ano o portal das finanças não me deixa fazer o irs...os valores ficam a zeros e isso não pode ser :P

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  7. «Quando se chega ao ponto de ligar a alguém que transforma o Jumbo num musical em que a protagonista celebra numa valsa apaixonada a promoção das batatas congeladas...», muito bom :p ahahah

    Beijinhos*

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  8. A monarquia quer sempre impor-se. Digo, está sempre à espreita. Mesmo que use do pretexto de um saco de batatas, pré cozinhadas ou não. No fundo, a abordagem que fazes, para além da melhor amiga, ofereces um je ne sais quoi, um tanto monárquico, ao acto de fazer o IRS. Sempre atractiva nos relatos.

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  9. Deve ser moda nova. Eu não recebi um telefonema, mas uma carta. Pu-la de lado e nem liguei muito, porque para gerir a minha conta estou cá eu e chego muito bem. ;)
    Quanto ao IRS eu pago mesmo a um contabilista, porque não percebo nada disso e não confio em qualquer cabeleireira para o fazer. :P
    beijinho

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