domingo, 27 de abril de 2014

Hienas invisíveis

As hienas são um animal majestoso e pouco valorizado pela ideia que a sociedade criou de si, tal como o majestoso empregado de mesa, não são valorizados pelo trabalho que executam no quotidiano e riem-se por defeito profissional, mesmo quando lhes seria mais apetecível espetar palitos no globo ocular, pois é preferível um riso falso do que limpar o sangue da clientela energúmena das paredes no final da noite. Passei vários anos da minha existência a lidar com esta espécie no seu habitat natural e hoje tenho uma abordagem diferente aquando da sua presença, evitando movimentos bruscos e pedidos estapafúrdios.

“O cliente tem sempre razão” foi a ultima barbaridade que um indivíduo disse ao seu sapateiro em tempos passados antes de levar com um martelo na testa. A frase pegou com significado contraditório no mundo de prestação de serviços, fazendo com que os empregados de mesa sejam submetidos a um treino intensivo de sorrisos falsos, para se protegerem no mundo da restauração, ao fazer os seus clientes crer que são os maiores da sua aldeia. O descuido perante esta regra base, ao mandar um cliente catar piolhos do rabo da sua prima bardajona, irá provavelmente originar o término de contrato por mau tom ao constatar as necessidades básicas familiares do cliente.

De pernas cruzadas no cume mais elevado das montanhas do Oeste da China deviam estar empregados de mesa e não budistas. Ninguém é capaz de manter a pose e elegância perante uma chuva de idiotice e barbaridades como alguém que trabalha em restauração. É o gritar o nome do prato que pediu há cinco minutos como se de um vendedor de colchas da feira se tratasse, perplexo com a memória selectiva que assiste o cliente de olhos bem abertos com tal nome de comida nunca antes contemplado. É a capacidade de vislumbrar um indivíduo a excluir de uma refeição tudo o que pareça calórico, deixando apenas a alface, mas banhando-se em refrigerantes como se fosse um camelo a armazenar água para a viagem. É ser a única pessoa no restaurante a cantar-lhe os parabéns porque você não tem amigos que se dignem a comparecer, tirar-lhe um café numa máquina tão antiga que não funciona sem ofensas, força bruta e choro de misericórdia e no final receber uma gorjeta de 2 cêntimos aliada a um piscar de olho e palmadinha nas costas de quem acabou de contribuir para a compra de uma milésima parte de uma pastilha.

A visão de muitos é que ser empregado de mesa é a opção dos fracos, dos que não querem estudar, dos que não sabem fazer outra coisa. Na realidade é uma opção que muitos escolhem porque gostam de lidar com pessoas diferentes todos os dias, vivenciam muitos dos seus festejos e quando lhes conseguem arrancar um sorriso naquele dia mau e solitário é uma vitória. São as pessoas de restauração que ouvem os desabafos do advogado que tirou a pessoa errada da prisão, fazem companhia ao médico que se tornou um solitário pelas longas horas de trabalho e aturam o político mal amado. Podem ser profissões invisíveis mas que por vezes foram essas pessoas as únicas capazes de nos fazer esboçar um sorriso e com uma piada nos fazem olhar para a nossa família durante a refeição em vez da companhia de meros murmúrios durante o intervalo da troca de mensagens escritas.

16 comentários:

  1. Sei bem do que falas! Já fui empregada de mesa e não é de todo pêra doce! É preciso ter estômago, auto controlo, diplomacia e pernas.
    Sem duvida um emprego pouco valorizado pela sociedade.

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  2. um call center de apoio (não de vendas) também é mais ou menos assim...
    gente com formação, disposta a resolver e encaminha questões à distancia de um simples telefonema mas, apanham com cada um....pfff

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  3. Desde sempre estive ligada a atendimento ao público. Sim, havia aqueles que num final de dia, faziam-nos pensar que afinal não somos tão maus como às vezes nos fazem sentir, mas infelizmente os maus marcam com uma força maior do que os bons... Por vezes é tão ingrato... Parece um esforço hercúleo manter um sorriso e não "espetar palitos no globo ocular" (e muito mais que não se deve dizer...) ...
    Nunca me considerei um cliente muito difícil ou esquisito, mas cada vez mais tenho atenção com a pessoa que está por trás de um balcão... E sempre que veja situações de injustiça para com quem ali trabalha, enquanto cliente, defendo-os sempre. Não suporto faltas de respeito nem injustiças. Obviamente que ninguém gosta quando lhes toca a eles, mas às vezes "esquecem-se" que esta cena das injustiças não é "passa ao outro e não ao mesmo"... (principalmente vindo de alguém que trabalha atrás de um balcão e depois vai infernizar a vida a outro porque foi infernizado há algumas horas atrás, por um energúmeno qualquer...)

    Contudo não sou perfeita, claro está. :)

    Grande testamento o meu ehehehh

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  4. Gosto muito do texto. Estou a falar a sério.

    Já tive uma pastelaria, para além disso, trabalhei muitos anos, enquanto adolescente a servir banquetes. Como se não bastasse, vejo-me agora confinado ao mundo da restauração.
    Servir, ser empregado de mesa, dos bons, é uma capacidade ao alcance de poucos. SE nós, comuns mortais, soubessemos as regras que têm de seguir diríamos impossível e eles conseguem!
    Respeito-os e muito.
    Infelizmente, deixa-me dizer-te, há, grosso modo, uma guerra entre cozinhas e sala, o que é pena, porque no fim quem perde é o cliente e o próprio restaurante.

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  5. Nota prévia: Espero que não fique incomodada com as comparações, que decorrem, sobretudo, da sua introdução.

    A linguagem metafórica é, por vezes, injusta e quase inumana, reconheço.
    As hienas: Feias, porcas e más e, não obstante, majestosas, Delas se sabe que comem os restos dos outros e se diz que apenas fazem sexo uma vez por ano -pudera!...- além de que têm uma paciência impressionante e gostam de esperar a certa distância.
    E no entanto “riem”, demonstrando aos despojados de sentido de humor. que até é possível soltar uma boa gargalhada, mesmo quando se está na m**da...
    Temos também os abutres, com muitas características idênticas mas dotados das asas que lhes permitem pairar nas alturas e assumir um certo requinte, quando se sentem a atracção pelas práticas escatológicas e a putrefacção.
    Apenas não consta que cultivem o riso, se bem que, observados atentamente, talvez lhes e possamos vislumbrar “sorrisos” ensaiados.
    De ambos, independentemente do género, se pode fazer uma extrapolação -passando ao lado da componente estética e humana- ainda que um pouco forçada, respectivamente, para empregados de mesa e assistentes de bordo.

    Apostila: Sou um gourmand moderado e tenho uma grande admiração pelos explorados da restauração, por isso tive alguma dificuldade em focar-me mais na zoologia e logo com “bichos destes” -ninguém é perfeito.
    O último período do seu poste mexeu comigo e de que maneira, sei do que falo, talvez porque nunca me confessei a um “empregado” com sotaina...

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  6. Não é qualquer pessoa que tem feitio para ser empregado de mesa. É preciso ter estofo, até porque há muitos clientes que saem de casa e esquecem-se do respeito, e, ainda assim, têm que as servir com um sorriso na cara

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  7. é bem possível conhecer um pouco da pessoa ao analisar como ela trata um garçom...
    gosto logo de perguntar seus nomes, são pessoas como qualquer outra. merecem o devido respeito.

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  8. Gostei muito do texto e concordo com tudo o que disseste. Infelizmente muitas vezes olham para os empregados com pena, quando eu acho que são pessoas de grande coragem
    beijinho grande ♥

    http://naervilhadapolly.blogspot.pt/

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  9. Eu, por acaso, não tenho essa ideia. Talvez por ver essa posição pelo mesmo que descreves: o prazer do contacto com o público, de ter sempre caras novas para observar, do contacto com a própria comida. Ando à procura de emprego e muitas das minhas tentativas têm ido para esse lado. E era o que mais queria nesta altura. Uma oportunidade porque, quem sabe, talvez um dia tenha o meu próprio estabelecimento.

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  10. R: eu também comecei à pouco a exercitar-me, mas mais vale tarde do que nunca. Já experimentaste fazer exercício em casa?! sempre é melhor do que nada. Há muitos vídeos no youtube que têm boas sugestões.

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  11. Todas as profissões são dignas de respeito. O que seria do doutor, se os homens do lixo não existissem, fica bem patente na estrumeira em que se transforma a cidade sempre que há greve.
    Infelizmente há gente com o rei na barriga que não entendem isso...

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  12. E ainda não falaste de como muitas vezes os desgraçados querem fechar o estabelecimento, mas o cliente, que tem sempre razão comé claro, precisa urgentemente de um café (sim, já depois da máquina estar limpa), ou então que lhe prepares uma refeição, "não custa muito pois não?? é que perdi-me ali na conversa com a vizinha, ou então estive a dormir a tarde toda e só me lembrei agora". E claro, se o desgraçado disser que "Ahh e tal, não vai dar, já terminou o meu horário, queria ir para casa, é que eu sei que isto pode soar estranho, mas nós, "empregados de mesa", também temos vida e família", são insultados, dizem-lhe "vamos a outro lado, que este aqui não quer ganhar dinheiro", ou entao, "é por isso que o país está assim".
    Trabalhei muitos anos numa lojinha do estilo tradicional. Sei bem o que isso é. Muitas vezes imaginei-me a espancar clientes, enquanto sorria e acenava. É evidente a falta de respeito e desvalorização que grande parte da população tem pelo atendimento ao público em geral. Hoje tenho um auto controlo "bem musculado", graças a isso =)

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  13. Bem verdade! Costumo trabalhar numa pastelaria durante as férias de Verão e sei bem o que um empregado de mesa passa. Há com cada situação...

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  14. Brilhante ahah!
    Só de pensar que eu já servi às mesas das 8am às 8pm, por uma miséria de ordenado...

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  15. Já trabalhei como empregada de mesa em restaurantes, cafés e confeitarias e revejo-me nas tuas palavras. É tal e qual. Levas com o mau humor das pessoas, com os engates foleiros, com os olhares de esgar sabe-se lá porquê...mas tenho saudades desse contacto com o público.
    muah*

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  16. Fizeste um belo tributo aos empregados de mesa. É uma profissão tão digna como outra qualquer. E atender o público não é nada fácil. E eu sei do que falo. ;)
    beijinho

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