quinta-feira, 17 de abril de 2014

De panado a galinha

Hoje vi uma criança a agarrar num pedaço de frango panado com os olhos lacrimejantes, o atirar ao ar e gritar “voa galinha, voa”. Perante o impacto da “galinha” com o solo, a pobre criança baixou a cabeça e encolheu os ombros como se tivesse esgotado todas as suas energias e desistido de salvar o mundo. Vislumbrei todo o momento com um olhar sentido e capaz de abraçar a criança e a mãe, solidária por esta estar a criar um cepo. Cada vez há mais vegetarianos pelo simples facto que a maioria das crianças só descobrem a uma avançada idade que os bifes um dia foram malhados e deram leite, escusado será dizer que ficam traumatizados e começa a ode à curgete. Deixar uma criança acreditar que a progenitora do porco é a película do Pingo Doce que sugere modos de confecção não vai fazer da criança alguém brilhante na área alimentícia.

O que aprendemos em criança acompanham-nos para a vida e ver esta criança fez-me lembrar a quantidade de vezes que soltei um pum subtil na esperança de ao fazer força ficar loira como um super guerreiro ou fazer poses em quadrados de relva na expectativa que ao fundo se desse uma explosão (como se a relva se suicidasse por tamanho entusiasmo em me ver). Revendo a minha infância é de louvar que me tenham conseguido ensinar sequer a rebolar, afinal de contas, eu achava o Bonga o maior, adorava sentar-me na máquina de lavar e ficava horas a olhar para o gira discos na esperança que algo fascinante acontecesse, o meu autismo deve-me ter saído pelo nariz alguma vez que bati com a cabeça na parede. Não há nada melhor que ser criança. Acreditar que a areia cheia de beatas na praia é o melhor bolo de chocolate do mundo e ver os seus dentes serem enrolados a uma linha e atados a uma porta, em prol de um momento hilariante para a entidade paternal e doloroso para a criança que se apercebe rapidamente que o dente continua no mesmo sitio.

A minha geração foi treinada para se tornar numa arma de destruição maciça, mas entretanto inventaram o walkmen e distraímo-nos. Tudo começou com o acto de nascer que, apesar da memória pouco nítida, não deve ter sido fácil, esta cabeça não é pequena. Passou por aquela série Dinosaurs, que me ensinou como arremessar recém-nascidos contra paredes é perfeitamente normal. Mensagem, mais tarde, reforçada pelos Happy Tree Friends que ensinam a nunca confiar em ninguém pois até o esquilo mais amoroso tem sempre uma zarabatana atrás das costas. Tendo em consideração a minha escola da vida, eu nunca ter arremessado nenhuma criança irritante contra um muro, prova que filtrei melhor a informação que o cepo do frango panado está a fazer.

15 comentários:

  1. Já andava a estranhar a tua ausência..

    Cresci na aldeia, no 'meio' de galinhas e outros animais. Mas, mesmo gente da minha idade, nunca teve contacto com isso. No entanto, concordo que agora acontece muito mais. As pessoas vivem muito mais nas cidades e, muitas, com poucas ligações à aldeia. (por os pais também já terem crescido na cidade).

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  2. Olá...olá!!!
    Nunca me incomodei muito de comer carne, eu até sou do tempo que se dava mioleira com ovo mexido e salsa às crianças porque tinha muita vitamina. Mas recordo-me de um episódio curioso.
    Durante uns largos meses, deixei de comer ovos porque alguém me disse que os ovos eram peidos de galinha.
    Hoje ainda me sinto marcada por isso e sofro um calafrio, quando vejo ovos com algum vestígio de caca. :))))

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  3. Quando somos crianças somos mesmo ingénuos e inocentes; somos capazes de acreditar na coisa mais parva e ser felizes.
    Já tinha estranhado a tua ausência

    Beijinhos*

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  4. Sempre achei que essa conversa dos "dentes enrolados a uma linha e atados a uma porta", não passa de um mito urbano inventado pela Fada dos Dentes.

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  5. De súbito tive uma branca: Dinossaurs, Happy tree friends?!...
    Uma rápida (semi)consulta ao google remeteu-me para umas séries de animação que poderiam ter sido inspiradas num hipotético suplemento infantil do Correio da Manhã (autêntico predador das florestas) mas com menos sangue, claro. Aliás, as crianças merecem algum cuidado, mesmo quando são cepos.
    Quanto à analogia entre a vaca ou o porco e os bifes, apesar de nunca ter entrado num McDonald's (minto, um ocasião em que estava “apertado”, fui aos lavabos), disseram-me que o mamífero que eles usam é a minhoca que já dá o leite transformado em cheese.
    Voltando ao cepo, há que ser condescendente, se o miúdo, em vez do frango, experimentasse atirar à água um filete de pescada, mesmo que fosse do Chile, era certo que ele não nadava e o respectivo pão ralado iria alimentar aqueles mexilhões que não se mexem e -percebe(s)- preferem esperar sem se ralar muito, mesmo que o mar bata na rocha...
    Compreendo a angústia de ter um dente preso por uma linha à maçaneta da porta, porque me lembro perfeitamentede um colega de escola que tinha os dentes tão separados que os arrancava com fio de sapateiro, encerado.
    Já eu não tive esse privilégio porque levei sempre “nos queixos” com um facínora de bata branca.
    E para acabar, apenas uma nota de rodapé: Bolos de chocolate com areia da praia, podem não ter os tais 70% de cacau, mas em compensação são ricos em nicotina.

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  6. Também acredito nisso, tudo é aprendizagem. E quando for a hora o amor voltará a nascer. Muito, muito obrigada!
    Aproveitei a tua ausência e dei-lhe um novo visual ahahah obrigada :)

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  7. Muito bom! Gostei!!
    Eu tenho uma irmã com 6 anos e (in)felizmente ela também tem saídas dessas. Faz parte do ser criança. xD

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  8. Ahahaha! és demais... mas olha que também há crianças muito inteligentes! Eu ainda tenho esperança que esta nossa geração consiga impor alguma sabedoria nos rebentos :)

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  9. "A minha geração foi treinada para se tornar numa arma de destruição maciça, mas entretanto inventaram o walkmen e distraímo-nos."
    Adorei esta frase. Magnifica!
    :)))

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  10. As crianças são máquinas de aprender. Mas as máquinas ainda não aprendem sozinhas e estão vulneráveis antes de lhes instalarmos o antivírus. Mais tarde é sempre tarde demais. É mais fácil educar o monstro, do que lutar contra o monstro. :/

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  11. memórias infantis à mistura com frango panado e bifes anteriormente malhados, podia ter dado um resultado menos bom...mas, não senhor, raciocínio certinho e bem condimentado. bom sábado, boa Páscoa, e sim, lá do outro lado houve mudanças. :)))

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  12. Verdade...hoje em dia a maioria das pessoas não sabe de onde vem os alimentos. Crianças e adultos. Não têm noção do processo enorme e complicado que faz chegar os produtos ao supermercado. Infelizmente.
    beijinho

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  13. Eu desconfio que nem os pais dessas pobres crianças sabem o básico...

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  14. Um primo meu (quando era pequenino) chorava que "não quero carne de porco morto" depois da matança do porco lá na terrinha...

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  15. Eu cresci no meio de galinhas, coelhos fofinhos a quem chamava Joãozinho, cordeirinhos que pegava ao colo, vacas e tudo o mais e sempre soube que iam todos para a panela. Brincava com eles e ajudava a matá-los. Agora que leio o teu texto acho que isso explica muita coisa xD

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