domingo, 6 de abril de 2014

A fazer pandã

Milhares são os olhares que as peças do Museu do Louvre têm em si diariamente, acompanhados por um sobrolho franzido, mão a coçar o queixo e um leve acenar de compreensão para com cada peça. Milhares são os que estão a usar esse acenar para não adormecer, por perceberem tanto daquilo como da apanha da batata. O mesmo ocorre com a moda, muitos tentam compreender mas poucos, na realidade, seriam capazes de ter um quadro de um padre franciscano na sala a seguir-nos com o seu olhar mórbido.

Há espaços de informação dedicados, exclusivamente, ao verniz do dia, revelando a importante diferença entre o azul nenúfar do deserto e do azul charco, bem como da roupa que determinado indivíduo empossou porta fora naquele dia. Só porque a vossa tia-avó vos disse que estavam bonitos com as meias das raquetes não faz de vocês aptos a dar conselhos de moda, muito menos a desgraçada da senhora que deve pender para a cegueira. A menos que todos os dias se vistam de um leguminoso diferente e desfilem na Loja do Cidadão, de pouco me importa o valor que deram em saldos por esses botins nos quais não conseguem dar dois passos sem vomitar com tonturas. Podem alegar que basta evitar este tipo de informação que não é do meu agrado, algo que faria de boa vontade se cada ser vivo do sexo feminino não insistisse em enfiar-me olho adentro a sua unha de gel tigresa e falar sobre o processo que envolveu cada risca.

A necessidade, ocasional, de fazer reconhecimento das tendências da moda, prende-se ao facto da sociedade não aceitar bem que se ande nu na rua. Hoje, heroicamente, desbravei território em algumas lojas que me fizeram questionar a razão da existência humana. Indubitavelmente, não passa tudo de uma questão de gosto, porém, não consigo compreender como é que alguém pode gostar de se parecer com o pit bull do meu vizinho com correntes do tamanho de troncos enrolados à goela. Aparentemente, não há nada que faça maior pandã, actualmente, que uns leggins recortados da carpete da avó, uns calções desproporcionalmente pequenos para o traseiro que os veste, ou, a crème de la crème, vestidos com buracos estrategicamente colocados na zona do umbigo, porque não há nada mais bonito do que mostrar o piercing da borboleta que passou de moda há dez anos.

Como alguns casos de diabetes, que são transmitidos geneticamente, eu sofro de ausência de compreensão das necessidades femininas, já patente na minha rica mãe. Tentei procurar ajuda, curar-me de tamanho obstáculo na sociedade corrente, mas continuo a parecer ter sido maquilhada por alguém com Parkinson, não compreendo o investimento de unhas que me vão limitar caso, subitamente, precise de fazer escalada (é como pedir a alguém que me parta mensalmente a cana do nariz para poder respirar pior) e rebolo melhor ribanceira abaixo do que ando de saltos. Sou uma leiga de moda assumida e estou pronta para ser arremessada por sapatos de amantes de moda cujo verniz se viu ofendido.

16 comentários:

  1. Tenho de confessar que me revejo em muitas das coisas que escreveste! Só que eu não tenho tanta piada a expor :)

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  2. "poucos, na realidade, seriam capazes de ter um quadro de um padre franciscano na sala a seguir-nos com o seu olhar mórbido" - é por isso que eu tenho posters de caças F15 Eagle, F14 e com jeitinho terei o F22 este ano :) Este último ultra-moderno (note-se que faz parte da família de palavras de "moda").

    "pronta para ser arremessada por sapatos de amantes de moda cujo verniz se viu ofendido." Sta Inocência vos proteja. Nada temais pois aquelas cujo verniz se ofender não têm coragem de arremessar os seus bebés (aka sapatos). Desta escapaste ilesa :p

    Eu gosto de moda mas não tenho guito para a moda que mais gosto nem paciência para procurar nas lojas do povo. Confio na minha mãe para ajudar a escolher, ou escolher sem mim. Acerta mais e melhor do que eu.

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  3. Olha aí que eu tenho uns 120 vernizes que se sentiram ofendidos!! :P
    Quando entro num blog de moda fico desanimada... quanto narcisismo gerado pelo consumo...

    :)

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  4. lllllllllllooooooolllllllllllll muito bom! "azul nenúfar do deserto e do azul charco" soberbo ;)

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  5. Tudo é moda, desde que seja usado com estilo.
    (esta frase diz tudo e não diz nada!)
    lol....

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  6. *há 10 anos

    oh pá, adoro sempre o que escreves hahaha
    anyway, sobre o post em si, eu confesso que sou dessas amantes de moda, mas nada demasiado extremo. reconheço esses vestidos e leggings mas não uso porque não sou parva e sei o que me fica bem ou mal xD
    Beijinho
    (já te respondi no meu último post!)

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  7. vamos lá a ver; na onda do arremesso, é com sapato stiletto, scarpin, de boneca /mary jane, chanel, mule, babuche, alpergatas, snickers,chinelo, rasteirinhas...desisto, é demais para mim. boa semana. :)

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  8. Como é que se comentam temas como a(s) moda(s), que nos passa(m) ao lado, no sentido lato da expressão?
    Senão vejamos: O chamado clássico foi sempre uma tendência de que não consegui libertar-me -ninguém é perfeito.
    Foram tantos os anos a usar gravata que ainda hoje me interrogo se o meu pai me fez o primeiro nó (assimétrico claro, nada de cavaquices...) enquanto a minha mãe me mudava a fralda.
    Também usei aquelas calças muito largas em baixo, mais largas do que a saia das apresentadoras do sorteio do euromilhões, apesar da diferença de perímetro entre as minhas canelas e as coxas dela.
    Hoje conservo algum estilo, apenas lhe introduzi um ar semi-blasé e pendurei as gravatas num cabide que as usa todas ao mesmo tempo. Manias!
    Quanto aos botins da imagem, acho que a sua análise é demasiado severa porque terá ignorado as funcionalidades no campo da podologia: Corrigem o pé chato, previnem o aparecimento de joanetes e são adequados para a prática de jogging.
    Em conclusão, podemos considerar que esta sua intolerância é mesmo o “calcanhar de Aquiles” de um poste delicioso, como é habitual.

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  9. Eu sou muito menininha, admito! E adorava que a minha futura filhota - que espero ter! - seja igual.

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  10. A minha mãe também me ensinou tudo o que sei sobre moda...
    Há uns dias disseram-me que tinham ido comprar umas melissas lindas e era ver-me a acenar com a cabeça a dizer sim senhora, muito bem. Vim a descobrir que eram uns chinelos de borracha! As coisas que eu ando a perder, senhores!!!!

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  11. És a maior. :) Provavelmente paraste a digestão a meia dúzia de 'fashion bloggers' que por aqui passam, mas não faz mal. Também já escrevi sobre a epidemia que são os blogs de moda geridos por miúdas que ainda estão em idade de ver os Power Rangers. Não me vou alongar mais, que este tema aborrece-me. Excelente texto, as usual. ;)

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  12. Acho que o mais feminino que tenho é mesmo o gosto em pintar unhas, e a única maquilhagem que uso (e não é todos os dias) é mesmo lápis e rimel. Gosto imenso de ver algumas coisas, mas devo ser das piores pessoas para falar de moda porque não entendo grande coisa. Acompanho alguns blogues de moda e que falam dessas questões e gosto do que vejo, até porque também gosto de manter-me informada, pois há truques que nem nos lembramos e que dão jeito. Mas visto-me consoante o que gosto, tendo sempre o cuidado de ajustar a roupa ao meu corpo, pois se há coisa que odeio é que as pessoas sigam as modas só porque sim, mesmo quando não as favorecem.
    Quanto ao calçado. As sapatilhas são mesmo as minhas melhores amigas :p

    Acho que não te vais arrepender quando ouvires mais coisas dela, vale mesmo a pena :)

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  13. Eu também não percebo nada de moda, mas sou especialista em arte.
    Na sala fica bem é um quadro do menino da lágrima e no lado oposto o das ciganas ceifeiras, por ser uma raridade encontrar ciganas que queiram fazer mais do que vender na feira e engrossar as filas para o RSI. ahahah

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  14. Penso que nem tudo o que esteja na "moda" seja obrigação usar/ter. Penso que cada um tem que ter sensibilidade suficiente para perceber.

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  15. Acho que tá tudo dito! Identifico-me completamente com os seus escritos.

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