segunda-feira, 17 de março de 2014

O que os contos nos ensinam

Mensagens subliminares entre príncipes e princesas, magia e canções, animais falantes e chávenas de café que sabem limpar o pó. A minha infância foi sustida em expectativas irreais proporcionadas pela Disney e preparação mental para possíveis eventos traumáticos que só os livros dos Irmãos Grimm poderiam transmitir. O choque entre o “é tão bom que não vai acontecer”, com o “é tão mau que é bom que não aconteça”, criou adultos com sentimentos mistos e mentes debeladas.

A perspectiva positiva, contada pela Disney, criou a ilusão que até uma marmota muda pode dar à terra e fazer um príncipe se apaixonar por ela. Hoje, assolada pela realidade em que vivemos, questiono-me de onde é que eles desencantavam tantos príncipes para aquelas pacóvias que até com cães dormiam (sim Bela, não penses que ninguém reparou), porque eu, nem vê-los! Já para não dizer que se desse à terra uma mulher com escamas, a cheirar a bacalhau, apesar da bênção que seria para muitos homens ela não falar, iria parar ao Oceanário, qual romance de novela.

Narrar todos os eventos que nos rodeiam em musical seria no mínimo origem de abate a sangue frio no super mercado. E, claro, aqueles cabelos criaram expectativas que só poderiam desembocar em depressões, pois não há alisamento japonês que dê um cabelo tipo Pocahontas, em que podem ir para o mato rebolar em lama e mesmo sem escova acabarem o dia sem um ninho de ratos no lugar do cabelo. Por falar em ratos, alguma vez algum vos coseu as meias ou lavou o chão? Pois, bem me parecia.

Na esperança vã que me tornasse alguém culto, fui confrontada com os livros dos Irmãos Grimm desde uma tenra idade. A confusão instalou-se quando dei pelas mensagens subliminares e não percebi se seria apenas forma de expressão conturbada dos escritores ou uma maneira subtil dos meus familiares me prepararem para uma vida de abandono, canibalismo e irresponsabilidade parental. É plausível culpar estes livros por possíveis distúrbios de personalidade, depois de confrontada com Hansel e Gretel, crianças de uma inteligência fora do normal que assumiram que numa floresta não havia pássaros para comer o pão que marcava o seu rasto e não consideraram que comer a porta de alguém a iria enfurecer. Eu acho que a velhota os devia era ter enfiado logo no tacho, porque se comessem nem que fosse a maçaneta da minha porta eu ficava em fúria. A irresponsabilidade de deixarem uma criança ir passear pelo meio da floresta para visitar a avó, com um capuz da cor mais chamativa à face da terra, é pedir, mais uma vez, que a comam. E claro, se não estão prontos para uma realidade onde coabitam com travestis depois de um lobo empossar um pijama e touca, algo se passa de errado convosco. A capuchinho, mais os dois irmãos idiotas e a pequena dos canudos dourados que decide invadir a casa de ursos e lhes comer a sopa, partir mobília e desmanchar as camas, são exemplos de pais ausentes, crianças mal formadas e onde o canibalismo seria perfeitamente plausível. Sendo o único caso concordante entre ambos os géneros ficcionais as relações com animais, ora com o Monstro, ora com rãs que é concebível aceitar a premissa que se podem transformar num cupão vencedor do EuroMilhões depois de assediadas, é normal que muitos de nós estejam em união de facto com borregos.

Com anos de histórias e contos que me fizeram crescer, mesmo que perturbada, sem amor próprio, semelhante a uma morsa e pronta a comer o braço de um puto que me toque à campainha a horas tardias, prefiro esta realidade que a das crianças das novas gerações. Com desenhos animados cujo busílis reside na arte da flatulência, o futuro será um sítio onde não vou querer habitar. 
Brian Cummings - Fairy Tales - Cinderella

18 comentários:

  1. E eu que sempre achei os filmes da Disney encantadores, e no final de contas eles são os responsáveis por muita desilusão. :) Ao menos não me deu para beijar sapos, tanho mais tendência para palhaços. :P

    Beijos

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  2. Eram historias que davam largas a imaginação, atiravam a corda à fantasia e mantinha-nos debaixo do manto do respeito. Ensinavam-nos a ter medo e a questionar o não tão óbvio.
    Falo dos contos dos Grimm e os contos de Hans Christian Andersen. Já da Disney, nunca liguei muito.
    Os de agora pouco sei, não sei se ensinam, a maioria acho que fomenta coisas menos boas. Mas,há muita variedade...

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  3. :))
    Pior ainda, os finais felizes para sempre dos príncipes, princesas e animais e os terríveis para as pobres bruxas, madrastas, lobo mau, etc.

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  4. Contos de fadas e nada mais. Nunca lhes achei grande piada, e, por isso, nunca me vi como uma princesa ou me imaginei sendo uma, tal como as dessas histórias. Concordo com o que dizes. :)

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  5. Eheheh acabaste de destruir toda a minha infância =P

    Estou a brincar... mas olha que também prefiro mais estes contos do que a nova geração que para aí vem... até tenho medo dos filhos que possa vir a criar!!! lool

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  6. Depois deste fantástico delírio em que nem faltou uma deriva de zoofília, que me fez rir até ao espasmo (o delírio, não a zoofília, entenda-se...), apenas me resta remetê-la para aqui, curvado à minha mediania óbvia.

    http://bonstemposhein-jrd.blogspot.pt/2010/05/divacoes-sobre-desenhos-pouco-animados.html

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  7. Ora, não é assim tão mau. Sou também uma vítima dos filmes da Disney, mas não é por isso que tenho ideias de andar por aí à procura de princesas e animais falantes ou de viver a vida num musical.......vá, a parte do musical até que era bom, mas a minha voz de rouxinol morto não deixa.

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  8. Apesar de ilusórias, a verdade é que os contos de fadas e as histórias da disney, nos tornaram adultos melhores do que esta nova geração será!

    Bjxxx

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  9. Honestamente, também prefiro a irrealidade da maior parte dos contos da Disney do que muitos dos desenhos animados que hoje se vê. Ainda que agora paremos para analisar e cheguemos à conclusão de que há muitos pormenores que não fazem sentido, pelo menos a Disney sempre despertou o nosso lado mais sonhador, a nossa capacidade para aceitar as diferenças dos outros, entre tantas outras coisas. Era tudo muito mais inocente, eu acho

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  10. Adorava as histórias da Disney, agora vejo que afinal estava a crescer num mar de ilusões!!

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  11. Gostei tanto deste post que ainda estou aqui a sorrir e a abanar a cabeça feita parva. É isso mesmo!

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  12. Adorei este post =)
    Também prefiro estas histórias aos desenhos animados actuais. Adorava os filmes da Disney...acho que nos fazem sonhar e dar asas à imaginação...são como que mágicos, magia esta que parece que se perde cada vez mais nos desenhos animados que vão surgindo...

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  13. O propósito deste tipo de histórias era ensinar coisas simples, como não confiar em estranhos ou não mentir, fazer-nos acreditar que a vida tem um plano para nós e que seremos "felizes para sempre" se nos mantivermos fiéis a nós próprios e aos nossos princípios. Claro que ao crescer percebemos que não há pessoas perfeitas, que nem tudo é simples, mas se conservarmos em nós este "acreditar" as coisas tornam-se mais fáceis.
    Agora os desenhos animados servem apenas para manter as crianças quietas durante umas horas, perdeu-se o principal objectivo e, muitas vezes, acabam até por apelar por exemplo à violência, isto na mente de uma criança tem bastante impacto...

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  14. seja como for, apesar de nos enganarem, os contos de fadas, ainda servem paraa mostrar que por vezes os sonhos se podem realizar!

    Bjxxx

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  15. É, porventura, cultural, contudo, adequado à idade.
    A mim, mais do que o entender clandestino que esses contos ou histórias mais detalhadas e mais ou menos incoerentes foram ou são para um sem número de pessoas, interessou-me o teu olhar. Esse é bem mais variegado.

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  16. Obrigada :) por acaso são uma das bandas que mais gosto.
    Acho que nós levamos muito tempo a descobrir os nossos artistas, até porque também se divulga pouco. Ainda que agora ache que estamos bem melhores, porque sinto que, cada vez mais, as pessoas se preocupam em conhecer mais do que se faz em português

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