quinta-feira, 13 de março de 2014

Até ser dia

Quando cai a noite na cidade
Há sempre um sonho e há magia
À noite na cidade,
Há sempre um sonho, até ser dia

A Anabela visivelmente nunca trabalhou à noite. A única coisa que acontece até ser dia são as cruzes das costas a dar de si e os anjos que habitam no meu rabo que tocam harpa de alegria cada vez que me sento. Vou desculpar esta pobre alma de imaturidade inegável na altura, que ainda ia para a cama com o Vitinho e já cantava sobre gin e ramboiada com desconhecidos.

A vida nocturna é de difícil compreensão para a maioria das pessoas, principalmente para quem se meteu nessa vida e nem percebeu como. Subitamente vemos as velhotas sentadas no banco de jardim a serem substituídas por bêbados chamados António a vomitar a sarjeta, os padeiros por bartenders e os escuteiros por traficantes de droga. É conhecer uma realidade paralela em que a vida boémia impera e o dia serve para dormir. Muitos não aguentam esta vida, alguns nunca saem dela, outros já se perderam numa rua qualquer por uma grama vendida ao desbarato. Porém quando vivida de maneira inteligente, pode-se ter o melhor dos dois mundos, um belo dia de praia e uma noite de trabalho.

Gosto do silêncio da noite, de poder andar sem ver viva alma e de poder usufruir de uma música da Adele na auto-estrada, a chorar baba e ranho, de janelas abertas quando alguma coisa correu mal. Tenho, verdadeiramente, pena dos desgraçados que choram na Ponte 25 de Abril durante a hora de ponta em que vão receber buzinadelas, um lenço ou sugestões de suicídio pelos condutores em redor. É difícil superar o deleite de tomar um café num bar em que, devido à hora tardia, toda a gente já se esfrega às paredes como se tivesse sarna e o estrabismo é pratica comum. O prazer de ser o Batman dos nossos dias (eu sei que me estiquei nesta, até porque nem a mim me salvo, mas sou mulher para usar uma capa e sempre que conduzo recebo sinais de luzes).

Para aquelas jovens mentes divagadoras que ouviram as palavras de Anabela e pensaram que havia algum requisito de sensatez para se escrever músicas, desenganem-se. A única coisa que cai na cidade são os bêbados e as pindéricas de saltos altos, a única magia é toda a gente parecer mais bonita depois de alguns gins e o único sonho é que chegue o dia e a nossa cara não esteja mergulhada na sanita.
Threadless T-Shirts - Sleep Is So Last Night by Matthew Goddard

25 comentários:

  1. Trabalhar à noite é uma impossibilidade para os "noctívagos". Esses. não têm tempo...
    Creio que a compreendi e por isso lhe deixo um comentário fora do discurso habitual.

    http://bonstemposhein-jrd.blogspot.pt/2008/07/sem-ttulo.html

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  2. Pois, a realidade e as ressacas são "na realidade" mais duras!!!!... ; )))

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  3. Eu não gosto da noite...ainda assim subscrevo-te palavra a palavra, com essa pequena excepção.
    Obrigado!

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  4. Adoro a forma como escreves... É tão intensa em profunda, adoro! :o

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  5. "O Batman dos nossos dias" - boa! :) concordo!

    R.: o problema de ela não ser portuguesa é que vai dar a aula de canto na Holanda! xD

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  6. Já tinha a notícia guardada há uns dias para a mostrar, é que realmente aquele conceito chama à atenção. Estou mesmo curiosa e nunca mais vejo a hora de conseguir lá ir experimentar :)

    Fartei-me de rir com o último parágrafo!

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  7. Era teres escrito este post há um tempo e já percebia os teus horários.. Acho que, se trabalhasse de noite, iria ter dificuldades em conseguir dormir.

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  8. não está mal visto, não senhor. eu, de batman tenho pouco, daí que, não tarda, vá até à magia de vale de lençóis.

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  9. ahahah Esse último parágrafo fez-me rir a bom rir!

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  10. Ora ai está um belo texto...Nunca trabalhe à noite mas conheço quem tenha trabalhado e o desespero que tiveram para sair dela...É difícil de aguentar e não é para todos ;)

    Beijinho*

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  11. Gosto muito da tua escrita. E olha que eu não digo isto a todas..!

    A Anabela é uma mulher muito à frente no seu tempo. Em 1993 já cantarolava sobre Gin, uma bebida que só viria verdadeiramente a ter um "boom" 20 anos depois. Por isso, se quiseres saber o que vai estar na moda em 2033, vai ver sobre o que é que ela anda a cantar agora.. :P

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  12. Gostei por acaso :)
    r: E ora nem mais, tudo dito nisso!

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  13. Que bom post! Trabalho de vez em quando à noite, mas em casa. Nessas alturas, da janela, vejo ocasionalmente bêbados e sempre o pessoal da limpeza das ruas (e aí sinto-me privilegiada por estar a trabalhar de pijama no conforto do meu escritório).

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  14. Eu gosto da noite sossegada e saber que quase ninguém anda lá por fora, por outro lado, há sempre aquela ideia associada ao perigo, aos ladrões e o sermos roubados.

    Tu escreves muito bem e tens razão, há magia na música da Anabela, mas na realidade é como escreveste no último parágrafo :)

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  15. Por graça, um amigo meu tinha a mania de vociferar, tal e qual, porque cantar não se aplica, não lhe é talento inato, essa canção, ainda petiz, para forçar a agonia alheia. Há uns tempos lembrávamo-nos disso. E, uma nova versão e leitura aconteceram. Mas, assumo, gostei deste mote.

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  16. Ahahahah A única coisa que cai na cidade são os bêbados e as pindéricas de saltos altos.
    Só este final valeu o preço do bilhete. xD

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  17. Às vezes dava imenso jeito. Sim, concordo contigo

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  18. Eu cá preciso mesmo de dormir à noite para me sentir bem. O meu trabalho implica que me levante sempre cedo, acho que não conseguiria trabalhar de noite.
    Gostei do post. Já me ri. :)
    beijinho

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  19. O silêncio que a noite traz é para mim a melhor parte

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  20. jovens que ouviram a Anabela?!?
    eu ouvi-a ainda não sabia o que era noite e já estou 'belha'...

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  21. Trabalho de noite, só que a única coisa parecida com o gin é água e é pela transparência. Infelizmente

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