segunda-feira, 31 de março de 2014

A cavalo serei heroína

Um dia irá descer dos céus um anjo todo corpulento e vai anunciar entre uma anedota e um passinho de dança que os meus dias a atormentar seres vivos irá chegar ao fim. Nesse dia irei contactar o melhor traficante de droga da América do Sul e ordenarei que me entupam com drogas cujo nome não seja capaz de pronunciar. Sou contra o uso de drogas pelos danos que podem efectuar à nossa vida e existência, já de si algo limitada na terra, mas recuso-me a morrer na ignorância de como é que alguém que parece estar em processo de desmembramento absoluto consegue ter mais energia que eu e achar que uma parede é feita de algodão doce. Eu quero, orgulhosamente, lamber uma parede antes de morrer, e gostar!

O meu pensamento percorre mundos ao me deparar, ocasionalmente, com indivíduos que parecem ter sido amamentados por heroína montada a cavalo e conseguem ter discursos mais plausíveis que a grande maioria da juventude com que tenho que lidar. Certamente são os círculos populacionais dementes que são atraídos para o epicentro de comentários sarcásticos e variedade extrema de olhares e suspiros de frustração, que é a minha pessoa.

A vivência no centro de Lisboa leva-nos a ouvir os mais variados comentários sobre os traficantes de droga de etnia cigana que se encontram nas ruas. Comentários esses que me fazem esboçar um sorriso de compaixão maternal, como quem está prestes a contar a história da cegonha a um filho. Aqueles indivíduos vendem tanta droga como eu vendo paciência. Estes empreendedores de rua proporcionam a qualquer civil a possibilidade de comprar, a preços exacerbados, gramas de pó para a prisão de ventre, coentros e farinha. Pelas vezes que os intestinos nos falham e é difícil encontrar uma farmácia de serviço, basta assobiar no Rossio e eles até fazem parapente para nos vir socorrer. Por aquela salada que precisava de uma pitada extra, lá estão eles. Ou na eventualidade de querermos fazer apenas um biscoito, eles estão disponíveis. Por esta diversa prestação de serviços a policia não os pode deter, seria como prender o padeiro. Porém, um padeiro que faz parte de grupos influentes capazes de arremessar carcaças até à morte. Se alguma vez alguém sentiu algum efeito ao comprar as ditas, drogas de rua, foi por terem ficado com a farinha colada às fossas nasais e com a falta de oxigénio a chegar ao cérebro certamente vislumbraram algo, nem que tenha sido a calçada portuguesa.

O humano é um ser fraco por natureza, para não dizer estúpido, e quem tenta alguma droga na convicção que não a volta a tomar se não for de seu desejo, pode apostar todos os dentes que vai deixar de ter na boca. Se não for pela saúde e desejo de falar mal da geração que vos segue, façam pelo dinheiro. É como pagar um caixão em prestações altíssimas, quando na realidade se esquecem de viver uma vida digna de um dia lembrar e enterrar.

quinta-feira, 27 de março de 2014

"Maçãs" dizem eles

Aponto o dedo em modo trocista, acompanhado de riso sorrateiro por cada mulher que faz jus ao estereótipo feminino. Mostro pavor pela ideia de poder ter em mim algo de dondoca sem sal, fazendo-me crer que a única parte de mim que respeita o cliché é uma semana mensal em que os meus olhos são a personificação de diques que rebentam por cada vídeo com gatinhos que vislumbram. Durante essa semana, acabar a manteiga é um motivo admissível para me atirar para o chão em angústia, tirando isso sou uma orgulhosa ausência de feminismo.

Sem condescendência aos níveis de colesterol que me assistem, sou capaz de me fazer acompanhar de um manancial de batatas fritas no quotidiano, fingindo que morrer prematuramente é uma ideia que me agrada. Afinal de contas, tenho uma imagem a manter. Não obstante, há um alimento que é imediatamente associado às mulheres e o qual evito: chocolate.

Como vítima de uma dependência extrema que foi internada para tratamento, evito chocolate como se de balas se tratassem. Lido bem com a ausência desta substância no meu organismo, mas quando ocorre um acto divino, este não pode ser negado, e se há chocolate nesta casa só pode ter sido um anjo a traze-lo. Assim que me toca nas papilas gustativas, acontecimento derivado de uma queda totalmente acidental que me fez abrir um pacote de maltesers com a cabeça e em busca de oxigénio a minha boca aceitou a dádiva de uma bolinha de chocolate que rebolou goela acima (plausível, lógico e claramente possível), não há volta a dar.

Não porto orgulho em admitir que pareço uma suricata em busca de chocolate por casa e quando descubro que terminou finjo uma morte lenta e dolorosa até que alguém se digne a ir comprar chocolates, visto que tenho tendência a morrer em frente à televisão em horário nobre, não costuma demorar muito. Guincho, rebolo, imito focas e faço o meu melhor olhar lacrimejante. Quando trazem o chocolate errado esta casa mete a Guerra-fria a um canto, mas quando chega o chocolate certo o lago dos cisnes ocorre à porta de casa.

De cabeça baixa de desilusão e olhos a fitar o chão, admito a minha vergonha em ser mais uma mulher que para ai anda, daquelas que trocava o sonho da casa na pradaria de cerca branca e história feliz, por uma casa de chocolate com internet. A bíblia certamente falava de chocolate e não de maçãs.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Almas abençoadas

Crianças imaculadas e nascidas sob o manto sagrado da pureza, juntam-se a homens desenhados à imagem de um Deus grego, de inteligência ímpar e honestidade incomparável para abençoar as casas de todas as mulheres deste pais, menos a minha. Para os portugueses a vida tem que ocorrer em função das aparências. Podemos estar a chocalhar a genitália para não gastar papel higiénico e atum ser a base da nossa roda dos alimentos, mas para olhos alheios assoamos o nariz a rosas e regurgitamos foie gras.

Não há blogger que não tenha parido uma criança abençoada por um cérebro sobre-dotado e beleza ímpar, que merecem odes às suas incomparáveis qualidades (falo de bloggers neste caso por terem testemunhos escritos). Pena que sob a pressão da sua existência em sociedade, estas pobres crianças são as que se atiram para o chão em berreiro no super mercado porque queriam uma carcaça como animal de estimação e o pai não deixa. A realidade é que há crianças extraordinárias, mas mesmo essas acham que meias são o ideal de chucha e que a cabeça serve de amortecedor a qualquer queda. A menos que os vossos filhos estejam amordaçados todas as noites para não piar, vai haver alturas em que queriam ter alguém que embalasse a vossa perfeita bênção sem filtro.

Devo ser a única pobre alma que adquiriu em época de promoções um homem e por isso veio com defeitos. Toda a gente descreve os seus parceiros como alguém sem defeitos e aptos de um romantismo incomparável, o meu alcança-me o comando da televisão e eu festejo com champanhe. O esmagador número de referências a relações na internet passa pela perfeição da sua existência ou das saudades que há do homem que perderam. Este tipo de relatos leva-me a crer que perderam o homem num passeio pela pradaria, onde as mãos se soltaram por acidente e, dramaticamente, ele correu colinas abaixo desenfreado atrás de um pombo e nunca mais foi avistado.

Há sempre os desabafos de alguém de tal modo frustrado e triste com o desenrolar de uma relação que fazem o membro do sexo masculino parecer o filho pródigo do Satanás. Verdade seja dita todas as relações têm qualidades e é por isso que elas existem, nem que seja ter alguém que lave a loiça, mas há momentos em que uma marreta na cara do nosso companheiro parece pouco para o irritante da situação. Eles cometem erros, eles traem, eles sofrem de flatulência, e se estão juntos apesar disto é uma maior prova de amor do que fingir que ele é perfeito. Os perfeitos são os que me deixam desconfiada, são os que escondem alguma coisa. Tal como as crianças, se vier a ter uma demasiado perfeita, há alguma probabilidade de ter sido trocada na maternidade.

sábado, 22 de março de 2014

Vaya que eu já vou lá ter

Recuar no tempo e reviver momentos que hoje guardamos com enorme carinho foi o motivo pelo qual fui ao concerto de Vaya con Dios ontem à noite. As suas músicas contagiantes, sobre feminismo proveniente de alguma frustração amorosa óbvia, tiram-me 20 anos e conduzem-me à sala onde a minha mãe usava as suas músicas para tentar não ouvir os seus pensamentos de raiva para com o pano de pó, enquanto fazia um tipo de ritual macabro, que intitulava de dança. A vocalista provou ter uma voz intemporal, já o público parecia ter sido espezinhado pelos anos, havendo indivíduos merecedores de destaque no obituário centenário. Todos os aplausos foram poucos para este espectáculo (até porque o reumático não deixava muitos expressarem o seu contentamento). 

Nunca havia experienciado um concerto sentada, regra geral vou a concertos em que quem está no chão está em coma alcoólica ou à procura de um dente. Estava, visivelmente, fora do meu habitat. Sentados, sem grande actividade corporal para além de um leve abanar ao som da música, cada velhota mais espevitada deixava-me pronta a distribuir bofetadas por pensar que ia dar início a um moshpit. Nos concertos que frequento, o único propósito de uma cadeira é servir como arremesso. Silenciosos, sem acompanhar o refrão das músicas mais conhecidas, deixando que eu guinchasse umas vezes levada pelo entusiasmo e distracção. Quando toda a gente canta não há tanta responsabilidade moral em se cantar mal. Serviam pipocas e anunciaram que não se podia ter telemóveis ligados, dei por mim a pensar que tinha sido roubada e os bilhetes eram para ver o filme da Lego em 3D.

A minha mãe mostrou alguma frustração ao ver que a vocalista havia optado por cantar duas das suas músicas sentada, atribuindo o caso a qualquer doença terrível que lhe estava a desfazer os ossos ao segundo. Não obstante, eu se desse um concerto até sacava de uma marmita e comia feijoada em palco, o concerto é dela, a senhora até pode cantar deitada, até porque o público ficou duas horas de rabo alapado à cadeira.

O grande momento da noite foi uma convidada ter ido ao palco para apresentar o seu trabalho, música perfeita para se num remake do Rei Leão precisarem de passagens bíblicas, entoadas por uma orca a acasalar. Quando pensava que nada poderia bater este momento de entretenimento ímpar, a senhora faz uma batalha com um trompete, em que faz sons de trompete melhor que o próprio instrumento. O Ozzy Osborne arrancava cabeças de morcego, esta supera trompetes, parece uma escala descendente do mundo do espectáculo, a menos que algum artista consiga sons de trompete ao soprar para dentro de um morcego e surpreender-me.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Haja potencial

Na vida de cada um de nós há períodos de alegria ímpar, que rejubilam as nossas almas e nos criam recordações incapazes de serem reproduzidas. Estou, obviamente, a referir-me aos períodos de férias. Ao contrário de períodos que antecipamos com grande expectativa como um casamento (em que a alegria vem quando ambos dizem o “sim”, após a noiva já ter batido em três padres e pego fogo a um vestido e ao cabelo da criança das flores) ou o nascimentos de um filho (façam favor de enumerar os momentos de rejubilação constantes no acto de parir sem a presença de drogas), as férias, como acto de mera pasmaceira e actividade cerebral reduzida ao nível de uma batata frita, transportam-nos para um mundo novo onde acreditamos que somos lindos com ramelas, os nossos passos soam a cantos gregorianos e o mundo é a nossa almofada.

Saída do trabalho a horas decadentes, com uma garrafa de vinho na mala para festejar o começo do meu compromisso sério com a minha cama, chego ao meu prédio cuja fechadura havia sido trocada durante a tarde e a nova chave não estava onde o senhorio havia prometido. A minha crença indulgente de que as coisas alguma vez correriam bem à primeira achatou as minhas sobrancelhas ao nariz em segundos com tamanha decepção. Após tentar acordar todos os vizinhos e me aperceber que podia estar a oferecer carros que ninguém me abriria a porta, liguei ao senhorio que fez parecer chamar a guarda republicana uma tarefa mais fácil que falar com ele ensonado e finalmente liguei aos bombeiros que me anunciaram que para me arrebentar a porta sem o mínimo cuidado iriam cobrar 60€. Obviamente que optámos por trepar a parede até ao primeiro andar e caso nos “esmerdássemos” no chão gastávamos os 60€ em muletas e cerveja. Sobrevivemos sem mazelas e comprámos cerveja.

Alegrias têm que ser constantes na nossa vida, então aliei os eventos nocturnos, que me levaram a constatar o fácil que é assaltar a minha casa e como devia deixar bolachinhas à janela para a eventualidade de uma visita, a uma consulta de ginecologia. O único ser vivo que faz uma mulher fugir, mais depressa do que a um ex-namorado bem sucedido é um ginecologista. Vamos lá na expectativa de ouvir que não cheiramos a bacalhau e que não há lá para dentro um gato morto. Isso, que colocam sempre em termos complicados para não nos chamar de urna, é o melhor dos cenários. Após a sensação de um intrínseco jogo de xadrez estar a decorrer entre o médico e os meus ovários, tendo eu, visivelmente perdido, saí de lá com um andar novo e carteira leve.

Nos dias que se seguem irei explorar outras opções de mutilação própria para usufruir ao máximo das minhas férias. Estou a ponderar fazer uma reunião de ex relacionamentos frustrados ou enrolar-me em bacon e correr em frente à embaixada dos EUA.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O que os contos nos ensinam

Mensagens subliminares entre príncipes e princesas, magia e canções, animais falantes e chávenas de café que sabem limpar o pó. A minha infância foi sustida em expectativas irreais proporcionadas pela Disney e preparação mental para possíveis eventos traumáticos que só os livros dos Irmãos Grimm poderiam transmitir. O choque entre o “é tão bom que não vai acontecer”, com o “é tão mau que é bom que não aconteça”, criou adultos com sentimentos mistos e mentes debeladas.

A perspectiva positiva, contada pela Disney, criou a ilusão que até uma marmota muda pode dar à terra e fazer um príncipe se apaixonar por ela. Hoje, assolada pela realidade em que vivemos, questiono-me de onde é que eles desencantavam tantos príncipes para aquelas pacóvias que até com cães dormiam (sim Bela, não penses que ninguém reparou), porque eu, nem vê-los! Já para não dizer que se desse à terra uma mulher com escamas, a cheirar a bacalhau, apesar da bênção que seria para muitos homens ela não falar, iria parar ao Oceanário, qual romance de novela.

Narrar todos os eventos que nos rodeiam em musical seria no mínimo origem de abate a sangue frio no super mercado. E, claro, aqueles cabelos criaram expectativas que só poderiam desembocar em depressões, pois não há alisamento japonês que dê um cabelo tipo Pocahontas, em que podem ir para o mato rebolar em lama e mesmo sem escova acabarem o dia sem um ninho de ratos no lugar do cabelo. Por falar em ratos, alguma vez algum vos coseu as meias ou lavou o chão? Pois, bem me parecia.

Na esperança vã que me tornasse alguém culto, fui confrontada com os livros dos Irmãos Grimm desde uma tenra idade. A confusão instalou-se quando dei pelas mensagens subliminares e não percebi se seria apenas forma de expressão conturbada dos escritores ou uma maneira subtil dos meus familiares me prepararem para uma vida de abandono, canibalismo e irresponsabilidade parental. É plausível culpar estes livros por possíveis distúrbios de personalidade, depois de confrontada com Hansel e Gretel, crianças de uma inteligência fora do normal que assumiram que numa floresta não havia pássaros para comer o pão que marcava o seu rasto e não consideraram que comer a porta de alguém a iria enfurecer. Eu acho que a velhota os devia era ter enfiado logo no tacho, porque se comessem nem que fosse a maçaneta da minha porta eu ficava em fúria. A irresponsabilidade de deixarem uma criança ir passear pelo meio da floresta para visitar a avó, com um capuz da cor mais chamativa à face da terra, é pedir, mais uma vez, que a comam. E claro, se não estão prontos para uma realidade onde coabitam com travestis depois de um lobo empossar um pijama e touca, algo se passa de errado convosco. A capuchinho, mais os dois irmãos idiotas e a pequena dos canudos dourados que decide invadir a casa de ursos e lhes comer a sopa, partir mobília e desmanchar as camas, são exemplos de pais ausentes, crianças mal formadas e onde o canibalismo seria perfeitamente plausível. Sendo o único caso concordante entre ambos os géneros ficcionais as relações com animais, ora com o Monstro, ora com rãs que é concebível aceitar a premissa que se podem transformar num cupão vencedor do EuroMilhões depois de assediadas, é normal que muitos de nós estejam em união de facto com borregos.

Com anos de histórias e contos que me fizeram crescer, mesmo que perturbada, sem amor próprio, semelhante a uma morsa e pronta a comer o braço de um puto que me toque à campainha a horas tardias, prefiro esta realidade que a das crianças das novas gerações. Com desenhos animados cujo busílis reside na arte da flatulência, o futuro será um sítio onde não vou querer habitar. 
Brian Cummings - Fairy Tales - Cinderella

sábado, 15 de março de 2014

Farfalheira

Um cumprimento, um olhar para o relógio a averiguar se já chegou a hora, um sorriso de concordância e quando damos por nós estamos de pernas abertas encima de uma maca com uma senhora a olhar para nós como se estivesse a virar um frango, tudo isto sem sequer nos pagar um jantar. Já não bastava ter que aparar os pelos das axilas, sobrancelhas, pernas, buço e outras possíveis localizações bizarras, como agora quem não tenha a zona púbica limpinha com lustro puxado ou relevos que retratam o Panteão dos Descobrimentos, não está certamente bem.

As profissionais da depilação conseguiram o prestigiado prémio que durante anos foi açambarcado pelos dentistas, o “sabe lá deus onde é que isto andou”. Porém, é de louvar a sua capacidade de fazer conversa, que pensamos ser para nos distrair, mas é para elas se distraírem e não terem que ver onde andam com as mãos. Elas de mim até cheques conseguem assinados se me ameaçarem com cera.

Os tratamentos de beleza que possibilitam distinguir o sexo feminino de um babuíno, têm um valor total que mete as propinas universitárias a um canto. O Estado devia comparticipar este tipo de tratamentos fundamentais às taxas de natalidade. Já os homens podem deixa-los com pelos, que rapados parecem pinguins prontos a deslizar no gelo. Chegam estes primeiros dias de calor e lá somos nós obrigadas a recorrer a estes métodos de tortura ancestral, ora é cera, ora é linhas, ou mesmo serras eléctricas para cortar as lianas que nos aqueceram as pernas no inverno e o bigode à Zé Povinho que quase me fez mudar o nome para Manuel.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Até ser dia

Quando cai a noite na cidade
Há sempre um sonho e há magia
À noite na cidade,
Há sempre um sonho, até ser dia

A Anabela visivelmente nunca trabalhou à noite. A única coisa que acontece até ser dia são as cruzes das costas a dar de si e os anjos que habitam no meu rabo que tocam harpa de alegria cada vez que me sento. Vou desculpar esta pobre alma de imaturidade inegável na altura, que ainda ia para a cama com o Vitinho e já cantava sobre gin e ramboiada com desconhecidos.

A vida nocturna é de difícil compreensão para a maioria das pessoas, principalmente para quem se meteu nessa vida e nem percebeu como. Subitamente vemos as velhotas sentadas no banco de jardim a serem substituídas por bêbados chamados António a vomitar a sarjeta, os padeiros por bartenders e os escuteiros por traficantes de droga. É conhecer uma realidade paralela em que a vida boémia impera e o dia serve para dormir. Muitos não aguentam esta vida, alguns nunca saem dela, outros já se perderam numa rua qualquer por uma grama vendida ao desbarato. Porém quando vivida de maneira inteligente, pode-se ter o melhor dos dois mundos, um belo dia de praia e uma noite de trabalho.

Gosto do silêncio da noite, de poder andar sem ver viva alma e de poder usufruir de uma música da Adele na auto-estrada, a chorar baba e ranho, de janelas abertas quando alguma coisa correu mal. Tenho, verdadeiramente, pena dos desgraçados que choram na Ponte 25 de Abril durante a hora de ponta em que vão receber buzinadelas, um lenço ou sugestões de suicídio pelos condutores em redor. É difícil superar o deleite de tomar um café num bar em que, devido à hora tardia, toda a gente já se esfrega às paredes como se tivesse sarna e o estrabismo é pratica comum. O prazer de ser o Batman dos nossos dias (eu sei que me estiquei nesta, até porque nem a mim me salvo, mas sou mulher para usar uma capa e sempre que conduzo recebo sinais de luzes).

Para aquelas jovens mentes divagadoras que ouviram as palavras de Anabela e pensaram que havia algum requisito de sensatez para se escrever músicas, desenganem-se. A única coisa que cai na cidade são os bêbados e as pindéricas de saltos altos, a única magia é toda a gente parecer mais bonita depois de alguns gins e o único sonho é que chegue o dia e a nossa cara não esteja mergulhada na sanita.
Threadless T-Shirts - Sleep Is So Last Night by Matthew Goddard

terça-feira, 11 de março de 2014

Valor de opinião

Os suores frios típicos da antecipação de um resultado fulcral. A excitação, o nervosismo que podem levar o melhor de nós quando após uma longa batalha o resultado final não nos compete. Kim Jong-un percebe tanto destas sensações, comuns a muitos políticos, como da apanha da batata. Kim Jong-un ganhou com uma arrebatadora percentagem de 100% as eleições parlamentares da Coreia do Norte, nas quais tinha a desafiante competição de si mesmo, mas com uma foto tirada de perfil.

Consigo imaginar o alarido. Deve ter sido uma loucura no centro de campanha do partido, com foguetes, tiros disparados por apoiantes embriagados de alegria e rumba dançada noite dentro. Ninguém esperava tal resultado! Numa sociedade em que os votos têm a opção “Sim” ou “Não”, quem não fosse votar ia compreender que o “Não” se referia a “Não foste esperto”. Até na escola primária os pedidos de namoro em papel tinham mais opções onde meter uma cruz.

Se houve algum infeliz a adormecer, actualmente tem a cabeça a prémio por dormir desprovido de responsabilidade cívica, com sentença de morte (pode ser uma sugestão para o futuro português, mandar a juventude imigrar ajudou a taxa de desemprego, se começarmos a matar quem não vota vamos ser o pais mais próspero da Europa ao primeiro referendo). Deslocando em massa toda a população às urnas, inclusive velhotas já incapazes de proferir o seu nome e crianças que ainda acham que o lugar do lápis de cor é no globo ocular ou na boca, alguns indivíduos revolucionários ao ponto de terem assinalado “Não” devem ter dado azo a que o alçapão de urna se abrisse e viraram almoço de tubarões ou partidários políticos. É uma realidade triste esta, não só ser governado por um ditador com acesso a demasiadas armas, como com a pior paralisia facial de sempre. Pobre criatura recalcada, todos os que um dia negaram a sua amizade por se parecer com uma waffle, agora estão a votar nele para poderem viver mais um dia a comer waffles.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Archotes de felicidade

A noite é calma, o silêncio predomina e entre as brumas que me conduzem em sonho, oiço-o sussurrar, sinto-o a sentir-me a pele ao de leve como que um amante sob um desejo sigiloso. Como que proveniente de uma entidade divina sinto uma mão a assentar-me a cara. Afinal era um mosquito e a mão era a minha.

Habito sobre um antigo cemitério de mosquitos índios e há sempre um que tem que me vir acordar para relembrar que estou a esborrachar o defunto da mãe dele. Não me venham com histórias que só há mosquitos no Verão, simplesmente, sem estarmos vestidos com quarenta camadas de roupa têm Via Verde para a nossa derme. Eu, pelo menos, posso estar em pleno Alasca e serão mosquitos a entregar panfletos e mapas à saída do avião. Posso besuntar-me em repelente, eles vão picar-me no milímetro quadrado que não estava embebido em produto. Eles estão em todo o lado.

Haja animal mais desnecessário à existência humana, pensam-se melhor que os outros, anunciando a sua chegada como se de um cavaleiro do apocalipse se tratasse, finta-nos em prol de nos sugar o sangue e deixar solavancos numa pele que já os tinha naturalmente e obriga-nos a fazer figura de Xena a princesa guerreira por nos pormos de pé encima da cama de revista em punho como se de um Viking se tratasse (não que fosse atacar um Viking com a Maria). Vencem-nos com a nossa própria força, pois esbofeteamo-nos como se o nosso nariz estivesse a ter um surto canibal. Preocupa-se o Homem em criar bombas, se se dedicassem em constituir um exército de mosquitos ganhavam qualquer batalha, se não fosse pelo seu talento de chupar sangue seria certamente por extenuar o adversário. Quero dormir e quero um archote para o meu aniversário.

sábado, 8 de março de 2014

Para sempre?

A arte de tatuar remonta para tempos ancestrais quando o mau gosto e a ausência de senso comum ainda não era uma viabilidade. Civilizações antigas como os Maias e Astecas eram capazes de tatuar até as fossas nasais e parecer menos desprovidos de actividade cerebral que indivíduos que nos nossos dias insistem em tatuar o diabinho montado no golfinho a sobrevoar estrelas que formam o nome da tia-avó falecida em parte incerta. Aprecio uma tatuagem bem feita e respeito qualquer significado que esta possa ter, não obstante, há elementos que me ferem as córneas.

As tatuagens são algo viciante e só compreende quem fez alguma. Torna-se prática comum ter vontade de tatuar algo mais, apenas pelo seu bel-prazer. Verdade seja dita, hoje em dia é possível recorrer a laser para eliminar tatuagens (pequena intervenção de sensação equivalente a ser trespassado por um pedaço de ferro forjado), mas não creio que uma deva ser feita de ânimo leve, à partida com a intenção de a vir a eliminar. Seria como pagarmos a alguém para nos bater com um pau e a seguir tentarmos tirar as nódoas negras ao pagar a outro indivíduo para nos dar choques eléctricos. É, no mínimo, um mau investimento.

Por muita necessidade que tenham de se rotular com tatuagens básicas ou muito boas intenções que estejam patentes nos vossos corações ao encherem a vossa pele de tinta, lembrem-se que há coisas que a sociedade poderia tolerar, mas é mau demais. Não façam tatuagens de lágrimas debaixo do olho, não ficava bem nem ao Menino que Chora e vejam onde ele acabou, na casa da avó. Não façam tatuagens com o nome de namorados, arranjar outro namorado com o mesmo nome é um trabalho desnecessário. Tudo o que envolva diabinhos ou tribais no fundo das costas será meio caminho andado para pertencerem ao clube das empregadas de caixa do Lidl de um bairro social. Paz e amor em caracteres chineses, quando vocês nasceram em Badajoz e a única relação que tiveram com a China foi comer Pato à Pequim, é nunca querer ir à Ásia. Por último, mas não menos importante, lembrem-se que tatuar a cara do vosso filho no estômago, vai fazer que ele desapareça, eventualmente, entre as pregas da vossa barriga, como que num buraco negro, e a última coisa que ele vai querer é que vocês tentem encontrar a sua face pura de 5 anos entre os vossos entrefolhos para presentear os convidados na cerimónia do seu casamento.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Vá para fora...

“Vá para fora cá dentro”, sempre foi o discurso arrojado do Turismo de Portugal para os portugueses conhecerem o seu país, valorizando o que é nosso e assim contribuindo para o crescimento económico e cultural nacional. A título de enobrecer os encantos do nosso país, os preços quer de comboios ou até mesmo dos barcos que atravessam o Rio Tejo são desmedidos, levando a população a crer, por equiparação de preço, cada vez que entram num comboio em direcção ao Porto, que estão a ir à Turquia.

Com uma enorme variedade de voos a preços irrisórios para os destinos mais tropicais, viajar em Portugal começa a parecer um benefício dos mais abonados. Os meus pais habitam no lado sul do Rio Tejo e já lhes comuniquei que ou se mudam para Londres ou não vou conseguir prestar tantas visitas como de momento, provavelmente vou ter que apelar à adopção por uma família nova em Londres ou Amesterdão e esquecer esta por incompatibilidade regional. Contudo, não sejamos extremistas, Portugal oferece altos padrões de qualidade perante os preços que apresenta. Fazer uma travessia pelo Rio Tejo não proporciona só um cenário romântico, como dá direito a exclusividade de uma cadeira, para a qual terá prioridade de embarque caso acotovele todos os idosos no seu caminho. Poderá usufruir do relaxe proporcionado pelo televisor avariado desde a compra do barco, não evocando sons que o ressaltem, e o abalar suave típico de um bote insuflável em alto mar conduzirá o seu espírito ao estômago. Como não há nada melhor que compartilhar o bom da vida, terá a oportunidade de vivenciar estes momentos dispendiosos com crianças que berram, velhotes que roncam e pessoas sem higiene íntima.

Para quem algum dia andou de comboio em Portugal escusado será falar dos benefícios do mesmo. Prestam-lhe um serviço de saúde ímpar, visto que as suas costas ganham uma postura recta que nunca pensaria ser fisicamente possível, graças aos confortáveis acentos que parecem ter sido forjados de cornos de rinoceronte, aliado à preocupação dos revisores, que o vão acordar a cada 15 minutos para garantir que está vivo e não saltou a bordo do comboio ilegalmente, apesar de já o ter visto e do comboio não ter feito uma única paragem na passada hora. Caríssimos, é inevitável louvar a prestação de serviços acessível a todos os portugueses e que amplifica a sua vontade de conhecer destinos além fronteiras, apesar da maçada que é ter que conhecer o mundo e deixar de ouvir os queixumes em português por uma semana que seja.

terça-feira, 4 de março de 2014

O Óscar é um fácil

O evento dos Óscares podia resumir-se a um desfile de moda no fim do qual um velhote chamado Óscar entregaria aos meios de comunicação presentes uma folha escrita à mão com o nome dos vencedores e toda a gente seria feliz. Os Óscares é um evento para os amantes de cinema, que se tornou, nos dias correntes, num desfile de passadeira vermelha, após o qual a maioria das pessoas desliga a televisão e aguarda pelos resultados para melhor actor, actriz e filme, no dia seguinte, ignorando as restantes categorias. Sendo que, após ofenderem as fatiotas das bimbalhocas todas e considerarem, outras, deusas por empossarem os vestidos que estas nunca verão nem de perto, já podem dormir descansadas, que Óscares sem má-língua, é como canja sem galinha.

Vivendo num país cuja diferença horária faz deste evento algo difícil de assistir em directo, sou uma das casmurras que, fielmente, assiste ao espectáculo até ao fim para saber em primeira mão quem posso ofender este ano e se será digno de partir a televisão quando os meus filmes preferidos não ganharem. Claro que me vou rir se alguém se estampar no palco ou aparecer vestido de chouriço, afinal de contas às 5 da manhã se não houver entretenimento uma pessoa adormece. Não obstante, o meu maior entretenimento foi praguejar pelas 40 vezes que subiram ao palco por Gravidade, só faltando darem uma estatueta a Newton.

A cultura da sétima arte não passa apenas por um evento anual, mas sim pelo que lhe dedicamos o resto do ano. Hoje é um processo fácil assistir aos melhores filmes, em comparação a toda a arte que era escolher um filme no clube de vídeo, sem pesquisar no Youtube o trailler, baseando a escolha nas imagens microscópicas da parte de trás da capa e em descrições vagas. Olhávamos para a capa como se nos pudesse dar pistas da qualidade do filme e por vezes parecia gritar em desespero de tão mau que era o filme. Cresci a ver filmes. Dos excelentes aos de fraca qualidade, via sempre até ao ultimo segundo na esperança que ainda houvesse escapatória para o pobre filme, pensando sempre como havia passado pelas mãos de tanta gente e ninguém esbofeteou o realizador por tal bárbara contribuição para a humanidade. O cinema é uma arte que louvo, para além da constatação de quanto dinheiro alguém pagou por um vestido ou se a actriz principal de determinado filme merecia nomeações por ser vegetariana. Gosto de ver a minha vida como um filme e como tal não gosto que me avaliem apenas pelos sapatos.

sábado, 1 de março de 2014

Esquimó dos repolhos

Carnaval, termo proveniente de carnelevare: retirar a carne. Período de festejos que prevalece desde os tempos medievais e ao contrário de outras datas significativas no calendário gregoriano, esta devia oscilar de data consoante a temperatura e mentalidade do país. O carnaval é festejado em todo o mundo, sendo alguns dos locais mais marcantes o Brasil, Veneza e até Colónia na Alemanha. Cada qual adequa esta data à sua cultura e ambiente envolvente, mas o português quer ter um Carnaval com tudo o que tem direito, excepto a apanha do repolho que acho que iria potenciar a data.

No Brasil o calor pede pelo samba, pelas peles nuas e bronzeadas, em Veneza a magia do misticismo, as máscaras clássicas e o romance dos trajes medievais, em Colónia o álcool. Com 11º C, uma tempestade digna do Camboja e os tons pálidos nos rabos com celulite de um povo que não prescinde de um prato de feijoada, não há português que se preze que não se mascare, pintalgue a cara ou vá sambar debaixo de chuva. Podíamos adequar esta data à nossa cultura, mas decidimos escolher uma alternativa das máscaras venezianas, com uma tentativa de samba, embrenhado num banho de álcool. Nós somos, na realidade, a origem do Carnaval, pois a origem do nome estar associada a retirar carne é, obviamente, subsequente a um português que arrancou um braço que entorpeceu hipotérmico para prosseguir a parada.

Os portugueses gostam de ter pretextos para se divertir e extravasar, quando é viável mostrar o rabo ou um lado obscuro, que pende tendencialmente para a mudança de sexo, é dia santo. Os homens têm a liberdade de se mascarar do que quiserem, as mulheres nas lojas de fantasia têm a vasta escolha de qualquer profissão no mercado, mas em modo prostituta em saldos. Das freiras à pasteleira, todas empossam uma bela meia de liga vermelha e decote que transcende as leis da física. Se nos adequássemos à meteorologia corrente, íamos vestidos de esquimós ou pescadores de caranguejo no Alasca, contudo isso não ia possibilitar a gripe consequente a este festejo. Não é por acaso que o Carnaval são três dias, o primeiro é a festa e os restantes é a ressaca, a gripe e a realização que deixaram o braço em Estremoz.