segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Por favor encafuem-me num porão

Décadas de luta para obter os direitos humanos básicos, revoluções para estabelecer limites de poder e grandes percas de tempo sem fundamento absolutamente nenhum (houve qualquer coisa no Vietname em 1959, com uns quantos americanos que serve de bom exemplo), para além de criarem alas de doentes mentais com stress pós traumático, subsidiadas pelos próprios. Tudo isto são factos históricos, mas que não decorreram durante a minha existência. Não me estou a queixar de não ter morrido num porão de navio nas Descobertas, tão carregada de escorbuto que nem os ratos me quereriam comer. Porém, sinto que toda a minha existência está pendente no poder que uma caneta bic teve numa cassete.

É extraordinário poder viver uma vida confortável, num mundo que apesar de inúmeros defeitos, não se compara com o quotidiano de dor com que os escravos se tinham que confrontar ou com as mulheres que em actos revolucionários lutaram pelo seu direito a voto. Devemos-lhe tudo. A nossa era é de evolução tecnológica. Num curto espaço de tempo sentimos a necessidade existencial de investir em vinis, cassetes, cds e, agora, cometer actos ilegais em prol de não pagar direitos aos artistas (hoje em grande número, mas apenas dotados da arte do Photoshop e do auto tune, antigamente, sem alternativa, se tivesse a cassete dos pauliteiros de Miranda, ouvia repetidamente até me transformar num cepo). Hoje em dia, o acontecimento mais revoltante, capaz de nos tirar do sério, é chegarmos a casa e o serviço de internet estar indisponível por mais de quinze minutos. É, automaticamente, motivo para acender uma tocha e caminhar em direcção à sede da Meo para lhes queimar tudo, dos pacotes promocionais à senhora da cafetaria. O nosso egocentrismo é perfeitamente plausível, visto que de pouco serviria andarmos a atormentarmos os nossos sonos com os direitos já obtidos no passado e com o sofrimento alheio, para isso já sofremos pelas pessoas a passar desgraças na Casa dos Segredos.

Sendo absorta pelo poder da divagação, deixei-me levar quando queria debater o poder de uma aplicação de telemóveis, não, não estou a falar do Candy Crush, que só de pensar no nome já pressinto mais vinte pedidos para jogar, estou a falar do Flappy Bird. Um jogo que alimentou a criação de mensagens de raiva para o seu criador, bem como inúmeros artigos e vídeos no Youtube em que partiam telemóveis pela frustração proporcionada pelo jogo. Estamos a falar de um jogo cujo busílis passa por dar toques no ecrã para o desgraçado do pássaro não marrar contra canos que servem de obstáculo, aparentemente, os gráficos básicos aliados a uma dificuldade fora do normal levaram várias pessoas a projectar telemóveis pela janela e publicitar o acontecimento. O seu criador que conseguiu ter o primeiro lugar de aplicações com mais downloads no mundo, retirou-a do mercado (a macacada do marketing), recebendo também por isso ameaças de morte. Resumidamente, começo a achar o escorbuto algo menos doloroso do que viver numa sociedade em que as pessoas se ameaçam de morte em prol de um pássaro tão mal desenhado que mal passa de um pixel com olhos. Deviam era soltar uns ursos e meter este pessoal a jogar ao pau com eles, alegrava os ursos, os pauliteiros e não tínhamos que ouvir tanta asneira visto que duvidosamente os ursos iriam perceber as regras do jogo. Temo o que os próximos cinquenta anos trarão à sociedade, aceitando o facto que o melhor que pode acontecer será começarmos a comunicar com projecção de baba ao nos tornarmos incapazes de reagir a estímulo cerebral, e se tiver um filho vou fecha-lo na despensa para não ter que lidar na escola com as crias destas anonas que me rodeiam. Minha rica mãe, se tivesse adivinhado isto ainda eu estava sentada na embalagem de papel higiénico ao lado da comida para o gato.

10 comentários:

  1. Temo pelo que a tecnologia nos trará no futuro.
    Imagino o ser humano preso a uma cadeira vivendo uma realidade virtual. Bem.. não é preciso ir muito longe, já existe muita gente assim.
    Gostei do texto!

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  2. Não conhecia a aplicação. Realmente o ser humano tem comportamentos que, enfim, nem tenho palavras

    Beijinhos*

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  3. E telemóveis que valem 600 euros a serem vendidos a 1000 SÓ porque têm o jogo? Ah pois.

    Eu gosto de anonas. Algo contra a fruta?

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  4. Ainda assim a tecnologia que nos deixa pasmados em frente a um computador,é preferível qualquer guerra.
    Sonho já com um exército de putos agarrados aos smartphones adaptados ao combate pela salvação do planeta das invasões extraterrestres (Enders Game) sem saírem do conforto do quarto. xD

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  5. Gosto muito do sentido de humor aqui :) muito bom para começar o dia.
    Um bom dia e um beijinho
    Gábi

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  6. Não conhecia tal jogo e provavelmente não perco nada! Mas ainda vem que não perdi o seu texto... Gostei!

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  7. Joge qual jogo??? perdi esse jogo??? Como???? Eh eh eh eh tou a brincar, (Acho eu!!!!) Beijo amei este texto, como sempre alias.

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  8. Nunca joguei esse jogo nem nenhum no telemóvel. Acho que os jogos no telemóvel são o que realmente são: um passatempo...para passar o tempo. E passar o tempo é tempo perdido. Por isso, não tenho nenhum jogo no telemóvel. Gosto de sentir que estou a fazer algo que me faz evoluir. Se não estou a evoluir...lixo.

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