terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Lugar ao sol

A educação que nos é proporcionada em casa é toda a base daquilo que nos vamos tornar enquanto adultos. Em casa sempre me foi ensinado que sensato era nunca contar com nada de mão beijada e esperar sempre por uma boa luta para garantir um lugar ao sol. Abrir uma revista e deparar-me com uma amostra de creme provoca-me taquicardia, guardo-o como se tivesse sido um Deus qualquer a abençoar a minha revista com tamanha oferenda, de imediato regularizo a pulsação e esqueço-me do creme que vai acabar por rebentar na minha mala. Desconhecidos que me oferecem sumos, amostras de perfume e até donuts à saída do metro confundem-me, regredindo para os cinco anos de idade em que o “lutar pelo lugar ao sol” se traduzia em “agarra no presente, ferra-lhe um pontapé nas canelas e corre pela vida”. Já para não falar do Natal, toda uma data festiva obscura em que dão presentes com a premissa que fui uma boa pessoa o ano inteiro, mas não vejo ninguém a verificar o meu registo criminal.

Perante várias oferendas regulares às quais fui habituada com o passar dos anos, acho extraordinário como passei quase 26 anos de existência sem saber o Santo Graal dos bens oferecidos. Fui, recentemente, a uma sapataria onde me interessei por uns sapatos todos airosos, sendo eu portadora de umas meias dignas de quem anda descalço na Serra da Estrela, comentei em voz alta que não seria capaz de os experimentar com tamanha manta enrolada aos pés, prontamente a senhora forneceu-me um par de meias. Gratuitamente! Pasmei. Os meus olhos arregalaram-se e só me apetecia abraçar a senhora e dançar a valsa com a poltrona, pois aquilo parecia um momento saído do mais encantador filme da Disney. Todo este processo enquanto a minha mãe me olhava de soslaio como se eu fosse atrasada mental e tapava de leve a cara para não se verem as semelhanças.

Este evento levou a uma longa conversa com a minha entidade maternal em como me tinha educado da maneira errónea, pois ando eu a investir dinheiro em meias à um quarto de século, com dinheiro que já tinha dado para um condomínio privado (mais coisa menos coisa), quando bastava chegar a sapatarias, aleatoriamente, e sendo portadora de uns chinelos me fazer interessada em comprar um par de ténis. Nunca sabendo se somos detentores do mais exemplar fungo nas unhacas, os funcionários estão dispostos a oferecer as suas próprias meias. Esta lição devia ter-me sido transmitida logo a seguir a aprender no abecedário a letra B, de “Bens-oferecidos-em-prol-de-não-danificar-material-possivelmente-vendável-com-fungos-altamente-transmissíveis”.

Foi desvendado um mundo novo para mim e agora sempre que entro numa loja para comprar algo, questiono-me o que oferecerão eles pelo meu bem-estar, sem prendas e mimos agora não compro nada. 

16 comentários:

  1. «Recordar é viver...mas viver não pode ser apenas recordar», concordo contigo :) e por menos bons que tenham sido os momentos, devemos sempre guardar o que é bom, porque é mesmo isso que interessa.

    Adorei o texto! Fantástico, como sempre.
    Beijinhos*

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  2. gostei da abordagem. fino sentido de humor. de facto é verdade, o mundo abraça.nos e nós desconfiamos, mas agora que já íamos aceitando melhor, veio a crise e já não dão nada a ninguém. pouca sorte...

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  3. A mim só me oferecem umas amostras de cremes na cabeleireira depois de lá ter deixado "coiro e cabelo" na verdadeira acepção do termo!
    Belo sentido de humor!

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  4. Não sabia que isso se andava a passar nas sapatarias. Ora que vou tentar a minha sorte...

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  5. Não tinha conhecimento disso nas sapatarias, pelo menos na minha zona isso não acontece.

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  6. Venho agradecer e retribuir a visita!
    Também adoro as ofertas das revistas, cremes , perfumes, óculos, sacos tudo, acho graça a tudo ainda não me calharam as meias...mas vou estar atenta :)
    xx

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  7. Meias nunca são demais. Obrigada pela dica! ; )
    Eu sou muito desconfiada, normalmente não aceito nada!
    As técnicas de marketing hoje em dia estão demasiado avançadas e eu tenho medo de fazer sem dar por isso um pacto para a vida! ; )))

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  8. A mim nunca me oferecem nada. Muitas vezes, nem a factura que tenho de reclamar....

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  9. Desculpa, qual é mesmo essa sapataria????? Brutal, mas não acredito que a senhora tua mãe, que alias deve ser uma querida tenha escondido a cara, ela deve ter um orgulho brutal em ti. Bj

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  10. Diverti-me com o teu texto x)
    Por acaso já me aconteceu mas não me ofereceram as meias. Emprestaram-me umas meias de vidro para experimentar uns sapatos para o meu baile de finalistas. Não sei porquê mas recordo-me disso xD
    Mas quanto a ti, guarda a prendinha e agora já sabes :p

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  11. AHAHAH Nunca me deram meias... tenho de saber a que sapatarias vais!

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  12. Já me deram meias também e não comprei sapatos nenhuns! No fundo, até me senti mal, mas a mulher estava a impingir-me mil coisas ao mesmo tempo .___.' acho que foi justo... :) adoro o teu sentido de humor!

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  13. ahah é uma boa ideia , por acaso já me aconteceu o mesmo :p

    r: sim , já está melhor obrigada (:

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  14. A fina ironia assenta-lhe que nem uma meia, perdão que nem uma luva...
    :)

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